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Appetite for Destruction (Guns N’ Roses, 1987) by Rita Gomes
outubro 16, 2011, 8:44 pm
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– Rita Gomes

O cenário musical dos anos 80 cheirava a Glam metal, ao (injustamente) chamado rock farofa, onde bandas como Mötley Crüe, Cinderella e Skid Row apresentavam mais do que apenas belos riffs de guitarra e refrões bem ensaiados, mas uma estética andrógina paradoxal às canções permeadas por temas como mulheres, sexo e bebidas. O hard rock parecia estar cada vez mais fadado a ser capitaneado por bandas que cultuavam a imagem acima da própria produção musical.

Quando surgiu no cenário musical, o Gun N’ Roses parecia apenas mais uma banda de hard rock com um vocalista bonitão de cabelos compridos. Ledo engano.  Appetite for Destruction trouxe elementos mais crus, por assim dizer, à estética do período, tanto no visual bad boy assumido pela banda quanto na sonoridade mais heavy, mais rock.

Canção de rock calcada nas guitarras de Izzy e Slash, Welcome to the jungle abre o álbum, já demonstrando a natureza hard das músicas do grupo. Também conta com os hits Paradise City, Rocket Queen, It’s so easy, Mr. Browstone  Sweet Child O’Mine.

Em grande parte, as músicas foram compostas durante o período em que a banda se apresentou por bares e clubs de Los Angeles, espelhando a maneira desregrada e alucinada que os integrantes viviam. Temas como a vida dura na cidade (Welcome to the jungle), o tédio que sucede a conquista (It’s so easy) e, claro, drogas (Mr. Browstone).

O maior hit, Sweet Child O’Mine, foi composto em homenagem a então namorada de Axl, Erin Everly. Seu riff, um dos mais conhecidos do rock, foi composto por Slash, Izzy e Duffy, enquanto Axl trabalhava a letra. Canção mais conhecida da banda, tornou-se um clássico do hard rock.

É bom deixar claro: mesmo sendo mais hard rock, o Guns ainda é uma banda “farofa”. A maneira como Axl idolatrava sua própria figura, a própria imagem da banda e todo o hedonismo que os cercava fazem com que o Guns N’ Roses se aproxime muito mais da imagem glam rock do que os afaste.

Verdade seja dita: mesmo aparentemente sendo apenas mais uma banda “farofa”, a sonoridade do Guns, ao ser mais pesada que outras de outras bandas no mesmo período, ajudou a disseminar o rock. Apesar da própria decadência do estilo, visto que toda a farofice dos anos 80 virou pó no início da década de 90, o Guns ainda é banda referência de hard rock.

O álbum contém uma combinação poderosa: boas músicas, uma banda insanamente afinada, em sua melhor formação, e um vocalista inspirado. Após este debut oficial, a banda ainda traria ao mundo mais alguns bons álbuns (Use your illusion I e II, Spaghetti Incident), mas os rumos tomados com a saída gradual dos membros originais só aumentaram a nostalgia pela verve antiga. Melhor lembrar de Guns com este álbum.

4,5/5

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Ficha Técnica:

Appetite for Destruction (Guns N’roses) – 1987 – Estados Unidos. Integrantes: Axl Rose (vocais, percussão, sintetizador e apito), Slash (guitarra solo, guitarra rítmica e talkbox), Izzy Stradlin (guitarra rítmica, backing vocals, guitarra solo e percussão), Duffy McKagan (baixo e backing vocals) e Steve Adler  (bateria)

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Tracklist

  1. Welcome to the jungle
  2. It’s so easy
  3. Nightrain
  4. Out Ta Get Me
  5. Mr. Brownstone
  6. Paradise City
  7. My Michelle
  8. Think About You
  9. Sweet Child O’ Mine
  10. You’re Crazy
  11. Anything Goes
  12. Rocket Queen
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Don’t Be Fooled by the Name (Geordie, 1974) by Luiz Carlos

– Luiz Carlos Freitas

Em 1980, o mundo conhecia Brian Johnson, o jovem cantor que havia sido escolhido para assumir os vocais do AC/DC após o falecimento trágico e repentino de Bon Scott no começo do ano. Num intervalo curtíssimo de tempo, ele se tranca num estúdio (capitaneado pelos irmãos Young) e debuta no grupo com o Back in Black, disco que viria a ser um dos trabalhos mais icônic0s e bem sucedidos de toda a história da música. O AC/DC reafirmava sua força aos que colocavam o destino da banda como incerto após a morte de Bon Scott e boa parte desse feito era devido ao seu novo frontman. Mas o que poucos sabem é que Brian já tinha sua própria banda e já gozava de notado prestígio quase uma década antes de sua entrada no AC/DC.

Formado em 1972 pelo guitarrista Vic Malcolm (líder da banda), contava com Brian Johnson nos vocais, Tom Hill no baixo e Brian Gibson na bateria. O nome do grupo era oriundo de “Geordie”, denominação popular aos indivíduos nascidos ao norte da Inglaterra e que se caracterizavam por um orgulho extremo de suas origens. Mais que o nome, isso caracterizou as composições da banda (todas de autoria de Vic Malcolm), sempre abordando questões locais como as dificuldades de seu povo, a vida dura de trabalho nas grandes fábricas (a região era uma zona industrial) e a resistência frente ao paredão nacionalista que por vezes os excluía do resto do país.

Obteve uma boa recepção com seu primeiro álbum, Hope You Like It, mas foi em 1974, com seu segundo trabalho, Don’t Be Fooled by the Name, que decolaram de Newcastle ao mundo. Mais que um grande êxito comercial, Don’t Be Fooled by the Name estabelecia a identidade musical do Geordie. Desde o seu surgimento, oscilava entre vários estilos, se autodenominando Glam (eles se apresentavam com toda a indumentária característica, dos saltos plataforma e roupas coloridas e elaboradas a longos cabelos e maquiagem pesada), mas com uma sonoridade que pendia mais para o Hard Rock e psicodelismo, alternando num tom que lembrava de The Doors a Deep Purple.

Em Don’t Be Fooled by the Name o Geordie continua com a diversificação de estilos, mas agora não mais como uma experimentação apenas. De ‘Goin’ Down’ e ‘So What’, músicas mais simples e de batida rápida, às elaborações de ‘Mercenary Man’ e ‘Ten Feet Tall’ (que se complementam na melodia e arranjos), ‘Got to Know’ e ‘Look At Me’, até a belíssima balada ‘Little Boy’, o Geordie apresenta um excelente hard rock com pegadas de blues, conduzidos pela guitarra afiada de Vic Malcolm e o vocal característico e poderoso de Brian, talvez o principal responsável pela sinergia do conjunto.

Apesar de marcado por seu canto agressivo e voz rasgada no AC/DC, Brian nunca teve seu real potencial vocal aproveitado pela banda australiana como no Geordie. Um exemplo disso é a segunda faixa do disco, uma versão poderosa de ‘House of the Rising Sun’ (antiga canção popular americana de autor desconhecido e regravada por um sem número de artistas), carregada em longas extensões e falsetes, diferente de tudo que já tenha sido ouvido dele junto ao AC/DC.

Contudo, mesmo apresentando um excelente conjunto de músicos e obtendo êxito comercial à época, o grupo não foi pra frente após aqui. Lançou mais alguns álbuns, mas todos de repercusão irrelevante, o que não os impediu de persistir e, capitaneados pelo sempre esperançoso Brian Johnson, continuaram se apresentando para pequenas platéias, lançando singles aqui e ali, travando uma verdadeira batalha contra todo o cenário musical que não os recebia mais. Irônicamente, em 1980, ao mesmo tempo que Brian Johnson se vê diante da oportunidade de sua vida, o Geordie contempla seu maior “inimigo”, perdendo seu vocalista e “capitão de batalha” e caindo definitivamente no esquecimento. Mas seu legado, mesmo que breve e obscuro à maioria, permanece.

4/5

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Ficha Técnica:

Don’t Be Fooled by the Name (Geordie) – 1974/Reino Unido – Integrantes: Brian Johnson (vocal), Vic Malcolm (guitarra), Tom Hill (baixo), Brian Gibson (bateria)

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Tracklist:

1. Goin’ Down
2. House of the Rising Sun
3. So What
4. Mercenary Man
5. Ten Feet Tall
6. Got to Know
7. Little Boy
8. Look at Me

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The Great Radio Controversy (Tesla, 1989) by Luiz Carlos
setembro 16, 2010, 12:05 pm
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– por Luiz Carlos Freitas

Mesmo três anos após sua excelente estréia com o Mechanical Resonance, álbum que surpreendeu nas vendas e deu grande lucro à  Geffen Records (numa época em que os prejuízos da gravadora eram cada vez maiores) emplacando os  singles “Modern Day Cowboy” e “Little Suzi” nas listas de melhores do ano, o Tesla ainda fazia shows de lotação esgotada e algumas músicas do álbum anterior ainda dividiam espaço nas rádios com os lançamentos da época, como “Gettin’ Better”, “We’re no Good Together”, “Changes” e “Before My Eyes”. E se quisermos dizer o que mudou com o lançamento de The Great Radio Controversy, podemos simplificar: aumentaram as vendas, as execuções nas rádios, as lotações das apresentações, o prestígio e, principalmente, a qualidade musical da banda.

A formação é a mesma, mas o som estava mudado. Pouco, mas estava. A batida ainda era a mesma daquele hard rock puro e direto com que começaram. Um som simples, de guitarras e bateria predominando, mas de um virtuosismo incrível, já começando pelas primeiras faixas, “Hang Tough” e “Lady Luck”, com Hannon e Skeoch duelando nos riffs e solos, seguidas por “Heaven’s Trail (No Way Out)”, a mais pesada do álbum, e “Be The Man”, com uma introdução na guitarra e batida puxada para o groove.

A quinta faixa, a balada “Lazy Days, Crazy Nights”, é forte e sombria. Com uma letra versando sobre os sacrifícios em nome da diversão, é mais uma das tantas que fazem ode ao “rocker life style” (todo roqueiro já deve ter gravado pelo menos uma dessas). Mas a batida blues de Hannon e os solos de Skeoch fazem da música uma das maiores pérolas do álbum. As distorções no solo final são um deleite.

As faixas seguintes, “Did It for the Money”, “Yesterdaze Gone” e “Makin’ Magic”, bem como a que encerra o álbum, “Party’s Over”, não têm nada de muito interessante, mas também não decepcionam quem espera uma boa pegada,  riffs e solos de guitarra bem elaborados, destacando-se entre as próximas “The Way It Is” e “Flying to Nowhere” (a primeira chegou ao disputado top 50 da Billboard no ano seguinte) e “Paradise”, sendo a segunda talvez o melhor trabalho entre a dupla de guitarristas e Luccketta no disco. A condução de Skeoch e o solo de Hannon no final são destruidores. Mas a grande estrela do álbum é mesmo a baladas “Love Song”.

Tendo chegado ao cobiçado top 10 da Billboard em 1989 e tendo seu clipe reprisado à exaustão na MTV da época, “Love Song” foi, de longe, o maior êxito comercial da banda, e um dos maiores  fenômenos do rock no fim da década. Interessante notar que a música, mesmo contanto com uma introdução acústica de mais de 1 minuto, não fez tanto sucesso na sua versão single edit (os famosos cortes – geralmente nos solos de guitarra – para que a música fique na casa de no máximo 4 minutos e, dessa forma, consiga mais execuções nas grades de programação das rádios), sendo a versão completa a mais pedida. A bem da verdade, “Love Song” é mais que apenas um fenômeno comercial. Baladinha simples, bem aos moldes mainstream, mas impecável em sua execução, com um dos melhores solos de Tommy Skeoch.

Há quem diga que o primeiro álbum ainda é insuperável, perdendo para esse apenas nos quesitos mercadológicos, mas isso ainda é bem relativo, vai muito do gosto de cada um. O fato é que tanto The Great Radio Controversy quanto Mechanical Resonance, são trabalhos excelentes do melhor período de uma das grandes bandas de hard rock da década de 80.

Nota inútil: “Paradise” foi a primeira música que toquei profissionalmente na bateria. Tá que foi uma apresentação terrivelmente ruim e constrangedora (e o público – de quase 25 pessoas – saiu antes da conclusão), mas pelo menos … Ah, pelo menos nada. Essas coisas a gente não deve compartilhar, mesmo!

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4/5

The Great Radio Controversy (Tesla) – 1989, EUA – Gravadora: Geffen Records – Integrantes: Jeff Keith (vocal), Tommy Skeoch (guitarra), Frank Hannon (guitarra/piano/teclado), Brian Wheat (baixo), Troy Luccketta (bateria)

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Tracklist:

1. Hang Tough
2. Lady Luck
3. Heaven’s Trail (No Way Out)
4. Be a Man
5. Lazy Days, Crazy Nights
6. Did It for the Money
7. Yesterdaze Gone
8. Makin’ Magic
9. The Way It Is
10. Flight to Nowhere
11. Love Song
12. Paradise
13. Party’s Over

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Pyromania (Def Leppard, 1983) by Luiz Carlos
setembro 2, 2010, 1:51 pm
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– por Luiz Carlos Freitas

Em 1983, o Def Leppard já era uma das bandas mais influentes da NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal), a famosa (e já não tão nova assim) invasão dos grupos de metal lá das bandas da terra da Rainha. Seus primeiros álbuns, In Through The Night e High ‘N’ Dry, fizeram grande sucesso, apresentando um som pesado, rápido e cru, bem à linha do que já vinha sendo feito por bandas como Iron Maiden, Accept ou Judas Priest, só que sem o mesmo peso dessas bandas, os colocando limitados por um “meio termo” e diante de uma decisão entre aumentar esse peso e seguir lado às demais bandas do movimento ou tentar adequar a sua sonoridade atual a uma roupagem mais pop. Diante das condições da banda, que não era adepta de figurinos extravagantes e temáticas violentas nas composições (como já era o caso dos grupos citados), a segunda opção pareceu a mais viável. Então, surgindo dessa amenização da música do Def Leppard, em 1983 sai Pyromania, o terceiro álbum de estúdio do grupo.

Controverso à época do lançamento, divide fãs até os dias de hoje. Muitos acusam a banda de ter “se vendido”. Pura bobagem. Sim, o Pyromania foi declaradamente um trabalho feito para ganhar o público americano com o qual a NWOBHM ainda tinha alcance limitado por questões, muitas das vezes, meramente estéticas (o visual e as temáticas mais brutais não agradavam tanto à parcela feminina de ouvintes e consumidores). Mas isso não implicou em uma plastificação do som. Pelo contrário, essa incursão na competitividade de mercado levou a banda a uma evolução incrível, e bem além da mudança do figurino (Joe Eliott, que antes se vestia como o Rob Halford, adotara as roupas mais coloridas e regatas com as cores da bandeira da Inglaterra). Para o Pyromania, eles pegaram aquele som cru e “sujo” dos dois álbuns anteriores e lampidaram, mantendo todo o virtuosismo das guitarras, ótimas composições e riffs grudentos, numa evolução sem a descaracterização a que outras bandas se acometeram, como, por exemplo, o Aerosmith.

Mas nada pode servir como melhor defesa ao álbum que sua própria tracklist. De “Foolin’” e “Too Late For Love”, baladas sombrias e com riffs pesados, a “Rock! Rock! (Till You Drop)”, “Stagefright” e “Billy’s Got a Gun”, as mais pesadas, somos brindados com o melhor desempenho da carreira do Def Leppard. As guitarras duelando e alternando nos solos e nos riffs, as proezas vocais do limitado Joe Eliott e o melhor momento de Rick Allen na bateria (que ficou mais famoso por continuar tocando mesmo após perder o braço num acidente de carro que por seu talento em si). A bem da verdade, o Def Leppard nunca foi uma banda de talentos excepcionais. Sua formação clássica era excelente, com grandes músicos que sabiam bem o que faziam, mas nada de que se pudesse esperar uma revolução musical.

O disco foi um sucesso estrondoso, quebrando recordes de vendagem na época e alçando o grupo definitivamente à fama. “Rock of Ages” foi um dos singles mais executados naquele ano, dividindo o post com outro mega-hit do álbum, “Photograph”. O clipe da música (provavelmente a música mais famosa da banda até hoje – e uma das mais referenciadas do rock oitentista) chegou a desbancar “Beat It”, de Michael Jackson, em pedidos de exibição na MTV. Aliás, a banda chegou a ultrapassar Michael também na vendagem de álbuns, um feito extraordinário se considerarmos que foi uma “vitória” sobre uma das maiores máquinas de fazer dinheiro da história da música mundial (e justamente no seu auge).

Após uma pausa de alguns anos, nos quais se dedicaram à espera pela recuperação de Rick Allen (que perdeu o braço num acidente de carro e voltou a tocar com o auxílio de uma bateria especialmente desenvolvida para ele, com uma adaptação aos pés), lançam o Hysteria, seu segundo maior sucesso comercial. Apesar da ótima seleção de músicas (entre elas, outro hino da banda, a balada “Love Bites”) o êxito alcançado em Pyromania não se repetiria (financeira e musicalmente falando). Esse foi o álbum que lançou o Def Leppard ao mundo e, agradando aos puristas ou não, os firmou definitivamente entre as grandes bandas da história do rock.

E para quem ainda insistir em achar o Pyromania muito “pop” dentro da discografia da banda, recomendo uma espiada naquele dueto lindo e mimoso que eles gravaram há uns anos com a Taylor Swift e, logo em seguida, alguns minutos de reflexão.
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5/5

Pyromania (Def Leppard) – Inglaterra, 1983 – Gravadora: Polygram/Mercury – Integrantes: Joe Elliot (vocais), Phil Collen (guitarra), Steve Clark (guitarra), Rick Savage (baixo), Rick Allen (bateria)

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Tracklist:

1. Rock, Rock (Till You Drop)
2. Photograph
3. Stagefright
4. Too Late For Love
5. Die Hard the Hunter
6. Foolin
7. Rock of Ages
8. Comin’ Under Fire
9. Action! Not Words
10. Billy’s Got a Gun

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Faixa recomendada:



Mechanical Resonance (Tesla, 1986) by Luiz Carlos
agosto 31, 2010, 9:23 pm
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– por Luiz Carlos Freitas

Em 1985 um trio de nerds caipiras (como eram chamados) surgia no cenário musical de Sacramento, tocando em bares vagabundos (muitas vezes de graça) como a grande maioria das bandas iniciantes. Em 1986, Jeff Keith (vocal), Frank Hannon (guitarra e teclado) e Brian Wheat (baixo), ainda sob o nome de City Kidd (o “Garotos da Cidade” era uma ironia – já que eles vinham do interior – e provocação às grandes bandas da California, líderes das paradas na época), dão de cara com um David Geffen que, apesar de já ser um monstro sagrado do ramo musical, se via desesperado com os prejuízos crescentes de sua gravadora, a Geffen Records, desde o ano anterior e, confiando no talento dos rapazes, resolve financiar seu álbum de estréia. A única exigência era a mudança do nome da banda, que David receou soar negativamente entre os fãs das tais bandas californianas (e que, óbvio, deveriam ser também o seu público alvo).

Com Tommy Skeoch (guitarra e vocais) e Troy Luccketta (bateria) acompanhando o trio, mudam o nome definitivamente para Tesla, em homenagem ao cientista Nikola Tesla, lançando o primeiro álbum, o Mechanical Resonance (também referência ao cientista – dessa vez, a um de seus estudos mais famosos). Estava dada a partida para uma das bandas de hard rock mais bem sucedidas do final da década de 80.

Os jovens músicos já entraram no estúdio decididos. Eles não estavam preocupados com o visual ou grandes performances teatrais nos palcos. Eles queriam fazer música, pura e simplesmente. E é isso que o Mechanical Resonance é dentro das suas doze faixas: hard rock direto e sem frescura.

Mesmo longe dos exageros, o disco possui uma energia incrível. A estrutura das músicas é simples, com letras bem escritas e fáceis de decorar, refrões grudentos, riffs poderosos de Hannon e solos virtuosos de Skeoch, o vocal rasgado de Jeff Keith e a bateria agressiva de Luccketta, destacando “Modern Day Cowboy”, “Comin’ Atcha Live”, as mais rápidas, “Little Suzi” (single de maior sucesso comercial do disco) e a balada “Changes” (cujo trecho do refrão futuramente viria a ser título de uma coletânea da banda) são os melhores trabalhos da dupla de guitarristas no álbum, brilhando também nas músicas com menos destaque, como “We’re no Good Together”, lenta e melancólica até a metade, descambando em um rápido solo próximo ao final.

“Cover Queen” é um exercício desse virtuosismo. Com uma batida meio groove, o vocal de Keith parece estar ali apenas para conduzir e ligar as exibições de distorções, solos, phaser e riffs pesados. Até em faixas menores, como “2 Late 4 Love” ou “Ez Come Ez Go”, há ótimos momentos. Se alguém conseguir ouvir essas duas até o final sem adiantar (questão de opinião – particularmente, as acho insuportáveis) vai se deleitar com dois fantásticos solos de guitarra.

O álbum foi um sucesso absurdo, batendo recordes de vendas, emplacando singles nas rádios e rendendo a David Geffen uns trocados que o estavam fazendo falta. E isso, de certa forma, surpreende, não só pelo fato de serem iniciantes, mas pela concorrência no cenário musical à época, dividindo espaço com já gigantes do hard rock, como Mötley Crüe, Ratt e Dokken (entre outros). A banda seguiu fazendo shows (sempre com lotação esgotada), só lançando um novo álbum três anos após, o The Great Radio Controversy, que conseguiu fazer mais sucesso ainda e firmar de vez o Tesla entre os grandes nomes do rock de sua época.

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4/5

Mechanical Resonance (Tesla) – 1986, EUA – Integrantes: Jeff Keith (vocal), Tommy Skeoch (guitarra), Frank Hannon (guitarra/piano/teclado), Brian Wheat (baixo), Troy Luccketta (bateria)

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Tracklist:

1. Ez Come Ez Go
2. Cumin’ Atcha Live
3. Gettin’ Better
4. 2 Late 4 Love
5. Rock Me To The Top
6. We’re no Good Together
7. Modern Day Cowboy
8. Changes
9. Little Suzi
10. Love Me
11. Cover Queen
12. Before My Eyes

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2112 (Rush, 1976) by Michael Barbosa
agosto 30, 2010, 12:45 am
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2112

– por Mike Dias

Quando surgiu no final da década de 60 o Rush era uma banda essencialmente de Hard Rock. Bem, era um jeito diferente de executar o estilo o que vimos no primeiro, e homônimo, álbum da banda que só foi sair em 1964, o vocal era “ópera” demais, a sonoridade era mais soul music que o comum, mas o som era bom e chamou a atenção de alguns nichos por aí, apesar de não ter tido grande sucesso comercial. Um ano depois quando eles foram gravar o segundo álbum da banda, Fly by Night, a influência do rock progressivo, que viria a ser onde o Rush se encontraria musicalmente, onde haveria espaço para se desprender no formato comercial, da cartilha de como se fazer rock e de extravasar todo o talento deles como instrumentistas começava a dar as caras, mas a recepção por parte da crítica e do público foi morna e foi assim também com Caress of Steel, terceiro álbum.

Em 1976 lá estavam eles para realizar o mais ousado, conceitual e inventivo projeto da banda e um dos mais da década de 70, 2112. A gravadora torceu o nariz, apesar do “prog” estar em alta e The Dark Side of The Moon do Pink Floyd que batia recorde atrás de recorde de venda não parecia uma boa ideia um álbum que começava com uma faixa de mais de 20 minutos e dividida em sete “episódios”, não é radiofônico. Mas quem leu e ouviu entendeu. O que o Rush propôs aqui foi um álbum temático, uma história futurística e espacial, um sci-fi definitivo em forma de rock.

A faixa-título – a tal de 20 minutos – começa com uma espécie de interlúdio (o que viria a se repetir entre cada parte da faixa), ao que parece a porta de uma nave se abrindo para o começo de uma jornada, e após uma fantástica sequência instrumental começamos a ser introduzidos a um homem, um dos “Sacerdotes dos Templos de Syrinx”, um sujeito que acha que pode fazer diferente e demonstrar toda sua revolta e desapontamento com a sociedade através da sua música. Um recado de Neil Peart, baterista e letrista, sobre como ele estava decepcionado com o que a indústria lhes mostrara até ali? Provavelmente, ainda mais quando ouvimos no quarto segmento “Instead of the grateful joy that I expected, they were words of quiet rejection!” (“Ao invés do agradecimento entusiasmado que eu esperava, eles eram palavras de rejeição” em tradução livre) Era assim que o Rush se sentia e foi aqui que eles exorcisaram seus demônios e se colocaram prontos e armados para o sucesso.

Após 20 minutos de deleite e amargura vem o single de maior sucesso do album, Passage to Bangkok muda a toada, aqui temos guitarras rápidas e um som que lembra aquele lá do começo, mais simples, mas não menos encantador, é uma música diferente, e importante por nos colocar os pés no chão após a viagem de há pouco, tanto na sonoridade como na singela letra de quatro versos que traz nosso herói de volta para o Planeta Terra, numa viagem de trem rumo à Bangkok do título.

The Twilight Zone é uma das minhas favoritas e onde se faz mais marcante o – tão amado por uns e odiado por outros – vocal estridente de Geddy que aqui alcanças notas incríveis numa bela canção sobre a tal Zona do Crepúsculo, onde a realidade é uma ilusão e se pode tudo, trazendo de volta a temática iniciada na primeira música. Em Lessons temos a mais ágil faixa do disco, com a bateria Neil super presente e a guitarra de Alex violentíssima, “hardzão”.

A penúltima faixa, Tears, é a mais melódica e depressiva, não dá para saber se as Lágrimas do título são por um amor perdido ou um erro do passado e aqui são claras as referências ao ocultimo também presente na polêmica capa de Hugh Syme, acusada de demoníaca (que novidade) e que acabou por virar o logo da banda.

A derradeira Something For Nothing é também das mais simbólicas, aqui há resquícios de esperança após as derrotas e anfibologias que se passaram, e essa esperança mora no sujeito, no indivíduo livre de obrigações e do Estado opressor, no libertarianismo (ou anarco-capitalismo como alguns preferem chamar) defendido por Neil. Viva por você e tão somente por ti, não acredite que algum sonho é grande demais ou alguma idéia ousada demais, é isso que o Rush mostra aqui. Eles acreditaram que podiam ir um pouco além do que até os seus mestres tinham ido, e foram. E tiveram o reconhecimento que não viera anteriormente, 2112 emplacou nas rádios com suas canções de menor duração e conquistou um triplo disco de platina. Época certa, pretensões certas e um álbum sensacional, para ser ouvido de uma vez só, porque é uma obra homogênea, sintomática, para esquecer os rótulos, ignorar a fama de primeiro álbum verdadeiramente progressivo do Rush e das obrigações que isso traz e apenas ouvir e apreciar essa viagem.

5/5

Ficha técnica: 2112 (Rush) – 1976, Canadá – Gravadora: Anthem Records – Músicos: Geddy Lee (baixo, violão, vocal e teclados), Alex Lifeson (guitarra e violão), Neil Peart (bateria e percussão), Hugh Syme (tecladista convidado em Tears).

Tracklist:

  1. 2112
  2. A Passage To Bangkok
  3. The Twilight Zone
  4. Lessons
  5. Tears
  6. Something for Nothing

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