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Psychocandy (The Jesus and Mary Chain, 1985)
novembro 20, 2011, 1:32 pm
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– Camilo Diniz

Em 1985, o Punk Rock dava seus últimos suspiros. Bandas que o precederam e foram de essencial importância no seu desenvolvimento, como The Velvet Underground e The Stooges haviam encerrado suas atividades em meio aos abusos de drogas e crises de relacionamento entre seus membros.

Todavia, as sementes por eles lançadas deram origem ao já citado punk rock, e também ao Post Punk de bandas como Joy Division, que à essa altura também não existia mais, dando lugar ao New Order. Outro filho prodígio da cena, The Smiths, vivia o auge do seu sucesso, afastando-se, porém, das influências do movimento, com um som mais limpo e repleto de sentimentalismo e militância social, aproximando-se do rock alternativo e lançando as bases do que viria a ser o britpop anos mais tarde.

Mais fiel ao peso e barulheira do punk foi, porém, a escocesa The Jesus And Mary Chain, que no mesmo ano lançou uma pérola do rock, na qual as distorções da guitarra tocada por William Reid alcançam níveis absurdos, flertando com os abusos do noise rock e a bateria de Bobby Gillespie, que logo após sairia para formar o Primal Scream, marcam o ritmo insano e contagiante do disco, lembrando bastante a presteza e a simplicidade de Moe Tucker no Velvet Underground.

Sujo, simples e poético, Psychocandy une ao barulho lo fi do instrumental os vocais – ora epilépticos, ora suaves – de Jim Reid e uma poesia ferina, que trata de assuntos diversos com uma naturalidade espantosa, que apenas faz jus às principais influências da banda.

Em Just Like Honey, maior sucesso de toda a trajetória dos escoceses temos a apologia ao sexo oral disfarçada entre palavras adocicadas e cacófatos: “Eating up the scum is the hardest thing for me to do… Just like honey”. Outras canções do álbum, como Taste The Floor e Cut Dead tratam de decepções. A incompreensão afetiva de Never Understand e You Trip me Up e o romantismo em Taste Of Cindy e Some Candy Talking fazem de Psychocandy um disco único, com um sentimentalismo não clichê que fala naturalmente de assuntos totalmente contraditórios, sempre embalado pela sujeira da guitarra de Will Reid e pela batida marcial da bateria de Gillespie.

Talvez seja injusto não mencionar as outras faixas do álbum – 15 no total – Deixo ao ouvinte a tarefa de desfrutar da fantástica obra de arte que aqui se apresenta. Suave e cruel, simples e profundo. Psicótico e doce.

5/5

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Ficha técnica:

Psychocandy (1985) – The Jesus And Mary Chain – Escócia.  Jim Reid (Vocais, Guitarra), William Reid (Guitarra, vocais em It’s so hard), Douglas Hart (Baixo), Bobby Gillespie (Bateria, Percussão)

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Tracklist:

Lado A:

  1. Just Like Honey
  2. The Living End
  3. Taste the Floor
  4. The Hardest Walk
  5. Cut Dead
  6. In a Hole
  7. Taste of Cindy

Lado B:

  1. Never Understand
  2. Inside Me
  3. Sowing Seeds
  4. My Little Underground
  5. You Trip Me Up
  6. Something’s Wrong
  7. It’s So Hard

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Rock ‘n’ Roll Animal (Lou Reed, 1974)
setembro 28, 2011, 6:43 pm
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Rock 'n' Roll Animal

por Camilo Diniz

Muito se fala acerca da versatilidade musical de David Bowie e Iggy Pop, chamados frequentemente de camaleões do rock, todavia se subestima a mesma capacidade do vértice da chamada “santíssima trindade do rock”, Lou Reed, que influenciou toda uma geração de músicos, notadamente os outros membros da tríade citada.

De trovador soturno das esquinas de New York, à época dos primeiros discos do The Velvet Underground, passando por glam rocker no disco Transformer e poeta sofredor e deprimido em Berlin, Lou Reed, a despeito de tão metamórfico quanto seus colegas, é muito pouco lembrado neste quesito.

Após sua saída do Velvet Underground, Reed encontrou em David Bowie o apoio necessário para, finalmente, obter sucesso em sua obra, sempre controversa e quase nunca compreendida. O resultado foi Tranformer, talvez o maior sucesso do ano de 1972, o que fez de Lou Reed o artista do ano na Inglaterra, superando nomes consagrados como Mick Jagger, o próprio Bowie e Eric Clapton. Finalmente alcançara o reconhecimento que não veio com o Velvet, o que o colocou em situação financeira confortável.

Todavia, a vida pessoal de Reed estava em cacos devido à sua crise no casamento e vício em drogas, o que refletiu profundamente na produção do seu próximo disco, Berlin, talvez um dos mais depressivos da história do rock, duramente criticado na época, todavia reconhecido hoje como um dos registros definitivos da música.

Na esteira da crise de relacionamento, vício em drogas, brigas sérias com David Bowie e incompreensão da crítica, Lou Reed iniciou sua nova turnê, marcada pela agressividade incomum, semelhante apenas à experimentada no disco White Light/White Heat , o que o colocou no mesmo patamar de Iggy Pop, padrão até os dias de hoje no que se refere à visceralidade e agressividade no rock.

A turnê, denominada Rock ‘N’ Roll Animal resultou na gravação de um álbum homônimo ao vivo, em New York, como não poderia deixar de ser, e mostra um Lou Reed dialogando com o hard rock, sem perder a essência glam da época, cantando basicamente canções do Velvet Underground e uma do disco Berlin.

O disco é aberto com uma longa introdução, seguida de uma arrebatadora versão de Sweet Jane, um tanto quanto diferente da encontrada no Loaded. A seguir, a autobiográfica Heroin, que refletia o vício em heroína cada vez mais incontrolável de Lou Reed. Em White Light/White Heat, outro clássico do Velvet, tocado com ainda mais intensidade, marca de todo o álbum. Lady Day, única das faixas do álbum proveniente da sua carreira solo, a tristeza do Berlin é tornada ainda mais comovente e ferina. Por fim, Rock ‘n’ Roll, também do Velvet Underground, traz uma mensagem de esperança de uma menina que teve sua vida salva pelo Rock. Talvez fosse essa a perspectiva de Lou Reed.

A visceralidade do Rock ‘n’ Roll Animal foi mais uma das múltiplas transformações de Lou Reed que o tornam tão versáteis quanto seus discípulos David Bowie e Iggy Pop. Pouco tempo após sua gravação, Reed faria sua mais ousada transformação, gravando o até hoje incompreendido Metal Machine Music, talvez o mais controverso disco de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica

Rock ‘n’ Roll Animal (Lou Reed) 1968. Lou Reed (vocais), Pentti “Whitey” Glan (bateria, percussão), Steve Hunter (guitarra), Prakash John (baixo, vocais de apoio), Dick Wagner (guitarra, vocais de apoio), Ray Colcord (teclado)

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Tracklist

  1. Intro/Sweet Jane
  2. Heroin
  3. White Light/White Heat
  4. Lady Day
  5. Rock ‘n’ Roll

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Faixa Recomendada:



White Light/White Heat (The Velvet Underground, 1968)

– Camillo Diniz

Depois do fracasso de vendas que foi o The Velvet Underground & Nico, o relacionamento da banda com Andy Warhol ficou tenso. Lou Reed, de modo um tanto arbitrário – o que se tornaria sua nota distintiva – o substituiu por Steve Sesnick, que jurou tornar a banda tão popular quanto os Beatles, tentando inclusive uma interlocução com o empresário dos garotos de Liverpool, Brian Epstein que, apesar das boas intenções para com o grupo, acabou morrendo antes que qualquer ajuda efetiva pudesse ser concretizada.

Nico, que já não recebia um tratamento cortês por parte de Lou Reed, a despeito do relacionamento amoroso dos dois, também foi demitida, dedicando-se a uma carreira solo elogiada pela crítica, sempre contando com o apoio dos membros do Velvet na gravação de seus melancólicos trabalhos, a exemplo do Chelsea Girls, lançado ainda no ano de 1967, quando a banda estava no processo de gravação do seu segundo álbum.

Tal situação de desamparo, aliado à falta de sucesso comercial criou a situação perfeita para a produção de um disco raivoso, ainda mais agressivo em termos sonoros e poéticos do que o seu antecessor, porém não tão inovador.

Assim, sem o glamour e a proteção de Andy Warhol e com uma fúria musical sem precedentes até então, os Velvets se trancaram no estúdio e, em poucos dias concluíram seu segundo trabalho, White Light/White Heat.

A faixa título, que abre o álbum, faz menção ao tratamento de eletrochoques ao qual Lou Reed foi submetido em sua adolescência, supostamente para se curar da sua homossexualidade. A faixa continuou a ser interpretada por Reed em sua carreira solo, além de ter ganho uma bela interpretação de David Bowie. O clima caótico começa a se manifestar.

Em seguida, uma homenagem, ou sátira à jazz poetry típica dos beatniks: Um longo poema, narrado por John Cale, destacando seu pesado sotaque galês, escrito por Lou Reed e, como não poderia deixar de ser, totalmente bizarro: The Gift narra a história de um rapaz apaixonado, Waldo Jeffers que, sem dinheiro para visitar a sua namorada, Marsha, decide enviar-se em uma caixa pelo correio, como um presente. Chegando ao destino final, descobre que era traído. Dada a resistência da caixa em ser aberta, a amada lança mão de um serrote, que acaba decepando a cabeça de Jeffers. Talvez tenha sido o melhor para ele.

Lady Godiva’s Operation, continuando a trilha da bizarrice que caracteriza o disco, relata uma cirurgia de mudança de sexo de um travesti, cuja personalidade é descrita na primeira metade da música, cantada também por Cale. A próxima faixa é também a mais leve, Here She Comes Now, que ficou mais conhecida por ser gravada pelo Nirvana ainda pré-Nervermind. Um momento de tranqüilidade dentro da loucura que é o álbum.

Em I Heard Her Call my name tem-se, provavelmente, a música mais pesada de seu tempo, cujo som não deve absolutamente nada para as cruas e insanas digressões do punk rock. Com guitarras distorcidas ao máximo, um vocal quase epiléptico e a batida selvagem de Moe Tucker, em contraponto à leveza de sua percussão no The Velvet Underground & Nico dão à faixa um peso que, à época, fora praticamente impensável.

Fechando o disco, Sister Ray representa o auge da escrotidão poética de Lou Reed e a esquizofrenia sonora da banda. A letra trata de uma orgia entre travestis, marinheiros e policiais, trama digna das mais imundas revistas pornográficas do submundo. A música, composta pelos demais integrantes da banda numa longa improvisação de 17 minutos é uma agressão ferina à estética musical, prova cabal da ousadia do quarteto das esquinas sujas de New York.

White Light/White Heat, embora mais agressivo que seu antecessor, conseguiu mais sucesso comercial, graças à experiência com o mercado musical de Sesnick, o que possibilitou uma maior divulgação do trabalho da banda. Após a sua gravação, o já frágil relacionamento entre os membros da banda deteriorou-se a ponto de John Cale ser expulso, levando consigo boa parte da carga experimental e avant garde do Velvet.

Devido à liberdade e pouca preocupação com os padrões musicais que envolveu a sua produção, White Light/White Heat foi considerado o disco mais descolado de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica:

White Light/White Heat (The Velvet Underground) 1968. Lou Reed (Vocais, guitarra), John Cale (Vocais, Baixo, Órgão, Viola), Sterling Morrison (Vocal auxiliar em Lady Godiva’s Operation, Guitarra, Baixo), Maureen “Moe” Tucker (Bateria, Percussão)

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Tracklist:

Lado 1

  1. White Light/White Heat
  2. The Gift
  3. Lady Godiva’s Operation
  4. Here She Comes Now

Lado 2

  1. I Heard Her Call My Name
  2. Sister Ray

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Faixa Recomendada:



Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company, 1968)

– Camilo Diniz

Poucas são as performances que, de tão arrebatadoras ou perfeitas em termos técnicos e emocionais conseguem consagrar algum artista para sempre. Entre as que lograram êxito nesse aspecto, podemos citar o concerto de Joe Cocker em Woodstock, no qual deu ao mundo a versão definitiva de With A Little Help From My Friends dos Beatles, até hoje lembrada como um dos maiores covers de todos os tempos.

Porém, antes que o músico inglês se consagrasse como intérprete, no festival de Monterey, que abriu o chamado “verão de amor hippie”, realizado na Califórnia no ano de 1967, e que revelou aos Estados Unidos o talento do guitarrista Jimi Hendrix, já famoso na Inglaterra, um grupo de rock psicodélico como os mais de cinco mil que floresciam na costa oeste conseguiu se destacar dos demais, bem como ganhar fama instantânea, graças ao desempenho indescritível de sua até então desconhecida vocalista.

Ao interpretar o clássico Ball and Chain, da texana Big Mama Thornton, a também texana Janis Joplin, escalada apenas para fazer uma apresentação de passagem com sua banda, a Big Brother & The Holding Company deixou toda a platéia espantada com tamanho feeling, fato que pode ser observado nas filmagens do festival, quando uma de suas organizadoras, Mama Cass Elliot, vocalista do The Mamas & The Papas fica literalmente de boca aberta diante da interpretação visceral de Joplin.
Daí para o estrelato não durou muito. No mesmo festival a banda repetiu o show, desta vez para uma platéia maior, e saiu praticamente com a intimação de gravar um novo álbum – o primeiro já havia sido gravado, mas foi retido pela banda, que aproveitou o momento de maior fama para liberá-lo – que, mesmo antes de lançado, já havia vendido mais de um milhão de cópias, tornando-se o maior sucesso de 1968 nos Estados Unidos.

Originalmente denominado Sex, Dope and Cheap Thrills, nome rejeitado pela gravadora, que impôs o corte das duas primeiras palavras, o disco é repleto de blues com levada psicodélica, no estilo de bandas como Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, diferenciando-se das demais por ter uma mulher como vocalista, assim como o Jefferson Airplane. Vale lembrar que Janis Joplin e Grace Slick foram de fundamental importância para o crescimento das mulheres no Rock.

Para o design da capa, foi convidado Robert Crumb, ícone da arte underground norte americana, amigo do grupo, e contumaz freqüentador da Family Dog, residência oficial da banda, algo como a Funhouse do rock psicodélico. Os desenhos que explicavam cada uma das faixas do disco no estilo hippie do quadrinista tornaram a capa uma das mais lembradas de todos os tempos, bem como um marco na carreira de Crumb.

O álbum é iniciado com a divertida Combination Of The Two, que mostra toda a liberdade dos membros da Big Brother em suas apresentações, que até hoje é nota distintiva da banda. Posteriormente, temos I Need A Man To Love, parceria de Janis Joplin com o guitarrista Sam Andrew; Summertime, versão do standard do Jazz, composta na década de 1930 pelos irmãos Gershwin, vertida de modo brilhante pela Big Brother e que, com Joplin ganhou sua versão final, tendo sido o maior símbolo de sua carreira.

Ainda, o álbum conta com Piece Of My Heart, composta pelo recentemente falecido Jerry Ragovoy, também um dos símbolos da carreira de vocalista, e uma das três grandes canções do disco. Em Turtle Blues temos o perfeito auto retrato de Janis Joplin, já atormentada  pela depressão:

“Eu acho que sou como uma tartaruga, escondendo-se sob seu áspero casco; mas você sabe, eu me protejo muito bem. Eu conheço essa maldita vida bem demais.”

A faixa foi gravada ao vivo em um bar, o que fica bem visível pelos sussurros e pela garrafa quebrada durante a sua execução. Em Oh, Sweet Mary, cantada por Sam Andrew, temos novamente a demonstração da energia e liberdade do Big Brother, numa levada ácida, regada a LSD e anfetaminas.

Fechando o álbum – em versões posteriores foram adicionadas mais quatro faixas – temos a canção que consagrou Janis Joplin como mito do blues e do rock, Ball And Chain, executada com a mesma intensidade da performance que possibilitou o seu surgimento como estrela da música, e que influenciou a própria Big Mama, compositora da faixa, a executá-la de modo diferente do usual, aproximando-se da potente e definitiva versão da Pérola Branca do Blues, que a inscreveu no número das grandes divas da música americana, ao lado de Bessie Smith, Sarah Vaughan, Billie Holiday dentre outras.

4.5/5

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Ficha Técnica

Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company) 1968 – Janis Joplin (Vocais); Sam Andrew (Guitarra, vocais); James Gurley (Guitarra); Peter Albin (Baixo); David Getz (Bateria); John Simon (Piano em Turle Blues).

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Tracklist:

– Lado A

1.    Combination of the Two
2.    I Need a Man to Love
3.    Summertime
4.    Piece of My Heart

– Lado B

1.    Turtle Blues
2.    Oh, Sweet Mary
3.    Ball and Chain

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Faixa Recomendada:



The Velvet Underground & Nico (The Velvet Underground, 1967)
agosto 2, 2011, 9:02 pm
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– por Camilo Diniz

1967, Califórnia. Explosão do verão de amor hippie: casais trajando berrantes roupas coloridas se abraçam e cantam os ideais de paz, amor, harmonia e solidariedade. Em Nova York, por outro lado, um quarteto de criaturas bizarras vestidas de preto e com óculos escuros mesmo durante a noite, acompanhados de uma modelo alemã de sotaque carregadíssimo e voz sepulcral, conhecida pelos inúmeros relacionamentos com estrelas do Rock declamam o submundo, a perversão, a sujeira das sarjetas, a imundície do ser humano, tudo isso sob o patrocínio e proteção de Andy Warhol, artista da bizarrice que, insatisfeito com as colagens de sopa de ervilha, resolveu se enveredar pela produção musical e, por acaso, encontrou a quadrilha de músicos – ainda sem a participação de Nico. – chocando a platéia de clubes da Big Apple com sua sonoridade agressiva e fora dos padrões, e suas canções polêmicas, tratando de assuntos até então negligenciados pela música, ainda engatinhando em termos de maturidade, desde que Bob Dylan surgira para provocar uma verdadeira revolução na maneira de escrever letras.

O Velvet Underground, nome tirado de uma publicação pornográfica, caracterizava-se também pela diversidade de nacionalidades, acolhendo em seu meio uma alemã e um galês, e pelas peculiaridades de seus membros, a exemplo da andrógina baterista Maureen “Moe” Tucker que, além de mulher, o que era raríssimo na época em que as baquetas eram dominadas apenas por homens, como Keith Moon, tocava seu pequeno e incomum kit em pé – sendo copiada por Bobby Gillespie, à época que foi baterista do The Jesus And Mary Chain – antecipando a máxima “do it yourself”, fundamental para o desenvolvimento do Punk Rock anos mais tarde; e pelas insanas experimentações musicais de John Cale, que incluíam uso de viola amplificada, órgãos tocados em volume máximo e afinações alternativas.

Somar a excentricidade da banda com a loucura artística de Andy Warhol, o que incluía visitas e festas na Factory, estúdio do artista, freqüentado por um público que ia de estrelas de cinema a travestis e garotos de programa criou o ambiente perfeito para a criação de uma obra prima, o The Velvet Underground & Nico (cujo nome foi uma reação do grupo à imposição feita em incluí-la como vocalista), que vendeu pouco, mas deixou um legado sem precedentes na história da música.

O álbum já é especial, denso e profundo na capa, uma simples banana desenhada por Warhol, em contraposição às capas multicoloridas e psicodélicas que estavam em alta. Em letras miúdas, no alto da banana estava o convite, talvez ordem: “Peel Slowly And See”. Aceita a sugestão, o ouvinte se deparava com uma banana cor de carne, clara alusão ao falo, o que de pronto já mostra a dualidade do disco: minimalista e ousado.

Tal dualidade reflete-se no clima diverso encontrado nas onze faixas do disco. Nunca um mesmo álbum mesclou com tanta maestria leveza, como em I’ll Be Your Mirror e Sunday Morning, balada pontuada pela celesta de John Cale; com digressões violentas e experimentais, a exemplo de European Son. Também merece especial destaque a já mencionada inversão do senso poético promovido pela trupe novaiorquina, tendo sido a banda a primeira a tratar de temas do submundo, como tráfico e vício em drogas, prostituição, transexualidade e sadomasoquismo.

Não é difícil imaginar o choque que o álbum provocou, uma vez que trazia à tona uma sonoridade e poesia completamente contrária ao padrão da época, o que talvez explique a incompreensão do disco que, apesar de ter exercido influência notável em figuras como David Bowie, Iggy Pop, New York Dolls, Joy Division, Nirvana, Sonic Youth e The Strokes, só foi redescoberto cerca de quinze anos após seu lançamento.

Dentre as músicas do álbum, destacamos I’m Waiting For The Man, que narra a epopéia de um viciado em heroína para conseguir a droga; Femme Fatale, cantada por Nico, e supostamente dedicada a Edie Sedgwick; Venus In Furs, exaltação do sadomasoquismo, baseada na obra homônima de Sacher-Masoch; All Tomorrow’s Parties, canção sombria e misteriosa, cujo sentido talvez seja tão incerto quanto à pergunta que embasa a sua letra: “E que roupas a pobre garota usará em todas as festas de amanhã?” e Heroin, certamente a mais sincera música sobre o vício em drogas, expondo-o de forma real, com suas dores e delícias, como no trecho: “Eu fiz a grande escolha, eu vou tentar destruir a minha vida (…) Heroína é minha esposa e minha vida”.

Costuma-se dizer que os Rolling Stones eram a antítese dos Beatles, pela sua postura rebelde, contrária à atitude, de certa forma, conformista do quarteto de Liverpool. Talvez o Velvet Underground, mais que antítese, seja a completa destruição dos parâmetros do rock de inspiração romântica e idealizada, a nível literário e prático. Uma declaração de amor, não a musas cândidas, mas ao submundo das esquinas de New York.

Repleto de peculiaridades, como guitarras afinadas em uma só nota, poesia maldita e composições controversas, The Velvet Underground & Nico, mais que um simples disco, é uma obra de arte, fracasso retumbante de vendas, mas sem sombra de dúvidas um dos registros definitivos da história do Rock e da música em geral.

5/5

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Ficha Técnica:

The Velvet Underground & Nico (The Velvet Underground) – 1967/EUA – Integrantes: Nico (vocal), Lou Reed (vocal e guitarra), John Cale (viola elétrica, piano, celesta), Sterling Morrison (guitarra, contra-baixo elétrico e vocais de apoio), Maureen Tucker (percussão)

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Tracklist:

– Lado A:

1. Sunday Morning
2. I’m Waiting for the Man
3. Femme Fatale
4. Venus in Furs
5. Run Run Run
6. All Tomorrow’s Parties

– Lado B:

1. Heroin
2. There She Goes Again
3. I’ll Be Your Mirror
4. The Black Angel’s Death Song
5. European Son

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Faixa Recomendada: