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2112 (Rush, 1976) by Michael Barbosa
agosto 30, 2010, 12:45 am
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2112

– por Mike Dias

Quando surgiu no final da década de 60 o Rush era uma banda essencialmente de Hard Rock. Bem, era um jeito diferente de executar o estilo o que vimos no primeiro, e homônimo, álbum da banda que só foi sair em 1964, o vocal era “ópera” demais, a sonoridade era mais soul music que o comum, mas o som era bom e chamou a atenção de alguns nichos por aí, apesar de não ter tido grande sucesso comercial. Um ano depois quando eles foram gravar o segundo álbum da banda, Fly by Night, a influência do rock progressivo, que viria a ser onde o Rush se encontraria musicalmente, onde haveria espaço para se desprender no formato comercial, da cartilha de como se fazer rock e de extravasar todo o talento deles como instrumentistas começava a dar as caras, mas a recepção por parte da crítica e do público foi morna e foi assim também com Caress of Steel, terceiro álbum.

Em 1976 lá estavam eles para realizar o mais ousado, conceitual e inventivo projeto da banda e um dos mais da década de 70, 2112. A gravadora torceu o nariz, apesar do “prog” estar em alta e The Dark Side of The Moon do Pink Floyd que batia recorde atrás de recorde de venda não parecia uma boa ideia um álbum que começava com uma faixa de mais de 20 minutos e dividida em sete “episódios”, não é radiofônico. Mas quem leu e ouviu entendeu. O que o Rush propôs aqui foi um álbum temático, uma história futurística e espacial, um sci-fi definitivo em forma de rock.

A faixa-título – a tal de 20 minutos – começa com uma espécie de interlúdio (o que viria a se repetir entre cada parte da faixa), ao que parece a porta de uma nave se abrindo para o começo de uma jornada, e após uma fantástica sequência instrumental começamos a ser introduzidos a um homem, um dos “Sacerdotes dos Templos de Syrinx”, um sujeito que acha que pode fazer diferente e demonstrar toda sua revolta e desapontamento com a sociedade através da sua música. Um recado de Neil Peart, baterista e letrista, sobre como ele estava decepcionado com o que a indústria lhes mostrara até ali? Provavelmente, ainda mais quando ouvimos no quarto segmento “Instead of the grateful joy that I expected, they were words of quiet rejection!” (“Ao invés do agradecimento entusiasmado que eu esperava, eles eram palavras de rejeição” em tradução livre) Era assim que o Rush se sentia e foi aqui que eles exorcisaram seus demônios e se colocaram prontos e armados para o sucesso.

Após 20 minutos de deleite e amargura vem o single de maior sucesso do album, Passage to Bangkok muda a toada, aqui temos guitarras rápidas e um som que lembra aquele lá do começo, mais simples, mas não menos encantador, é uma música diferente, e importante por nos colocar os pés no chão após a viagem de há pouco, tanto na sonoridade como na singela letra de quatro versos que traz nosso herói de volta para o Planeta Terra, numa viagem de trem rumo à Bangkok do título.

The Twilight Zone é uma das minhas favoritas e onde se faz mais marcante o – tão amado por uns e odiado por outros – vocal estridente de Geddy que aqui alcanças notas incríveis numa bela canção sobre a tal Zona do Crepúsculo, onde a realidade é uma ilusão e se pode tudo, trazendo de volta a temática iniciada na primeira música. Em Lessons temos a mais ágil faixa do disco, com a bateria Neil super presente e a guitarra de Alex violentíssima, “hardzão”.

A penúltima faixa, Tears, é a mais melódica e depressiva, não dá para saber se as Lágrimas do título são por um amor perdido ou um erro do passado e aqui são claras as referências ao ocultimo também presente na polêmica capa de Hugh Syme, acusada de demoníaca (que novidade) e que acabou por virar o logo da banda.

A derradeira Something For Nothing é também das mais simbólicas, aqui há resquícios de esperança após as derrotas e anfibologias que se passaram, e essa esperança mora no sujeito, no indivíduo livre de obrigações e do Estado opressor, no libertarianismo (ou anarco-capitalismo como alguns preferem chamar) defendido por Neil. Viva por você e tão somente por ti, não acredite que algum sonho é grande demais ou alguma idéia ousada demais, é isso que o Rush mostra aqui. Eles acreditaram que podiam ir um pouco além do que até os seus mestres tinham ido, e foram. E tiveram o reconhecimento que não viera anteriormente, 2112 emplacou nas rádios com suas canções de menor duração e conquistou um triplo disco de platina. Época certa, pretensões certas e um álbum sensacional, para ser ouvido de uma vez só, porque é uma obra homogênea, sintomática, para esquecer os rótulos, ignorar a fama de primeiro álbum verdadeiramente progressivo do Rush e das obrigações que isso traz e apenas ouvir e apreciar essa viagem.

5/5

Ficha técnica: 2112 (Rush) – 1976, Canadá – Gravadora: Anthem Records – Músicos: Geddy Lee (baixo, violão, vocal e teclados), Alex Lifeson (guitarra e violão), Neil Peart (bateria e percussão), Hugh Syme (tecladista convidado em Tears).

Tracklist:

  1. 2112
  2. A Passage To Bangkok
  3. The Twilight Zone
  4. Lessons
  5. Tears
  6. Something for Nothing

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3 Comentários so far
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Gostei da resenha \o

Comentário por Fábio Visnadi

Já gostei mais do Rush. Só que, à medida que fui ouvindo mais e mais, fui achando o som da banda cada vez mais chato e tedioso. Esse álbum eu não conheço, mas ouvi a “Twilight Zone” e achei até legal.

Vou dar uma chance depois.


E o texto tá lindão! =)

Comentário por Luiz Carlos

Esses caras tem um contato com o Divino tão extremo que deveriam fundar uma Igreja!

Comentário por Rodrigo




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