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Spiderland (Slint, 1991)
junho 27, 2011, 2:45 am
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por Felipe Polamartschuk

A transição do fim dos anos 80 aos anos 90 foi turbulenta para o mainstream musical. O pop sem compromissos dominava quase que inteiramente as rádios da época. Com exceção dos artistas que já estavam consagrados (como o The Cure), havia uma indiferença quase total em relação aos bons lançamentos que surgiam (como foi o caso de Pixies e diversas outras bandas que nasceram e morreram no underground). É nesse contexto que o Slint surge.

A banda, formada por quatro garotos de Louisville, Kentucky (Brian McMahan na guitarra e voz, David Pajo também na guitarra, Britt Walford na bateria e Ethan Buckler no baixo) contava com um leque de influências, no mínimo, variado (de King Crimson a Sonic Youth, passando até mesmo por Black Sabbath). Gravaram um álbum lançado em 1989, Tweez, que passou totalmente despercebido pela mídia. Os poucos especialistas  que se arriscaram a resenhá-lo na época não pouparam críticas quanto ao estilo confuso do álbum, cheio de distorções, canções sem melodia alguma e repleto de compassos angulares.  Não surpreendentemente, o álbum também foi um fracasso comercial.

Porém, três dos quatro caipiras de Louisville não se abalaram com as críticas (Ethan Buckler deixou a banda e foi substituído por Todd Brashear no baixo), e mais uma vez entraram em estúdio para gravar o segundo e último álbum da banda. Spiderland, além de influenciar a grande maioria dos artistas de rock independente que surgiriam futuramente, seria o marco inicial de dois estilos musicais: os denominados Post-Rock e Math Rock.

Talvez a característica mais notável de Spiderland seja a ausência quase que total de qualquer tipo de melodia, com exceção de alguns momentos em “Washer”. McMahan se limita a falar, e em raras ocasiões, gritar, o que casa bem com o estilo lírico da banda, quase que integralmente narrativo. Também é evidente o estilo musical minimalista do conjunto.

Contudo, equivoca-se aquele que acredita que o minimalismo do Slint implica em simplicidade. Apesar de acordes e riffs repetitivos, é possível encontrar diversas singularidades quanto a estrutura que compõe as canções do álbum. A banda raramente se prende a compassos 4/4, arriscando-se em estruturas mais complexas, como 3/4, 7/8, entre diversas composições angulares(fato este que, gerou o rótulo de Math Rock); ou seja, aqueles que procurarem musicalidade também estarão entretidos.

Todas as características citadas anteriormente são sintetizadas na faixa de abertura, “Breadcrumb Tail”, que funciona como uma espécie de “overture”, introduzindo ao ouvinte o que será encontrado ao decorrer do álbum, funcionando perfeitamente como a faixa evocativa à natureza sombria e extremamente introspectiva do álbum.

No entanto, o brilho de Spiderland começa a aparecer mesmo a partir de sua segunda faixa. Baseada no filme Nosferatu, do diretor alemão F.W. Murnau, “Nosferatu Man” tem um clima claustrofóbico, quase perturbador, atmosfera gerada principalmente devido ao ótimo trabalho executado por Pajo, com riffs que parecem ter sido retirados diretamente da trilha sonora de algum filme de terror, que surgem e logo desaparecem, se perdendo entre os sussurros de McMahan. É nesta mesma faixa que as influências inusitadas da banda começam a aparecer, como riffs que são influenciados claramente pelo Thrash Metal (!), demonstrando que a banda, apesar de ter características bastante singulares, não se intimida ao flertar com outros estilos musicais.

E é a partir deste ponto que as coisas começam cada vez a tomar rumos mais sombrios e introspectivos. “Don, Aman” é talvez, a faixa mais diferenciada do álbum. Contendo somente voz e guitarra, narra a história de um homem, que sofre de alguma espécie de fobia social, indo a uma festa (um tema aparentemente banal). No entanto, a banda mais uma vez se supera criando uma atmosfera densa e narrativa, novamente graças a guitarra de Pajo, que alterna entre momentos lentos e momentos rápidos, de acordo com o que está sendo narrado, tornando o que seria uma narração quase desinteressante, em uma história dinâmica e que estimula o ouvinte a ficar atento até o desfecho da mesma.

Após três faixa o ouvinte estaria mais confortável com a sonoridade densa de Spiderland, mas na quarta faixa do álbum a banda novamente surpreende. “Washer” é a canção mais ortodoxa do disco, e pela primeira vez  podemos ouvir McMahan cantando de fato. Contudo a atmosfera totalmente monocromática continua. Washer é uma canção lenta, liricamente enigmática, porém com um clima de tristeza que a acompanha durante até o seu desfecho. É o tipo de faixa que pode ser considerada tanto a melhor do álbum, por ser claramente diferenciada do restante, ou a pior, por estar um tanto deslocada, subjetivando totalmente sua qualidade

Então, surge “For Dinner…”, totalmente instrumental e minimalista, servindo somente como uma ponte para o que seria a música que consagra Spiderland como um dos álbuns mais criativos, interessantes e claustrofóbicos já criados.

“Good Morning, Captain“, baseada no antigo poema inglês de Samuel Taylor Coleridge, “A rima do velho marinheiro”, narra a trágica história de um capitão, que sobrevive sozinho ao naufrágio de seu navio. A canção em seu início segue o mesmo padrão que foi imposto pela banda desde o início do álbum: polirritmias, letras sussurradas, riffs atmosféricos e tudo mais, porém a banda se supera na atmosfera criada. Todos os instrumentos são perfeitamente tocados para gerar um clima quase que oceânico, que passa ao ouvinte a sensação de estar acompanhando o capitão em sua tentativa de voltar para casa. A música se estende neste mesmo clima até o seu minuto final, até que, depois de seis minutos de atmosfera mórbida, a música explode e os riffs atmosféricos dão lugar a riffs pesados. O estilo vocal de McMahan dá lugar a gritos e berros (também ficando evidente que ele não sabe cantar, porém, como David Byrne da banda Talking Heads disse uma vez: “quanto melhor a voz de um vocalista, menor a chance de ele estar falando a verdade”), o que é o caso exato aqui. A voz de McMahan demonstra ser extremamente abaixo da média e é justamente isso que influi na grandiosidade do momento. Os berros de McMahan soam como berros de uma pessoa ordinária, e acima de tudo, extremamente sinceros, ocasionando num momento capaz de arrepiar até mesmo os mais frios. E assim, após uma explosão, Spiderland chega ao fim.

Se procurássemos uma analogia para Spiderland, esta com certeza seria um episódio do antigo seriado americando “Twilight Zone” (ou “Além da Imaginação” no Brasil). Tudo é preto e branco, as histórias geralmente podem ser consideradas banais, sem sentido e parecem não estar indo a lugar nenhum ao serem analisadas fria e criticamente, porém, tudo isso é compensado por um clima obscuro que está presente em todo o episódio, mesmo não havendo a presença de momentos de terror explicito, até que, em seu último minuto, ocorre uma reviravolta, dando sentido a toda confusão que foi anteriormente estabelecida.

O único porém em Spiderland, é que é um álbum extremamente dependente do humor do ouvinte, ou seja, é o álbum que só pode ser ouvido uma vez por mês e durante uma madrugada, porém, é uma experiência musical que todos os fãs de música devem passar pelo menos uma vez na vida, para sentir o clima pesado, como nenhuma outra banda jamais conseguiu passar, ou mesmo para conferir o marco inicial de um dos estilos da cena independente mais em alta hoje em dia, o Post-Rock.

5/5

Spiderland (Slint) – 1991 – Integrantes: David Pajo (Guitarra), Brian McMahan (guitarra, voz), Britt Walford (bateria, guitarra, voz),  Todd Brashear (baixo)

Tracklist:

  1. Breadcrumb Trail
  2. Nosferatu Man
  3. Don, Aman
  4. Washer
  5. For Dinner…
  6. Good Morning, Captain

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