Tequila Radio


Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (Emicida, 2009)

– por Mike Dias

Emicida é a síntese do rap, na música e na figura. Leandro Roque de Oliveira surgiu nas “rinhas de mcs”, aquelas batalhas de rima – as mesmas de onde emergiu Eminem – onde dois rappers trocam ofensas rimando. Lá veio o apelido, junção óbvia de “mc” com “homicida”. Após alguns anos ganhando campeonatos pelas ruas de São Paulo e até alguns em outros cantos, Emicida decidiu que era a hora de pegar as letras que vinha escrevendo nos últimos anos e lançar, tentar ser músico, dar o mesmo passo adiante dado por Eminem e tantos outros que foram das batalhas para as paradas.

O resultado dessa empreitada é uma mix tape totalmente caseira – com direito a capinhas feitas na mão uma a uma pelo próprio Emicida e seus amigos – de nome Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, que acabou tendo no seu principal hit, Triunfo, um clipe de 1513802 visualizações no Youtube e levou o rapper a participações na grande mídia e shows lotados. Em pouquíssimo tempo Emicida tinha traçado o caminho que para muitos leva anos entre o lançamento do primeiro trabalho e o sucesso. O garoto das ofensas rimadas se tornara uma espécie de coqueluche da música da periferia, com críticas positivas nas mais variadas esferas da crítica (de blogs indies a setores mais ortodoxos), num fenômeno digno de lembrar (com as devidas proporções) o estouro dos Racionais MC’s em idos de 1997 com Sobrevivendo no Inferno.

O nome do álbum é sobre o dia em que tomado pelo desespero um ainda jovem Leandro “atacou” o próprio cachorro quando esse abocanhou o seu único pedaço de pão de uma tarde. Mas diferente do que se poderia pensar Pra Quem Já Mordeu… é bem mais do que aquele rap imbuído de rancor e crítica social. Tematicamente é livre, ele não se policia nas letras e se permite também escrever sobre política e sociedade, mas não apenas sobre esses lugares tão castos ao rap. Emicida não respeita o clichê, escreve primeiramente livre de moralismos ou obrigações sociais. É egocentrismo, baladas, uma rajada alucinante de referências históricas e culturais, versos odiosos e alegres alternando ao longo de 25 canções extremamente únicas.

“Jesus perdoou demais, morreu
Lampião confiou demais, morreu
Sou tipo um general que lidera uma tropa vinda do breu
E eu não confio, nem perdoo, por isso mandaram eu! “

O álbum é aberto por Intro (É Necessário Voltar ao Começo), um cartão de visitas honesto sobre o lado mais crítico do álbum.  É um rapaz de vinte e poucos anos lavando a alma antes de começar a rimar, sem meias palavras assumindo uma postura autoconfiante apesar de tudo. É difícil achar algo de dispensável. Em seguida vem E.M.I.C.I.D.A., com jeitão de hit, é fortemente influenciada por Run D.M.C do rap de rima ágil e dançante. Sozim apresenta um Emicida instrospectivo e niilista naquela que é possivelmente a canção mais sincera da mixtape e confirma uma tendência que foge ao comum no rap brasileiro: Emicida prefere as músicas curtas, mesmo que num instrumental mais lento o ritmo é acelerado, de certa forma parece que há uma ânsia de muito para contar, não mais aquelas longas histórias dos Racionais, mas sim canções mais centradas e temáticas, nessa o que temos é a solidão: “Desde pivete eu tenho amigos mais me sinto sozinho/Pra quem quer viver cem anos eu já to bem triste com vinte”.

O que sucede são canções mais singelas sobre o dia-a-dia, Rotina e Pra Mim… falam sobre os pequenos prazeres que ainda fazem a coisa toda valer a pena apesar de tudo. Ainda Ontem é dos pontos altos com um belo arranjo de samba de raiz e participação dos amigos Rashid, Projota e Fióti e acaba, nesse clima de amizade, sendo a canção mais otimista (“Com pensamento de que hoje é dia de fazer o melhor rap que eu já fiz”). A batucada do samba se mistura com um vocal que mista rap com jeitão de partido alto.

Pretos amontoados por um racismo brutal
Não tem justiça, quero vingança, foda-se, agora é pessoal !”

Essa é Pra Não Ter Tempo Ruim, as vezes é quase bipolar, celebrações de pequenos prazeres são sucedidas por gritos de ódio. A sensação é que Emicida quer ser positivo, mas é desacreditado a cada vez que olha ao redor e obrigado a soltar um ou outro berro. Só Isso tem sua bela dose de saudosismo, sons e lembranças felizes, um “ao mestre com carinho” que entrega parte de onde Emicida traz inspiração: Paulinho da Viola, Cartola, Candeia, Jackson do Pandeiro, Zé Keti.

Ela Diz, Sei Lá e Preciso mostram uma das facetas mais convincentes de Emcida, o tal sujeito sem medo de escrever sobre o que bem entende e perfeitamente apto a escrever singelas baladas românticas, pequenas declarações de amor à amada (em duas delas a mulher, na outra a filha) e nessa última sobre as responsabilidades do rito de passagem que é a paternidade.

Mas o rap tem sua força revitalizadora mesmo é no discurso violento, naquela revolta que parece que desde Public Enemy é cativa ao gênero. Cidadão apesar de ser uma das menos lembradas é dos melhores momentos, num groove forte é capaz de ser uma canção urbana de uma politização incrivelmente madura nos seus míseros 1:25. É forte: “É embaçado, eu vou levar como carma/Meus vizinhos saber menos nome de livro que de arma “.

Influenciado pela filosofia de Sun Tzu, Emicida chega a reclamar não da morte ,mas da falta de algo pelo qual morrer em Soldado Sem Bandeira, essa que acaba soando mais ou menos igual Ideologia do Cazuza, no fim das contas o anseio do playboy carioca e do jovem da periferia paulistana é mais próximo do que poderia se imaginar, ter algo pelo qual viver.

Os samples, infelizmente, têm uma gama de variação não tão grande assim nesse primeiro trabalho, a produção é barata e a edição é abrupta, mas ainda assim é interessante sim a mudança da sonoridade entre as músicas, principalmente no que cabe à variação entre músicas com a estrutura clássica do rap (samples e vocal) e números de hip-hop moderno com instrumentação mais elaborada, e faixas sobrepostas, mas o amadurecimento real ainda estava por vir.

“Aí, todo maloqueiro tem em si
Motivação pra ser Adolf Hitler ou Gandhi!
E se a maioria de nóis partisse pro arrebento?
A porra do congresso tava em chama faz tempo!”

Já próximo do fim ouvimos Triunfo, maior sucesso do álbum se tratando de rádios e youtube, onde Emicida assume de peito cheio uma postura de líder e se auto-intitula “embaixador da rua”. Essa autoconfiança impressiona, ainda que o tal do egocentrismo seja peculiar a boa parte dos raps, aqui e nos Stades, no caso do Emicida vai um pouco além até do que isso, é uma confiança genuína, e caramba, no seu debut! E é aqui também onde o seu lema “a rua é nóiz” (sic) é proclamado com mais veemência.

O grand finale fica por conta de Ooorra, uma daquelas canções praticamente autobiográficas, com um tom de documental e a narrativa intimista, Ooorra se coloca para Emicida tal qual Marshall Mathers para Eminem ou 1967 para o Marcelo D2, é, afinal, uma viagem de encontro com os próprios fantasmas, quase como se Emicida jogasse merda num ventilador apontado para si mesmo; a ausência do pai (“Não sei se dá tristeza ou ódio/Não conseguir lembrar de você sóbrio”), as dificuldades de se crescer na periferia da periferia (Maderite furado, cigarro, cheiro de pinga/Olha onde eu cresci, onde nem erva-daninha vinga”), a fome, o flerte inevitável com o crime, o rap, pois. Mas o melhor mesmo é ver a autoconfiança de um vencedor, somos obrigados a voltar a isso, um rapper confiante de si, como tem que ser, uma dessas metralhadoras que vale conferir.

Emicida é um fenômeno, existe algo de muito especial aqui; é a cultura e o vocabular acima da média, a capacidade de se comunicar, o idealismo pulsante, a completa ausência de qualquer tipo de coitadismo, o pensamento moderno. Emicida não tem medo do mainstream, não foge da televisão nem das grandes rádios ou das multidões, pelo contrário, vai de encontro e bate de frente com essa grande mídia tão renegada por Mano Brown e tantos outros e que por outras vezes renegou o rap. Um grande letrista, um músico diferenciado dentro do seu meio, um rapper capaz de produzir igual efeito nas favelas do Capão Redondo e nos condomínios fechados dos Jardins.

4,5/5

Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (Emicida) – 2009.

Tracklist:

  1. Intro (É Necessário Voltar ao Começo)
  2. E.M.I.C.I.D.A (Adoooro)
  3. Sozim
  4. Rotina
  5. Pra Mim… (Isso é Viver)
  6. Ainda Ontem
  7. Pra Não Ter Tempo Ruim
  8. Só Isso
  9. Vô Busca Minha Fulô
  10. Ela Diz
  11. Por Deus Por Favor
  12. Preciso (Melô do Mundiko)
  13. A Cada Vento
  14. Sei Lá…
  15. Cidadão
  16. Soldado Sem Bandeira
  17. Vai Ser Rimando
  18. Um, Dois, Três, Quatro
  19. Fica Mais Um Pouco Amor
  20. Outras Palavras
  21. Hey Rap!
  22. Essa é Pra Vc Primo…
  23. Triunfo
  24. Eu Tô Bem
  25. Ooorra…(A Que Deu Nome a Mix Tape)

_

Faixa Recomendada:

Anúncios


Smash (Offspring, 1994)

– Por Mike Dias

No relativista mundo das artes é de se duvidar que os números por si só tenham lá grande poder, mas, apesar dessa dúvida inevitável, há de se colocar que Smash, o terceiro álbum dos californianos do Offspring, é o álbum mais vendido da história de uma gravadora independente. A sortuda foi a Epitaph Records, de Brett Gurewitz, guitarra do Bad Religion, gravadora essa que com sua banda mãe, o estouro do Offspring, NOFX, Pennywise, L7 e mais o Green Day e até o fraco Blink 182 conseguiram, de algum jeito bem peculiar, serem a linha de frente de um renascimento do punk  ali na primeira metade dos anos 90. Misturando elementos do ska, do hardcore de skatista com gostinho de Tony Hawk’s para Playstation One e do que as rádios pop tocavam à época fizeram dessa colagem, que poderia soar despretensiosa ou inábil demais, algo corajoso e bom. E de certa forma é Smash (junto com Dookie, do Green Day) que parece melhor sintetizar aquele momento e os porquês do punk (recauchutado ou não) ter vez novamente ali.

O discurso não é novo, o “germe” do anarquismo e a vontade de um dia desses pintar o “A” em algum prédio público ou mandar o tal do “sistema” a merda ainda está ali, igual estava nos Ramones, no Sex Pistols e no Clash. Com a mesma simplicidade, o mesmo idealismo pueril e realmente comovente, e a música que abre o álbum (após a introdução solene da faixa Time To Relax – um último momento para respirar antes da maratona que está por vir), Nitro (Youth Energy), já entregam que o Offspring é mais ou menos sobre ser jovem e explosivo; ou nas palavras do vocalista Dexter Holland, o clássico “viver como se não houvesse amanhã”. Viver rápido. E é esse feeling de agilidade que as 12 canções entre essa segunda e a penúltima irão passar: guitarras rápidas, riffs simples e marcantes, com letras sobre viver no limite da razão, no limiar que separa o homem da besta.

Bad Habit é sobre correr riscos da maneira mais inconsequente possível, com aquela onisciência adolescente toda, se sentindo intocável por excelência. Gotta Get Away, primeiro single do disco, decorre a respeito daquelas crises existenciais tão típicas, ter “demônios na cabeça” e não saber direito quem você é, tudo isso no vocal meio arrastado de Dexter, entre linhas de baixo, guitarra e bateria bem marcadas ao longo da música. E é essa a toada; nas faixas que se seguem são pronunciados lemas rebeldes como “cão come cão” em Genocide ou então canções sobre o rito de passagem e as perdas típicas da idade como na nostálgica Waht Heppened To You?, e a sensação de vazio de So Alone.

Um álbum temático, que acaba, assim, por ser sintomático, e parece realmente se encaixar com maestria como trilha sonora da vida de um moleque qualquer que cresceu ali nos anos 90: entre conversa jogada fora na rua, uma partida de videogame, tentativas frustradas de imitar manobras no skate e uma rodada de clipes da MTV em tempos mais saudosos da emissora, e o ápice desse lado de Smash está no hit Come Out And Play, sobre crianças que pegam armas com facilidade (Getting weapons with the greatest of ease) que acabam saindo para brincar e não voltando, porque uma para na cadeira e a outra no necrotério (One goes to the morgue and the other to jail), e nesse momento de pessimismo mais nítido e bastante sincero se prepara terreno para a grande faixa do álbum, que vem em seguida.

Self Esteem é na temática a mais pesada e no som a mais suja, os termos são mais rudes, Dexter parece menos afinado, começa a música com um “lalalá” meio alheio (plagiado na maior pela Lady Gaga em Bad Romance, se liguem) e com licença para gritar, já Noodle pode desfilar os dedos pela guitarra sem medo; um misto de dor de cotovelo com tentativa de superar um amor não correspondido mas que insiste em deixar um gosto amargo na boca e uma sensação incômoda no corpo, amar e não ser correspondido, e mais, estar “na mão” de outra pessoa, e o pior, tudo perfeitamente ciente da situação toda, hoje em dia pode soar estranho ler a letra em versos como “When she’s saying, oh, that she wants only me/Then I wonder why she sleeps with my friends”, mas há, de certa forma, algo de bastante sincero no jeito que Dexter grita isso e emenda com versos como “I may be dumb, but I’m not a dweeb/I’m just a sucker with no self esteem”, porque funciona ao seu jeito, parece diretamente saído da boca de um jovem-adulto que flerta com a desilusão pela primeira vez e tenta dar o seu jeito de ir vivendo e encarando as coisas ao seu jeito, certa ou errado. E depois disso tudo a décima e derradeira faixa-título, com seu jeito de improviso, mesclando trechos de música e de e silêncio é espaço para novamente poder relaxar ao fim da viagem de punk rock dos últimos 45 minutos.

O Offspring lançaria apenas mais dois álbuns nos anos 90, o também muito bom Ixnay on The Hombre e o cheio de hits Americana, já mais pop, e no que se sucederia o som já não mais iria parecer tão autêntico quanto em Smash, um expoente quase irretocável, na sua simplicidade, de um momento e suas sensações.

4/5

Smash (The Offspring) – 1994 – Integrantes: Dexter Holland (Guitarra e vocal), Noodles (Guitarra), Greg K. (Baixo), Ron Welty (Bateria).

_

Tracklist:

  1. Time to Relax
  2. Nitro (Youth Energy)
  3. Bad Habit
  4. Gotta Get Away
  5. Genocide
  6. Something to Believe in
  7. Come Out and Play (Keep ‘Em Separated)
  8. Self Esteem
  9. It’ll Be a Long Time
  10. Killboy Powerhead
  11. What Happened To You
  12. So Alone
  13. Not The One
  14. Smash

_

Faixa Recomendada:



Cartola (Cartola, 1976)
setembro 6, 2010, 4:51 am
Filed under: Comentários | Tags: , , , , , ,

– por Mike Dias

Há algo de estranho na história de Agenor de Oliveira, o Cartola, e isso não se deve apenas ao famoso sumiço do sambista por quase uma década onde ninguém sabe por onde ele andou. Isso é pouco comparado a tentar entender como a cena carioca do samba deixou que um dos intérpretes e compositores mais geniais da história da música brasileira só entrasse numa produtora para gravar um álbum aos 66 anos de idade em 1974, sendo que já organizava suas rodas de samba desde 1928 (no grupo de jovens – e problemáticos – sambistas Bloco dos Arrengueiros, que depois se tornou a tão amada por Cartola Estação Primeira da Mangueira).

O fato é que quando entrou no estúdio da Discos Marcus Pereira para, enfim, conceber um álbum verdadeiramente seu, Cartola se mostrava um fenômeno único. Era um senhor – nos poupando dos eufemismos – velho, a  gravar seu debut após uma vida sofrida, sem reconhecimento, onde foi de pedreiro e lavador de carro a dono de restaurante. O efeito foi o álbum homônimo de 74. Artisticamente maduro e seguro de si nos seus doze sambas. Porém o ápice viria mesmo em 1976 com outro álbum homônimo – e não me perguntem o porquê da ausência de um título diferente, o resultado disso é uma “pequena-grande” dificuldade para se referir aos álbuns, alguns preferem chamá-los de “Cartola I e II” outros optam por se referir conforme o ano – que agora sim é um trabalho pleno, o ponto máximo do samba enquanto expressão cultural de um povo, um álbum absurdamente melancólico nas melodias e dotado de um pessimismo e cinismo quase desleixado e debochado nas letras que falam do cotidiano.

O disco abre com O Mundo É Um Moinho, só isso. Uma das mais belas canções que eu já ouvi é, em seus quatro singelos versos, amarga e sincera. É também a mais visceral e dolorida música do álbum. Cartola nos golpeia com força em versos como “De cada amor tu herdarás só o cinismo” e “…o mundo é um moinho/Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”. Talvez seja diminuir o álbum num todo mas assusta como essa canção por si só é capaz de sintetizar tanta coisa.

Em seguida temos mais três canções de Cartola, todas com um instrumental incrível que fogem do óbvio e vão muito além das convenções comuns ao samba transformando as músicas em orquestras do samba, Não Posso Viver sem ela, por exemplo, tem backing vocal, trombone e até caixa de fósforos, todos perfeitamente sincronizados. Sala de Recepção se destaca pelo dueto com a sambista Creusa e pelo ode à Mangueira.

A quinta faixa é uma das duas que a composição não é de Cartola, se trata da genial Preciso Me Encontrar, famosa canção de Candeia sobre a despedida. As seguintes seguem a fórmula, sambas comoventes, sem temática definida, apenas devaneios de Cartola sobre o que a vida lhe mostrara até ali e sua decepção com boa parte disso. A espirituosa e descompromissada Ensaboa quebra o ritmo com mais um dueto com Creusa e um Cartola dessa vez olhando pros pequenos prazeres da vida e das relações. Em Cordas de Aço, que encerra o disco, Cartola, em tom de despedida, dá um muito obrigado ao violão, à música por tudo que lhe proporcionou; o prazer de compor e interpretar.

Ao seu próprio modo Cartola entrega um dos maiores expoentes da música brasileira, um samba sem amarras, sem dever nada a ninguém e sem medo de ser feliz – ou triste – preocupado apenas com a batida, com seu violão, seu cavaquinho e sua canção, com a música como forma de promulgar sentimentos e sensações.

5/5

Ficha Técnica: Cartola (Cartola) – Brasil, 1976. Gravadora: Discos Marcus Pereira. Integrantes: Cartola (voz), Altamiro Carrilho (flauta), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão e arranjos), Jorginho do Pandeiro (pandeiro), Gilson de Freitas (surdo), Nenê (agogô e cuíca), Nelsinho (trombone), Meira (violão), Elton Medeiros (ganzá, tamborim e caixa de fósforos), Abel Ferreira (saxofone), Wilson Canegal (reco-reco), Zé Menezes (viola), Creusa (voz).

Tracklist:

  1. O mundo é um moinho
  2. Minha
  3. Sala de recepção
  4. Não posso viver sem ela
  5. Preciso me encontrar
  6. Peito vazio
  7. Aconteceu
  8. As rosas não falam
  9. Sei chorar
  10. Ensaboa
  11. Senhora tentação
  12. Cordas de aço

Faixa Recomendada:



2112 (Rush, 1976)
agosto 30, 2010, 12:45 am
Filed under: Comentários | Tags: , , , , , , ,

2112

– por Mike Dias

Quando surgiu no final da década de 60 o Rush era uma banda essencialmente de Hard Rock. Bem, era um jeito diferente de executar o estilo o que vimos no primeiro, e homônimo, álbum da banda que só foi sair em 1964, o vocal era “ópera” demais, a sonoridade era mais soul music que o comum, mas o som era bom e chamou a atenção de alguns nichos por aí, apesar de não ter tido grande sucesso comercial. Um ano depois quando eles foram gravar o segundo álbum da banda, Fly by Night, a influência do rock progressivo, que viria a ser onde o Rush se encontraria musicalmente, onde haveria espaço para se desprender no formato comercial, da cartilha de como se fazer rock e de extravasar todo o talento deles como instrumentistas começava a dar as caras, mas a recepção por parte da crítica e do público foi morna e foi assim também com Caress of Steel, terceiro álbum.

Em 1976 lá estavam eles para realizar o mais ousado, conceitual e inventivo projeto da banda e um dos mais da década de 70, 2112. A gravadora torceu o nariz, apesar do “prog” estar em alta e The Dark Side of The Moon do Pink Floyd que batia recorde atrás de recorde de venda não parecia uma boa ideia um álbum que começava com uma faixa de mais de 20 minutos e dividida em sete “episódios”, não é radiofônico. Mas quem leu e ouviu entendeu. O que o Rush propôs aqui foi um álbum temático, uma história futurística e espacial, um sci-fi definitivo em forma de rock.

A faixa-título – a tal de 20 minutos – começa com uma espécie de interlúdio (o que viria a se repetir entre cada parte da faixa), ao que parece a porta de uma nave se abrindo para o começo de uma jornada, e após uma fantástica sequência instrumental começamos a ser introduzidos a um homem, um dos “Sacerdotes dos Templos de Syrinx”, um sujeito que acha que pode fazer diferente e demonstrar toda sua revolta e desapontamento com a sociedade através da sua música. Um recado de Neil Peart, baterista e letrista, sobre como ele estava decepcionado com o que a indústria lhes mostrara até ali? Provavelmente, ainda mais quando ouvimos no quarto segmento “Instead of the grateful joy that I expected, they were words of quiet rejection!” (“Ao invés do agradecimento entusiasmado que eu esperava, eles eram palavras de rejeição” em tradução livre) Era assim que o Rush se sentia e foi aqui que eles exorcisaram seus demônios e se colocaram prontos e armados para o sucesso.

Após 20 minutos de deleite e amargura vem o single de maior sucesso do album, Passage to Bangkok muda a toada, aqui temos guitarras rápidas e um som que lembra aquele lá do começo, mais simples, mas não menos encantador, é uma música diferente, e importante por nos colocar os pés no chão após a viagem de há pouco, tanto na sonoridade como na singela letra de quatro versos que traz nosso herói de volta para o Planeta Terra, numa viagem de trem rumo à Bangkok do título.

The Twilight Zone é uma das minhas favoritas e onde se faz mais marcante o – tão amado por uns e odiado por outros – vocal estridente de Geddy que aqui alcanças notas incríveis numa bela canção sobre a tal Zona do Crepúsculo, onde a realidade é uma ilusão e se pode tudo, trazendo de volta a temática iniciada na primeira música. Em Lessons temos a mais ágil faixa do disco, com a bateria Neil super presente e a guitarra de Alex violentíssima, “hardzão”.

A penúltima faixa, Tears, é a mais melódica e depressiva, não dá para saber se as Lágrimas do título são por um amor perdido ou um erro do passado e aqui são claras as referências ao ocultimo também presente na polêmica capa de Hugh Syme, acusada de demoníaca (que novidade) e que acabou por virar o logo da banda.

A derradeira Something For Nothing é também das mais simbólicas, aqui há resquícios de esperança após as derrotas e anfibologias que se passaram, e essa esperança mora no sujeito, no indivíduo livre de obrigações e do Estado opressor, no libertarianismo (ou anarco-capitalismo como alguns preferem chamar) defendido por Neil. Viva por você e tão somente por ti, não acredite que algum sonho é grande demais ou alguma idéia ousada demais, é isso que o Rush mostra aqui. Eles acreditaram que podiam ir um pouco além do que até os seus mestres tinham ido, e foram. E tiveram o reconhecimento que não viera anteriormente, 2112 emplacou nas rádios com suas canções de menor duração e conquistou um triplo disco de platina. Época certa, pretensões certas e um álbum sensacional, para ser ouvido de uma vez só, porque é uma obra homogênea, sintomática, para esquecer os rótulos, ignorar a fama de primeiro álbum verdadeiramente progressivo do Rush e das obrigações que isso traz e apenas ouvir e apreciar essa viagem.

5/5

Ficha técnica: 2112 (Rush) – 1976, Canadá – Gravadora: Anthem Records – Músicos: Geddy Lee (baixo, violão, vocal e teclados), Alex Lifeson (guitarra e violão), Neil Peart (bateria e percussão), Hugh Syme (tecladista convidado em Tears).

Tracklist:

  1. 2112
  2. A Passage To Bangkok
  3. The Twilight Zone
  4. Lessons
  5. Tears
  6. Something for Nothing

Faixa recomendada: