Tequila Radio


9 (Damien Rice, 2006)

por Felipe Fofinho

Quando “The Blower’s Daughter” foi introduzida no entorno musical brasileiro, em meados de 2005, muito pouco – ou nada – se sabia sobre Damien Rice, o jovem irlandês que assinava a autoria da canção. Reconhecida em primeira instância por embalar as adversidades de casais disfuncionais em Closer, drama do diretor Mike Nichols, a música posteriormente encontrou resguardo nos melodramas de meio mundo de enamorados, e se converteu no mantra “particular” de pelo menos 10% da comunidade afetivamente ativa do mundo (não há legitimidade científica nessa porcentagem, mas há uma nobreza compensadora em minha vontade de ser preciso). No Brasil, “The Blower’s Daughter” se alastrava em execuções ilimitadas nas estações de rádio, inspirava músicos nacionais a articular suas próprias versões, era entoada de cabo a rabo por qualquer travesti de esquina e liderava o ranking de música mais utilizada como background em montagens românticas de PowerPoint e upadas no Youtube (também não disponho de fontes documentais para autenticar esse ranking, mas não desistam de mim).

O resultado desse frisson não poderia ser outro: o público pecou por excesso e a canção assumiu uma imponência maior que o indivíduo que a idealizou. Até mesmo o julgamento do bom ouvinte, do apreciador equilibrado, foi prejudicado, de modo que a linha que dividia a proliferação irritante do single e o talento do artista foi destruída, e Damien Rice se transformou, fatidicamente, em uma generalização; no “cara daquela música mais cafona que lambada”. Refletir sobre esse fenômeno refreou meu desejo de escrever sobre o formidável “O”, trabalho de estréia do músico, pois ele é o berço e o seio da afamada canção. Seria aliciar memórias ruins, jogar sal na ferida, abrir uma caixa de Pandora que devemos manter fechada, e apropriado disso, pensei em uma alternativa mais prudente: comentar outro projeto do cara, outro momento de sua carreira, outra variante de seu repertório. Decidi me debruçar sobre o segundo álbum do cantor, o “9”, de 2005. Não deixa de ser Damien Rice, eu sei, mas eu não poderia redirecionar bruscamente o foco do texto para, sei lá, Sula Miranda; não a esta altura, compreendam.

Pois bem, o diferencial imediato entre os dois álbuns é discreto, mas pode ser percebido já na primeira audição. Nota-se que “9” rompe ligeiramente com a base melódica de “O”, que é estritamente lenta, cadenciada. A desilusão, o desgaste emocional e a ambigüidade moral, marcas pessoais de Damien, continuam ali, imperturbáveis, mas em uma faixa e outra, suas letras flertam com arranjos mais enérgicos, tal acontece com “Coconut Skins”, um baladão acústico devidamente enraizado no violão que evoca o espírito de Dylan nos idos de “Highway 61 Revisited”. Entre os versos, debocha da sinceridade, questiona até que ponto faz sentido desovar e ruminar sentimentos quando um relacionamento pode ser bem sucedido no cinismo, alheio a cobranças e satisfações: “Não é necessário saber / O que você está fazendo ou esperando / Mas se alguém perguntar / Conte que têm lambido cascas de coco / E que a gente tem saído juntos / Diga pra eles que Deus acabou de dar uma passada para perdoar nossos pecados / E aliviar nossa dúvida”. Essa matiz, mais jocosa e otimista, é evocada em outros momentos do álbum – na faixa “Dogs”, por exemplo – e fortifica a constante duplicidade com a qual as emoções são assimiladas nas canções do irlandês.

Contudo, os maiores momentos do projeto ainda repousam nas canções lúgubres e dilaceradas de angústia que deram o sopro de vida à carreira do músico. Em “9”, Damien submerge num espiral de desalento e versa obsessivamente sobre amargura e abandono, remói as dores e desventuras de relacionamentos nocivos, autodestrutivos, e ainda assim, repletos de desejo irracional, irrenunciáveis. Em “Accidental Babies”, o compositor figura um diálogo com sua ex “outra metade”, um diálogo sobre o fim. Hipnotizado de ressentimento, pergunta se sua amada goza na companhia do novo parceiro, nos versos adiante, consuma essa indiscrição com uma súplica desesperada: “Bem, eu sei que faço você chorar / E eu sei que, às vezes, você quer morrer / Mas você se sente realmente viva sem mim? / Se sim, então seja livre / Se não, deixe-o por mim / Antes que um de nós tenha bebês acidentais”. Damien não assume medo ou vergonha de sujar as mãos, propõe uma acareação entre genitálias, idolatra o vício da carne e em momento algum tenta se distanciar do ato com metáforas adocicadas. A abordagem é basicamente a mesma em todas as outras faixas, um manifesto vezes sereno, vezes obsceno, e sempre brutalmente honesto sobre sexo, existencialismo e o que há de mais inevitável e unânime entre os seres de nossa raça: solidão. O mais paradoxal – ou nem tanto assim – é que tamanha verdade e entrega acabam por transformar essa epopéia da dor e ceticismo em uma serenata de extrema beleza, sensibilidade e romantismo, afinal de contas, não há amor sem ambivalência.

É triste, meus caros, é soturno, é coisa pra gente impressionável comprar uma resma de papel sulfite e cortar os pulsos, é o Lado B de “The Blower’s Daughter”, que a Rede Globo, Seu Jorge e Ana Carolina desconhecem… É o bom e velho (e fodidamente apaixonado) Damien Rice.

4/5

9 (Damien Rice) – 2006 – Integrantes: Damien Rice (vocais, violão), Lisa Hannigan (vocal e piano), Vyvienne Long (violoncelo).

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Tracklist:

  1. 9 Crimes
  2. The Animals Were Gone
  3. Elephant
  4. Rootless Tree
  5. Dogs
  6. Coconut Skins
  7. Me, My Yoke and I
  8. Grey Room
  9. Accidental Babies
  10. Sleep Don’t Weep

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