Tequila Radio


Loveless (My Bloody Valentine, 1991) by Vanessa A.
abril 8, 2012, 1:44 pm
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– Por Katrina V.

6/04/2012: Kevin Shields avisa: Vem aí o terceiro álbum do MBV. E o que nós fãs esperamos? Que seja pelo menos, 40% do que foi o último trabalho da banda, a obra prima Loveless. E já seria disparado o melhor álbum do ano, chutando a bunda de muita banda indie cheia de firula que existe hoje em dia. Simples assim.

Até hoje não há uma explicação lógica para o surto ocorrido em 1991, disparado, o ano mais criativo para o rock. No dia 12 de agosto, o Metallica lançaria o Black Album que redefinira o metal, levando-o ás primeiras posições da Bilboard. No dia 23 de setembro o Primal Scream lançaria o endiabrado Screamadelica, trazendo para o rock todo o clima das raves eletrônicas e do seu combustível, o ecstase. Um dia após, o mundo não seria mais o mesmo com o lançamento de Nevermind, arrastando consigo todo o peso e clima sombrio de Seattle e tirando todas as camisas de flanela do armário. Já no dia 4 de novembro dois álbuns fundamentais para o indie rock seriam lançados: Bandwoganesque, da banda mais amada, o Teenage Fanclub e a obra prima do shoegazing (e claro, do rock): Loveless. Tirando o Nirvana e o Metallica, as demais bandas citadas foram lançadas pelo selo Creation Records, uma verdadeira galinha dos ovos de ouro na reinvenção do rock da época.

O MBV surgiu em 1985 em Dublin, Irlanda (se a Irlanda foi ingrata em dar ao mundo nos anos 80 o U2 e o Cranberries, conseguiu se redimir com o MBV) e em nada soava com o estilo que os consagraria (e que dizem que foram, inclusive, os criadores) o shoegaze (o estilo se resumiria a uma coleção de distorções das guitarras que impossibilitava a audição dos demais instrumentos e a vozes etéreas, extremamente suaves. Além claro,  da postura típica das bandas, que não encaravam o público. Daí o termo showgaze: Encarar os sapatos). O MBV tal como o conhecemos, surgiria definitivamente em 1988, com o seu primeiro álbum, o belíssimo It’s anything, que já mostraria muito do que consagraria a banda e a destruiria: o perfeccionismo levado aos extremos por seu líder, Kevin Shields. Diz a lenda que Shields sofre  de uma doença causada pela contínua exposição a sons muito altos, chamada tinitus, um desarranjo crônico nos tímpanos que faz com que o portador ouça permanentemente um zumbido. Uma das explicações de Shields para a música do MBV seria de que ele tentava apenas reproduzir todos os sons que existiam em sua cabeça. Faz sentido. A Creation Records tendo It’s anything como prova definitiva de que deveria manter o MBV em seu catálogo e apostar nos trabalhos posteriores da banda, renova o contrato com os irlandeses. Porém, não imaginaria que seria o seu pior erro. Não que a banda, antes do lançamento de Loveless, fosse apenas um quarteto querendo colocar as fuças para fora da garagem: o MBV já tinha conquistado uma certa respeitabilidade junto a imprensa inglesa e, sim, era figurinha do staff da gravadora Creation, um selo que já tinha em seu currículo nomes como Jesus And Mary Chain e Primal Scream e de certa forma respondia por alguma coisa de vanguarda da época. O disco anterior, tinha mostrado evoluções significativas na personalidade e no feitio sonoro da banda, que saiu de um som estritamente simples e ruidoso para uma sugestiva mistura antagônica de barulho com melancolia, receita que se transformaria no seu slogan.De alguma forma, “Isn’t Anything” já dava um grande passo nesse sentido, mas ainda deixava lacunas a serem preenchidas por Kevin Shields, mentor da banda. Crítica e público então não hesitaram em depositar expectativas no lançamento do disco seguinte, uma prática que ali iniciaria e marcaria até hoje o sentimento de quem aprecia a música do quarteto. Paciência sempre foi uma virtude para a banda. Junto de Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm O’Ciosoig, Shields entregou-se ao trabalho de construção do disco num ritmo aplicado, cauteloso e (mais um adjetivo comum quando se fala em MBV) perfeccionista. Fossem problemas com as parafusetas das guitarras, com a mesa de som ou com a condição homeless do baterista, Shields ia contornando as circunstâncias, empurrando a produção de seu disco para além do que a gravadora esperava. O que para a Creation devia ser apenas um lançamento para gerar retorno, para o MBV tornou-se um compromisso de transferir para fita as intenções sonoras de Shields. De 1989 a 1991 o MBV passaria produzindo Loveless, em dois anos, foram 17 engenheiros de sons, 19 estúdios (mais o estúdio próprio de Shields) e meio milhão de dólares. Até hoje, Loveless foi o álbum mais caro de uma banda independente, o que levou a quase ruína da Creation Records. O álbum não foi um sucesso de vendas, e muito menos reverteu o prejuízo para a gravadora, mas fez com que a crítica especializada o transformasse em mítico, uma obra de arte em meio a sujeira que reinava em 1991.

O resultado, “Loveless”, chegou às lojas no dia 4 de novembro de 1991, depois de toda a pressão da gravadora para que Shields entregasse o álbum. O disco automaticamente ultrapassava seu anterior, desvelando  uma bruma lânguida e onírica de vozes etéreas soterradas sob um vasto rumor de guitarras distorcidas e samples de tom frequentemente indeterminado. “O som de Deus espirrando em câmara lenta”, foi como a Guiness Rockopedia o descreveu.  A melancolia serena das nuvens sonoras do Loveless, suas letras que flutuam entre o erótico e o romântico, as vozes de Shields e Bilinda se fundindo à massa sonora de suas canções, é tudo milimetricamente perfeito, planejado por um gênio que sabia exatamente que tipo de sentimentos desejava suscitar em seu ouvinte. “Onírico”, “etéreo” e tantos outros adjetivos exaustivamente utilizados pelos fãs constituem um clichê, é verdade, mas não por isso menos verdadeiro. Na época, ninguém menos que Brian Eno considerou “Soon” (a música que fecha o disco) “o estabelecimento de um novo padrão para o pop”. Sobretudo, “Loveless” pega o legado do disco anterior e cria sobre ele um universo todo particular, que é a grande razão de sua veneração. Impossível não apontar aqui o jargão atribuído à banda, que o disco fatalmente consagrou e é o seu verdadeiro triunfo: nele repousa o aclamado amálgama entre ruído e melodia. Embora constantemente citado como a “bíblia do shoegazing”, “Loveless” passa longe da podolatria, mostrando-se um exercício meticuloso de seu compositor. Sua graça toda está na tentativa de descobrir a linha tênue entre o barulho e a delicadeza, escondida meticulosamente na extensão do álbum. Seus dois atributos caminham juntos, quase siameses, e o que por um lado é uma grande maçaroca de ruídos, é também uma verdadeira aula de melodia e melancolia. Shields faz uso de verdadeiras fortalezas de guitarras distorcidas, geralmente loopeadas, assim como o faz com os samplers de bateria e o baixo, que trabalham lá embaixo da mixagem. Se os dois últimos instrumentos nunca foram tão coadjuvantes no som de uma banda, os vocais têm uma participação igualmente peculiar. Shields usa-os como um instrumento adicional, suaves, encarregados de responder pela melodia de “Loveless” e entrar em conflito com a tormenta ocasionada pelas guitarras. Para tanto, abusa da fragilidade sugerida pela voz feminina de Bilinda, sempre tomando cuidado para que a pronúncia das letras fique soterrada, inteligível, apostando na sugestão de declarações de amor ou manifestações tímidas de qualquer condição emocional. Tudo isso, em conjunto, cria uma simbiose difícil de ser imitada e, principalmente, colocada em texto. Tentar identificar o que é guitarra, o que é vocal e o que é algum truque é impossível, e essa combinação é infalível na tarefa de chamar a atenção do ouvinte. Os ingredientes combinados sobrepõem-se sobre o concreto, cutucando a percepção sensorial, já que estamos falando de música que não é instrumental mas também não comunica através de letras. As coisas estão mesmo aglutinadas na correria inconseqüente que as guitarras fazem em “To Here Knows When”, na melodia explícita e abundante de “I Only Said” e no pop mybloodyvalentinesco de “When You Sleep” e “What You Want”. “Sometimes”, faixa usada por Sofia Coppola em seu “Lost In Translation”, condensa a idéia da banda direitinho: Shields canta suave uma melodia redentora, mas as guitarras saturadas encantadoramente entram em sintonia com ele, dando ao arranjo o direito de dispensar a bateria.(Vale ressaltar que “Sometimes” é a minha canção favorita da banda e a mais melancólica que já ouvi. Quem já foi abandonado e sofreu por isso vai saber exatamente onde esta canção irá doer)

Mas na maioria dos quase 50 minutos de Loveless, a atmosfera é densa e esconde a sensualidade presente no My Bloody Valentine (nas letras ou nos vocais de Kevin Shields e Bilinda Butcher). Seja no dream pop de “To Here Knows When” e “Blown a Wish”, deixando transparecer a influência dos Cocteaus Twins; no experimentalismo do interlúdio “Touched” ou quando a banda só lembra a si própria (e aí se encaixam “Only Shalow” – que abre o disco – e todas as outras músicas), tudo é nublado, um tanto claustrofóbico, e estranhamente sentimental.

A banda influenciou um espectro indefinível que vai dos mais lisérgicos conjuntos atuais (Deerhunter, Radio Dept, Blonde Redhead) até o dream pop (Mercury Rev, Flaming Lips), passando pelos britânicos mais tradicionais (Oasis, Verve, Blur, Radiohead), os alternativos em geral (Interpol, Black Rebel Motorcycle Club, Ladytron), o chamado nugaze (Silversun Pickups, Asobi Seksu, Fleeting Joys), inegavelmente todo pós-rock (Mogwai, Explosions in the Sky, Sigur Rós) até bandas norte-americanas de peso como NIN e Smashing Pumpkins.

A genuinidade de “Loveless” não só continua desafiando músicos e ouvintes até hoje, como apresentou-se um problema intransponível para a banda. Em acordo com a Creation, que queria ver Kevin Shields pelas costas (“Loveless”, embora reconhecido, não vendeu o suficiente para pagar seu financiamento), o MBV assinou com a Island, evidentemente interessada em conciliar a banda com o grande público. A nova gravadora recheou os bolsos de Shields com libras, investidos na construção de um estúdio que daria suporte à criação do sucessor de “Loveless”. Passaram-se 21 anos e a Island ainda espera pelo sucessor. Segundo boatos, alguns confirmados por Shields, a banda já possuí quase 40 horas de música, porém, Shields receia que o material produzido não supere Loveless. Já dado como certo o lançamento do terceiro álbum ainda neste ano pelo vocalista e mentor, em entrevista ao site Pitchfork, só resta aos fãs um pouco mais de paciência.

No final das contas, Loveless pode não ser o marco zero do shoegaze muito menos o álbum que ditou os rumos da música independente, mas é com certeza a pedra filosofal de onde outros alquimistas das distorções tiraram suas lições para tentar realizar a grande obra.  Mas outro álbum como este, se acontecer, somente numa dimensão paralela. Ou não, né Kevin?

5/5

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Tracklist

  1. Only Shallow
  2. Loomer
  3. Touched
  4. To Here Knows When
  5. When You Sleep
  6. I Only Said
  7. Come in Alone
  8. Sometimes
  9. Blown a Wish
  10. What You Want
  11. Soon

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Ficha Técnica

Loveless – 1991 – My Blood Valentine: Gravadora – Creation Records. Kevin Shields (vocais e guitarra), Bilinda Butcher (vocais e guitarra), Debbie Googe (baixo) e Colm O’Ciosoig (bateria)

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Bad as Me (Tom Waits, 2011) by Bernardo Brum
novembro 17, 2011, 10:38 pm
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por Bernardo Brum

“Eu sou a última folha na árvore. O outono levou o resto, mas eles não me levarão”, é o que afirma Tom Waits em Last Leaf, uma das últimas canções de sua mais nova obra-prima, Bad as Me. Constatação óbvia, mas necessária de um artista que, dentre tantos outros que primavam pelo caminho do pouco óbvio – Frank Zappa, Captain Beefheart, Screamin’ Jay Hawkins etc. – foi um dos poucos que sobreviveram. Ignorado, estranhado, taxado de louco, bizarro e hermético. Aos sessenta e dois anos, ainda é anacrônico como nunca.

Ainda no seu estilo inimitável – ponto de convergência entre rock, blues, jazz, folk, tango, industrial, vaudeville e tudo que é interessante, curioso e marginal – adotado de forma definitiva desde que se casou com sua parceira musical Kathleen Breenan – produtora do disco junto a Waits, Bad As Me é aquele raro tipo de disco multifacetado que jamais dispara para todos os lados – é ao mesmo tempo diverso e autoral. É infernalmente pesado, tem a delicadeza de uma pluma. Expressa a raiva dos oprimidos e lamentos de miseráveis. Sua voz e postura performáticas transitam facilmente entre a fanfarronice alcoólica, entre a paixão sacra, luxuriosa e proibida, e o desespero derrotado e indignado.

Pragmático em sua constante metamorfose, o que move Waits não é a transcendência, mas a redenção que só estradas, bares e conversas trazem. Aquela redenção que só romances fracassados, brigas estúpidas, pequenos medos e acontecimentos irrelevantes ensinam. O beatnik músico – discípulo da selvageria poética de um Ginsberg e da inquietação de um Kerouac e da perpiscácia ébria e maldita do honorário velho safado Bukowski  – passeia por vários contextos, e pisa em todos eles ao mesmo tempo. Morde e assopra, beija e grita ao mesmo tempo.

Mesmo com sua visão pessimista e debochada do mundo, Tom ainda é um idealista, por mais irônico que esse paradoxo seja. Está sempre querendo fugir, mudar, reconfigurar: em Chicago, diz que “Não teremos que dizer adeus se todos fugirmos/Talvez tudo esteja melhor em Chicago”. Opera em todos os níveis, inclusive o afetivo; em Back in the Crowd, pede a quem quer que seja endereçada a música que “se você não quer o meu amor/não me faça ficar”. A vontade de sair da rotina e do conformismo de qualquer jeito também é expressa no delicado jazz Kiss Me, onde o crooner Waits evoca Louis Armstrong para propor: “Eu quero que você me beije como uma estranha mais uma vez/Eu quero acreditar que nosso amor é um mistério/Eu quero acreditar que nosso amor é um pecado”.

E há, claro, Bad as Me, a dicotômica faixa título. Evocando imagens estranhas, urbanas e familiares (uma chave perdida, uma carta de Jesus na parede do banheiro, detetives insones, barcos que não afundam), Tom cria dois personagens, eliminando a distância entre eu e seu duo: “Você é o mesmo tipo de mal que eu”. Recusa a lógica existencialista de “os infernos serem os outros”. Somos todos miseráveis no mesmo barco da vida (e como dizia em seu álbum Blood Money, “a miséria é o rio do mundo” – e talvez o nosso sustento venha dela), todos em busca de um significado maior, de um ponto final – de um lar que talvez jamais encontremos. E se Tom é condenável por perceber e aceitar isso, o interlocutor compartilha do mesmo tipo de maldade – da tragédia e do cinismo de ser humano.

Em um álbum plural como Bad as Me, há tanto espaço para o falsete em Talking at The Same  Time – que com seu ritmo cadenciado expressa profundo desconforto para o mundo – quanto para a sua monstruosa e tradicional voz, como a galhofeira e dançante Get Lost, uma verdadeira fuga do tradicional escapismo da música pop (“Tempo não quer dizer nada/Dinheiro menos ainda/(…)/Eu quero ir me perder”). As duas vêm na sequência da segunda canção, Raised Right Men, que com o marcado baixo funky de Flea e com seus picos no meio de um ritmo incerto, afirma que não existem pessoas bem criadas o suficiente nesse mundo. É o lado rústico, grosseiro e desencantado do álbum, que comenta tanto a falta de decência do ser humano em grupo, no geral quanto a falta de sorte e afeto mútua.

O lado agressivo de Bad as Me é representado tanto em Satisfied (é Tom conjugando sob o mesmo teto o rythm ‘n’ blues primitivo da guitarra de Keith Richards e a pesada esquisitice do baixo de Les Claypool, do Primus) quanto na apocalíptica Hell Broke Luce, uma literal porrada massacrante, onde despida a ironia, só sobra um vômito agressivo de repugnância sobre o mundo (“Eu tinha uma boa casa, mas eu a deixei/A porra daquela grande bomba me deixou surdo” e “Como é possível que os únicos responsáveis por criar esta bagunça/Estejam com suas miseráveis bundas presas às mesas deles”). Para Waits, a fuga é iminente: a civilização é um barco em pleno naufrágio, e quem não nadar logo para longe afundará junto.

A sensação de outcast, de pária e desajustado, é recorrente por todo o álbum: se Satisfied afirma que Tom arrancará alguma satisfação da vida antes de ir embora, a balada Face to The Highway cria um mundo de interdependências apenas para afirmar no refrão que “eu virei minha face para a estrada/e darei as costas para você” e Pay Me é sucinta em seu tom desafiador e sua sonoridade à lá Rain Dogs providenciada pela mistura de acordeão, guitarra e violino: os versos iniciais dizem nada menos que “Me pagaram para não voltar para casa/Me deixando chapado/Eu não irei correr”… A pluralidade de sensações, o antagonismo de cada um nós para com nós mesmos e com os outros. O disco Bad as Me veio não para explicar e trazer sentido, mas para confundir, desorganizar, questionar, virar a música que estamos convencionados a ouvir de cabeça pra baixo.

O tom geral das letras mostra que para Waits, não há nada pior do que a estagnação, a sensação de estar parado e nunca progredir. Aqueles que sobrevivem à selvageria desse mundo (como diz o título de um disco seu “Bone Machine”, vivemos dentro de uma máquina de moer ossos) são poucos, excêntricos na mesma medida em que são vivos – ele quer beijar sua companheira de tantos anos como uma estranha, voltar a se confundir com a população, abandonar tudo e voltar para a casa, fugir para a nostalgia, ir embora, sumir e sente repulsa e ao mesmo tempo pena do que é coletivo, do que não é singular, enxergando-os como uma multidão de vozes indefiníveis que jamais será capaz de ver que todos compartilham do mesmo mal e da mesma delícia.

Essa viagem por toda carreira de Tom – desde os tempos melancólicos de Closing Time e The Heart of Saturday Night, à metafísica estranha e ébria de Swordfishtrombones, Rain Dogs e Frank’s Wild Years e a agressividade seca, bruta e niilista e ao mesmo tempo frágil lamuriosa de Bone Machine e Mule Variations – tudo isso resumido em um disco, alcança seu final na jazz-ballad New Year’s Eve, onde em sua letra ditada em pleno fluxo de consciência porém guiada com maestria em suas emocionadas linhas vocais, pregando aquele certo momento de união das pessoas mais miseráveis nos momentos mais difíceis. Em meio a vários fatos narrados pelo eu lírico, há espaço para que ele lembre que “Era dia de ano novo/E todos nós começamos a cantar:/Não deveria todo conhecimento ser esquecido/E nunca trazido à mente/Não deveria todo conhecimento ser esquecido/Em nome dos bons e velhos tempos?”. Ele conclui que tudo deve ser esquecido, nada deve ser trazido à tona. O passado não deve ser remoído, deve-se olhar para a frente.

No próximo ano, todos seremos melhores. E tudo dará certo, queremos acreditar – ainda que fé na beleza seja tão difícil na era da razão. Alguns de nós, ano que vem, não estarão mais aqui. Outros ainda resistirão e continuarão a cantar as dores inaudíveis de um mundo barulhento demais – como Tom, a última folha do outono e a primeira da primavera, constantemente gastando a carne e renovando o ser e tantos outros. São os “frágeis senhores da guerra”, ele, Dylan, Lou Reed, Nick Cave, Leonard Cohen, Neil Young – gente que perdeu o jogo, mas que ainda joga de “teimoso” na grande roda. Os “rain dogs”, perdidos na chuva ao perderem o próprio rastro, que querem o quanto antes voltar para casa – tanto a casa do seu período infante, aquela dos sonhos e das memórias, quanto a metafórica, a unidade, Deus ou a poeira de estrela, você decide como chamar.

Isso é Bad as Me: a fuga, a diversidade e a desorganização em nome da unidade, do sincretismo, de alguma fé absurda no inverificável. Um chute na canela da percepção arbitrária de mundo. O tipo de música que só Tom Waits sabe fazer, afinal de contas.

5/5

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Ficha técnica:

Bad As Me (Tom Waits) – 2011 – EUA. Integrantes: Tom Waits (vocal, guitarra, piano, percussão, banjo) e outros, incluindo Keith Richards, Flea e Les Claypool.

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Tracklist
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  1. Chicago
  2. Raised Right Men
  3. Talking at The Same Time
  4. Get Lost
  5. Face to The Highway
  6. Pay Me
  7. Back in The Crowd
  8. Bad as Me
  9. Kiss Me
  10. Satisfied
  11. Last Leaf
  12. Hell Broke Luce
  13. New Year’s Eve

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Faixa recomendada:



A Night at The Opera (Queen, 1975) by Luiz Carlos
setembro 5, 2011, 5:18 am
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– Luiz Carlos Freitas

Em 1975, mesmo após a boa recepção de seus primeiros três álbuns, Queen, Queen II e Sheer Heart Attack – esse último, responsável pela internacionalização da banda -, o Queen ainda dispunha de um sucesso relativamente modesto. A crítica, principalmente, ainda não se dava por convencida de que o grupo britânico tinha muito o que oferecer ao cenário artístico da época, tampouco à posteridade. Mas não era isso que Mercury pensava. Perfeccionista, ele sabia que o Queen era muito mais do que o mundo estava preparado para aceitar e lutaria até o fim para conseguir firmar isso. Juntos com ele nessa batalha, estavam o guitarrista Brian May, o baixista Roger Taylor e o baterista John Deacon; suas armas: ousadia, persistência e – claro – talento quase sobrenaturais. E a materialização definitiva disso seria o disco A Night at the Opera.

Com seu título baseado na comédia homônima de 1935 dirigida pelos irmãos Marx, o álbum é até hoje aclamado como o ápice criativo do grupo e uma das maiores obras da história da música. Sua concepção foi turbulenta, com o perfeccionismo de Freddy batendo de frente com os produtores da banda, que o achavam demasiado exagerado em suas exigências, como por exemplo ter cada linha instrumental gravada separadamente em um estúdio próprio (o que acabou sendo acatado, no fim das contas), além do caso envolvendo Norman Sheffield (a quem Mercury se referia vez por outra nas apresentações como “o maior filho da puta que já conheceu”), ex-empresário da banda que desviou para si grande parte do lucro das vendas e apresentações e quase afundou as finanças do grupo.

Mas após alguns meses de intensa elaboração a pés firmes, a gravação final saiu impecável como esperado e o resultado surpreendeu a todos, com o disco emplacando os primeiros lugares de vendas e execuções nas rádios por semanas seguidas, projetando definitivamente o nome do Queen e, principalmente, de Freddy, seu líder. Contudo, é imprescindível citar que o endeusamento popular ao vocalista acaba, por vezes, injustiçando os demais integrantes. Não desmerecendo nenhum dos elogios dirigidos ao dentuço, indiscutívelmente um dos artistas mais completos que esse mundo já viu, mas não deve-se deixar que isso ofusque o que realmente era o Queen: a união harmônica de quatro brilhantes artistas que, assim como Freddy, tinham larga responsabilidade no sucesso do grupo. A Nigh at The Opera acaba sendo crucial para confirmação dessa tese.

O processo de criação das músicas acaba se dando de forma bem pessoal, com todos tendo vez para cantar nas faixas, além da particularidade na criação das letras e, óbvio, a total habilidade com seus próprios instrumentos (Brian May é um dos maiores guitarristas já vistos). Algumas das melhores faixas são de inteira responsabilidade desses membros “secundários”, como ‘I’m in Love With My Car’ e ‘You’re My Best Friend’ – cantadas respectivamente pelo baterista Roger Taylor e pelo baixista John Deacon – , além de ‘Good Company’ e ’39″‘, que recebem a voz de Brian May.

Na verdade, não existe necessariamente uma faixa de cada um. Os quatro foram ativos em todas as músicas, celebrando o título e construindo verdadeiras óperas do rock (as três primeiras faixas – ‘Death on Two Legs (Dedicated To…)’, ‘Lazing on a Sunday Afternoon’ e ‘I’m in Love With My Car’ – se completam sem cortes, como um ato de ópera), e o grande apogeu disso pode ser observado em ‘The Prophet’s Song’ e ‘Bohemian Rhapsody’, as duas faixas mais elaboradas do disco, com seus arranjos extremamente técnicos e complexos, além das experimentações e peripécias vocais de Freddy. ‘Bohemian Rhapsody’ é definitivamente o maior feito do disco. Mesmo com sua estrutura até então inédita a um trabalho com foco tão comercial quanto pretendido, foi um sucesso nas paradas, sendo tocada à exaustão várias vezes ao dia em todas as estações. E muito mais que isso, é talvez a maior realização musical de todos os tempos.

Olhando além de todas as suas qualidades, ainda vemos o legado que A Night at The Opera deixou. Com o disco, o Queen deixou bem claro que o público poderia, sim, estar pronto para inovações desse porte. A ópera e o rock já haviam flertado antes (os exemplos mais icônicos anteriores ao Queen são Tommy, do The Who, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie), mas nunca da forma como fora apresentada aqui. Particularmente, ainda hoje, mesmo quase 40 anos após seu lançamento, A Night at The Opera não conseguiu ser superado ou sequer igualado. Uma perfeita e completa obra de arte.

5/5

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Ficha Técnica:

A Night at The Opera (Queen) – 1975 – Integrantes: Freddy Mercury (vocal, piano), Brian May (violão, guitarra, koto, ukelele, harpa), Roger Taylor (bateria, gongo, tímpano, pandeiro), John Deacon (baixo)

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Tracklist:

– Lado A

1. Death on Two Legs (Dedicated To…)
2. Lazing on a Sunday Afternoon
3. I’m in Love With My Car
4. You’re My Best Friend
5. “39
6. Sweet Lady
7. Seaside Rendezvous

– Lado B

1. The Prophet’s Song
2. Love of My Life
3. Good Company
4. Bohemian Rhapsody
5. God Save the Queen

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Faixa Recomendada:



Cherry Pie (Warrant, 1990) by Luiz Carlos
agosto 12, 2011, 11:05 pm
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– Luiz Carlos Freitas

Hoje, 12 de Agosto de 2011, data de publicação desse texto, foi divulgado pela imprensa que Jani Lane, ex-vocalista do Warrant, havia sido encontrado morto num quarto de hotel em Los Angeles. Jani estava longe de ser um gênio revolucionário da música, mas fundou e, graças a sua energia e talento pulsantes,  alavancou um dos grupos mais carismáticos e marcantes do movimento da história do hard rock. Em particular, o Warrant é um dos grupos que me acompanharam da infância até a vida adulta.

Logo quando descobri o rock, foram bandas “farofa” como Warrant, Great White, Poison, Mötley Crüe, Ratt, Danger Danger e Whitesnake, geralmente massacradas pela maioria, que despertaram em mim o interesse e a paixão pela música em geral, me levando a explorar outros estilos, conhecer mais e mais e adquirir a (relativa) bagagem que tenho hoje. E de todos, certamente posso destacar o Cherry Pie, do Warrant, um dos mais significativos nesse processo.

Segundo álbum de estúdio do grupo, veio com a ingrata tarefa de corresponder ao sucesso do disco anterior, o megasucesso Dirty Rotten Filthy Stinking Rich (que emplacou o hit mais ouvido da história do Warrant, a balada ‘Heaven’). Ingrato porque, além de ter os excelentes números do debut como referencial comparativo, vinha bem no período crítico para o hard rock e hair metal: início da década de 90, véspera do lançamento do Nevermind, do Nirvana, a verdadeira pá de cal em cima de toda uma década de dominação metaleira no cenário musical. Mas os desafios foram aceitos e o Cherry Pie chega às lojas e, rapidamente, se torna um fenômeno de vendas. Embalando um hit atrás do outro, domina as paradas e coloca o Warrant em evidência ao lado de grandes fenômenos como o ainda poderoso Guns N’ Roses.

O Cherry Pie não é propriamente uma obra-prima do gênero e, indo muito além das notas de vendagens, não apresenta lá grande relevância artística (esse sou eu fazendo uma daquelas análises “frias”). Mas, ainda assim, figura fácil em qualquer lista dos melhores trabalhos dessa década tão odiada por muitos. Apesar do Warrant não dispor de músicos extraordinários, alcançou um nível de excelência digno de respeito.

Os guitarristas Joey Allen e Erik Turner não tinham o virtuosismo de um C. C. DeVille (Poison), mas sabiam exatamente aonde chegar com seus conjuntos de riffs e solos que, aliados ao excelente trabalho do baterista Steven Sweet (que infelizmente saiu da banda logo após o lançamento do disco seguinte), tiravam um som rápido, com peso e pegada suficientes para manter o ritmo em todas as 12 faixas, tendo como a cereja da torta (e não tive como evitar esse trocadilho) o vocal forte e singelo de Jani Lane. O jovem loiro e franzino não tinha a beleza de Sebastian Bach ou sex appeal de Axl Rose que o fizesse símbolo sexual. Nem era propriamente bonito. Mas mesmo assim, conseguiu grande apelo entre o público feminino e, graças à sua postura rebelde e despojada, a admiração dos jovens. Indiscutivelmente, Jani Lane foi a cara que a banda recebeu ao longo dos anos.

Seguindo à risca a cartilha oitentista do hard rock, Cherry Pie alterna músicas rápidas, como as excelentes ‘Mr. Rainmaker’, ‘Love in Stereo’ e a própria faixa título (que virou hino de toda uma geração “poser”) com baladas água com açúcar, como as belíssimas ‘I Saw Red’ (com direito até a introdução no pianinho) e ‘Blind Faith’ e a mais agitada ‘Bed of Roses’, abrindo espaço até para algumas experimentações, como a mescla de southern rock e hard em ‘Uncle Tom’s Cabin’ e a versão mais hard rock para ‘Train, Train’ (da banda de southern Blackfoot), além de ‘Sure Feels Good to Me’ e seus riffs heavy metal.

O Warrant fecha o Cherry Pie com ‘Ode to Tipper Gore’, que nada mais é que uma compilação de vários “fuck” dito por Jani Lane em apresentações ao vivo e selecionados aleatoriamente como uma “homenagem” à tal da Tipper Gore, à época esposa do mala do Al Gore e fundadora da tão temida Parents Music Resource Center (PMRC), organização responsável por proibir a venda de vários álbuns e indiciar músicos (quase em sua totalidade roqueiros) por conteúdo “ofensivo à moral e bons costumes da família”. Um protesto que, apesar de certamente ter incomodado bastante, ainda era de uma inocência condizente com o espírito de rebeldia “hard rocker” dos anos 80, dos caras que procuravam bater cabeça enchendo a cara  rodeados de garotas antes de mudar o mundo. Um  encerramento bem honesto para um disco ícone como esse.

O Cherry Pie acabou sendo quase a despedida do Warrant da grande mídia. Seu terceiro álbum, Dog Eat Dog, ainda conseguiu uma vendagem interessante, mas sem repercusão junto à crítica e público, enquanto os seguintes foram fracassos quase completos. Após uma série de projetos paralelos, Jani Lane saiu do grupo para lutar contra o alcoolismo (curiosamente, um desses trabalhos foi substituir Jack Russell, vocalista do Great White que também enfrentava problemas na carreira por conta do álcool), abrindo vaga para Robert Mason, em 2008, mas ainda havia esperança de um retorno aos palcos com a formação original.

Não podemos dizer que o futuro do Warrant fica incerto com a morte de Jani, uma vez que já não dependiam mais dele. E, de toda forma, a cena musical de hoje já é a maior das incertezas para uma banda oriunda da (aos padrões do público de hoje) jurrássica década de 80. Sua atuação artística nos últimos anos já estava muito reduzida, limitando-se, por certo período, a integrar o cast de um reality show que acompanhava celebridades que precisavam perder peso (!), entre apresentações cada vez mais raras em pequenas casas de shows e cassinos. Mas à parte dos rumos que banda e vocalista tomaram, seu legado ficará. E o Cherry Pie é um excelente representante de um grupo, um artista e uma época.

3/5

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Ficha Técnica:

Cherry Pie (Warrant) – 1990/EUA – Gravadora: Columbia Records – Integrantes: Jani Lane (vocais), Joey Allen (guitarra), Erik Turner (guitarra), Jerry Dixon (baixo), Steven Sweet (bateria)

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Tracklist:

1. Cherry Pie
2. Uncle Tom’s Cabin
3. I Saw Red
4. Bed of Roses
5. Sure Feels Good to Me
6. Love in Stereo
7. Blind Faith
8. Song and Dance Man
9. You’re the Only Hell Your Mama Ever Raised
10. Mr. Rainmaker
11. Train, Train
12. Ode to Tipper Gore

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Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company, 1968) by camilodiniz

– Camilo Diniz

Poucas são as performances que, de tão arrebatadoras ou perfeitas em termos técnicos e emocionais conseguem consagrar algum artista para sempre. Entre as que lograram êxito nesse aspecto, podemos citar o concerto de Joe Cocker em Woodstock, no qual deu ao mundo a versão definitiva de With A Little Help From My Friends dos Beatles, até hoje lembrada como um dos maiores covers de todos os tempos.

Porém, antes que o músico inglês se consagrasse como intérprete, no festival de Monterey, que abriu o chamado “verão de amor hippie”, realizado na Califórnia no ano de 1967, e que revelou aos Estados Unidos o talento do guitarrista Jimi Hendrix, já famoso na Inglaterra, um grupo de rock psicodélico como os mais de cinco mil que floresciam na costa oeste conseguiu se destacar dos demais, bem como ganhar fama instantânea, graças ao desempenho indescritível de sua até então desconhecida vocalista.

Ao interpretar o clássico Ball and Chain, da texana Big Mama Thornton, a também texana Janis Joplin, escalada apenas para fazer uma apresentação de passagem com sua banda, a Big Brother & The Holding Company deixou toda a platéia espantada com tamanho feeling, fato que pode ser observado nas filmagens do festival, quando uma de suas organizadoras, Mama Cass Elliot, vocalista do The Mamas & The Papas fica literalmente de boca aberta diante da interpretação visceral de Joplin.
Daí para o estrelato não durou muito. No mesmo festival a banda repetiu o show, desta vez para uma platéia maior, e saiu praticamente com a intimação de gravar um novo álbum – o primeiro já havia sido gravado, mas foi retido pela banda, que aproveitou o momento de maior fama para liberá-lo – que, mesmo antes de lançado, já havia vendido mais de um milhão de cópias, tornando-se o maior sucesso de 1968 nos Estados Unidos.

Originalmente denominado Sex, Dope and Cheap Thrills, nome rejeitado pela gravadora, que impôs o corte das duas primeiras palavras, o disco é repleto de blues com levada psicodélica, no estilo de bandas como Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, diferenciando-se das demais por ter uma mulher como vocalista, assim como o Jefferson Airplane. Vale lembrar que Janis Joplin e Grace Slick foram de fundamental importância para o crescimento das mulheres no Rock.

Para o design da capa, foi convidado Robert Crumb, ícone da arte underground norte americana, amigo do grupo, e contumaz freqüentador da Family Dog, residência oficial da banda, algo como a Funhouse do rock psicodélico. Os desenhos que explicavam cada uma das faixas do disco no estilo hippie do quadrinista tornaram a capa uma das mais lembradas de todos os tempos, bem como um marco na carreira de Crumb.

O álbum é iniciado com a divertida Combination Of The Two, que mostra toda a liberdade dos membros da Big Brother em suas apresentações, que até hoje é nota distintiva da banda. Posteriormente, temos I Need A Man To Love, parceria de Janis Joplin com o guitarrista Sam Andrew; Summertime, versão do standard do Jazz, composta na década de 1930 pelos irmãos Gershwin, vertida de modo brilhante pela Big Brother e que, com Joplin ganhou sua versão final, tendo sido o maior símbolo de sua carreira.

Ainda, o álbum conta com Piece Of My Heart, composta pelo recentemente falecido Jerry Ragovoy, também um dos símbolos da carreira de vocalista, e uma das três grandes canções do disco. Em Turtle Blues temos o perfeito auto retrato de Janis Joplin, já atormentada  pela depressão:

“Eu acho que sou como uma tartaruga, escondendo-se sob seu áspero casco; mas você sabe, eu me protejo muito bem. Eu conheço essa maldita vida bem demais.”

A faixa foi gravada ao vivo em um bar, o que fica bem visível pelos sussurros e pela garrafa quebrada durante a sua execução. Em Oh, Sweet Mary, cantada por Sam Andrew, temos novamente a demonstração da energia e liberdade do Big Brother, numa levada ácida, regada a LSD e anfetaminas.

Fechando o álbum – em versões posteriores foram adicionadas mais quatro faixas – temos a canção que consagrou Janis Joplin como mito do blues e do rock, Ball And Chain, executada com a mesma intensidade da performance que possibilitou o seu surgimento como estrela da música, e que influenciou a própria Big Mama, compositora da faixa, a executá-la de modo diferente do usual, aproximando-se da potente e definitiva versão da Pérola Branca do Blues, que a inscreveu no número das grandes divas da música americana, ao lado de Bessie Smith, Sarah Vaughan, Billie Holiday dentre outras.

4.5/5

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Ficha Técnica

Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company) 1968 – Janis Joplin (Vocais); Sam Andrew (Guitarra, vocais); James Gurley (Guitarra); Peter Albin (Baixo); David Getz (Bateria); John Simon (Piano em Turle Blues).

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Tracklist:

– Lado A

1.    Combination of the Two
2.    I Need a Man to Love
3.    Summertime
4.    Piece of My Heart

– Lado B

1.    Turtle Blues
2.    Oh, Sweet Mary
3.    Ball and Chain

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The Velvet Underground & Nico (The Velvet Underground, 1967) by camilodiniz
agosto 2, 2011, 9:02 pm
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– por Camilo Diniz

1967, Califórnia. Explosão do verão de amor hippie: casais trajando berrantes roupas coloridas se abraçam e cantam os ideais de paz, amor, harmonia e solidariedade. Em Nova York, por outro lado, um quarteto de criaturas bizarras vestidas de preto e com óculos escuros mesmo durante a noite, acompanhados de uma modelo alemã de sotaque carregadíssimo e voz sepulcral, conhecida pelos inúmeros relacionamentos com estrelas do Rock declamam o submundo, a perversão, a sujeira das sarjetas, a imundície do ser humano, tudo isso sob o patrocínio e proteção de Andy Warhol, artista da bizarrice que, insatisfeito com as colagens de sopa de ervilha, resolveu se enveredar pela produção musical e, por acaso, encontrou a quadrilha de músicos – ainda sem a participação de Nico. – chocando a platéia de clubes da Big Apple com sua sonoridade agressiva e fora dos padrões, e suas canções polêmicas, tratando de assuntos até então negligenciados pela música, ainda engatinhando em termos de maturidade, desde que Bob Dylan surgira para provocar uma verdadeira revolução na maneira de escrever letras.

O Velvet Underground, nome tirado de uma publicação pornográfica, caracterizava-se também pela diversidade de nacionalidades, acolhendo em seu meio uma alemã e um galês, e pelas peculiaridades de seus membros, a exemplo da andrógina baterista Maureen “Moe” Tucker que, além de mulher, o que era raríssimo na época em que as baquetas eram dominadas apenas por homens, como Keith Moon, tocava seu pequeno e incomum kit em pé – sendo copiada por Bobby Gillespie, à época que foi baterista do The Jesus And Mary Chain – antecipando a máxima “do it yourself”, fundamental para o desenvolvimento do Punk Rock anos mais tarde; e pelas insanas experimentações musicais de John Cale, que incluíam uso de viola amplificada, órgãos tocados em volume máximo e afinações alternativas.

Somar a excentricidade da banda com a loucura artística de Andy Warhol, o que incluía visitas e festas na Factory, estúdio do artista, freqüentado por um público que ia de estrelas de cinema a travestis e garotos de programa criou o ambiente perfeito para a criação de uma obra prima, o The Velvet Underground & Nico (cujo nome foi uma reação do grupo à imposição feita em incluí-la como vocalista), que vendeu pouco, mas deixou um legado sem precedentes na história da música.

O álbum já é especial, denso e profundo na capa, uma simples banana desenhada por Warhol, em contraposição às capas multicoloridas e psicodélicas que estavam em alta. Em letras miúdas, no alto da banana estava o convite, talvez ordem: “Peel Slowly And See”. Aceita a sugestão, o ouvinte se deparava com uma banana cor de carne, clara alusão ao falo, o que de pronto já mostra a dualidade do disco: minimalista e ousado.

Tal dualidade reflete-se no clima diverso encontrado nas onze faixas do disco. Nunca um mesmo álbum mesclou com tanta maestria leveza, como em I’ll Be Your Mirror e Sunday Morning, balada pontuada pela celesta de John Cale; com digressões violentas e experimentais, a exemplo de European Son. Também merece especial destaque a já mencionada inversão do senso poético promovido pela trupe novaiorquina, tendo sido a banda a primeira a tratar de temas do submundo, como tráfico e vício em drogas, prostituição, transexualidade e sadomasoquismo.

Não é difícil imaginar o choque que o álbum provocou, uma vez que trazia à tona uma sonoridade e poesia completamente contrária ao padrão da época, o que talvez explique a incompreensão do disco que, apesar de ter exercido influência notável em figuras como David Bowie, Iggy Pop, New York Dolls, Joy Division, Nirvana, Sonic Youth e The Strokes, só foi redescoberto cerca de quinze anos após seu lançamento.

Dentre as músicas do álbum, destacamos I’m Waiting For The Man, que narra a epopéia de um viciado em heroína para conseguir a droga; Femme Fatale, cantada por Nico, e supostamente dedicada a Edie Sedgwick; Venus In Furs, exaltação do sadomasoquismo, baseada na obra homônima de Sacher-Masoch; All Tomorrow’s Parties, canção sombria e misteriosa, cujo sentido talvez seja tão incerto quanto à pergunta que embasa a sua letra: “E que roupas a pobre garota usará em todas as festas de amanhã?” e Heroin, certamente a mais sincera música sobre o vício em drogas, expondo-o de forma real, com suas dores e delícias, como no trecho: “Eu fiz a grande escolha, eu vou tentar destruir a minha vida (…) Heroína é minha esposa e minha vida”.

Costuma-se dizer que os Rolling Stones eram a antítese dos Beatles, pela sua postura rebelde, contrária à atitude, de certa forma, conformista do quarteto de Liverpool. Talvez o Velvet Underground, mais que antítese, seja a completa destruição dos parâmetros do rock de inspiração romântica e idealizada, a nível literário e prático. Uma declaração de amor, não a musas cândidas, mas ao submundo das esquinas de New York.

Repleto de peculiaridades, como guitarras afinadas em uma só nota, poesia maldita e composições controversas, The Velvet Underground & Nico, mais que um simples disco, é uma obra de arte, fracasso retumbante de vendas, mas sem sombra de dúvidas um dos registros definitivos da história do Rock e da música em geral.

5/5

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Ficha Técnica:

The Velvet Underground & Nico (The Velvet Underground) – 1967/EUA – Integrantes: Nico (vocal), Lou Reed (vocal e guitarra), John Cale (viola elétrica, piano, celesta), Sterling Morrison (guitarra, contra-baixo elétrico e vocais de apoio), Maureen Tucker (percussão)

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Tracklist:

– Lado A:

1. Sunday Morning
2. I’m Waiting for the Man
3. Femme Fatale
4. Venus in Furs
5. Run Run Run
6. All Tomorrow’s Parties

– Lado B:

1. Heroin
2. There She Goes Again
3. I’ll Be Your Mirror
4. The Black Angel’s Death Song
5. European Son

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(What’s The Story) Morning Glory? (Oasis, 1995) by Rita Gomes
agosto 1, 2011, 1:36 pm
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– por Rita Gomes

Após as bem sucedidas invasões britânicas dos anos 60 (The Beatles, The Rolling Stones…) e 70/80(The Police, The Smiths…), o mundo veio a conhecer, durante os anos 90, o britpop, capitaneado por Oasis e Blur, livremente inspirado nas grandes bandas britânicas, mas com uma sonoridade mais pop e radiofônica.

De inspiração operária, vindos da cidade industrial de Manchester, o Oasis fazia um som mais sujo, baseado na realidade dura em que viviam. Seu primeiro álbum, Definately Maybe, traz em canções como Supersonic, Rock’n’roll Star, Live Forever e Cigarretes and Alcohol uma digressão sobre o estilo de vida que levavam, a vontade se tornarem grandes astros, superando todas as suas dificuldades através da música (tema recorrente nos 3 primeiros álbuns, aliás).

A sonoridade nua e crua, impregnada de riffs, suja e harmônica ao mesmo tempo, bebe da mesma fonte que o grunge americano, mas com o preciosismo típico das bandas britânicas: pop, chiclete, radiofônico, capaz de unir na mesma audição filhos, pais e avós.

(What’s the story?) Morning Glory traz o amadurecimento de Noel Gallagher, líder natural da banda, autor de praticamente todas as músicas até o último disco. Melodicamente, o álbum representa o ápice das composições de Noel, trazendo linhas interessantes de guitarra (solo e base são totalmente diferentes, mas congruentes) e de bateria, principalmente após a saída de Tony McCarroll e vinda de Alan White.

Principalmente na execução e divulgação deste álbum, criou-se a imagem que acompanharia toda a trajetória da banda: arrogantes, extremamente confiantes em si e no seu próprio trabalho, a ponto de se compararem diretamente com os Beatles. A postura da banda em relação aos fãs e aos demais artistas foi sendo reforçada a partir deste álbum, inclusive a famosa disputa de popularidade com os “ricos e cultos” integrantes do Blur. Um fato curioso é que as bandas resolveram lançar os singles Roll with it (Oasis) e Country House (Blur) na mesma data, gerando intensa disputa na imprensa, principalmente pela troca de insultos entre os integrantes das bandas. A venda do single do Blur foi maior que a do single do Oasis, mas o álbum da banda de Manchester obteve reconhecimento e vendagens muito superiores ao ábum do Blur, The Great Scape.

O álbum teve como principais singles Some might say, o já citado Roll with it, Wonderwall, Don’t look back in anger e Champagne Supernova, apesar das faixas Hello, Cast no shadow e Morning Glory terem tido bastante sucesso entre os fãs e fazerem parte da set list principal da banda até a separação, em 2009.

O álbum abre com Hello, uma canção que dá as boas vindas aos ouvintes de duas maneiras: a mais óbvia, pela sua própria letra, onde Noel fala sobre as mudanças na mentalidade das pessoas com as quais conviviam ‘til the life I knew comes to my house and says: Hello!, além de ser um belo exemplo da estrutura de música que o Oasis compunha, com estrofe, ponte, refrão, ponte e refrão, além dos riffs da guitarra principal, mostrando o preciosismo de Noel na composição das melodias, muitas vezes infinitamente superiores às suas letras.

Na sequência, os 3 singles Roll with it, Wonderwall e Don’t look back in anger. Enquanto o primeiro nada mais é do que uma canção correta, quase que uma tentativa de fazer o Oasis ser parecido com os Beatles, pela sonoridade, os 2 seguintes são capítulos a parte.

Wonderwall, título surgido pela conhecida dislexia de Noel, que não conseguia dizer wonderful, inventou Wonderwall, que não tem um significado claro (parede das maravilhas? muro das alegrias?). Escrita para a ex namorada de Noel, Meg Matthews, tornou-se a música mais conhecida da banda, de maior sucesso mundial. Trazendo versos como because maybe you’re gonna be the one that saves me, and after all, you’re my wonderwal, a canção se tornou o símbolo das canções de amor do grupo, talvez apenas à frente de Dont go away, presente no álbum seguinte, Be here now.

Trazendo descaradamente o piano de Imagine, do John Lennon, no início, Don’t look back in anger trata principalmente das situações em que chateamos os demais, ou somos chateados. Já o conselho But please don’t put your life in the hands of a rock’n’roll band, who’ll throw it all away, a despeito de soar incongruente para a canção, na realidade fala da própria maneira como a banda era tratada, com todo e qualquer movimento captado e registrado em seu sentido literal pela imprensa britânica. Em suma, não acredite em tudo que seus ídolos lhe dizem [e fazem].

O primeiro single do álbum, Some might say, também foi o mais bem sucedido: foi o primeiro a estar em primeiro lugar no Reino Unido, apesar de não ter repetido o mesmo sucesso nos Estados Unidos. A canção, versando sobre as mudanças na vida dos integrantes da banda (You made no preparation for my reputation once again), possui um dos mais belos riffs composto por Noel, dando uma sonoridade grandiosa à letra. Esta música, junto com Supersonic, do Definately Maybe, D’you know what i mean, do Be here now e The Hindu Times, do Heathen Chemistry, representa o som do Oasis, numa mistura de ótimos riffs de guitarra e também de baixo com letras confessionais, tornando seu lado “sujo” também belo e radiofônico.

A faixa título do álbum, Morning Glory, não chegou a ser single oficial, mas contou com videoclip de divulgação. Falando sobre sonhos, também refere-se às mudanças nas suas vidas (All your dreams are made, when you’re chained to your mirror with your razor blade), apresenta o som mais cru do álbum, marcado pela guitarra solo.

A última faixa, Champagne Supernova, também foi o último single oficial do álbum. A explicação para o título da música seria a de que Liam e Noel, ao visitarem um observatório na Noruega, ficaram encantados com uma supernova, na cor champagne. A respeito de seu significado, o próprio Noel já declarou que a música não fala sobre algo específico, mas nota-se uma certa tendência de escrita com uma letra nonsense: slowly walking down the hall, faster than a cannonball, where were you while we were getting high?

(What’s the story?) Morning Glory, além de ser o grande álbum de uma ótima banda, também influenciou o trabalho de várias bandas britânicas que surgiriam após o Oasis, como Mcfly, Arctic Monkeys, The Kaiser Chiefs, Coldplay, cada qual ao seu modo. Ainda que, para muitos, a real influência que o Oasis tenha deixado, principalmente neste período, foi o constante envolvimento de seus integrantes em confusões em pubs, ora por agressões, ora por conta do uso abusivo de drogas e álcool, além do ego inflado, fazendo com que sejam mais conhecidos pela arrogância de se autodeclararem a maior banda do mundo. Aliás, um dos motivos que levou ao fim da banda foram as constantes brigas entre Liam e Noel, no início pelas arruaças e mais para o fim pelo próprio comando criativo da banda. Apesar disso, ainda gravaram mais cinco álbuns de estúdio e um ao vivo, deixando um legado que encontrou seu ápice em (What’s the story?) Morning Glory , o ícone da era Britpop.

4,5/5

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Ficha Técnica:

(What’s The Story) Morning Glory? (Oasis) – 1995 – Reino Unido. Integrantes: Liam Gallagher (vocais), Noel Gallagher (guitarra solo, vocais, mellotron, piano e ebow), Paul Arthurs (guitarra base, mellotron e piano), Paul McGuigan (baixo) e Alan White  (bateria e percussão).

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Tracklist

1. Hello
2. Roll With It
3. Wonderwall
4. Don’t Look Back in Anger
5. Hey Now!
6. The Swamp Song [excerpt 1]
7. Some Mighty Say
8. Cast no Shadow
9. She’s Eletric
10. Morning Glory
11. The Swamp Song [excerpt 2]
12. Champagne Supernova

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Faixa Recomendada: