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Raimundos (Raimundos, 1994)

– Bruno Marise

Sujeira, barulho, distorção, velocidade, putaria, bagaceira. Era tudo o que o rock brasileiro e a molecada da época precisavam na metade dos anos 90. E os Raimundos tinham isso de sobra, com uma pegada e uma energia elevadas ao extremo. Após uma década repleta de bandas pasteurizadas, superproduzidas e comerciais ao extremo (sem falar do auge do brega e sertanejo corno), os Raimundos meteram o pé na porta, pegando na veia dos jovens sedentos por algo que fazia falta há muito tempo.

Nascido em Brasília, no final dos anos 80, o grupo fazia basicamente covers de Ramones, (Daí o nome, uma versão abrasileirada da banda nova iorquina) mas logo sacou que Forró (todos os integrantes possuíam ascendência nordestina) era possível de ser tocado com guitarras, e passaram a fazer versões hardcore das músicas do sanfoneiro Zenílton, mistura que foi intitulada de Forrocore.

Com uma fita demo gravada em 1993 dando o que falar e correndo de mão em mão, não demorou a aparecerem convites para tocar no Rio de Janeiro, e abrir para bandas como Ratos de Porão, Camisa de Vênus e também os Titãs, donos do selo Banguela que foi responsável pela contratação dos Raimundos para gravar o disco de estréia, produzido por Carlos Eduardo Miranda, hoje jurado de programas no SBT.

Lançado em 1994, Raimundos, destilava músicas pesadas, e letras recheadas de palavrões e referências á sexo, drogas e violência. Guitarras distorcidas, riffs pegajosos, palhetadas de baixo a la Motörhead, bateria frenética e letras cuspidas velozmente por Rodolfo, era como soava a estreia dos brasilienses, hardcore com muito peso e influências nordestinas.

A primeira faixa é a já conhecida pelo público, Puteiro em João Pessoa, onde Rodolfo, de família paraíbana, narra a aventura de sua primeira experiência sexual, proporcionada pelos dois primos mais velhos. Um clássico da banda e do rock nacional, com seu riff pegajoso, letra bem humorada e muita energia.

Palhas do Coqueiro é o exemplo de como uma música de corno deve ser, Debaixo de um teto de espelhos/É onde tu estás a me chifrar/Eu fico aqui coçando os meus córneos/Imaginando em que motel você está/Eu acho que o grande motivo agora eu sei/Você deve pensar que eu sou broxa ou que eu sou gay/Mas pra provar tudo que eu sinto/Estou sozinho e sem ninguém pra me amar/Estou sozinho e sem ninguém pra me amar”.

A maioria das faixas tem características e uma pegada muito parecidas, mantendo sempre a sonoridade pesada e as letras escrachadas. Ainda podemos destacar o primeiro single do disco, Nêga Jurema, que conta a história absurda de uma traficante de maconha, que foi salva por um milagre. Uma verdadeira ode à cannabis que se repete em Bê a Bá: “Eu já conheço as pistoleira e cansei de mulher rampeira/A única que não me cansa é a tal de Maria Tonteira/Por ela eu como vidro, subo a nado cachoeira/Se ela vier prensada apertada é mais maneira”. A temática nordestina é constante no disco, e aparece em praticamente todas as músicas, contendo até versões de canções regionais populares como Cajueiro, Carro Forte e Deixei de Fumar (Cachimbo da Mulher) (devido principalmente a descendência dos integrantes), e até incluem instrumentos típicos como acordeon e triângulo.

Selim, a última faixa, entrou meio a contra gosto dos integrantes, que não queriam uma “balada” enfiada em meio à porradaria. Mas foi ela que ajudou a alavancar as vendas de Raimundos, com sua letra debochada e melodia grudenta, e tocou incessantemente nas rádios da época.

Raimundos vendeu 150 mil cópias, recebendo disco de ouro, e provou que era possível fazer música pesada, com letras em português e ao mesmo tempo pagar as contas, e serviu de influência para inúmeros grupos que viriam depois, mesmo que muito menos relevantes e de qualidade inferior. No ano seguinte veio o disco de platina com Lavô tá Novo e a consagração nacional, mas foi aqui que os brasilienses botaram o rock pesado de novo no mapa do cenário musical brasileiro.

Eu quero é rock minino!

 4,5/5

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Ficha Técnica:

Raimundos (Raimundos) – 1994/Brasil – Gravadora: Banguela Records/Warner – Integrantes: Rodolfo Abrantes (Vocais), Digão (guitarra e backing vocals), Canisso (baixo), Fred (bateria)

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Tracklist:

1.Puteiro em João Pessoa
2. Palhas Do Coqueiro
3. MM’S
4. Minha Cunhada
5. Rapante
6. Carro Forte
7. Nêga Jurema
8. Deixei de Fumar (Cachimbo da Mulher)
9. Cajueiro/Rio das Pedras
10. Bê a Bá
11. Bicharada
12. Marujo
13. Cintura Fina
14. Selim
15. Puteiro em João Pessoa II
16. Selim (Acústico)

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Shock Troops (Cock Sparrer, 1982)
julho 11, 2011, 11:20 am
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por Bruno Marise

Ao contrário do que pensa a maioria, o movimento skinhead não se trata de uma manifestação neonazista. Essa cultura surgiu nos anos 60, entre a classe operária inglesa e era fortemente influenciada pelos Rude Boys da Jamaica, que imigraram para a Grã Bretanha na mesma época.  A priori era apenas um movimento musical, mas inevitavelmente os fatores político-sociais influenciaram e fragmentaram-no em várias subculturas. E foi nesse contexto que surgiu o Street Punk, também conhecido como Oi! E dentro dele apareceram várias bandas, como Cockney Rejects, os pioneiros Sham 69, The 4 Skins e o Cock Sparrer. Numa época em que o verdadeiro Punk Rock já estava em decadência, e toda a suavização da New Wave tomava conta, o Street Punk vindo dos subúrbios de Londres, com seus ideais proletários e encharcado de suor e cerveja, buscava resgatar o punk mais primitivo, rasgado, bruto.

O Cock Sparrer, com influências de Glam e Pub Rock, já tinha dez anos de estrada quando lançou sua obra prima, Shock Troops, em 1982. Com uma sonoridade extremamente simples, carregada de melodias grudentas, refrões de fácil memorização e recheado de sing alongs, é um disco tão contagiante que nem se percebe quando chega ao fim. O vocal rouco e o carregado sotaque britânico de Colin McFaull, é uma característica bastante marcante no som do grupo.

O Oi! Tinha forte vínculo com o futebol, a bebedeira, virilidade e vida trabalhadora e isso transparece em todas as músicas do disco, que abre com Where Are They Now e seu riff extremamente “catchy”, contestando a primeira geração do punk, que conquistou milhares de seguidores e sumiu deixando muitos órfãos (“Where are they/six years on and they’ve all gone/Now it’s all turned/ so Where are they now”). A segunda faixa é Riot Squad, uma ode à violência que representa todo o repúdio às autoridades. E depois vem Working, um hino proletário, com seu vocal rasgado e um solo de guitarra mais técnico e muito bem executado.

Na seqüência temos Take’em All, mais uma canção agressiva que critica os executivos de gravadoras, supostamente americanos (“Well tough shit boys, it aint our fault/Your record didn’t make it/We made you dance, you had your chance/But you didn’t take it/Well, I gotta go make another deal/Sign another group for the company/I don’t suppose we’ll ever meet again
You’d better get back to the factory.”). Obrigatória nos shows, e berrada em coro pelos fãs, é até utilizada como grito de guerra de algumas torcidas de futebol.

Outro ideal do movimento Oi!/Streetpunk, para surpresa de muitos, é a amizade, a camaradagem e é isso o que o Sparrer prega em We’re Coming Back, com uma melodia belíssima e extremamente contagiante, e seu refrão (“So remember, out there somewhere/You’ve got a friend, and you’ll never walk alone again”). Talvez o hino de amizade mais simples e bonito já escrito.

Depois temos a agressiva Watch Your Back, um verdadeiro golpe na ala esquerda inglesa, e nos pregadores da “revolução”, mostrando a diferença ideológica do streetpunk, apesar da semelhança social com o punk clássico. (“We don’t wanna be part of no new religion/ We don’t need a boot and a switchblade knife/We don’t wanna be part of a political dream/We just wanna get on living our lives”).

Em seguida vem I Got Your Number, uma crítica generalizada à imprensa, e seus valores e parcialidade (“It can’t be right what I’m reading here/No one believes in all this stuff no more/Our ideas don’t see eye to eye/You get your press with a pocketfull of lies/Telling everybody every word is true/One day soon they’re gonna see through you”). Assim como a maioria das faixas do disco, I Got Your Number possui um refrão grudento, e  impossível  de não ficar cantarolando por um bom tempo depois de ouvi-lo.

Passamos pelas menos notáveis e Secret Army e Droogs Don’t Run, e Shock Troops se encerra com a canção anti-militar Out On An Island, em ritmo de marcha, que traduz todo o repúdio da juventude pelo autoritarismo e disciplina das forças armadas, (“Everybody gets the training, in the wind and the rain/Ten miles cross country, driving you insane/Everybody gets to jump the hoop and march in time/You just gotta remember you gotta toe the line/So dont go looking over your shoulder for me”).

O Cock Sparrer teve pouca repercussão, mesmo com vários anos de carreira, e nunca chegou a ser celebrado por crítica ou grande parte do público, apesar de ter um grupo de fãs bastante fiéis e só lançar outros excelentes discos, e Shock Troops trata-se de uma obra simples, mas feita com muita garra e qualidade, essencial para se conhecer um pouco mais sobre a cultura streetpunk e skinhead, e acabar com aquele estereótipo de jovens carecas neo-nazistas e anti-semitas. Trilha sonora perfeita para um dia de futebol em um bar lotado com os amigos, para cantar e levantar os copos de cerveja. OI! OI! OI!

5/5

Shock Troops (Cock Sparrer) – 1982 – Integrantes: Colin McFaul  (vocal); Mickey Beaufoy (guitarra solo); Chris Skepis (guitarra base); Steve Burgess (baixo); Steve Bruce (bateria)

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Tracklist:

1. Where Are They Now
2. Riot Squad
3. Working
4. Take’em All
5. We’re Coming Back
6. Watch Your Back
7. I Got Your Number
8. Secret Army
9. Droogs Don’t Run
10. Out On An Island

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Are You Experienced (The Jimi Hendrix Experience, 1967)
junho 28, 2011, 10:10 pm
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– Bruno Marise

No final da década de 60, o rock já havia passado por várias transformações. Nasceu nos Estados Unidos, nos anos 50, e teve alcance mundial através de Elvis Presley e sua mistura faiscante de Rockabilly, R&B e Gospel, aliado a seu visual e performances chocantes para a época. Chuck Berry firmou a maneira de tocar guitarra, Buddy Holly acrescentou melodias na jogada e Jerry Lee Lewis deu sua pitada de agressividade.

Os Beatles pegaram toda essa mistura e transformaram em sucesso. O rock era relacionado à juventude, alegria, romances e banalidade. Mas a partir de 1965, as coisas mudam. Os EUA desembarcam suas tropas no Vietnã, os jovens começam a contestar as imposições da sociedade, os valores tradicionais, a sexualidade. O psicodelismo começa a surgir. Os mesmos arrumadinhos e comportados Beatles lançam Rubber Soul, diferente dos antigos álbuns, mais introspectivo, eletrificado, maduro e até crítico como em Nowhere Man.

Mas é em 1967, com toda essa mudança de rumo que o rock vem tomando que aparece um negro, canhoto e autodidata, fã de blues e do The Cream, James Marshall Hendrix, ou Jimi como ele simplesmente adota.  Junto com o baterista Mitch Mitchell e o baixista Noel Redding, o guitarrista forma o The Jimi Hendrix Experience, e lança seu álbum de estréia, Are You Experienced, que mudaria para sempre o rumo da música, dos métodos de gravação e da maneira de tocar guitarra.

O próprio Eric Clapton, tido por muitos como o maior guitarrista de todos os tempos, e até chamado de Deus na época, fica chocado com o modo que Hendrix “batia” nas seis cordas. O uso de microfonias, agudos e pedal wah-wah  foram algumas das técnicas que não eram corriqueiras e foram popularizadas pelo músico.

A obra, com pegada e primor técnico raramente visto na época, abre com o hino psicodélico Purple Haze, que exala LSD. O riff hipnótico e a batida intermitente de Mitchell casam perfeitamente, fazendo com que o ouvinte seja atraído para dentro da atmosfera do disco, e quando percebe já está ouvindo o extraordinário solo, um dos ápices do casamento de Hendrix com sua Stratocaster branca, batizada de Izabella.

Na sequência, temos Manic Depression com uma bateria contínua e seu solo claustrofóbico, abusando dos vibratos. Aí vem Hey Joe, original de Billy Roberts, que já havia sido lançada como single e muito bem sucedida, e tornou-se definitiva nas mãos de Hendrix. É feeling puro, com um solo de melodia cativante e o baixo de Redding dando toda o clima ao som. Passamos pela empolgante Love Or Confusion, e aí vem a calmaria com May This Be Love e seu timbre de guitarra tranqüilo, com uma percussão quase em ritmo de batuque ao fundo.

As coisas voltam a pesar com I Don’t Like Today e depois desembocam na balada The Wind Cries Mary, outro sucesso, um momento suave e melódico que casa perfeitamente com o restante do disco, dando uma pausa em toda a “barulheira” precedente, que volta na faixa seguinte, a sensual Fire, com seu riff grudento e Mitch Mitchell machucando a bateria sem dó com baquetadas certeiras. Redding também faz um grande trabalho nas quatro cordas, servindo como base para as guitarras estridentes e furiosas, que geram um solo curto, porém de grande pegada e feeling.

O som vai abaixando, e na sequência temos a mini suíte Third Stone From The Sun, que começa com uma atmosfera de jazz, e se transforma em uma verdadeira viagem, com certo clima praiano, que vai intercalando com mais momentos jazzísticos e pitadas de virtuose por parte dos três músicos, onde Jimi usa bastante alavanca, slides e vibratos para compor uma verdadeira Jam psicodélica.

Na seqüência vem Foxy Lady, uma declaração de amor à maconha, no sentindo literal da palavra. É um dos primeiros flertes de Hendrix com o Feedback, e tem um dos solos mais bem trabalhados de sua carreira.

O disco é encerrado com Are You Experienced, uma verdadeira indagação ao ouvinte, se ele sentiu a verdadeira experiência sonora que é ouvir esse álbum. A faixa é mais uma inovação onde são mixadas gravações de guitarra e bateria ao contrário com o restante dos takes gravados normalmente.

O disco de estréia do Jimi Hendrix Experience é considerado por alguns a melhor estréia da história do rock, e não é para menos. Hendrix mostra que veio para mudar o modo de tocar guitarra, e o uso constante da distorção foi responsável pelo surgimento do rock pesado, posteriormente.

É um álbum essencial para se conhecer a obra do guitarrista magistral que foi Jimi Hendrix, que deixou o mundo precocemente aos 27 anos, três anos depois de sua estréia na música.

Are you experienced?

5/5

The Jimi Hendrix Experience (Are You Experienced) – 1967 – Integrantes: Jimi Hendrix (vocais, guitarra), Noel Redding (baixo e backing vocals), Mitch Mitchell (bateria)

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Tracklist(Us Version):

1. Purple Haze
2. Manic Depression
3. Hey Joe
4. Love Or Confusion
5. May This Be Love
6. I Don’t Live Today
7. The Wind Cries Mary
8. Fire
9. 3rd Stone From The Sun
10. Foxey Lady
11. Are You Experienced?

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