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The Heart of Saturday Night (Tom Waits, 1974) by Bernardo Brum
julho 26, 2011, 9:21 pm
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por Bernardo Brum

Qualquer pensador tem seu ideal de plenitude existencial. Nos ensinamentos de Siddartha Gautama, é a liberação de todo o sofrimento através da compreensão e exercício das Quatro Verdades Nobres. Para Aristóteles, ela é alcançada através da prática do bem. Nietzsche escreveu sobre o conceito do Super-Homem. Kant falava do imperativo categórico.

E o que seria a felicidade, o pote de ouro no fim do arco-íris, para Tom Waits? Ele já a chamou de muitos nomes e aqui ele chama de The Heart of Saturday Night, seu segundo registro que mesmo ainda calcado no smooth jazz, já começa  a demonstrar características que tornariam sua persona excêntrica algo único na história recente da música – como o início do surgimento da voz bêbada que acabariam desembocando naquela estranha voz gutural desenvolvida a partir da segunda metade da década de setenta e desde então nunca mais abandonada.

Os temas continuavam praticamente os mesmos do debut Closing Time:  a obsessão em retratar a vida  dos indivíduos “perdidos” das grandes metrópoles. A escória, se quer saber. O tipo baixo e invisível de gente. Tom quer dar voz à eles. O que eles esperam da vida? Para eles, o que e plenitude? Se rebuscadas figuras da história das idéias discutem há milhares de anos e não conseguem entrar em concordância, conseguiriam os ébrios e vagabundos acrescentar algo ao debate?

Com essa voz herética e fanfarrona das ruas que Tom Waits, com seu conceito único de fazer música , destila seu jazz bêbado entre frases muito ilustrativas sobre a sua visão particular de mundo: desde pequenas epifanias sobre o medo de perder o prazer de viver uma existência confusa – “Se eu exorcizar meus demônios, pode ser que meus anjos também vão embora” em Please Call Me, Baby -, até pura alucinação lírica bêbada (“E eu estou cego por néons/Não tente mudar minha melodia/Por que acho que ouvi um saxofone/Eu estou bêbado na lua”, diz em Drunk on The Moon).

Claro, como sempre, não são só essas flechadas de existencialismo tão simples porém tão complexo que ele lança nas nossas orelhas – ainda há  bastante do romantismo lamurioso de Closing Time em músicas como San Diego Serenade, onde o eu lírico, ainda um neófito no coração e nas ruas, paga suas dívidas com tudo que o fez crescer e conhecer mais momentos da vida (em antecanto, diz coisas como “Eu nunca disse eu te amo até te amaldiçoar em vão”, “Eu nunca vi a luz do luar até ela refletir no seu peito”, “Eu nunca ouvi a melodia, até precisar de uma canção”) ou em Shivers Me Timbers, verdadeiro resquício do espírito beatnik, uma música sobre abandonar tudo, não conhecer ninguém mas seguir em frente com isso e, quem sabe, até se sentir leve (“meu corpo está em casa, mas meu coração está no vento”).

O abandono quase total do folk e a preferência pelo jazz é bem notado em músicas como na cadenciada abertura New Coat of Paint, na malandra Diamonds on my Winshield e na verdadeira trilha sonora de bar Fumblin’ with the Blues, mas ainda sobrevive na faixa-título, The Heart of Saturday Night, um verdadeiro resumo do pensamento que Waits tem tentado erigir por toda a sua carreira artística:  “Bem, você acelerou/Atrás do volante/Com o seu braço ao redor de seu docinho/No seu Oldsmobile/Descendo rápido a avenida/Você está procurando pelo coração de sábado à noite”, onde Tom descreve o tipo de pessoa com o qual se identifica e vive tentando descrever: classe média-baixa, entediantes e entediados durante a semana, mas caçadores de uma emoção bêbada quando chega o sábado: é o tal nirvana dos vagabundos, sem dogma específico para seguir, mas sempre com um objetivo comum – alcançar aquele instante único, e sem palavras. Pode parecer complicado, mas é simples de entender, assim como tocante: não à toa, é uma das músicas mais regravadas do artista .

A maioria das letras de Waits descreve que, talvez, a existência afinal não seja plena – apesar de ser muito deliciosa em certos momentos onde dor e tristeza não parecem existir, apesar do medo  ser uma figura constante. O conflito entre duas forças antagônicas – sexo e morte – que existe em tais aventuras semanais é expresso em estrofes como “Se apaixonar é uma brisa e tanto/Mas ficar em pé é difícil para mim/Eu quero te apertar mas tenho tanto medo de quebrar sua coluna” em Fumblin’ with the Blues, mas que também tem seu lado esperançoso – “Vamos botar uma nova camada de tinta/nessa cidade velha e solitária/(…)/Você põe um vestido, querida/Eu uso uma gravata/Vamos rir dessa lua injetada de sangue/Em um céu de vinho”, canta em New Coat of Paint.

O projeto estético de Tom estava um tanto encaminhado em seu segundo disco – a amargura de alguém em eterna ressaca de Closing Time logo assumiu de vez seu lado filósofo de bar em seu segundo registro. Ainda que as idéias tenham amadurecido, ainda havia algo daquele homem carente e embriagado da estréia discográfica.

Mas ele começava a sonhar mais alto em seu conceito de música. Ouvir o disco em sequência ao primeiro denota alguém que, mesmo ainda inseguro certas vezes sobre que estilo adotar (insegurança que trasformaria em pura vanguarda anos depois) para descrever as histórias e evocar as figuras, já sabia bem quem queria atingir.

E que tipo de debates queria inflamar, afinal fora aqueles indivíduos que querem acumular grande capital individual, almejar distribuição de renda igualitária, procurar a libertação individual através de doutrinas e idéias ou buscam melhorar o mundo que vêem através da escrita de conceitos, há também um que, como é descrito em The Ghosts of Saturday Night,  “procura dentro de sua capa/por suas últimas guimbas de Kents/Enquanto sonha com a garçonete com olhos de Maxwell House/E coxas de marmelada com cabelos louros mexidos”. Uma idéia de plenitude estranha e pouco usual, mas que não pode ser ignorada; quem são esses derrotados que almejam tão pouco da vida e tem sonhos tão pouco modestos? Cães vadios ignorados por muitas doutrinas, ideias e dogmas; mas tão velhos quanto o mundo; e tão líricos e complexos quanto a música de Waits.

4/5

The Heart of Saturday Night (Tom Waits) – 1974 – EUA. Integrantes: Tom Waits (vocais, piano, violão), Jim Hughart (contrabaixo), Pete Chrstlieb (sax tenor), Bill Goodwin (bateria) e Bob Alcivar (arranjador).


Tracklist:

Lado A:

1. New Coat of Paint
2. San Diego Serenade
3. Semi Suite
4. Shivers Me Timbers
5. Diamonds on my Windshield
6. (Looking For) The Heart of Saturday Night)

Lado B:

1. Fumblin’ with the Blues
2. Please Call me, Baby
3. Depot, Depot
4. Drunk on The Moon
5. The Ghosts of Saturday Night (After Hours at Napoleone’s Pizza House)


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