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Raw Power (The Stooges, 1973) by Allan Kardec Pereira
junho 14, 2011, 3:33 am
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– Allan Kardec Pereira

Em 1973, Pink Floyd e seu “Dark Side of The Moon” fazia legiões de fanáticos pelo rock progressivo delirar. Na Inglaterra, a cada dia o glam rock crescia mais e mais, sob a influência de Bowie com seu “Aladin Sane”, primeiro disco de glam a atingir o primeiro lugar no Reino Unido.

Por outro lado, nas sarjetas mais podres do universo musical estadunidense, Bowie e seu empresário Tony DeFries decidem tirar da lama uma figura bem conhecida do underground americano, e que vinha cada vez mais definhando de tanta droga: Iggy Pop.Repaginaram o nome dos Stooges, agora “Iggy and the Stooges”, e mesmo depois de muita confusão, com DeFries odiando uma primeira versão de “Search and Destroy” e Bowie tendo de intermediar as coisas, saiu algo (pra entender um pouco desses episódios, seria legal assistir ao ótimo “Velvet Goldmine”, de Todd Haynes).

Meio que nas entucas, sem que Bowie e DeFries tivesse noção do que estava sendo produzido, a banda se trancou por 12 dias no estúdio (diz a lenda que foi um dos poucos álbuns da banda que o próprio Iggy vetou a presença de prostitutas, drogados e traficantes dentro do estúdio). Fato é que o que surgiu de lá foi uma porrada sonora, algo inexplicável de tanta violência e sexualidade, algo capaz de causar um impacto estarrecedor numa época em que Alice Cooper, New York Dolls, MC5 e outros tantos rockeiros pirados da época andavam fazendo muito barulho em pubs cheios de drags, drogados e todo tipo de gente. Ou que os Stooges, desde 1969 andavam atemorizando a sociedade que cada vez mais se assustava com seus jovens.

O mundo é outro, é cruel, é violento e o sexo é livre para os Stooges. O “Raw Power” trata logo de bradar: “I am the world’s forgotten boy/The one who searches and destroys” na faixa de abertura, “Search And Destroy”, espécie de resposta bárbara e visceral do proto-punk de Iggy aos pesadelos do Vietnã que tanto assolavam a mente do Pink Floyd de “The Dark Side of the Moon”. Em seguida, “Gimme Danger” é uma espécie de libelo aos perigos de furunfar com outros caras. Sexo para Iggy era prazer, pela frente ou por trás, não importava. Na quarta faixa, “Penetration”, o iguana Iggy vai direto ao ponto, explodindo sensualidade. “Raw Power” começa com um gritos histéricos e solos absurdos,numa música com o romantismo a moda Iggy Pop: “Raw power baby can’t be beat/Poppin’ eyes and flashin’ feet”. E se a “calma” de “I Need Somebody” parece acalentar nossos ouvidos e mentes de tanta porrada e escrutínio, é porque é uma mera ilusão pro final com as presenças de “Shake Appeal” e “Death Trip”.

Mas, claro, tudo em Iggy e The Stooges gira em torno de uma conjunção (im)perfeita de ferocidades: da letra, do som e das interpretações ao vivo, um dos maiores espetáculos de auto-destruição que um cantor poderia desferir contra si próprio. “Raw Power” não envelhece nunca, é sempre bem vindo em um porre homérico daqueles.

5/5

Raw Power (The Stooges) – 1973 – Integrantes: Iggy Pop (vocal). James Williamson (guitarra), Ron Asheton (baixo), Scott Asheton (bateria)

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Tracklist:

Lado 1
  1. Search and Destroy
  2. Gimme Danger
  3. Your Pretty Face Is Going to Hell
  4. Penetration
Lado 2
  1. Raw Power
  2. I Need Somebody
  3. Shake Appeal
  4. Death Trip
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Jane Birkin/Serge Gainsbourg (Serge Gainsbourg, 1969) by Bernardo Brum
setembro 11, 2010, 1:07 am
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por Bernardo Brum

Quando morreu em 1991, Gainsbourg havia deixado um legado gigantesco para a arte. Poeta, compositor e crooner com uma carreira monumental que se desdobra em álbuns próprios, composições para divas e renomados cantores, trilhas sonoras, Serge foi muito além do típico exemplar de artista bem sucedido; era também uma figura trágica, viciado em álcool e cigarros, lembrado mais por vexames públicos do que por méritos artísticos – vexames esses que atribuía ao seu alter-ego perverso, Gainsbarre, a paródia estereotipada do “gênio problemático”.

Era  um obsessivo quebrador de tabus, preenchendo suas obras com temas e abordagens eróticas, pornográficas e quase sempre polêmicas; também era um notório namorador de musas do mundo das artes. Entre elas, Brigitte Bardot e Jane Birkin, parceiras do francês no amor e na música. Um notório workaholic que entre as centenas de composições, mais de trinta álbuns de estúdio e a trilha sonora de mais de quarenta filmes ainda arrumava tempo para ser visto com escárnio, admiração e curiosidade pela sociedade francesa. Um homem repulsivo para a sociedade tradicional, introvertido e escandoloso, que só uma personalidade como sua mais famosa esposa, a atriz e cantora Jane Birkin, poderia fazer a ligação entre suas perversões em formato chanson e o grande público.

O famoso relacionamento intenso e sexual dos dois se desdobraria em vários grandes álbuns, na assim considerada maturidade artística de Serge perante a crítica e até em um filme dirigido por Gainsbourg e estrelado por Birkin, Paixão Selvagem. A dupla fez, portanto, o casal contemporâneo – que trepa muito e vive intensamente sem precisar ter que justificar nada a ninguém – ter corpo e voz na grande mídia. Serge, como todo artista obsessivo, vivia de conceitos novos a cada seis meses. E seu tórrido casamento e seus discos com a cantora são exatamente isso. Não apenas isso, é claro, mas as relações humanas são matéria prima para a música, fruto do contexto em que são lançadas. Somente poucas pessoas como Serge saberiam captar a verdadeira revolução comportamental, social e política que vinha acontecendo e, baseando-se em sua própria vida, abordar como o amor e o sexo são afetados no processo, provocando o público a cada canção, instigando-o de forma direta e sem frescura. E Jane Birkin/Serge Gainsbourg é uma síntese de tudo isso.

Um encontro entre o cancioneiro francês contemporâneo (ou chanson), a psicodelia em voga na época, as melodias  pop que dominavam o topo das paradas e os ritmos negros altamente provocantes se encontram sob a batuta de Gainsbourg em um panorama novo e fresco desenhado sob uma sonoridade única. Acrescente isso a letras abertamente sacanas e libidinosas que você tem uma idéia geral de um momento tão específico. Mas claro, isso não prepara terreno em momento algum, pois de abertura Serge entrega Je t’aime… moi non plus, a primeira “música de motel”, que com suas melodias delirantes e cadenciadas, sua marcação entre baixo e bateria esfregando-se como dois corpos e o contraste entre as declarações em voz rouca do francês e a voz aguda e sussurrada da inglesa causou imensa controvérsia e inscreveu seu nome entre uma das grandes e mais memoráveis músicas de todos os tempos: mesmo os boatos que os dois estariam transando enquanto gravaram a música  ainda não fazem jus ao impacto de uma pérola que, até hoje, carrega orgulhosamente  o estigma de ser música pornográfica.

E mesmo após uma abertura tão intensa, Serge não diminui de forma alguma a sensualidade e o erotismo absurdos presentes a cada segundo do disco. Em tempos politicamente corretos, com certeza presentear alguém com Jane Birkin/Serge Gainsbourg poderia ser considerado facilmente atentado ao pudor. O abuso lírico-sonoro continua forte em faixas como no outro dueto 69 anée érotique (marcado por excelentes melodias e intervenções rítmicas) e também em L’anamour, tão abusivas quanto apaixonadas; também está de forma mais ou menos oculta no lirismo onírico e extasiante de Sois Le Soleil Exactement, interpretada de forma magistral  por Gainsbourg.

Temas cantados por Birkin, como a dócil Orang Outan, a homenagem a sua musa Jane B. e a  típica canção de cabaré 18-39 onde, em três ocasiões diferentes, a musa mostra de quantas maneiras uma mulher pode ser atraente e sensual não apenas na aparência, mas também na voz econômica lapidada com excelentes composições na medida compartilham espaços com  a voz naturalmente abusada do gênio francês, seja nos duetos já mencionados ou em momentos solitários como a dançante, irônica e propositalmente vintage-kitsch Elisa e a balada lisérgica Les Sucettes.

De alguma forma, o baque de ser abandonado por Brigitte Bardot foi um momento definitivo na carreira de Serge: o momento onde ele decidia entre o crescimento como artista ou os lucros como compositor da nata do pop francês à época. O famoso “vai ou racha”; quando encontrou Jane Birkin, o oposto da voluptuosa Bardot que inicialmente lhe passou despercebida, o bardo marginal da França descobriu sua grande paixão ao lado do sexo, da música, do álcool e dos cigarros; a dona dos primeiros seios que o cinema viu, em Blow Up, de Michelangelo Antonioni, logo usaria sua voz para, junto a seu marido, desvirginarem o mainstream da música mundial. E, logo após a perda do cabaço, viria Histoire de Melody Nelson – depois de ser descoberto como arte em Pet Sounds e Sgt. Peppers, Gainsbarre e Birkin declarariam a música pop como adulta com doses ainda maiores de desejo, sexo e violência – mais uma das inúmeras peripécias aprontadas por esse artista único na história da indústria fonográfica, fazendo mais uma vez o escândalo ser tão natural quanto andar pra frente…

4/5

Ficha técnica: Jane Birkin/Serge Gainsbourg (Serge Gainsbourg) – 1969, França – Gravadora: Fontana Records – Integrantes: Serge Gainsbourg (vocais e composições), Jane Birkin (vocais), maestro Arthur Greenslade (arranjos e condução musical), variados  músicos de estúdio.

Tracklist:

Lado A:

  1. Je t’aime… moi non plus
  2. L’anamour
  3. Orang Outan
  4. Sous le soleil exactement
  5. 18-39
  6. 69 année érotique

Lado B:

  1. Jane B.
  2. Elisa
  3. Le canari est sur le balcon
  4. Les sucettes
  5. Manon

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