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Seven Churches (Possessed, 1985) by Luiz Carlos
julho 6, 2011, 4:47 am
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– Luiz Carlos Freitas

“Eis aqui o mistério das sete estrelas que viste na minha destra, e dos sete candeeiros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.”

(Apocalipse 1:20)

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O Cristianismo distribuído em nossa sociedade atual pelos sete continentes políticos, as sete fases históricas da Igreja Cristã entre o período das duas vindas de Cristo, os sete tipos de igreja que permearam a existência do Cristianismo, ou até mesmo o “sete”  somente, com todo o seu significado dentro da espiritualidade (é o número sagrado, a quantidade de dias da Criação). Entre várias outras definições, as Sete Igrejas às quais foram endereçadas as Sete Cartas descritas pelo apóstolo João no livro do Apocalipse são, inquestionávelmente, dos mais fortes e antigos símbolos da igreja Cristã. Mas em meados da década de 80, graças a um grupo de jovens dementes, as tais foram eternizadas na história do Metal com um novo significado completamente contrário e todo e qualquer conceito apregoado .

Lançado no início de 1985, Seven Churches foi o primeiro álbum do Possessed, banda formada por Jeff Becerra (vocal e baixo), Larry LaLonde e Mike Torrao (guitarras) e Mike Sus (bateria) e marcou uma pequena revolução musical. Os jovens (que à época tinham na faixa dos 17 anos) já vieram com um objetivo bem claro: eles queriam ser a banda mais ‘extrema’ até então, tanto na sua sonoridade quanto em matéria de conteúdo e, como não poderia deixar de ser se tratando de rock, postura. Becerra declarou que pretendiam “apavorar os ouvintes, e ser a banda mais blasfema, satânica, e louca do mundo”. E foi exatamente o que conseguiram.

Vale salientar, antes de tudo, que o Possessed vinha com uma proposta muito ousada se observarmos o alto nível do que havia sendo produzido à época e com elementos bem próximos ao pretendido pelos garotos do grupo. Naquele mesmo ano, saíam alguns dos álbuns mais clássicos da história do Thrash Metal, como Bonded by Blood (Exodus), Spreading the Disease (Anthrax) e Killing Is My Business…And Business Is Good (Megadeth), junto com outros lançados pouquíssimo tempo antes, referências até hoje em peso, velocidade e temática agressiva, como o Iron Fist (Motörhead), Kill ‘Em All (Metallica), Don’t Break the Oath (Mercyful Fate) e, claro, o polêmico The Number of The Beast (Iron Maiden), sem citar ainda a explosão do Thrash Metal alemão e o aparecimento de gigantes como Sodom, Destruction, Kreator e Tankard.

Parecendo não se importar com isso, se trancaram numa garagem e começaram a preparar seu material de forma extremamente meticulosa. A começar pela escolha de sua temática, o satanismo, algo que sempre atordoou e assustou a sociedade em geral e, mesmo admitindo a existência significativa de adeptos ou completos descrentes, consegue ser, de certo modo, no mínimo perturbador. Sempre em condiscência com o tema, estava uma sonoridade brutal. Seguiam basicamente a mesma linha melódica, com a bateria agressiva com pedais duplos em praticamente todos os momentos, uma linha de baixo pesada e duas guitarras alternando entre riffs e solos incrivelmente velozes, além do vocal “berrado” de Becerra.

As composições das músicas são bem simples, em geral, quando não  – guardando as devidas proporções da comparação – infantis (“Satanás no Inferno irá queimar / Choros aterrorizados serão ouvidos / Imortalidade interminável / Guerreiros do Inferno” – bandas como o Black Sabbath já falavam basicamente o mesmo há vários anos de modo velado e realmente aterrorizante), porém, carregando nas blasfêmias explícitas e potencialmente mais ofensivas por se apropriarem diretamente de trechos e símbolos  sagrados segundo o próprio Cristianismo, já partindo do citado nome escolhido para o álbum e na faixa-título (“Sete bíblias / Sete cruzes / Sete santos choram por suas perdas”) ou por atacar diretamente a figura de Deus, como em ‘Holly Hell’ (“Água do demônio começa a inundar / Deus é abatido, beba seu sangue”).

Como era de se esperar, o lançamento do Seven Churches não passou imune a polêmicas tão fortes quanto a música que eles apresentavam, principalmente por gerar levantes de grupos “defensores da moral e fé Cristã” estarrecidos com os altos níveis de blasfêmias promovidos pelo grupo, em especial pela referência “indevida” às escrituras do Apocalipse. Todavia, talvez a sua maior contribuição seja fornecer as bases para o surgimento de um novo subgênero do Metal, o Death Metal, uma “evolução” do Thrash Metal com um foco maior (entre outras variações) nas temáticas, agora bem mais obscuras, sobre morte e violência, por exemplo.

Diferente do que é amplamente defendido, não foi o Possessed que “criou” o Death Metal. Eles tiveram, sim, uma grande influência junto a outras bandas que começaram a explorar as mesmas experimentações que eles em um período relativamente próximo, como Sodom, Hellhammer e Death, fazendo dessas experimentações um movimento orgânico que cada vez mais ganhava adeptos, como Sepultura, Napalm Death, Slayer e os brasileiros do Sarcófago, sobretudo na definição do termo, que muitos acreditam ter se estabelecido pelo título da última faixa do Seven Churches, ‘Death Metal’, a composição mais agressiva do disco e que abarcava quase todas as temáticas preteridas.

Praticamente um manifesto do novo conceito:

“Agora vamos assumir
E governar pelo Death Metal
Desfrute do nosso reino tão esperado
Sangue é o que queremos
E não vamos desistir disso
Até que os enlouqueçamos”

Junto com o sucesso e visibilidade que o Seven Churches rendeu ao Possessed, vieram uma série de acontecimentos trágicos capazes de assustar os mais crédulos, entre eles, o assalto onde Jeff Becerra levou o tiro que o deixou paraplégico, pondo fim ao grupo (que voltaria a se reunir em formação original em 2007, com Becerra se apresentando mesmo numa cadeira de rodas). Bem antes disso, em 1983, o grupo já havia enfrentado o suicídio de Barry Fisk, seu primeiro vocalista, caso que voltou à tona e, junto com um sem número de outras polêmicas e relatos sobre “acidentes misteriosos” nas apresentações do grupo, rendendo ao Possessed a fama de “amaldiçoados” (o que, de certo modo, era o que eles procuravam desde o princípio).

Contudo, diferente do que ocorre na maioria dos casos em que tragédias envolvem determinado grupo ou artista, o Possessed ainda é exponencialmente lembrado pelo seu impacto e influência no cenário musical, mesmo com o Satanismo não sendo mais nenhuma novidade (King Diamond  e Venom o “popularizaram” em escala mais larga) e o Cristianismo sofrendo agressões mais diretas e incisivas (Deicide e Cradle of Filth elevaram o nível do explícito no mainstream), além de já ter sido amplamente superado nos “desafios” musicais propostos (o Reign in Blood, do Slayer, lançado no ano seguinte, viria para ocupar o posto de disco mais rápido e pesado até aquele período), sinal de que sua força resistiu firme ao tempo, assim como seu legado musical maldito.

5/5

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Ficha Técnica:

Seven Churches (Possessed) – 1985 – Integrantes: Jeff Becerra (vocal, baixo); Larry LaLonde (guitarra); Mike Torrao (guitarra); Mike Sus (bateria)

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Tracklist:

1. The Exorcist
2. Pentagram
3. Burning in Hell
4. Evil Warriors
5. Seven Churches
6. Satan’s Curse
7. Holy Hell
8. Twisted Minds
9. Fallen Angel
10. Death Metal

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