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Rock ‘n’ Roll Animal (Lou Reed, 1974) by camilodiniz
setembro 28, 2011, 6:43 pm
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Rock 'n' Roll Animal

por Camilo Diniz

Muito se fala acerca da versatilidade musical de David Bowie e Iggy Pop, chamados frequentemente de camaleões do rock, todavia se subestima a mesma capacidade do vértice da chamada “santíssima trindade do rock”, Lou Reed, que influenciou toda uma geração de músicos, notadamente os outros membros da tríade citada.

De trovador soturno das esquinas de New York, à época dos primeiros discos do The Velvet Underground, passando por glam rocker no disco Transformer e poeta sofredor e deprimido em Berlin, Lou Reed, a despeito de tão metamórfico quanto seus colegas, é muito pouco lembrado neste quesito.

Após sua saída do Velvet Underground, Reed encontrou em David Bowie o apoio necessário para, finalmente, obter sucesso em sua obra, sempre controversa e quase nunca compreendida. O resultado foi Tranformer, talvez o maior sucesso do ano de 1972, o que fez de Lou Reed o artista do ano na Inglaterra, superando nomes consagrados como Mick Jagger, o próprio Bowie e Eric Clapton. Finalmente alcançara o reconhecimento que não veio com o Velvet, o que o colocou em situação financeira confortável.

Todavia, a vida pessoal de Reed estava em cacos devido à sua crise no casamento e vício em drogas, o que refletiu profundamente na produção do seu próximo disco, Berlin, talvez um dos mais depressivos da história do rock, duramente criticado na época, todavia reconhecido hoje como um dos registros definitivos da música.

Na esteira da crise de relacionamento, vício em drogas, brigas sérias com David Bowie e incompreensão da crítica, Lou Reed iniciou sua nova turnê, marcada pela agressividade incomum, semelhante apenas à experimentada no disco White Light/White Heat , o que o colocou no mesmo patamar de Iggy Pop, padrão até os dias de hoje no que se refere à visceralidade e agressividade no rock.

A turnê, denominada Rock ‘N’ Roll Animal resultou na gravação de um álbum homônimo ao vivo, em New York, como não poderia deixar de ser, e mostra um Lou Reed dialogando com o hard rock, sem perder a essência glam da época, cantando basicamente canções do Velvet Underground e uma do disco Berlin.

O disco é aberto com uma longa introdução, seguida de uma arrebatadora versão de Sweet Jane, um tanto quanto diferente da encontrada no Loaded. A seguir, a autobiográfica Heroin, que refletia o vício em heroína cada vez mais incontrolável de Lou Reed. Em White Light/White Heat, outro clássico do Velvet, tocado com ainda mais intensidade, marca de todo o álbum. Lady Day, única das faixas do álbum proveniente da sua carreira solo, a tristeza do Berlin é tornada ainda mais comovente e ferina. Por fim, Rock ‘n’ Roll, também do Velvet Underground, traz uma mensagem de esperança de uma menina que teve sua vida salva pelo Rock. Talvez fosse essa a perspectiva de Lou Reed.

A visceralidade do Rock ‘n’ Roll Animal foi mais uma das múltiplas transformações de Lou Reed que o tornam tão versáteis quanto seus discípulos David Bowie e Iggy Pop. Pouco tempo após sua gravação, Reed faria sua mais ousada transformação, gravando o até hoje incompreendido Metal Machine Music, talvez o mais controverso disco de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica

Rock ‘n’ Roll Animal (Lou Reed) 1968. Lou Reed (vocais), Pentti “Whitey” Glan (bateria, percussão), Steve Hunter (guitarra), Prakash John (baixo, vocais de apoio), Dick Wagner (guitarra, vocais de apoio), Ray Colcord (teclado)

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Tracklist

  1. Intro/Sweet Jane
  2. Heroin
  3. White Light/White Heat
  4. Lady Day
  5. Rock ‘n’ Roll

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A Night at The Opera (Queen, 1975) by Luiz Carlos
setembro 5, 2011, 5:18 am
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– Luiz Carlos Freitas

Em 1975, mesmo após a boa recepção de seus primeiros três álbuns, Queen, Queen II e Sheer Heart Attack – esse último, responsável pela internacionalização da banda -, o Queen ainda dispunha de um sucesso relativamente modesto. A crítica, principalmente, ainda não se dava por convencida de que o grupo britânico tinha muito o que oferecer ao cenário artístico da época, tampouco à posteridade. Mas não era isso que Mercury pensava. Perfeccionista, ele sabia que o Queen era muito mais do que o mundo estava preparado para aceitar e lutaria até o fim para conseguir firmar isso. Juntos com ele nessa batalha, estavam o guitarrista Brian May, o baixista Roger Taylor e o baterista John Deacon; suas armas: ousadia, persistência e – claro – talento quase sobrenaturais. E a materialização definitiva disso seria o disco A Night at the Opera.

Com seu título baseado na comédia homônima de 1935 dirigida pelos irmãos Marx, o álbum é até hoje aclamado como o ápice criativo do grupo e uma das maiores obras da história da música. Sua concepção foi turbulenta, com o perfeccionismo de Freddy batendo de frente com os produtores da banda, que o achavam demasiado exagerado em suas exigências, como por exemplo ter cada linha instrumental gravada separadamente em um estúdio próprio (o que acabou sendo acatado, no fim das contas), além do caso envolvendo Norman Sheffield (a quem Mercury se referia vez por outra nas apresentações como “o maior filho da puta que já conheceu”), ex-empresário da banda que desviou para si grande parte do lucro das vendas e apresentações e quase afundou as finanças do grupo.

Mas após alguns meses de intensa elaboração a pés firmes, a gravação final saiu impecável como esperado e o resultado surpreendeu a todos, com o disco emplacando os primeiros lugares de vendas e execuções nas rádios por semanas seguidas, projetando definitivamente o nome do Queen e, principalmente, de Freddy, seu líder. Contudo, é imprescindível citar que o endeusamento popular ao vocalista acaba, por vezes, injustiçando os demais integrantes. Não desmerecendo nenhum dos elogios dirigidos ao dentuço, indiscutívelmente um dos artistas mais completos que esse mundo já viu, mas não deve-se deixar que isso ofusque o que realmente era o Queen: a união harmônica de quatro brilhantes artistas que, assim como Freddy, tinham larga responsabilidade no sucesso do grupo. A Nigh at The Opera acaba sendo crucial para confirmação dessa tese.

O processo de criação das músicas acaba se dando de forma bem pessoal, com todos tendo vez para cantar nas faixas, além da particularidade na criação das letras e, óbvio, a total habilidade com seus próprios instrumentos (Brian May é um dos maiores guitarristas já vistos). Algumas das melhores faixas são de inteira responsabilidade desses membros “secundários”, como ‘I’m in Love With My Car’ e ‘You’re My Best Friend’ – cantadas respectivamente pelo baterista Roger Taylor e pelo baixista John Deacon – , além de ‘Good Company’ e ’39″‘, que recebem a voz de Brian May.

Na verdade, não existe necessariamente uma faixa de cada um. Os quatro foram ativos em todas as músicas, celebrando o título e construindo verdadeiras óperas do rock (as três primeiras faixas – ‘Death on Two Legs (Dedicated To…)’, ‘Lazing on a Sunday Afternoon’ e ‘I’m in Love With My Car’ – se completam sem cortes, como um ato de ópera), e o grande apogeu disso pode ser observado em ‘The Prophet’s Song’ e ‘Bohemian Rhapsody’, as duas faixas mais elaboradas do disco, com seus arranjos extremamente técnicos e complexos, além das experimentações e peripécias vocais de Freddy. ‘Bohemian Rhapsody’ é definitivamente o maior feito do disco. Mesmo com sua estrutura até então inédita a um trabalho com foco tão comercial quanto pretendido, foi um sucesso nas paradas, sendo tocada à exaustão várias vezes ao dia em todas as estações. E muito mais que isso, é talvez a maior realização musical de todos os tempos.

Olhando além de todas as suas qualidades, ainda vemos o legado que A Night at The Opera deixou. Com o disco, o Queen deixou bem claro que o público poderia, sim, estar pronto para inovações desse porte. A ópera e o rock já haviam flertado antes (os exemplos mais icônicos anteriores ao Queen são Tommy, do The Who, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie), mas nunca da forma como fora apresentada aqui. Particularmente, ainda hoje, mesmo quase 40 anos após seu lançamento, A Night at The Opera não conseguiu ser superado ou sequer igualado. Uma perfeita e completa obra de arte.

5/5

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Ficha Técnica:

A Night at The Opera (Queen) – 1975 – Integrantes: Freddy Mercury (vocal, piano), Brian May (violão, guitarra, koto, ukelele, harpa), Roger Taylor (bateria, gongo, tímpano, pandeiro), John Deacon (baixo)

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Tracklist:

– Lado A

1. Death on Two Legs (Dedicated To…)
2. Lazing on a Sunday Afternoon
3. I’m in Love With My Car
4. You’re My Best Friend
5. “39
6. Sweet Lady
7. Seaside Rendezvous

– Lado B

1. The Prophet’s Song
2. Love of My Life
3. Good Company
4. Bohemian Rhapsody
5. God Save the Queen

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White Light/White Heat (The Velvet Underground, 1968) by camilodiniz

– Camillo Diniz

Depois do fracasso de vendas que foi o The Velvet Underground & Nico, o relacionamento da banda com Andy Warhol ficou tenso. Lou Reed, de modo um tanto arbitrário – o que se tornaria sua nota distintiva – o substituiu por Steve Sesnick, que jurou tornar a banda tão popular quanto os Beatles, tentando inclusive uma interlocução com o empresário dos garotos de Liverpool, Brian Epstein que, apesar das boas intenções para com o grupo, acabou morrendo antes que qualquer ajuda efetiva pudesse ser concretizada.

Nico, que já não recebia um tratamento cortês por parte de Lou Reed, a despeito do relacionamento amoroso dos dois, também foi demitida, dedicando-se a uma carreira solo elogiada pela crítica, sempre contando com o apoio dos membros do Velvet na gravação de seus melancólicos trabalhos, a exemplo do Chelsea Girls, lançado ainda no ano de 1967, quando a banda estava no processo de gravação do seu segundo álbum.

Tal situação de desamparo, aliado à falta de sucesso comercial criou a situação perfeita para a produção de um disco raivoso, ainda mais agressivo em termos sonoros e poéticos do que o seu antecessor, porém não tão inovador.

Assim, sem o glamour e a proteção de Andy Warhol e com uma fúria musical sem precedentes até então, os Velvets se trancaram no estúdio e, em poucos dias concluíram seu segundo trabalho, White Light/White Heat.

A faixa título, que abre o álbum, faz menção ao tratamento de eletrochoques ao qual Lou Reed foi submetido em sua adolescência, supostamente para se curar da sua homossexualidade. A faixa continuou a ser interpretada por Reed em sua carreira solo, além de ter ganho uma bela interpretação de David Bowie. O clima caótico começa a se manifestar.

Em seguida, uma homenagem, ou sátira à jazz poetry típica dos beatniks: Um longo poema, narrado por John Cale, destacando seu pesado sotaque galês, escrito por Lou Reed e, como não poderia deixar de ser, totalmente bizarro: The Gift narra a história de um rapaz apaixonado, Waldo Jeffers que, sem dinheiro para visitar a sua namorada, Marsha, decide enviar-se em uma caixa pelo correio, como um presente. Chegando ao destino final, descobre que era traído. Dada a resistência da caixa em ser aberta, a amada lança mão de um serrote, que acaba decepando a cabeça de Jeffers. Talvez tenha sido o melhor para ele.

Lady Godiva’s Operation, continuando a trilha da bizarrice que caracteriza o disco, relata uma cirurgia de mudança de sexo de um travesti, cuja personalidade é descrita na primeira metade da música, cantada também por Cale. A próxima faixa é também a mais leve, Here She Comes Now, que ficou mais conhecida por ser gravada pelo Nirvana ainda pré-Nervermind. Um momento de tranqüilidade dentro da loucura que é o álbum.

Em I Heard Her Call my name tem-se, provavelmente, a música mais pesada de seu tempo, cujo som não deve absolutamente nada para as cruas e insanas digressões do punk rock. Com guitarras distorcidas ao máximo, um vocal quase epiléptico e a batida selvagem de Moe Tucker, em contraponto à leveza de sua percussão no The Velvet Underground & Nico dão à faixa um peso que, à época, fora praticamente impensável.

Fechando o disco, Sister Ray representa o auge da escrotidão poética de Lou Reed e a esquizofrenia sonora da banda. A letra trata de uma orgia entre travestis, marinheiros e policiais, trama digna das mais imundas revistas pornográficas do submundo. A música, composta pelos demais integrantes da banda numa longa improvisação de 17 minutos é uma agressão ferina à estética musical, prova cabal da ousadia do quarteto das esquinas sujas de New York.

White Light/White Heat, embora mais agressivo que seu antecessor, conseguiu mais sucesso comercial, graças à experiência com o mercado musical de Sesnick, o que possibilitou uma maior divulgação do trabalho da banda. Após a sua gravação, o já frágil relacionamento entre os membros da banda deteriorou-se a ponto de John Cale ser expulso, levando consigo boa parte da carga experimental e avant garde do Velvet.

Devido à liberdade e pouca preocupação com os padrões musicais que envolveu a sua produção, White Light/White Heat foi considerado o disco mais descolado de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica:

White Light/White Heat (The Velvet Underground) 1968. Lou Reed (Vocais, guitarra), John Cale (Vocais, Baixo, Órgão, Viola), Sterling Morrison (Vocal auxiliar em Lady Godiva’s Operation, Guitarra, Baixo), Maureen “Moe” Tucker (Bateria, Percussão)

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Tracklist:

Lado 1

  1. White Light/White Heat
  2. The Gift
  3. Lady Godiva’s Operation
  4. Here She Comes Now

Lado 2

  1. I Heard Her Call My Name
  2. Sister Ray

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The Velvet Underground & Nico (The Velvet Underground, 1967) by camilodiniz
agosto 2, 2011, 9:02 pm
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– por Camilo Diniz

1967, Califórnia. Explosão do verão de amor hippie: casais trajando berrantes roupas coloridas se abraçam e cantam os ideais de paz, amor, harmonia e solidariedade. Em Nova York, por outro lado, um quarteto de criaturas bizarras vestidas de preto e com óculos escuros mesmo durante a noite, acompanhados de uma modelo alemã de sotaque carregadíssimo e voz sepulcral, conhecida pelos inúmeros relacionamentos com estrelas do Rock declamam o submundo, a perversão, a sujeira das sarjetas, a imundície do ser humano, tudo isso sob o patrocínio e proteção de Andy Warhol, artista da bizarrice que, insatisfeito com as colagens de sopa de ervilha, resolveu se enveredar pela produção musical e, por acaso, encontrou a quadrilha de músicos – ainda sem a participação de Nico. – chocando a platéia de clubes da Big Apple com sua sonoridade agressiva e fora dos padrões, e suas canções polêmicas, tratando de assuntos até então negligenciados pela música, ainda engatinhando em termos de maturidade, desde que Bob Dylan surgira para provocar uma verdadeira revolução na maneira de escrever letras.

O Velvet Underground, nome tirado de uma publicação pornográfica, caracterizava-se também pela diversidade de nacionalidades, acolhendo em seu meio uma alemã e um galês, e pelas peculiaridades de seus membros, a exemplo da andrógina baterista Maureen “Moe” Tucker que, além de mulher, o que era raríssimo na época em que as baquetas eram dominadas apenas por homens, como Keith Moon, tocava seu pequeno e incomum kit em pé – sendo copiada por Bobby Gillespie, à época que foi baterista do The Jesus And Mary Chain – antecipando a máxima “do it yourself”, fundamental para o desenvolvimento do Punk Rock anos mais tarde; e pelas insanas experimentações musicais de John Cale, que incluíam uso de viola amplificada, órgãos tocados em volume máximo e afinações alternativas.

Somar a excentricidade da banda com a loucura artística de Andy Warhol, o que incluía visitas e festas na Factory, estúdio do artista, freqüentado por um público que ia de estrelas de cinema a travestis e garotos de programa criou o ambiente perfeito para a criação de uma obra prima, o The Velvet Underground & Nico (cujo nome foi uma reação do grupo à imposição feita em incluí-la como vocalista), que vendeu pouco, mas deixou um legado sem precedentes na história da música.

O álbum já é especial, denso e profundo na capa, uma simples banana desenhada por Warhol, em contraposição às capas multicoloridas e psicodélicas que estavam em alta. Em letras miúdas, no alto da banana estava o convite, talvez ordem: “Peel Slowly And See”. Aceita a sugestão, o ouvinte se deparava com uma banana cor de carne, clara alusão ao falo, o que de pronto já mostra a dualidade do disco: minimalista e ousado.

Tal dualidade reflete-se no clima diverso encontrado nas onze faixas do disco. Nunca um mesmo álbum mesclou com tanta maestria leveza, como em I’ll Be Your Mirror e Sunday Morning, balada pontuada pela celesta de John Cale; com digressões violentas e experimentais, a exemplo de European Son. Também merece especial destaque a já mencionada inversão do senso poético promovido pela trupe novaiorquina, tendo sido a banda a primeira a tratar de temas do submundo, como tráfico e vício em drogas, prostituição, transexualidade e sadomasoquismo.

Não é difícil imaginar o choque que o álbum provocou, uma vez que trazia à tona uma sonoridade e poesia completamente contrária ao padrão da época, o que talvez explique a incompreensão do disco que, apesar de ter exercido influência notável em figuras como David Bowie, Iggy Pop, New York Dolls, Joy Division, Nirvana, Sonic Youth e The Strokes, só foi redescoberto cerca de quinze anos após seu lançamento.

Dentre as músicas do álbum, destacamos I’m Waiting For The Man, que narra a epopéia de um viciado em heroína para conseguir a droga; Femme Fatale, cantada por Nico, e supostamente dedicada a Edie Sedgwick; Venus In Furs, exaltação do sadomasoquismo, baseada na obra homônima de Sacher-Masoch; All Tomorrow’s Parties, canção sombria e misteriosa, cujo sentido talvez seja tão incerto quanto à pergunta que embasa a sua letra: “E que roupas a pobre garota usará em todas as festas de amanhã?” e Heroin, certamente a mais sincera música sobre o vício em drogas, expondo-o de forma real, com suas dores e delícias, como no trecho: “Eu fiz a grande escolha, eu vou tentar destruir a minha vida (…) Heroína é minha esposa e minha vida”.

Costuma-se dizer que os Rolling Stones eram a antítese dos Beatles, pela sua postura rebelde, contrária à atitude, de certa forma, conformista do quarteto de Liverpool. Talvez o Velvet Underground, mais que antítese, seja a completa destruição dos parâmetros do rock de inspiração romântica e idealizada, a nível literário e prático. Uma declaração de amor, não a musas cândidas, mas ao submundo das esquinas de New York.

Repleto de peculiaridades, como guitarras afinadas em uma só nota, poesia maldita e composições controversas, The Velvet Underground & Nico, mais que um simples disco, é uma obra de arte, fracasso retumbante de vendas, mas sem sombra de dúvidas um dos registros definitivos da história do Rock e da música em geral.

5/5

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Ficha Técnica:

The Velvet Underground & Nico (The Velvet Underground) – 1967/EUA – Integrantes: Nico (vocal), Lou Reed (vocal e guitarra), John Cale (viola elétrica, piano, celesta), Sterling Morrison (guitarra, contra-baixo elétrico e vocais de apoio), Maureen Tucker (percussão)

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Tracklist:

– Lado A:

1. Sunday Morning
2. I’m Waiting for the Man
3. Femme Fatale
4. Venus in Furs
5. Run Run Run
6. All Tomorrow’s Parties

– Lado B:

1. Heroin
2. There She Goes Again
3. I’ll Be Your Mirror
4. The Black Angel’s Death Song
5. European Son

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(What’s The Story) Morning Glory? (Oasis, 1995) by Rita Gomes
agosto 1, 2011, 1:36 pm
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– por Rita Gomes

Após as bem sucedidas invasões britânicas dos anos 60 (The Beatles, The Rolling Stones…) e 70/80(The Police, The Smiths…), o mundo veio a conhecer, durante os anos 90, o britpop, capitaneado por Oasis e Blur, livremente inspirado nas grandes bandas britânicas, mas com uma sonoridade mais pop e radiofônica.

De inspiração operária, vindos da cidade industrial de Manchester, o Oasis fazia um som mais sujo, baseado na realidade dura em que viviam. Seu primeiro álbum, Definately Maybe, traz em canções como Supersonic, Rock’n’roll Star, Live Forever e Cigarretes and Alcohol uma digressão sobre o estilo de vida que levavam, a vontade se tornarem grandes astros, superando todas as suas dificuldades através da música (tema recorrente nos 3 primeiros álbuns, aliás).

A sonoridade nua e crua, impregnada de riffs, suja e harmônica ao mesmo tempo, bebe da mesma fonte que o grunge americano, mas com o preciosismo típico das bandas britânicas: pop, chiclete, radiofônico, capaz de unir na mesma audição filhos, pais e avós.

(What’s the story?) Morning Glory traz o amadurecimento de Noel Gallagher, líder natural da banda, autor de praticamente todas as músicas até o último disco. Melodicamente, o álbum representa o ápice das composições de Noel, trazendo linhas interessantes de guitarra (solo e base são totalmente diferentes, mas congruentes) e de bateria, principalmente após a saída de Tony McCarroll e vinda de Alan White.

Principalmente na execução e divulgação deste álbum, criou-se a imagem que acompanharia toda a trajetória da banda: arrogantes, extremamente confiantes em si e no seu próprio trabalho, a ponto de se compararem diretamente com os Beatles. A postura da banda em relação aos fãs e aos demais artistas foi sendo reforçada a partir deste álbum, inclusive a famosa disputa de popularidade com os “ricos e cultos” integrantes do Blur. Um fato curioso é que as bandas resolveram lançar os singles Roll with it (Oasis) e Country House (Blur) na mesma data, gerando intensa disputa na imprensa, principalmente pela troca de insultos entre os integrantes das bandas. A venda do single do Blur foi maior que a do single do Oasis, mas o álbum da banda de Manchester obteve reconhecimento e vendagens muito superiores ao ábum do Blur, The Great Scape.

O álbum teve como principais singles Some might say, o já citado Roll with it, Wonderwall, Don’t look back in anger e Champagne Supernova, apesar das faixas Hello, Cast no shadow e Morning Glory terem tido bastante sucesso entre os fãs e fazerem parte da set list principal da banda até a separação, em 2009.

O álbum abre com Hello, uma canção que dá as boas vindas aos ouvintes de duas maneiras: a mais óbvia, pela sua própria letra, onde Noel fala sobre as mudanças na mentalidade das pessoas com as quais conviviam ‘til the life I knew comes to my house and says: Hello!, além de ser um belo exemplo da estrutura de música que o Oasis compunha, com estrofe, ponte, refrão, ponte e refrão, além dos riffs da guitarra principal, mostrando o preciosismo de Noel na composição das melodias, muitas vezes infinitamente superiores às suas letras.

Na sequência, os 3 singles Roll with it, Wonderwall e Don’t look back in anger. Enquanto o primeiro nada mais é do que uma canção correta, quase que uma tentativa de fazer o Oasis ser parecido com os Beatles, pela sonoridade, os 2 seguintes são capítulos a parte.

Wonderwall, título surgido pela conhecida dislexia de Noel, que não conseguia dizer wonderful, inventou Wonderwall, que não tem um significado claro (parede das maravilhas? muro das alegrias?). Escrita para a ex namorada de Noel, Meg Matthews, tornou-se a música mais conhecida da banda, de maior sucesso mundial. Trazendo versos como because maybe you’re gonna be the one that saves me, and after all, you’re my wonderwal, a canção se tornou o símbolo das canções de amor do grupo, talvez apenas à frente de Dont go away, presente no álbum seguinte, Be here now.

Trazendo descaradamente o piano de Imagine, do John Lennon, no início, Don’t look back in anger trata principalmente das situações em que chateamos os demais, ou somos chateados. Já o conselho But please don’t put your life in the hands of a rock’n’roll band, who’ll throw it all away, a despeito de soar incongruente para a canção, na realidade fala da própria maneira como a banda era tratada, com todo e qualquer movimento captado e registrado em seu sentido literal pela imprensa britânica. Em suma, não acredite em tudo que seus ídolos lhe dizem [e fazem].

O primeiro single do álbum, Some might say, também foi o mais bem sucedido: foi o primeiro a estar em primeiro lugar no Reino Unido, apesar de não ter repetido o mesmo sucesso nos Estados Unidos. A canção, versando sobre as mudanças na vida dos integrantes da banda (You made no preparation for my reputation once again), possui um dos mais belos riffs composto por Noel, dando uma sonoridade grandiosa à letra. Esta música, junto com Supersonic, do Definately Maybe, D’you know what i mean, do Be here now e The Hindu Times, do Heathen Chemistry, representa o som do Oasis, numa mistura de ótimos riffs de guitarra e também de baixo com letras confessionais, tornando seu lado “sujo” também belo e radiofônico.

A faixa título do álbum, Morning Glory, não chegou a ser single oficial, mas contou com videoclip de divulgação. Falando sobre sonhos, também refere-se às mudanças nas suas vidas (All your dreams are made, when you’re chained to your mirror with your razor blade), apresenta o som mais cru do álbum, marcado pela guitarra solo.

A última faixa, Champagne Supernova, também foi o último single oficial do álbum. A explicação para o título da música seria a de que Liam e Noel, ao visitarem um observatório na Noruega, ficaram encantados com uma supernova, na cor champagne. A respeito de seu significado, o próprio Noel já declarou que a música não fala sobre algo específico, mas nota-se uma certa tendência de escrita com uma letra nonsense: slowly walking down the hall, faster than a cannonball, where were you while we were getting high?

(What’s the story?) Morning Glory, além de ser o grande álbum de uma ótima banda, também influenciou o trabalho de várias bandas britânicas que surgiriam após o Oasis, como Mcfly, Arctic Monkeys, The Kaiser Chiefs, Coldplay, cada qual ao seu modo. Ainda que, para muitos, a real influência que o Oasis tenha deixado, principalmente neste período, foi o constante envolvimento de seus integrantes em confusões em pubs, ora por agressões, ora por conta do uso abusivo de drogas e álcool, além do ego inflado, fazendo com que sejam mais conhecidos pela arrogância de se autodeclararem a maior banda do mundo. Aliás, um dos motivos que levou ao fim da banda foram as constantes brigas entre Liam e Noel, no início pelas arruaças e mais para o fim pelo próprio comando criativo da banda. Apesar disso, ainda gravaram mais cinco álbuns de estúdio e um ao vivo, deixando um legado que encontrou seu ápice em (What’s the story?) Morning Glory , o ícone da era Britpop.

4,5/5

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Ficha Técnica:

(What’s The Story) Morning Glory? (Oasis) – 1995 – Reino Unido. Integrantes: Liam Gallagher (vocais), Noel Gallagher (guitarra solo, vocais, mellotron, piano e ebow), Paul Arthurs (guitarra base, mellotron e piano), Paul McGuigan (baixo) e Alan White  (bateria e percussão).

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Tracklist

1. Hello
2. Roll With It
3. Wonderwall
4. Don’t Look Back in Anger
5. Hey Now!
6. The Swamp Song [excerpt 1]
7. Some Mighty Say
8. Cast no Shadow
9. She’s Eletric
10. Morning Glory
11. The Swamp Song [excerpt 2]
12. Champagne Supernova

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The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie, 1972) by Luiz Carlos

– Luiz Carlos Freitas

Quando resolveu incorporar o alienígena andrógino Ziggy Stardust no seu quinto álbum de estúdio, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spider From Mars, David Bowie talvez estivesse nos dando uma pista sobre sua real origem. Sim, pois ao fim da execução completa do disco, nos fica quase a certeza de que ele não é mesmo um humano como nós. Um gênio completo (e afirmar isso é até perigoso numa época em que o termo anda tão banalizado) e de, maneira incontestável, um dos nomes mais influentes de toda a história da arte, e aqui mais uma obra-prima.

O álbum conceitual lançado em 1972 é um marco em sua carreira e na história da música, artística e comercialmente. Mas antes de tudo, devemos entender a trama que constrói esse conceito. Como seu título explicita, narra a ascenção e queda de Ziggy Stardust, um alienígena que veio à Terra para anunciar o fim da humanidade em cinco anos e que, encantado com nosso planeta, resolve permanecer entre nós, virando um grande astro do rock (os tais ‘Spiders From Mars’ são a banda que o acompanha). Com o tempo, ele experimenta todos os exageros tão característicos da maioria dos “rockstar’s” e, arruinado, acaba suicidando-se.

De certo modo, o álbum já vinha sendo ensaiado desde seu segundo disco, Space Oddity, lançado em 1969, primeiro trabalho conceitual de sua carreira, com letras envolvendo ficção e filosofia, sobre um mundo reinado à paz e harmonia, valendo-se dos conceitos oriundos do movimento hippie que explodira anos antes e que ainda tinham certa força. Agora, além da ideologia da década que encerrara e da notável presença de ecos de contracultura de outras mídias, como o cinema (2001 – Uma Odisséia no Espaço e, talvez, Laranja Mecânica), ganhara força na busca pela libertação sexual que dominava pouco a pouco a cena musical. Essa foi basicamente a gênese do Ziggy Stardust.

A obra é uma das grandes afirmações do título de “Camaleão do Rock” concedido a Bowie ao longo dos anos. Em geral, o destaque vai pela elaboração da imagem controversa de Ziggy Stardust, da figura na capa do disco ao visual extravagante de suas apresentações, um ser com traços femininos e maquiagem pesada carregada em cores gritantes. Mas sua força na construção do personagem está mesmo na narrativa primorosa das onze faixas, que têm na interpretação vocal de David Bowie tanta força quanto nas suas composições e, graças a seu conceito, firmaram as bases para a explosão do Glam Rock, gênero surgido na Inglaterra no fim da década de 60, tendo seu auge no início dos 70’s.

Com suas origens geralmente reconhecidas a Marc Bolan (fundador e vocalista do T. Rex) e marcado pelo seu visual extravagante, com homens de salto alto, usando roupas e maquiagem femininas, cabelos longos, purpurina, plumas e partês, cantando sobre sexo livre, esbanjando erotismo e sensualidade nas suas apresentações, aderindo a uma postura geralmente abertamente bissexual, o Glam Rock vinha para confrontar a sociedade conservadora de modo que lembrava bastante o impacto de Elvis Presley e suas roupas e coreografias extremamente ousadas mais de uma década antes. Apesar da importância seminal pelo visual de grupos como The New York Dolls e Roxy Music ou da sexualização de Iggy Pop, teve no alterego marciano de David Bowie um de seus maiores propulsores.

A estória é contada por dois personagens distintos. Em algumas faixas, o narrador pode ser visto como um dos humanos, enquanto outras apresentam Ziggy em primeira pessoa, que por sua vez divide-se em duas personas distinguidas por sua sexualidade. Em cada uma delas, a entonação da voz de Bowie muda de forma sutil, porém suficiente para nos convencer de que ali estava uma outra “pessoa”.

O disco abre com ‘Five Years’, um melancólico relato de um homem que observa inerte ao caos instaurado na Terra quando é revelado aos humanos que a humanidade só tem cinco anos até a sua extinção. Acompanhado pelo piano, Bowie vai conduzindo a canção em tom crescente e angustiante, culminando no refrão desesperador (“Temos cinco anos, esfregados na minha cara / Cinco anos, que surpresa! / Temos cinco anos, meu cérebro dói muito / Cinco anos, é tudo o que temos”). Brilhantemente, em uma única estrofe, ele nos apresenta à sociedade em caos completo, condensando um amplo panorama estrutural de suas esferas em um possível cenário de colapso (militares – que poderiam ser o governo -, classe média, religiosos e “submundo” interligando-se):

“Um soldado com um braço quebrado,
Olhava fixamente para as rodas de um Cadillac
Um policial ajoelhou e beijou os pés de um padre,
e uma bicha passou mal ao ver a cena”

A segunda música, ‘Soul Love’, uma balada sobre o amor humano do ponto de vista dos marcianos, mostrado como um jogo de contradições, indecisões e outros conflitos de conceitos que são vistos como característicos nossos. A música segue à risca seu conceito, com versos que se complementam na letra ao mesmo tempo que se contradizem no ritmo. Essa imaturidade humana ao tratar de seus sentimentos talvez tenha despertado nos invasores uma certa comoção e interesse em ajudá-los a evoluir (“O amor descende daqueles que são vulneráveis / O amor idiota irá reluzir a fusão”).

Emenda, então, a faixa seguinte, ‘Moonage Daydream’, mostrando a chegada dos alienígenas e o pânico causado por eles. Sua letra é carregada de simbolismos e não seria exagero pensá-la como uma ode à liberação sexual e seu significado como um dos objetivos principais da invasão marciana. Os versos de abertura passam  um ar de provocação e referencia à bissexualidade (“Eu sou mamãe-papai que vem para você”) e relaciona, pela primeira vez, a figura alienígena com o cenário musical e a questão da liberação sexual (“Eu sou o invasor do espaço / Eu sou uma vadia do rock pra você”). O vocal de Bowie assume um tom levemente afeminado e a letra carrega em metáforas e referências que podem indicar uma relação sexual (“Não finja, baby, ponha essa coisa verdadeira em mim / A igreja do homem, amor”). O solo de guitarra ao final, com suas distorções repetitivas e intensas, pode facilmente ser tido como um orgasmo que sublimaria o primeiro contato entre as raças.

Em seguida, temos ‘Starman’, talvez a música mais conhecida do cantor (e que ganhou uma versão vergonhosa cantada pelo Nenhum de Nós) e o primeiro contato de Ziggy, o representante dos marcianos, com os homens. Sua letra deixa claro que sua missão é de paz (“Há um homem das estrelas esperando no céu /Ele disse para não explodirmos / Porque ele sabe que tudo vale a pena””) e condiz com a hipótese da liberação sexual, já que seu objetivo exigia uma postura mais aberta de nossa parte (“Se nós conseguirmos brilhar ele poderá aterrisar à noite”) e despertaria repulsa por parte dos conservadores (“Não conte ao seu pai ou ele irá trancar-nos por medo”).

‘It Ain’t Easy’ fala diretamente dos conflitos trazidos pela busca do prazer e é o início das dificuldades encontradas por Ziggy ao estabelecer um contato tão próximo com os humanos (“Não é fácil, não é fácil /Não é fácil chegar ao céu quando você está perecendo / Satisfação, satisfação / Mantenha-me satisfeito”). Podemos vê-la como um desabafo da identidade de Ziggy reprimida por nós, humanos, que assumimos, então, uma postura fechada ao que nos é diferente. Sob essa ótica, casa perfeitamente com a faixa que a segue, ‘Lady Stardust’, um dos pontos altos do disco, a revelação da imagem imortalizada de Ziggy Stardust e que carrega em si o estigma de todo o movimento Glam e a resistência encontrada ao confrontar a sociedade conservadora setentista:

“Pessoas olharam para a maquiagem em sua face
Riram de seus longos cabelos negros, sua graça animal
O garoto em jeans azul brilhante
Pulou no palco
E Lady Stardust cantou suas canções
De escuridão e desonra”

Mas o autor não sucumbe ao tom quase óbvio de autocomiseração esperado e faz em sua virada o mesmo que o Glam Rock ao deparar-se com a sociedade e seus tabus, seguindo em frente e mostrando sua força (“E ele estava bem, a banda toda estava / Sim, ele estava bem / A sua canção veio para a eternidade”). ‘Lady Stardust’ finaliza quase como uma profecia sobre a atração arrebatadora que o gênero teria nos jovens (“Fêmeas fatais emergiram das sombras / Para assistir a presença agradável dessa criatura / Garotos ficaram sobre as cadeiras / Para fazer seus pontos de vista”).

‘Star’ e ‘Hang On To Yourself’ apresentam, respectivamente, o início do deslumbramento e consequente confusão oferecidos pelo mundo do rock (“Eu poderia fazer alguma coisa com o dinheiro / Eu estou tão encrencado com as coisas, como elas são”) e a banda que acompanha Ziggy (“A amargura aparece mais numa guitarra roubada / Você é a abençoada, nós somos As Aranhas de Marte”), bem como uma amostra da proporção cada vez maior que o ego tomava (“Se acha que vamos conseguir, é melhor se agarrar em você mesmo”). É o prenúncio da decadência retratada em ‘Ziggy Stardust’ e ‘Suffragette City’. A faixa-título, canção de ritmo bem singelo, com destaque a seus riffs de guitarra, tem uma letra simples e direta e dos versos definitivos sobre a figura do rockstar destruído por seus próprios excessos:
.
“Fazendo amor com seu ego
Ziggy chupou sua mente”

‘Rock N’ Roll Suicide’ encerra a epopéia de Ziggy Stardust na Terra.  Fracassado em sua missão, completamente destruído e sem forças para seguir em frente, Ziggy se vê envergonhado após ser traído por si mesmo sucumbindo a seus instintos mais primitivos. Agora, entregue aos vícios que simbolizam sua própria vida (“O tempo pega um cigarro e coloca-o na sua boca /Você prende com seu dedo/ E com o outro dedo / E aí você tem seu cigarro”) ele se vê finalmente sozinho e, enfim, recorre à um último escapismo, se matando (“Mas o dia nasce e você corre pra casa / Não deixe a luz do sol arruinar sua sombra”). Mas não é um suicídio no sentido literal da palavra, apenas uma metáfora de sua entrega aos vícios que, aos poucos, o levam ao fim (aquele suicídio inconsciente de quem não queria mais lutar para manter sua vida inútil e cheia de dor, o tal “suicídio do rock n’ roll”).

Diferente do rumo que aparenta tomar por conta de seu início, a música dá uma virada com os vocais berrados de Bowie e, evitando a crítica conservadora ao hedonismo defendido pelo próprio cantor, temos um desfecho épico que marca toda a força por trás desse sonho juvenil e inconsequente de liberdade:

“Oh não, amor, você não está só
Não importa o que ou quem você tem sido
Não importa quando ou onde você tem visto
Todas as facas parecem dilacerar seu cérebro
.
Eu já tive minha cota e agora a ajudarei com a dor
Você não está só
Apenas apoie-se em mim e você não estará sozinha
Apenas me dê sua mão porque você é maravilhosa”

Independente de suas escolhas, eles não estariam sozinhos. E é assim que Ziggy Stardust encerra, de modo simples e sem julgamentos, com uma amplitude incalculavelmente maior que um mero levante de determinado grupo ou movimento ideológico, afinal foi responsável por influenciar as gerações seguintes (e essa influência é exercida até nos dias atuais) das mais variadas formas, mostrando que o apelo à sexualização excessiva era, na verdade, uma metáfora à busca por uma identidade pessoal livre de parâmetros limitadores. Essa analogia com o ciclo de autodestruição comum a quase todos os grandes nomes do rock é um dos retratos mais sinceros de todos os que buscaram expressar por meio da arte seus desejos de liberdade plena e, traídos por nossa essência humana (que é forte ao ponto de atingir até mesmo quem “não é humano”), sucumbiram.

É a esses seres “maravilhosos” que optaram por não negar-se a seus desejos que David Bowie dedica o seu Ziggy Stardust, uma obra perfeita que deve ser reverenciada por seu valor artístico e,  sobretudo, humano.

5/5

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Ficha Técnica:

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie) – 1972, Inglaterra – Componentes: David Bowie (vocais, guitarra e saxofone), Mick “Ronno” Ronson (guitarra, piano e vocais), Trevor Bolder (baixo), Mick “Woody” Woodmansey (bateria)

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Tracklist:

1. Five years
2. Soul Love
3. Moonage Daydream
4. Starman
5. It Aint Easy
6. Lady Stardust
7. Star
8. Hang Onto Yourself
9. Ziggy Stardust
10. Suffragette City
11. Rock n Roll Suicide

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4 (Beyoncé, 2011) by jennarink30
julho 19, 2011, 5:35 am
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– Por Daniella Camara

Confesso que esse novo CD da Beyoncé (carinhosamente chamada de Beyonça por mim) estava me dando um pouco de medo pré lançamento. Aquele medo que a gente sente quando o CD anterior é absolutamente fantástico e bate aquela insegurança do que virá a seguir. E I am… Sasha Fierce (2008) foi daqueles álbuns geniais pra quem adora o universo pop: trouxe baladas mais intimistas (‘Halo’, ‘Broken Hearted Girl’) e hits que dominaram pistas e levaram muita gente até o chão (‘Single Ladies’, ‘Diva’, ‘Ego’).

Então, o álbum 4 (uma homenagem a um número de muita importância na vida da Beyoncé, é a data de seu aniversário, da sua mãe, do marido Jay-Z e também a data de seu casamento) foi lançado no início do mês de junho aqui nos EUA, onde estou morando. Corri pra ouvir faixa a faixa, e preciso dizer que estou amando a mistura de ritmos que mais uma vez Beyoncé promoveu. A começar pelo single inicial (que aqui domina toda e qualquer pista de balada que você vai) ‘Run the world (girls)’ (e que poucos sabem mas tem como base principal a música ‘Pon De Floor’ – do genial Major Lazer feat. Vybz Kartel, um dos produtores do CD), passando pelas baladas românticas que fisgam o coração da mulherada ‘1+1’ (mais uma das homenagens dela pro marido Jay-Z, que em todo CD tem uma canção pra chamar de sua), ‘Best Thing I Never Had’ e ‘Start Over’.  ‘Party’ com os convidados Andre 3000 (ex Outkast) e Kanye West possivelmente será o próximo hit mais dançante. Mas a minha favorita é “Countdown” que acho uma delícia, com o R&B que é a cara da Beyoncé e sua marca registrada.

Hoje assisti um documentário muito interessante sobre o processo de criação do CD “4” e é impressionante o quanto Beyoncé é extremamente perfeccionista com suas produções. Talvez por isso seus álbuns tragam um pop um pouco mais refinado. O cuidado com cada uma das faixas e o que representam para o público que ouve é sua marca. Para a faixa de “Run the word (girls)” por exemplo, ela levou de tal forma a vontade de incluir a batida e a dança africana, que mesmo depois de assistir milhares de bailarinos em audições para o clipe, acabou pedindo para buscarem no Moçambique os rapazes do grupo Tofo tofo que ela tinha visto no Youtube, pois achou que por mais talentosos que seus bailarinos fossem, não conseguiam retratar de forma fiel a coreografia que ela tinha visto. Eles participam do clipe e dançam o tempo inteiro com ela.  Admiro esse tipo de cuidado pois em tempos da busca incansável por hits número 1 nas paradas, os artistas esquecem do detalhe e cuidado com suas produções. E nesse quesito Beyoncé é uma artista em constante busca pela perfeição.

Fato é que “4” não decepciona. É um álbum modesto mas muito bem trabalhado. Não tão dançante quanto o anterior, mas com a mistura de ritmos que Beyoncé sabe proporcionar aos seus fãs. Ela não é mais a garota de 17 anos que rebolava até o chão ao som de “Crazy in love”. Amadureceu, e sua música cresceu muito. E isso é muito perceptível ouvindo seu novo álbum. E aí entra outra opinião minha: Apesar do cuidado extremo com seus álbuns, os CDs da Beyoncé não foram feitos pra trazer reflexão. Foram feitos pra fazer dançar e cantar alto suas letras, sejam elas mais dançantes ou as que falam de amar e ser amada. É o pop que garotas como eu tanto adoram. Se você faz parte do grupo, o CD cairá como uma luva para aquele dia que você acorda meio assim e precisa de uma música pra dar uma animada e te fazer querer sair pra vida.

Who run the world? GIRLS!

3/5

4 (Beyoncé) – 2011 – Intérpretes: Beyoncé (vocais), Andre 3000 & Kanye West (na faixa 5)

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Tracklist

  1. 1+1
  2. I Care
  3. I Miss You
  4. Best Thing I Never had
  5. Party (feat Andre 3000 & Kanye West)
  6. Rather Die Young
  7. Start Over
  8. Love on Top
  9. Countdown
  10. End of Time
  11. I Was Here
  12. Run the World (Girls)

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