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A Night at The Opera (Queen, 1975) by Luiz Carlos
setembro 5, 2011, 5:18 am
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– Luiz Carlos Freitas

Em 1975, mesmo após a boa recepção de seus primeiros três álbuns, Queen, Queen II e Sheer Heart Attack – esse último, responsável pela internacionalização da banda -, o Queen ainda dispunha de um sucesso relativamente modesto. A crítica, principalmente, ainda não se dava por convencida de que o grupo britânico tinha muito o que oferecer ao cenário artístico da época, tampouco à posteridade. Mas não era isso que Mercury pensava. Perfeccionista, ele sabia que o Queen era muito mais do que o mundo estava preparado para aceitar e lutaria até o fim para conseguir firmar isso. Juntos com ele nessa batalha, estavam o guitarrista Brian May, o baixista Roger Taylor e o baterista John Deacon; suas armas: ousadia, persistência e – claro – talento quase sobrenaturais. E a materialização definitiva disso seria o disco A Night at the Opera.

Com seu título baseado na comédia homônima de 1935 dirigida pelos irmãos Marx, o álbum é até hoje aclamado como o ápice criativo do grupo e uma das maiores obras da história da música. Sua concepção foi turbulenta, com o perfeccionismo de Freddy batendo de frente com os produtores da banda, que o achavam demasiado exagerado em suas exigências, como por exemplo ter cada linha instrumental gravada separadamente em um estúdio próprio (o que acabou sendo acatado, no fim das contas), além do caso envolvendo Norman Sheffield (a quem Mercury se referia vez por outra nas apresentações como “o maior filho da puta que já conheceu”), ex-empresário da banda que desviou para si grande parte do lucro das vendas e apresentações e quase afundou as finanças do grupo.

Mas após alguns meses de intensa elaboração a pés firmes, a gravação final saiu impecável como esperado e o resultado surpreendeu a todos, com o disco emplacando os primeiros lugares de vendas e execuções nas rádios por semanas seguidas, projetando definitivamente o nome do Queen e, principalmente, de Freddy, seu líder. Contudo, é imprescindível citar que o endeusamento popular ao vocalista acaba, por vezes, injustiçando os demais integrantes. Não desmerecendo nenhum dos elogios dirigidos ao dentuço, indiscutívelmente um dos artistas mais completos que esse mundo já viu, mas não deve-se deixar que isso ofusque o que realmente era o Queen: a união harmônica de quatro brilhantes artistas que, assim como Freddy, tinham larga responsabilidade no sucesso do grupo. A Nigh at The Opera acaba sendo crucial para confirmação dessa tese.

O processo de criação das músicas acaba se dando de forma bem pessoal, com todos tendo vez para cantar nas faixas, além da particularidade na criação das letras e, óbvio, a total habilidade com seus próprios instrumentos (Brian May é um dos maiores guitarristas já vistos). Algumas das melhores faixas são de inteira responsabilidade desses membros “secundários”, como ‘I’m in Love With My Car’ e ‘You’re My Best Friend’ – cantadas respectivamente pelo baterista Roger Taylor e pelo baixista John Deacon – , além de ‘Good Company’ e ’39″‘, que recebem a voz de Brian May.

Na verdade, não existe necessariamente uma faixa de cada um. Os quatro foram ativos em todas as músicas, celebrando o título e construindo verdadeiras óperas do rock (as três primeiras faixas – ‘Death on Two Legs (Dedicated To…)’, ‘Lazing on a Sunday Afternoon’ e ‘I’m in Love With My Car’ – se completam sem cortes, como um ato de ópera), e o grande apogeu disso pode ser observado em ‘The Prophet’s Song’ e ‘Bohemian Rhapsody’, as duas faixas mais elaboradas do disco, com seus arranjos extremamente técnicos e complexos, além das experimentações e peripécias vocais de Freddy. ‘Bohemian Rhapsody’ é definitivamente o maior feito do disco. Mesmo com sua estrutura até então inédita a um trabalho com foco tão comercial quanto pretendido, foi um sucesso nas paradas, sendo tocada à exaustão várias vezes ao dia em todas as estações. E muito mais que isso, é talvez a maior realização musical de todos os tempos.

Olhando além de todas as suas qualidades, ainda vemos o legado que A Night at The Opera deixou. Com o disco, o Queen deixou bem claro que o público poderia, sim, estar pronto para inovações desse porte. A ópera e o rock já haviam flertado antes (os exemplos mais icônicos anteriores ao Queen são Tommy, do The Who, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie), mas nunca da forma como fora apresentada aqui. Particularmente, ainda hoje, mesmo quase 40 anos após seu lançamento, A Night at The Opera não conseguiu ser superado ou sequer igualado. Uma perfeita e completa obra de arte.

5/5

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Ficha Técnica:

A Night at The Opera (Queen) – 1975 – Integrantes: Freddy Mercury (vocal, piano), Brian May (violão, guitarra, koto, ukelele, harpa), Roger Taylor (bateria, gongo, tímpano, pandeiro), John Deacon (baixo)

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Tracklist:

– Lado A

1. Death on Two Legs (Dedicated To…)
2. Lazing on a Sunday Afternoon
3. I’m in Love With My Car
4. You’re My Best Friend
5. “39
6. Sweet Lady
7. Seaside Rendezvous

– Lado B

1. The Prophet’s Song
2. Love of My Life
3. Good Company
4. Bohemian Rhapsody
5. God Save the Queen

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