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Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company, 1968) by camilodiniz

– Camilo Diniz

Poucas são as performances que, de tão arrebatadoras ou perfeitas em termos técnicos e emocionais conseguem consagrar algum artista para sempre. Entre as que lograram êxito nesse aspecto, podemos citar o concerto de Joe Cocker em Woodstock, no qual deu ao mundo a versão definitiva de With A Little Help From My Friends dos Beatles, até hoje lembrada como um dos maiores covers de todos os tempos.

Porém, antes que o músico inglês se consagrasse como intérprete, no festival de Monterey, que abriu o chamado “verão de amor hippie”, realizado na Califórnia no ano de 1967, e que revelou aos Estados Unidos o talento do guitarrista Jimi Hendrix, já famoso na Inglaterra, um grupo de rock psicodélico como os mais de cinco mil que floresciam na costa oeste conseguiu se destacar dos demais, bem como ganhar fama instantânea, graças ao desempenho indescritível de sua até então desconhecida vocalista.

Ao interpretar o clássico Ball and Chain, da texana Big Mama Thornton, a também texana Janis Joplin, escalada apenas para fazer uma apresentação de passagem com sua banda, a Big Brother & The Holding Company deixou toda a platéia espantada com tamanho feeling, fato que pode ser observado nas filmagens do festival, quando uma de suas organizadoras, Mama Cass Elliot, vocalista do The Mamas & The Papas fica literalmente de boca aberta diante da interpretação visceral de Joplin.
Daí para o estrelato não durou muito. No mesmo festival a banda repetiu o show, desta vez para uma platéia maior, e saiu praticamente com a intimação de gravar um novo álbum – o primeiro já havia sido gravado, mas foi retido pela banda, que aproveitou o momento de maior fama para liberá-lo – que, mesmo antes de lançado, já havia vendido mais de um milhão de cópias, tornando-se o maior sucesso de 1968 nos Estados Unidos.

Originalmente denominado Sex, Dope and Cheap Thrills, nome rejeitado pela gravadora, que impôs o corte das duas primeiras palavras, o disco é repleto de blues com levada psicodélica, no estilo de bandas como Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, diferenciando-se das demais por ter uma mulher como vocalista, assim como o Jefferson Airplane. Vale lembrar que Janis Joplin e Grace Slick foram de fundamental importância para o crescimento das mulheres no Rock.

Para o design da capa, foi convidado Robert Crumb, ícone da arte underground norte americana, amigo do grupo, e contumaz freqüentador da Family Dog, residência oficial da banda, algo como a Funhouse do rock psicodélico. Os desenhos que explicavam cada uma das faixas do disco no estilo hippie do quadrinista tornaram a capa uma das mais lembradas de todos os tempos, bem como um marco na carreira de Crumb.

O álbum é iniciado com a divertida Combination Of The Two, que mostra toda a liberdade dos membros da Big Brother em suas apresentações, que até hoje é nota distintiva da banda. Posteriormente, temos I Need A Man To Love, parceria de Janis Joplin com o guitarrista Sam Andrew; Summertime, versão do standard do Jazz, composta na década de 1930 pelos irmãos Gershwin, vertida de modo brilhante pela Big Brother e que, com Joplin ganhou sua versão final, tendo sido o maior símbolo de sua carreira.

Ainda, o álbum conta com Piece Of My Heart, composta pelo recentemente falecido Jerry Ragovoy, também um dos símbolos da carreira de vocalista, e uma das três grandes canções do disco. Em Turtle Blues temos o perfeito auto retrato de Janis Joplin, já atormentada  pela depressão:

“Eu acho que sou como uma tartaruga, escondendo-se sob seu áspero casco; mas você sabe, eu me protejo muito bem. Eu conheço essa maldita vida bem demais.”

A faixa foi gravada ao vivo em um bar, o que fica bem visível pelos sussurros e pela garrafa quebrada durante a sua execução. Em Oh, Sweet Mary, cantada por Sam Andrew, temos novamente a demonstração da energia e liberdade do Big Brother, numa levada ácida, regada a LSD e anfetaminas.

Fechando o álbum – em versões posteriores foram adicionadas mais quatro faixas – temos a canção que consagrou Janis Joplin como mito do blues e do rock, Ball And Chain, executada com a mesma intensidade da performance que possibilitou o seu surgimento como estrela da música, e que influenciou a própria Big Mama, compositora da faixa, a executá-la de modo diferente do usual, aproximando-se da potente e definitiva versão da Pérola Branca do Blues, que a inscreveu no número das grandes divas da música americana, ao lado de Bessie Smith, Sarah Vaughan, Billie Holiday dentre outras.

4.5/5

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Ficha Técnica

Cheap Thrills (Big Brother & The Holding Company) 1968 – Janis Joplin (Vocais); Sam Andrew (Guitarra, vocais); James Gurley (Guitarra); Peter Albin (Baixo); David Getz (Bateria); John Simon (Piano em Turle Blues).

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Tracklist:

– Lado A

1.    Combination of the Two
2.    I Need a Man to Love
3.    Summertime
4.    Piece of My Heart

– Lado B

1.    Turtle Blues
2.    Oh, Sweet Mary
3.    Ball and Chain

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Faixa Recomendada:

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Flaviola e o Bando do Sol (Flaviola e o Bando do Sol, 1974) by Allan Kardec Pereira

– Por Allan Kardec Pereira

Para além da música, o movimento psicodélico recifense conhecido como “udigrudi”, perpassou diversos outros segmentos em arte, como teatro, artes plásticas, literatura e cinema. No universo musical, é possível ver em suas obras a presença de gêneros dos mais diversos integrados, tais como o folk, o rock, música regional – tais como o frevo, dali mesmo, além de um flerte com o tropicalismo. A pérola do movimento, como é considerado, especialmente por conta de sua raridade, é o disco Paêbirú, composto por Zé Ramalho e Lula Cortês, a grande figura entre os udigrudis.

O próprio Lula, juntamente com Flávio Lira (o Flaviola), Pablo Raphael, Robertinho of Recife, e Zé da Flauta lançaram em 1974 o disco homônimo, primeiro e último, com um som marcado pela interação curiosa, ora tímida, de folk – pensemos no tipo de som celta, peruano, ou nas canções caipiras, especialmente com a poeticidade do “Clube da Esquina”. Um som misterioso, embora simples, impar em sua sonoridade, universal em seus temas. Embora esquecido, Flaviola e o Bando do Sol revela uma fase essencial da música brasileira, em uma época em que o grande debate consistia na forma de recepcionar à música estrangeira, aquele monte de hippies, barbudos e simpatizantes do (s) mistério do (s) planeta (s) deram sua contribuição única na concepção de música nacional, tão importante quanto o Tropicalismo.

O disco começa com uma parte mais voltada ao folk, com a instrumental “Canto Funebre”, e suas flautas misteriosas, seus ruídos exóticos, sugerindo que estamos prestes a adentrar em uma espécie de ritual xamânico, lembra bastante o “Paêbirú”, disco-lenda do movimento, atualmente um dos mais raros da música mundial, com suas experimentações, sua aclimatação, digamos assim. Certo é que as duas próximas, “O tempo” e “Noite”, parecem compor um conjunto com a primeira, tanto em sonoridade, quanto ao tom metafísico, desolador, questionando dúvidas da alma, sendo que “Noite” é uma espécie de mantra, tão caros à psicódelia (sempre vi “Bat Macumba” como um).

Em seguida, “Desespero”, a mais linda do álbum, de longe, é um canto sobre o vazio da existencia, um lamento sobre a solidão. O que é reforçado pela faixa seguinte, “Canção de Outona”. “Do amigo” é um dos mais belos poemas sobre amizade frente aos mistérios da vida, onde o braço amigo seria uma das alternativas a um mundo triste: “Eu pensei que você não ia voltar, mas você chegou e sorriu como um anjo de luz…”.

A instrumental “Brilhante estrela” parece ser uma ponte de introdução à segunda parte do álbum, um tanto mais enérgica, digamos. “Como bois”, “Palavras”, “Balalaica” e “Olhos” saem do tom folk até então presente e flertam com a música caipira, com a viola em primeiro plano.

A genial “Romance da Lua Lua” é uma adaptação de um poema de García Lorca, presente em seu Romanceiro cigano (Romancero gitano), uma evocação à vida e cultura dos ciganos da Andaluzia. Fechando o disco, “Asas”, que após uma introdução à Mutantes, descamba em um frevo-de-bloco, lembrando que “a gente pode fazer tudo ficar mais legal nessa decadência geral”, basta você “jogar seu corpo de lado ficar flutuando de cima olhando a avenida”. Porque pra combater o tédio mundano, na repressão dos anos de chumbo – ou da vida, se pensarmos o tom universalista desse tipo de música, precisaríamos de Asas.

Ainda que tenha músicas excelentes, o álbum falta unidade para algumas canções, demasiado curtas, outras um tanto tímidas, ou bastante semelhante, o disco acaba por dar uma sensação de inacabado. Talvez uma melhor construção de algumas canções e uma maior extensão de outras, faria dessa raridade um álbum ainda mais completo.

Os udigrudis, certamente foram uma das vozes a gritar por liberdade, que experimentaram em sua música, influencias diversas, tal qual os mais diversos movimentos psicodélicos em música pelo mundo. Esses loucos, questionadores do status quo, que meditavam sobre os dramas da existência foram os grandes influenciadores de um dos mais ricos movimentos de nossa música anos depois. É inegável a influência de seus espíritos inquietos em figuras como Chico Science, e sua vontade de “sair da lama e enfrentar os urubus”.

[4/5]
Flaviola e o Bando do Sol (idem) – 1974 – Integrantes: Flávio Lira (o Flaviola), Lula Côrtes, Pablo Raphael, Robertinho of Recife, e Zé da Flauta. 
Faixas
01.   Canto Fúnebre
02.   O Tempo
03.   Noite
04.   Desespero
05.   Canção de Outona
06.   Do Amigo
07.   Brilhante Estrela
08.   Como os Bois
09.   Palavras
10.   Balalaica
11.   Olhos
12.   Romance da Lua
13.   Asas
Faixa recomendada: 


Electric Mud (Muddy Waters, 1968) by Bernardo Brum
junho 21, 2011, 7:32 pm
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por Bernardo Brum

De todos os grandes músicos que já verteram sua tristeza e seus anseios naquele estilo particular de música gerado com forte influência nos cânticos espirituais africanos, baseado numa idéia estilística de repetição de estrutura e esala menor das harmonias, o blues, Muddy Waters foi um dos seus deuses. Foi ele um dos principais responsáveis pelo nascimento do blues de chicago, que “eletrificou” o estilo voz e violão do Delta do Mississipi, acrescentando instrumentos que acrescentassem nova estrutura ao som – simbolizando, sonoramente, o êxodo rural que aconteceu nos EUA na metade do século vinte.

O próprio Muddy, nascido no Mississipi e criado em Louisiana e falecido em Illinois, tendo seu nome homenageado como vias públicas de sua capital Chicago e do subúrbio Westmont, era um exemplo disso. Assim que chegou na cidade grande, trocou o violão pela guitarra elétrica e, após alguns meses se apresentando com um violoncelista, acrescentou uma sessão rítmica e uma gaita, postulando assim a formação clássica de uma banda de blues.

Com bandas de apoio de dar inveja (acompanhado por gente como Willie Dixon e Buddy Guy), Muddy foi um dos grandes astros entre os negros americanos no século vinte, promovendo uma grande inovação estética ao trazer uma nova visão – elétrica e urbana – de um estilo nascido acústico e interiorano.

Por conseqüência, também inspirou grande parte do nascente rock and roll nos anos cinqüenta (Chuck Berry conseguiu seu primeiro contrato através de um “QI” do bluesman) e a Invasão Britânica dos anos sessenta, formada por jovens que foram fundo nas suas inspirações para música (The Animals, Pretty Things, The Kinks, Them, The Yardbirds, The Who, Rolling Stones – esses, inclusive, tem seu nome diretamente tirado de um verso de Waters na música Catfish Blues).

E, quem diria, no final dos anos sessenta, Waters inovaria novamente. Um choque para os puristas do blues, a inspiração de toda uma vida para gente como John Paul Jones (Led Zeppelin) e Chuck D (Public Enemy) – Electric Mud, o famoso (e controverso) “disco psicodélico” de Muddy Waters. Com larga utilização dos pedais wah-wah (amplificador de frequências) e fuzzbox (amplifcador de distorção), o novo disco de Muddy era a cara do que vinha sendo feito à époa por jovens inovadores (mas discípulos fanáticos do velho Mud) como Jimi Hendrix, Cream e Jeff Beck Group: amplificado, distorcido e barulhento.

Mesmo com as polêmicas envoltas – inclusive a de que o próprio Muddy detestava o som do disco, com declarações do próprio em algumas biografias dando conta que ele achava que nenhum desses pedais poderia ser tão expressivo quanto o puro som da guitarra – nada impediu que o disco vendesse feito água e provocasse um verdadeiro abalo sísmico nas estruturas. Eram a velha guarda e a vanguarda se encontrando em um disco conceitualmente inovador e desafiador, polêmico como tudo que foi influente.

Do som nebuloso e chapado baforado em seu antigos sucessos I Just Want to Make Love to You e (I’m Your) Hoochie Coochie Man (aumentando a lascívia dessas canções a níveis nunca antes imaginados quando gravados pela primeira vez), com riffs e solos “viajantes” e teclados lisérgicos fazendo contraposição à sessão rítmica  e harmônica típicas do blues – nasceu toda uma nova concepção sonora, que o mestre provava por a+b ser possível, como quando transforma Let’s Spend The Night Together, dos Stones, em um legítimo “soul psicodélico”, cadenciado e arrebatador – uma ousadia perfeita para se lançar sobre uma música já ousada em sua estrutura original (afinal, eram brancos ingleses no mainstream americano dos anos sessenta  convidando as garotas para dar umazinha…).

O quanto Muddy perdeu em expressividade, não dá para saber, mas é certo que a que restou no álbum já era mais que necessária para que um artista que sabia se renovar cada vez que uma canção pedia sem jamais sacrificar suas raízes, apenas colocando alguns ternos novos – nesse caso, acrescentando texturas sonoras pouco exploradas até então – é quase como um aval do mestre para com seus fiéis aprendizes.

Que o diga a orientação funky dada para Mannish Boy, ou a ousada versão de quase sete minutos para She’s Alright, talvez o ápice de tudo ambicionado por Marshall Chess, o grande idealizador do “blues psicodélico” gravado por Muddy Waters nesse álbum e por Howlin’ Wolf em seu The Howlin’ Wolf Album. Herbert Harper’s Free Press News era a inspiração pré-concertos de Jimi Hendrix – que anos mais tarde, seria de inspiração fundamental para os momentos mais hard-roqueiros do Led Zeppelin ou na construção do esqueleto dos riffs mastodônticos e sombrios de Tony Iommi no Black Sabbath. Ou mesmo anos mais tarde, no surgimento do funk setentista (com as aproximações psicodélicas e jazzísticas de gente como Sly and The Family Stone e Parliament/Funkadelic) e do hip-hop a partir dos anos oitenta (pergunte a qualquer um dos pioneiros de onde veio a inspiração para fazer esporro com qualidade para expressar seus problemas).

Talvez Electric Mud, afinal de contas, não seja o registro definitivo de Waters, mas é um dos seus mais emblemáticos e poderosos. Gerações inteiras foram buscar inspiração nesse blues alto e distorcido, que rugia com fúria as angústias típicas dos bluesmen. É nada menos que o trabalho de um gênio, um verdadeiro monolito de influência incalculável na música popular do século vinte, cujos resquícios de seu som certamente ainda serão ecoados por muitas décadas.

4,5/5

Electric Mud (Muddy Waters) – 1968 – Integrantes: Muddy Waters (vocais), Gene Barge (saxofone tenor), Phil Upchurch, Roland Faulkner e Pete Cosey (guitarras), Charles Stepney (orgão e arranjos), Louis Satterfield (baixo) e Morris Jennings (bateria).

Tracklist:

  1. I Just Want to Make Love to You
  2. (I’m Your) Hoochie Coochie Man
  3. Let’s Spend The Night Together
  4. She’s Alright
  5. Mannish Boy
  6. Herbert Harper’s Free Press News
  7. Tom Cat
  8. The Same Thing

Faixa recomendada: