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White Light/White Heat (The Velvet Underground, 1968) by camilodiniz

– Camillo Diniz

Depois do fracasso de vendas que foi o The Velvet Underground & Nico, o relacionamento da banda com Andy Warhol ficou tenso. Lou Reed, de modo um tanto arbitrário – o que se tornaria sua nota distintiva – o substituiu por Steve Sesnick, que jurou tornar a banda tão popular quanto os Beatles, tentando inclusive uma interlocução com o empresário dos garotos de Liverpool, Brian Epstein que, apesar das boas intenções para com o grupo, acabou morrendo antes que qualquer ajuda efetiva pudesse ser concretizada.

Nico, que já não recebia um tratamento cortês por parte de Lou Reed, a despeito do relacionamento amoroso dos dois, também foi demitida, dedicando-se a uma carreira solo elogiada pela crítica, sempre contando com o apoio dos membros do Velvet na gravação de seus melancólicos trabalhos, a exemplo do Chelsea Girls, lançado ainda no ano de 1967, quando a banda estava no processo de gravação do seu segundo álbum.

Tal situação de desamparo, aliado à falta de sucesso comercial criou a situação perfeita para a produção de um disco raivoso, ainda mais agressivo em termos sonoros e poéticos do que o seu antecessor, porém não tão inovador.

Assim, sem o glamour e a proteção de Andy Warhol e com uma fúria musical sem precedentes até então, os Velvets se trancaram no estúdio e, em poucos dias concluíram seu segundo trabalho, White Light/White Heat.

A faixa título, que abre o álbum, faz menção ao tratamento de eletrochoques ao qual Lou Reed foi submetido em sua adolescência, supostamente para se curar da sua homossexualidade. A faixa continuou a ser interpretada por Reed em sua carreira solo, além de ter ganho uma bela interpretação de David Bowie. O clima caótico começa a se manifestar.

Em seguida, uma homenagem, ou sátira à jazz poetry típica dos beatniks: Um longo poema, narrado por John Cale, destacando seu pesado sotaque galês, escrito por Lou Reed e, como não poderia deixar de ser, totalmente bizarro: The Gift narra a história de um rapaz apaixonado, Waldo Jeffers que, sem dinheiro para visitar a sua namorada, Marsha, decide enviar-se em uma caixa pelo correio, como um presente. Chegando ao destino final, descobre que era traído. Dada a resistência da caixa em ser aberta, a amada lança mão de um serrote, que acaba decepando a cabeça de Jeffers. Talvez tenha sido o melhor para ele.

Lady Godiva’s Operation, continuando a trilha da bizarrice que caracteriza o disco, relata uma cirurgia de mudança de sexo de um travesti, cuja personalidade é descrita na primeira metade da música, cantada também por Cale. A próxima faixa é também a mais leve, Here She Comes Now, que ficou mais conhecida por ser gravada pelo Nirvana ainda pré-Nervermind. Um momento de tranqüilidade dentro da loucura que é o álbum.

Em I Heard Her Call my name tem-se, provavelmente, a música mais pesada de seu tempo, cujo som não deve absolutamente nada para as cruas e insanas digressões do punk rock. Com guitarras distorcidas ao máximo, um vocal quase epiléptico e a batida selvagem de Moe Tucker, em contraponto à leveza de sua percussão no The Velvet Underground & Nico dão à faixa um peso que, à época, fora praticamente impensável.

Fechando o disco, Sister Ray representa o auge da escrotidão poética de Lou Reed e a esquizofrenia sonora da banda. A letra trata de uma orgia entre travestis, marinheiros e policiais, trama digna das mais imundas revistas pornográficas do submundo. A música, composta pelos demais integrantes da banda numa longa improvisação de 17 minutos é uma agressão ferina à estética musical, prova cabal da ousadia do quarteto das esquinas sujas de New York.

White Light/White Heat, embora mais agressivo que seu antecessor, conseguiu mais sucesso comercial, graças à experiência com o mercado musical de Sesnick, o que possibilitou uma maior divulgação do trabalho da banda. Após a sua gravação, o já frágil relacionamento entre os membros da banda deteriorou-se a ponto de John Cale ser expulso, levando consigo boa parte da carga experimental e avant garde do Velvet.

Devido à liberdade e pouca preocupação com os padrões musicais que envolveu a sua produção, White Light/White Heat foi considerado o disco mais descolado de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica:

White Light/White Heat (The Velvet Underground) 1968. Lou Reed (Vocais, guitarra), John Cale (Vocais, Baixo, Órgão, Viola), Sterling Morrison (Vocal auxiliar em Lady Godiva’s Operation, Guitarra, Baixo), Maureen “Moe” Tucker (Bateria, Percussão)

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Tracklist:

Lado 1

  1. White Light/White Heat
  2. The Gift
  3. Lady Godiva’s Operation
  4. Here She Comes Now

Lado 2

  1. I Heard Her Call My Name
  2. Sister Ray

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Raw Power (The Stooges, 1973) by Allan Kardec Pereira
junho 14, 2011, 3:33 am
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– Allan Kardec Pereira

Em 1973, Pink Floyd e seu “Dark Side of The Moon” fazia legiões de fanáticos pelo rock progressivo delirar. Na Inglaterra, a cada dia o glam rock crescia mais e mais, sob a influência de Bowie com seu “Aladin Sane”, primeiro disco de glam a atingir o primeiro lugar no Reino Unido.

Por outro lado, nas sarjetas mais podres do universo musical estadunidense, Bowie e seu empresário Tony DeFries decidem tirar da lama uma figura bem conhecida do underground americano, e que vinha cada vez mais definhando de tanta droga: Iggy Pop.Repaginaram o nome dos Stooges, agora “Iggy and the Stooges”, e mesmo depois de muita confusão, com DeFries odiando uma primeira versão de “Search and Destroy” e Bowie tendo de intermediar as coisas, saiu algo (pra entender um pouco desses episódios, seria legal assistir ao ótimo “Velvet Goldmine”, de Todd Haynes).

Meio que nas entucas, sem que Bowie e DeFries tivesse noção do que estava sendo produzido, a banda se trancou por 12 dias no estúdio (diz a lenda que foi um dos poucos álbuns da banda que o próprio Iggy vetou a presença de prostitutas, drogados e traficantes dentro do estúdio). Fato é que o que surgiu de lá foi uma porrada sonora, algo inexplicável de tanta violência e sexualidade, algo capaz de causar um impacto estarrecedor numa época em que Alice Cooper, New York Dolls, MC5 e outros tantos rockeiros pirados da época andavam fazendo muito barulho em pubs cheios de drags, drogados e todo tipo de gente. Ou que os Stooges, desde 1969 andavam atemorizando a sociedade que cada vez mais se assustava com seus jovens.

O mundo é outro, é cruel, é violento e o sexo é livre para os Stooges. O “Raw Power” trata logo de bradar: “I am the world’s forgotten boy/The one who searches and destroys” na faixa de abertura, “Search And Destroy”, espécie de resposta bárbara e visceral do proto-punk de Iggy aos pesadelos do Vietnã que tanto assolavam a mente do Pink Floyd de “The Dark Side of the Moon”. Em seguida, “Gimme Danger” é uma espécie de libelo aos perigos de furunfar com outros caras. Sexo para Iggy era prazer, pela frente ou por trás, não importava. Na quarta faixa, “Penetration”, o iguana Iggy vai direto ao ponto, explodindo sensualidade. “Raw Power” começa com um gritos histéricos e solos absurdos,numa música com o romantismo a moda Iggy Pop: “Raw power baby can’t be beat/Poppin’ eyes and flashin’ feet”. E se a “calma” de “I Need Somebody” parece acalentar nossos ouvidos e mentes de tanta porrada e escrutínio, é porque é uma mera ilusão pro final com as presenças de “Shake Appeal” e “Death Trip”.

Mas, claro, tudo em Iggy e The Stooges gira em torno de uma conjunção (im)perfeita de ferocidades: da letra, do som e das interpretações ao vivo, um dos maiores espetáculos de auto-destruição que um cantor poderia desferir contra si próprio. “Raw Power” não envelhece nunca, é sempre bem vindo em um porre homérico daqueles.

5/5

Raw Power (The Stooges) – 1973 – Integrantes: Iggy Pop (vocal). James Williamson (guitarra), Ron Asheton (baixo), Scott Asheton (bateria)

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Tracklist:

Lado 1
  1. Search and Destroy
  2. Gimme Danger
  3. Your Pretty Face Is Going to Hell
  4. Penetration
Lado 2
  1. Raw Power
  2. I Need Somebody
  3. Shake Appeal
  4. Death Trip
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