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Flaviola e o Bando do Sol (Flaviola e o Bando do Sol, 1974) by Allan Kardec Pereira

– Por Allan Kardec Pereira

Para além da música, o movimento psicodélico recifense conhecido como “udigrudi”, perpassou diversos outros segmentos em arte, como teatro, artes plásticas, literatura e cinema. No universo musical, é possível ver em suas obras a presença de gêneros dos mais diversos integrados, tais como o folk, o rock, música regional – tais como o frevo, dali mesmo, além de um flerte com o tropicalismo. A pérola do movimento, como é considerado, especialmente por conta de sua raridade, é o disco Paêbirú, composto por Zé Ramalho e Lula Cortês, a grande figura entre os udigrudis.

O próprio Lula, juntamente com Flávio Lira (o Flaviola), Pablo Raphael, Robertinho of Recife, e Zé da Flauta lançaram em 1974 o disco homônimo, primeiro e último, com um som marcado pela interação curiosa, ora tímida, de folk – pensemos no tipo de som celta, peruano, ou nas canções caipiras, especialmente com a poeticidade do “Clube da Esquina”. Um som misterioso, embora simples, impar em sua sonoridade, universal em seus temas. Embora esquecido, Flaviola e o Bando do Sol revela uma fase essencial da música brasileira, em uma época em que o grande debate consistia na forma de recepcionar à música estrangeira, aquele monte de hippies, barbudos e simpatizantes do (s) mistério do (s) planeta (s) deram sua contribuição única na concepção de música nacional, tão importante quanto o Tropicalismo.

O disco começa com uma parte mais voltada ao folk, com a instrumental “Canto Funebre”, e suas flautas misteriosas, seus ruídos exóticos, sugerindo que estamos prestes a adentrar em uma espécie de ritual xamânico, lembra bastante o “Paêbirú”, disco-lenda do movimento, atualmente um dos mais raros da música mundial, com suas experimentações, sua aclimatação, digamos assim. Certo é que as duas próximas, “O tempo” e “Noite”, parecem compor um conjunto com a primeira, tanto em sonoridade, quanto ao tom metafísico, desolador, questionando dúvidas da alma, sendo que “Noite” é uma espécie de mantra, tão caros à psicódelia (sempre vi “Bat Macumba” como um).

Em seguida, “Desespero”, a mais linda do álbum, de longe, é um canto sobre o vazio da existencia, um lamento sobre a solidão. O que é reforçado pela faixa seguinte, “Canção de Outona”. “Do amigo” é um dos mais belos poemas sobre amizade frente aos mistérios da vida, onde o braço amigo seria uma das alternativas a um mundo triste: “Eu pensei que você não ia voltar, mas você chegou e sorriu como um anjo de luz…”.

A instrumental “Brilhante estrela” parece ser uma ponte de introdução à segunda parte do álbum, um tanto mais enérgica, digamos. “Como bois”, “Palavras”, “Balalaica” e “Olhos” saem do tom folk até então presente e flertam com a música caipira, com a viola em primeiro plano.

A genial “Romance da Lua Lua” é uma adaptação de um poema de García Lorca, presente em seu Romanceiro cigano (Romancero gitano), uma evocação à vida e cultura dos ciganos da Andaluzia. Fechando o disco, “Asas”, que após uma introdução à Mutantes, descamba em um frevo-de-bloco, lembrando que “a gente pode fazer tudo ficar mais legal nessa decadência geral”, basta você “jogar seu corpo de lado ficar flutuando de cima olhando a avenida”. Porque pra combater o tédio mundano, na repressão dos anos de chumbo – ou da vida, se pensarmos o tom universalista desse tipo de música, precisaríamos de Asas.

Ainda que tenha músicas excelentes, o álbum falta unidade para algumas canções, demasiado curtas, outras um tanto tímidas, ou bastante semelhante, o disco acaba por dar uma sensação de inacabado. Talvez uma melhor construção de algumas canções e uma maior extensão de outras, faria dessa raridade um álbum ainda mais completo.

Os udigrudis, certamente foram uma das vozes a gritar por liberdade, que experimentaram em sua música, influencias diversas, tal qual os mais diversos movimentos psicodélicos em música pelo mundo. Esses loucos, questionadores do status quo, que meditavam sobre os dramas da existência foram os grandes influenciadores de um dos mais ricos movimentos de nossa música anos depois. É inegável a influência de seus espíritos inquietos em figuras como Chico Science, e sua vontade de “sair da lama e enfrentar os urubus”.

[4/5]
Flaviola e o Bando do Sol (idem) – 1974 – Integrantes: Flávio Lira (o Flaviola), Lula Côrtes, Pablo Raphael, Robertinho of Recife, e Zé da Flauta. 
Faixas
01.   Canto Fúnebre
02.   O Tempo
03.   Noite
04.   Desespero
05.   Canção de Outona
06.   Do Amigo
07.   Brilhante Estrela
08.   Como os Bois
09.   Palavras
10.   Balalaica
11.   Olhos
12.   Romance da Lua
13.   Asas
Faixa recomendada: 
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Alucinação (Belchior, 1976) by Allan Kardec Pereira
junho 20, 2011, 11:03 pm
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-Allan Kardec Pereira

Filho de bodegueiro, sobrinho de boêmios. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cearense de Sobral. Cantador de feira, poeta. Seminarista por um tempo, quando de lá saiu em 1965, veio conhecer a música dos Beatles, que desde 1962 já existiam. Teve influências visíveis em sua música da poética direta de um Dylan. Afastava-se dos concretos, “A minha alucinação é suportar o dia a dia/e o meu delírio é experiência com coisas reais”, diria o poeta/cantor em Alucinação. Alguns até aproximariam esse estilo direto de canções/poesia sujas de vida do estilo de Ferreira Gullar – uma vida quase palpável, diante da voz rouca e do tom de lamúria que anos depois os Mamonas Assassinas parodiariam em “Uma Arlinda Mulher”. Flertou com os Tropicalistas, quiçá mais no sentido de recepção da música estrangeira, sobretudo os já citados Beatles e Dylan. Há claras referências musicais aos dois, embora Belchior acompanhe suas canções essencialmente dos ritmos nordestinos e cearenses – sobretudo o brega, com letras extremamente particulares.

Alucinação, de 1976, é o segundo LP de Belchior, o primeiro a garantir sucesso de público e crítica ao jovem nordestino então chegado ao sul. É visível o tom de engajamento em prol da juventude, através da evidente dicotomia entre rebeldia e repressão. Lotado de referências as mais dispares possíveis- muitas delas através de um posicionamento irônico do cantor (à algumas letras de Caetano) -, tais como Drummond Allan Poe, Manuel Bandeira; os baianos Gil e Caetano; suas influências estrangeiras, Dylan, Lennon e McCartney, além de Kubrick em referência a Laranja Mecânica.

Letras um tanto longas, declamadas com a alma em Apenas um rapaz latino-americano, canção que versa sobre a vida do próprio cantor em sua chegada a cidade grande. Talvez nos versos: “Mas não se preocupe meu amigo/
Com os horrores que eu lhe digo/Isso é somente uma canção/A vida realmente é diferente/Quer dizer!/A vida é muito pior.” resida um pessimismo realista diferente do que, por exemplo gritava Caetano em “Alegria, Alegria”. Explicitado ainda mais na faixa “Fotografia 3×4″, onde os versos: “Veloso o sol não é tao bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua…”.

“Como o diabo gosta”, “Velha Roupa Colorida” e “Como nossos pais” trabalham com essa idéia de rebeldia e leva a esperança – sempre presente, é verdade, ainda que por trás de todas as dificuldades – para um nova possibilidade de juventude.  Há também falas sobre amor, amizade (“Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua /é que se fez o meu lábio, o meu braço e a minha voz, em“Como nossos pais”), bem como encanto e desencanto advindo dos estranhamentos da migração nordestina para o eixo Rio-São Paulo (“Em cada esquina que eu passava / um guarda me parava / pedia os meus documentos e depois sorria /examinando o 3×4 da fotografia / e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”, em “Fotografia 3×4”);(“Vou ficar nesta cidade / não vou voltar pro sertão / pois vejo vir vindo no vento / o cheiro da nova estação, em “Como nossos pais”).

Para além do rock esperançoso de “Sujeito de Sorte”, prevalece em Alucinação um desencanto poético calcado em uma profunda análise de si por parte daquele que canta. Exemplificada na grande canção (na minha opinião, a mais brilhante de Belchior) “A Palo Seco”.

“E eu quero é que esse canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.” 

5/5

Alucinação (Belchior) – 1976 – Integrantes: José Roberto – Arranjos, piano, órgão, sintetizador e arp; Paulo César – Baixo; Antenor – Violão, viola, guitarra; Ariovaldo – Percussão; Belchior – Violão e voz.

Tracklist:

Lado  A:

  1. Apenas Um Rapaz Latino Americano
  2. Velha Roupa Colorida
  3. Como Nossos Pais
  4. Sujeito de Sorte
  5. Como o Diabo Gosta

Lado B

  1. Alucinação
  2. Não Leve Flores
  3. A Palo Seco
  4. Fotografia 3×4
  5. Antes do Fim

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