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Is This It (The Strokes, 2001) by Allan Kardec Pereira

-por Allan Kardec Pereira

Playboyzinhos na casa dos 20 lançam singles que no boca boca viram hype e lançam a questão: “são a salvação do rock?” Um fenômeno que se repetiu várias vezes na primeira década dos anos 2000 (e, certamente, poderá vir novamente com outras bandas, pode esperar), esse de crítica e público ovacionar uma banda que faz uma boa estréia. Certo é que, à época de seu lançamento em 2001, a música pop passava por um crise qualitativa (podemos usar tal termo?) absurda, com boys bands inundando a MTV com seus clipes performáticos. Não tinha outra, o grunge há um tempo decaía, a música jovem estadunidense (outro termo problemático, mas vamos lá) necessitava de uma nova cara.

Diante do sucesso que se seguiu, com aqueles jovens que a crítica apontava como influenciados pelos Velvet Underground, especialmente o de “White Light/White Heat” (uma comparação absurda, pois ainda que tente emular uma “atitude New York City”, os Strokes fazem um som teen, longe do mundo podre e degradados por junkeys das canções de Lou Reed), ou mesmo pelos Stooges , o vocal bêbado/rouco, aquela aura “garage rock” o clima (e casacos de couro ) pulsante do álbum de estréia dos Ramones. Citações que vistas hoje, analisadas de maneira mais fria, servem pra mostrar o quanto uma critica seduzida pelo som dos jovens acabou por os rotular em uma cena anterior, do qual os próximos projetos (solos, principalmente) dos Strokes iriam se afastar cada vez mais. Eu acredito sim, em uma grande semelhança (as guitarrinhas strokes de Nick Valensi) com o Television, especialmente o de “Marquee Moon”.

O começo do álbum é a faixa-título “Is This It”, musiquinha básica, que trava o cotidiano de um casal e o que parece ser uma briguinha. A segunda faixa, “The Modern Age” , que fora o single lançado antes do disco, sai do clima de ressaca sentimental da primeira música e se arrisca em um ritmo pulsante de guitarras, com uma linha de baixo discreta. O tom blasé segue em “Soma”, que dizem ser inspirada em “Admirável Mundo Novo”, do Huxley, com o destaque pro baixo de Nikolai Faiture em uma interessante alternância com os cortantes solos de Valensi, enquanto Casablancas grita loucamente ao fundo, uma boa música, embora discreta. “Barely Legal” é música de pista de dança, vibrante, bem na linha do ideal indie, que os Strokes seriam os baluartes e grande influenciadores (Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, The Killers, The Libertines, entre muitos outros), desse que, podemos dizer, foi a “cara do rock” (e todas as polêmicas por conseguinte) dos anos 2000 (até aqui no Brasil, desde uma influência discreta nos Los Hermanos, até quase o pastiche com o Moptop).

“Someday” é uma das mais empolgantes do disco, uma das que a maioria dos fãs mais se curtem, mesmo com todo o fatalismo amoroso: “You say you wanna stay by my side/Darlin’, your head’s not right/See, alone we stand, together we fall apart”, predomina na canção esse ideal de “sou um cara desligado”, que “I’m working so I won’t have to try so hard”, e que sabe que vai ficar bem. Em seguida, a variação contagiante de guitarras de “Alone, Together” compõem uma ótima canção, com um bom solo, com os característicos gritos de Julian Casablancas.

“Last Nite” é uma ótima canção, música de pista, novamente, o “hino indie” diriam alguns. É uma espécie de “Ana Júlia” dos caras, a mais gritada nos shows. Talvez por isso, uma música atualmente bastante desgastada, enjoativa, que fala sobre a vida de um indie que parece “don’t understand” seu lugar no mundo.

“Hard to Explain”, a do clipe cool dirigido pelo Roman Coppola, é sensacional, e mostra tudo que seu título diz; as ângustias de um jovem em meio à selva de pedras, o mundo globalizado em que vive. Tem as paradinhas clássicas, as variações de guitarra, o baixo interessante, os gritos bêbados e roucos, a bateria ritimada, excelente música. O álbum segue com a ótima (minha preferida da banda) “New York City Cops”, definição absoluta de garage rock, música excepcional, que flerta com certa crítica aos policiais de Nova Iorque. Guitarras frenéticas, paradinhas sensacionais, consegue a proeza de fazer até o insoso do Fabrizio Moretti tocar algo interessante.

O álbum segue com “Trying your Luck” e um solo bacana no meio e uma linha de baixo ótima, das melhores músicas de se ouvir ao vivo. E se encerra com “Take It Or Leave It”, final enérgico, mostrando que o encadeamento do disco tendia a colocar as músicas mais agitadas pra parte final.

Os Strokes são (ou foram? outra polêmica) a grande banda a surgir nos anos 2000 , ditaram aquilo que os jovens iriam ouvir nos anos 2000, falaram a linguagem dos mesmos. Não estamos frente a uma banda com preocupações sociais, ou coisas do tipo. São jovens burguesinhos, que fumam e assistem filmes franceses, se vestem meticulosamente descolados e saem pra tomar porres em pubs. Criaram uma tendência. Tipo, “quem som, que roupa mais Strokes ! “, não era algo raro de se ouvir. Para além disso, há se de se concordar, enquanto representante dessa “cena” indie, os Strokes são (ou foram?) a melhor banda, os “It this It” é o melhor álbum, o mais completo, o com um maior número de hits, mais enérgico. Em uma época em que os vinis de Cindy Lauper e do Television não tinham afetado o som da banda (estou falando do “Angles”, sacaram?), há longínquos 10 anos atrás, tudo isso soava como novidade, uma agradabilíssima novidade.

5/5

Is This It (The Strokes) – 2001 – Integrantes: Julian Casablancas (vocal),  Nick Valensi (guitarra), Albert Hammond Jr. (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fabrizio Moretti (bateria e percussão).

Tracklist:

  1. Is This It
  2. The Modern Age
  3.  Soma
  4. Barely Legal
  5. Someday
  6. Alone, Together
  7. Last Nite
  8. Hard to Explain
  9. New York City Cops
  10.  Trying Your Luck
  11. Take It or Leave It

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Spiderland (Slint, 1991) by felpola
junho 27, 2011, 2:45 am
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por Felipe Polamartschuk

A transição do fim dos anos 80 aos anos 90 foi turbulenta para o mainstream musical. O pop sem compromissos dominava quase que inteiramente as rádios da época. Com exceção dos artistas que já estavam consagrados (como o The Cure), havia uma indiferença quase total em relação aos bons lançamentos que surgiam (como foi o caso de Pixies e diversas outras bandas que nasceram e morreram no underground). É nesse contexto que o Slint surge.

A banda, formada por quatro garotos de Louisville, Kentucky (Brian McMahan na guitarra e voz, David Pajo também na guitarra, Britt Walford na bateria e Ethan Buckler no baixo) contava com um leque de influências, no mínimo, variado (de King Crimson a Sonic Youth, passando até mesmo por Black Sabbath). Gravaram um álbum lançado em 1989, Tweez, que passou totalmente despercebido pela mídia. Os poucos especialistas  que se arriscaram a resenhá-lo na época não pouparam críticas quanto ao estilo confuso do álbum, cheio de distorções, canções sem melodia alguma e repleto de compassos angulares.  Não surpreendentemente, o álbum também foi um fracasso comercial.

Porém, três dos quatro caipiras de Louisville não se abalaram com as críticas (Ethan Buckler deixou a banda e foi substituído por Todd Brashear no baixo), e mais uma vez entraram em estúdio para gravar o segundo e último álbum da banda. Spiderland, além de influenciar a grande maioria dos artistas de rock independente que surgiriam futuramente, seria o marco inicial de dois estilos musicais: os denominados Post-Rock e Math Rock.

Talvez a característica mais notável de Spiderland seja a ausência quase que total de qualquer tipo de melodia, com exceção de alguns momentos em “Washer”. McMahan se limita a falar, e em raras ocasiões, gritar, o que casa bem com o estilo lírico da banda, quase que integralmente narrativo. Também é evidente o estilo musical minimalista do conjunto.

Contudo, equivoca-se aquele que acredita que o minimalismo do Slint implica em simplicidade. Apesar de acordes e riffs repetitivos, é possível encontrar diversas singularidades quanto a estrutura que compõe as canções do álbum. A banda raramente se prende a compassos 4/4, arriscando-se em estruturas mais complexas, como 3/4, 7/8, entre diversas composições angulares(fato este que, gerou o rótulo de Math Rock); ou seja, aqueles que procurarem musicalidade também estarão entretidos.

Todas as características citadas anteriormente são sintetizadas na faixa de abertura, “Breadcrumb Tail”, que funciona como uma espécie de “overture”, introduzindo ao ouvinte o que será encontrado ao decorrer do álbum, funcionando perfeitamente como a faixa evocativa à natureza sombria e extremamente introspectiva do álbum.

No entanto, o brilho de Spiderland começa a aparecer mesmo a partir de sua segunda faixa. Baseada no filme Nosferatu, do diretor alemão F.W. Murnau, “Nosferatu Man” tem um clima claustrofóbico, quase perturbador, atmosfera gerada principalmente devido ao ótimo trabalho executado por Pajo, com riffs que parecem ter sido retirados diretamente da trilha sonora de algum filme de terror, que surgem e logo desaparecem, se perdendo entre os sussurros de McMahan. É nesta mesma faixa que as influências inusitadas da banda começam a aparecer, como riffs que são influenciados claramente pelo Thrash Metal (!), demonstrando que a banda, apesar de ter características bastante singulares, não se intimida ao flertar com outros estilos musicais.

E é a partir deste ponto que as coisas começam cada vez a tomar rumos mais sombrios e introspectivos. “Don, Aman” é talvez, a faixa mais diferenciada do álbum. Contendo somente voz e guitarra, narra a história de um homem, que sofre de alguma espécie de fobia social, indo a uma festa (um tema aparentemente banal). No entanto, a banda mais uma vez se supera criando uma atmosfera densa e narrativa, novamente graças a guitarra de Pajo, que alterna entre momentos lentos e momentos rápidos, de acordo com o que está sendo narrado, tornando o que seria uma narração quase desinteressante, em uma história dinâmica e que estimula o ouvinte a ficar atento até o desfecho da mesma.

Após três faixa o ouvinte estaria mais confortável com a sonoridade densa de Spiderland, mas na quarta faixa do álbum a banda novamente surpreende. “Washer” é a canção mais ortodoxa do disco, e pela primeira vez  podemos ouvir McMahan cantando de fato. Contudo a atmosfera totalmente monocromática continua. Washer é uma canção lenta, liricamente enigmática, porém com um clima de tristeza que a acompanha durante até o seu desfecho. É o tipo de faixa que pode ser considerada tanto a melhor do álbum, por ser claramente diferenciada do restante, ou a pior, por estar um tanto deslocada, subjetivando totalmente sua qualidade

Então, surge “For Dinner…”, totalmente instrumental e minimalista, servindo somente como uma ponte para o que seria a música que consagra Spiderland como um dos álbuns mais criativos, interessantes e claustrofóbicos já criados.

“Good Morning, Captain“, baseada no antigo poema inglês de Samuel Taylor Coleridge, “A rima do velho marinheiro”, narra a trágica história de um capitão, que sobrevive sozinho ao naufrágio de seu navio. A canção em seu início segue o mesmo padrão que foi imposto pela banda desde o início do álbum: polirritmias, letras sussurradas, riffs atmosféricos e tudo mais, porém a banda se supera na atmosfera criada. Todos os instrumentos são perfeitamente tocados para gerar um clima quase que oceânico, que passa ao ouvinte a sensação de estar acompanhando o capitão em sua tentativa de voltar para casa. A música se estende neste mesmo clima até o seu minuto final, até que, depois de seis minutos de atmosfera mórbida, a música explode e os riffs atmosféricos dão lugar a riffs pesados. O estilo vocal de McMahan dá lugar a gritos e berros (também ficando evidente que ele não sabe cantar, porém, como David Byrne da banda Talking Heads disse uma vez: “quanto melhor a voz de um vocalista, menor a chance de ele estar falando a verdade”), o que é o caso exato aqui. A voz de McMahan demonstra ser extremamente abaixo da média e é justamente isso que influi na grandiosidade do momento. Os berros de McMahan soam como berros de uma pessoa ordinária, e acima de tudo, extremamente sinceros, ocasionando num momento capaz de arrepiar até mesmo os mais frios. E assim, após uma explosão, Spiderland chega ao fim.

Se procurássemos uma analogia para Spiderland, esta com certeza seria um episódio do antigo seriado americando “Twilight Zone” (ou “Além da Imaginação” no Brasil). Tudo é preto e branco, as histórias geralmente podem ser consideradas banais, sem sentido e parecem não estar indo a lugar nenhum ao serem analisadas fria e criticamente, porém, tudo isso é compensado por um clima obscuro que está presente em todo o episódio, mesmo não havendo a presença de momentos de terror explicito, até que, em seu último minuto, ocorre uma reviravolta, dando sentido a toda confusão que foi anteriormente estabelecida.

O único porém em Spiderland, é que é um álbum extremamente dependente do humor do ouvinte, ou seja, é o álbum que só pode ser ouvido uma vez por mês e durante uma madrugada, porém, é uma experiência musical que todos os fãs de música devem passar pelo menos uma vez na vida, para sentir o clima pesado, como nenhuma outra banda jamais conseguiu passar, ou mesmo para conferir o marco inicial de um dos estilos da cena independente mais em alta hoje em dia, o Post-Rock.

5/5

Spiderland (Slint) – 1991 – Integrantes: David Pajo (Guitarra), Brian McMahan (guitarra, voz), Britt Walford (bateria, guitarra, voz),  Todd Brashear (baixo)

Tracklist:

  1. Breadcrumb Trail
  2. Nosferatu Man
  3. Don, Aman
  4. Washer
  5. For Dinner…
  6. Good Morning, Captain

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