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The Marshall Mathers LP (Eminem, 2000) by Guilherme Bakunin
junho 24, 2011, 12:01 pm
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– por Guilherme Bakunin

O Eminem de Marshall Mathers LP é um rapper de interiores, canta sobre o que lhe acontece e aconteceu e espera alcançar a simpatia do ouvinte através de suas confissões. Não é um semiretrato social, não é gangsta rap, é uma colagem confessional sociopática permeada por sangue, misoginia, homofobia, violência, repressão. É diferente de qualquer coisa que eu já tenha escutado, porque o artista expõe sua alma de uma maneira tão explícita quanto consegue. É o apogeu do Eminem como rapper, é ele não dando a mínima pra qualquer coisa, falando abertamente sobre a repercussão do Slim Shady LP, sobre o horror da fama, a dicotomia entre o passado miserável e o presente farto e o fantasma da comercialização da sua expressão.

E ele nem precisava começar com um public announcement dizendo que não liga para o que as pessoas dizem pra deixar isso bem claro. A faixa que abre Marshall Mathers LP é “Kill You”, numa das letras mais inspiradas do cara, sampleada de Pulsion do jazzista Jacques Loussier, ele vai falando num fluxo irrepreensível sobre umas merdas desconexas (estupro da sua mãe, decapitação de pessoas, foder prostitutas com bala de revólver, essas coisas) só pra tirar onda e mostrar que não existe em função de absolutamente coisa alguma. Numa outra letra, Em diz que gera assunto para conversas na sala de estar. Acho que as conversar geradas giram em torno da ideia ‘porra, tá aí um cara que diz umas merdas doentias, e se dá muito bem com isso’.

Aí vem Stan, aquela concept music com a participação do sample de Thank You, de Dido, abordando a fama e fãs doentios que todo mundo mais ou menos conhece, cujo aspecto mais legal mesmo consiste na atuação do Eminem como seu fã fictício Stan, que progressivamente, ao longo de três estrofes, vai se exaltando por causa da rejeição de seu ídolo. Stan é até hoje, provavelmente, a mais bem sucedida música do rapper, conquistou caralhos de prêmios e caralhos de respeito dos mais variados circuitos musicais caralhos a fora. Uma das versões mais conhecidas é a live ao lado de Elton John (emblematicamente interpretando as estrofes da Dido, voa amiga) no Grammy Awards de 2001.

“Who Knew” e “The Way I Am”, junto com Criminal que fecha o albúm, são as três canções que compõe o bloco confessional, lidando principalmente com a questão do sucesso e das repercussões inimagináveis que os menores comentários ou versos geram na mídia & sociedade americanas. “Marshall Mathers” também fala disso, mas essa é especial. É incessante, irada, pesada, é quase como se não fosse cantada, mas cuspida na cara de um bully que tá ameaçando pegar o dinheiro do seu lanche. Certamente não é uma música que poderia ter sido feita por qualquer um. Marshall Mathers (a música) precisa de bagagem, caras, precisa de história, precisa de sentimento reprimido. As coisas que vão saindo do Eminem tavam entaladas e precisavam sair, e aí, quando saem, a merda voa pra uma multidão. Mãe, Insane Clow, os assassinos de Biggie Smalls, cenário geral do hip hop no começo dos anos 00 com os pseudo gangasta (prometo acabar descobrindo quem são), Backstreet Boys, Ricky Martin, homossexuais, advogados, etc.

“The Real Slim Shady” é a My Name Is (e Without Me) do albúm, vejam o clipe, leiam a letra, ouçam a música e é isso aí. Cachota de celebridades e cachota de mais uma porrada de coisa (eu particularmente acho catártico demais ver o Will Smith sendo ofendido, diz aí) e junto com “Drug Ballad” e “Under the Influence” (essa última tem um dos melhores versos do cara: So you can suck my dick if you don’t like my shit/ Couse I was high when I wrote this song/ (so) suck my dick, esse verso fica com você, caras, e pode ser usado em diversas ocasiões, de comida caseira pra namorada a trabalhos de faculdade, etc) fazem a vertente comédia do disco. De certa forma elas são as que mais chamam a atenção nas primeiras ‘ouvidas’, mas vão ficando mais sem graça na medida que você vai notando a grandiosidade do resto do material.

“Remember Me?”, “Bitch, Please II” e “Amityville” são as featurings songs do disco. Não vou pesquisar agora, mas creio que as três possuem participações de membros (se não de toda a banda) do D12 e são bem fracas, Amityville salvando um pouco, mas principalmente só por causa do Eminem mesmo. “I’m Back” deve ser a solo mais fraca do albúm, música esquisita com batidas fortes e letra pouco inspirada, meio comédia meio confessional, e sem refrão interessante.

E aí tem “Kim”, junto de “Kill You” e “Marshall Mathers” a estrela do cd. Tá entre aquelas coisas que o Eminem geralmente faz, de falar e cantar cosias que as pessoas geralmente pensam, mas pensam em um momento de raiva isolada, e por isso o sentimento acaba passando com o tempo. Mas o Eminem faz uma música desse momento, imortaliza-o e acaba tomando as consequências. Kim é uma puta duma canção cujas batidas te carregam diretamente pra dentro do que ela conta. A bateria caótica tirada do Led, os vocais megalomaníacos do Slim, indo do psicótico dramático ao grito infernal te arrepia, te choca, te faz gritar ‘puta que pariu!’ nos melhores momentos (Do you think I give a fuck? / There’s a 4 years old boy lying dead with a slitthroat in your living room / Fuck you asshole, yeah, bite me / Shut up and get what’s coming to you / You’re supposed to love me now bleed bitch bleed), e o refrão, que não é bem cantado, mas gritado, com uma voz falha e quase desafinada, reflete a dor ou não sei o que desse cara. É quase como se o Eminem sofresse pra criar essa música, mas precisasse criar de qualquer jeito pra exorcizar qualquer coisa que tivesse dentro dele. “Kim” é dark, revoltada, explosiva, arrepiante. Se fosse um filme, seria Suspiria: existe todo um senso de espetáculo orquestrado, de parafernália, de autenticidade. Certamente a canção mais subestimada do rapper, a melhor do albúm, uma das melhores de sua carreira.

Marshall Mathers LP colocou o Eminem de forma definitiva no panteão da música americana desse século. Seu disco de estreia, Slim Shady LP (e aqui é interessante observar que no seu primeiro trabalho, o disco vem do nome de sua alias artística, e agora, nesse segundo, é seu próprio nome ilustrando de forma emblemática a capa do albúm), eleveu o rapper para os grandes e promissores cantores da música popular, mas somente com MM que Eminem estabeleceu-se como o rapper legionário que, ainda hoje, o é. Já disseram, a respeito do albúm, que ele é, para o rap, o mesmo que Nevermind foi para o grunge; já disseram que o disco faz você se importar com música de novo; já disseram que é emocionalmente complexo de um jeito que o Eminem de Slim Shady LP seria incapaz de ser. Certamente MM consiste numa transformação, num grande breakthrough de fluxo musical e introspecção nas letras. Para Eminem e para o rap.

5/5

Marshall Mathers LP (Eminem) – 2000 – Integrantes: Eminem (vocais, produção), Dr. Dre (produção, vocais), Snoop Dogg, Nate Dogg, Bizarre, Sticky Fingaz, RBX, Xzibit (participações especiais).

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Tracklist:

  1. Public Service Announcement 2000
  2. Kill You
  3. Stan
  4. Paul (skit)
  5. Who Knew
  6. Steve Berman (skit)
  7. The Way I Am
  8. The Real Slim Shady
  9. Remember Me?
  10. I’m Back
  11. Marshall Mathers
  12. Ken Kaniff (skit)
  13. Drug Ballad
  14. Amityville
  15. Bitch, Please II
  16. Kim
  17. Under The Influence
  18. Criminal
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Raising Hell (Run-D.M.C., 1986) by Bernardo Brum
junho 17, 2011, 11:39 am
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por Bernardo Brum

Raising Hell foi para o rap o que o álbum homônimo de 1956 de Elvis Presley foi para o rock and roll: a catapulta da marginália e vida dura do underground para o sucesso de todo um gênero musical.

Foi o trio formado pelos mc’s Run e D.M.C. e o dj Jam Master Jay o responsável por ser o primeiro grupo de rap a colocar um álbum do gênero no número 1 das paradas; o primeiro a alcançar disco de ouro, platina e multi-platina; o primeiro deles a aparecer na capa da influente Rolling Stone; o primeiro a ser indicado para o Grammy e ter um vídeo na MTV; entre outros feitos conquistados que comprovaram para a gravadora a projeção mercadológica. E foi Raising Hell e sua proficiência pop que conquistou boa parte desses méritos.

Um estilo novo até então, trazido por músicos imigrantes da Jamaica (como o Dj Kool Herc), a celebração de festas de classes baixas que acompanhavam os mestres de cerimônia falando sobre os problemas do seu povo, o rap logo ganhou vários adeptos entre a juventude pobre dos EUA em sua fusão de ritmo e poesia, com os MC’s improvisando sobre uma base constante – uma herança do funk, que atravessou a música disco e acabou desagüando em gente pioneira como Sugarhill Gang e Grandmaster Flash. E entre esses jovens, estava o Run-D.M.C, que até o ano de 1986, batalhava por um lugar ao sol.

Tentativas não faltaram – Raising Hell é o terceiro álbum dos rappers, que desde o primeiro disco já mostravam uma estética ousada, com samples, riffs de guitarra e bate-latas perfazendo várias intervenções rítmicas difíceis pela velocidade que eram executadas, fazendo uma cama para que o duo de vocalistas vociferasse sobre os problemas e também fizesse um pouco de graça – as apostas destemidas já eram velhas conhecidas; vinham desde o primeiro álbum, em 1984, na guitarra hard rock utilizada em Rock Box – a primeira vez que os dois gêneros se cruzavam.

Mas claro, foi preciso literalmente, como diz o título do álbum, “se levantar do inferno”, transpôr a barreira, abrir as portas – não apenas por serem negros, mas também por pegar um estilo que falava de violência, drogas, questões étnicas e demais assuntos pesados e tornar tudo digerível e aceitável para uma massa pouco acostumada a verem negros desempenharem papéis fora das baladas românticas ou canções sugestivas.

Com tudo isso explicado, já dá para se ter uma noção da inovação que o trio representou ao ser um dos principais responsáveis pela criação da forma moderna e popular de se fazer rap – o jeito notoriamente malandro desse estilo de música vindo do gueto foi ampliado com quebradas rítmicas estilo arrasa-quarteirão e com refrões explosivos e envolventes.

Álbum definido por Chris Rock como o “primeiro grande álbum de rap”, Raising Hell simboliza o momento em que o rap encontrava todas as classes sociais, e colocava todas elas juntas para dançar sob uma mesma batida.

Essa coalização de tribos já ambicionada desde priscas eras encontrou sua estética definitiva com a regravação de Walk This Way, com a participação de um então quase falido e baqueado Aerosmith, afundado nas drogas e ainda longe de hits como Dude (Looks Like a Lady) e What It Takes. Transformado no rap rock definitivo e emblemático em seu vídeo em que, após discutirem e quebrarem a parede que separava seus estúdios, rappers e rockers se encontram em cima do palco, com as rimas urgentes de Run e D.M.C. encontrando os histriônicos e despinguelados berros de Steven Tyler. O sincretismo musical deu certo, e o Aerosmith retornou das cinzas e o Run-D.M.C. finalmente conheceu o gosto dos holofotes.

E não é só na participação especial que eles se saíram bem – poucos álbuns são tão vibrantes que nem esse; suas bases rítmicas garantem a diversão de uma festa inteira sem perder a força; é o caso da emblemática It’s Tricky, falando da dificuldade que é sincronizar uma batida e uma rima, falando das conseqüências das famas que o perseguem, como o rolo com garotas, a atitude tomada com pessoas que encontram nas ruas, os problemas com a família, os traficas oferecendo um produto qualquer – realmente, com tanta pressão atirada de todos os lados, a missão ‘to rock a rhyme’ torna-se um tanto complicada…

Entre outras canções que tornaram-se símbolos para toda uma geração – My Adidas marcou a primeira ligação entre um grupo de rap e uma grife e Dumb Girl foi sampleada por Kanye West e Jay Z na canção Jockin’ Jay Z do álbum Blueprint 3, de Z – temos a canção de protesto e afirmação Proud to be Black, além de You Be Illin’ com seu ritmo esperto versando sobre alguém que sempre acaba se ferrando no final.

E não apenas de hits é feito o álbum – há músicas menores  mas igualmente excelentes – Is It Live com a sua cama percussiva seca, quebrada e furiosa, a vertiginosa abertura Peter Piper (uma das grandes faixas de abertura das últimas décadas, por falar nisso) e a faixa-título Raising Hell, um rap de quase seis minutos que pessoalmente considero um dos pontos mais altos do álbum, um dueto entre Run e D.M.C.  praticamente competindo pra ver quem sai melhor, o que para dois caras do talento deles, só vem a somar. Tudo isso acomodado por um riff rockeiro e um bate estaca massacrante.

Mesmo com as polêmicas que mais tarde o envolveria, o rap e a cultura hip-hop mostraram ser, no final das contas , fundamentais para a história recente da música pop, tendo em Raising Hell uma de suas obras-primas; um dos primeiros a visualizar uma estética que conjuga vários estilos musicais distintos dentro de um, fazer sucesso enorme com suas letras ousadas e por vezes até abusadas (muitas vezes com terminologia de baixo calão cuspida na cara dura pelos MC’s).

Não dá nem pra ser preconceituoso quando o que está em questão é um álbum tão bom assim. Raising Hell destrói barreiras em nome da boa música, amplia os horizontes em nome da criatividade, sem jamais sacrificar a tal da integridade artística. É um dos poucos discos que eu tenho a pachorra de chamar de “fundamental” – mas também, nesse caso, não é pra menos. Word, bro.

4/5

Raising hell (Run-D.M.C.) – 1986 – Integrantes: Run, D.M.C. (vocais e letras) e Jam Master Jay (DJ).

Tracklist:

01. Peter Piper
02. It’s Tricky
03. My Adidas
04. Walk This Way (feat. Aerosmith)
05. Is it Live
06.  Perfection
07. Hit It Run
08. Raising Hell
09. You Be Illin’
10. Dumb Girl
11.  Son of Byford
12. Proud To Be Black

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