Tequila Radio


Flaviola e o Bando do Sol (Flaviola e o Bando do Sol, 1974) by Allan Kardec Pereira

– Por Allan Kardec Pereira

Para além da música, o movimento psicodélico recifense conhecido como “udigrudi”, perpassou diversos outros segmentos em arte, como teatro, artes plásticas, literatura e cinema. No universo musical, é possível ver em suas obras a presença de gêneros dos mais diversos integrados, tais como o folk, o rock, música regional – tais como o frevo, dali mesmo, além de um flerte com o tropicalismo. A pérola do movimento, como é considerado, especialmente por conta de sua raridade, é o disco Paêbirú, composto por Zé Ramalho e Lula Cortês, a grande figura entre os udigrudis.

O próprio Lula, juntamente com Flávio Lira (o Flaviola), Pablo Raphael, Robertinho of Recife, e Zé da Flauta lançaram em 1974 o disco homônimo, primeiro e último, com um som marcado pela interação curiosa, ora tímida, de folk – pensemos no tipo de som celta, peruano, ou nas canções caipiras, especialmente com a poeticidade do “Clube da Esquina”. Um som misterioso, embora simples, impar em sua sonoridade, universal em seus temas. Embora esquecido, Flaviola e o Bando do Sol revela uma fase essencial da música brasileira, em uma época em que o grande debate consistia na forma de recepcionar à música estrangeira, aquele monte de hippies, barbudos e simpatizantes do (s) mistério do (s) planeta (s) deram sua contribuição única na concepção de música nacional, tão importante quanto o Tropicalismo.

O disco começa com uma parte mais voltada ao folk, com a instrumental “Canto Funebre”, e suas flautas misteriosas, seus ruídos exóticos, sugerindo que estamos prestes a adentrar em uma espécie de ritual xamânico, lembra bastante o “Paêbirú”, disco-lenda do movimento, atualmente um dos mais raros da música mundial, com suas experimentações, sua aclimatação, digamos assim. Certo é que as duas próximas, “O tempo” e “Noite”, parecem compor um conjunto com a primeira, tanto em sonoridade, quanto ao tom metafísico, desolador, questionando dúvidas da alma, sendo que “Noite” é uma espécie de mantra, tão caros à psicódelia (sempre vi “Bat Macumba” como um).

Em seguida, “Desespero”, a mais linda do álbum, de longe, é um canto sobre o vazio da existencia, um lamento sobre a solidão. O que é reforçado pela faixa seguinte, “Canção de Outona”. “Do amigo” é um dos mais belos poemas sobre amizade frente aos mistérios da vida, onde o braço amigo seria uma das alternativas a um mundo triste: “Eu pensei que você não ia voltar, mas você chegou e sorriu como um anjo de luz…”.

A instrumental “Brilhante estrela” parece ser uma ponte de introdução à segunda parte do álbum, um tanto mais enérgica, digamos. “Como bois”, “Palavras”, “Balalaica” e “Olhos” saem do tom folk até então presente e flertam com a música caipira, com a viola em primeiro plano.

A genial “Romance da Lua Lua” é uma adaptação de um poema de García Lorca, presente em seu Romanceiro cigano (Romancero gitano), uma evocação à vida e cultura dos ciganos da Andaluzia. Fechando o disco, “Asas”, que após uma introdução à Mutantes, descamba em um frevo-de-bloco, lembrando que “a gente pode fazer tudo ficar mais legal nessa decadência geral”, basta você “jogar seu corpo de lado ficar flutuando de cima olhando a avenida”. Porque pra combater o tédio mundano, na repressão dos anos de chumbo – ou da vida, se pensarmos o tom universalista desse tipo de música, precisaríamos de Asas.

Ainda que tenha músicas excelentes, o álbum falta unidade para algumas canções, demasiado curtas, outras um tanto tímidas, ou bastante semelhante, o disco acaba por dar uma sensação de inacabado. Talvez uma melhor construção de algumas canções e uma maior extensão de outras, faria dessa raridade um álbum ainda mais completo.

Os udigrudis, certamente foram uma das vozes a gritar por liberdade, que experimentaram em sua música, influencias diversas, tal qual os mais diversos movimentos psicodélicos em música pelo mundo. Esses loucos, questionadores do status quo, que meditavam sobre os dramas da existência foram os grandes influenciadores de um dos mais ricos movimentos de nossa música anos depois. É inegável a influência de seus espíritos inquietos em figuras como Chico Science, e sua vontade de “sair da lama e enfrentar os urubus”.

[4/5]
Flaviola e o Bando do Sol (idem) – 1974 – Integrantes: Flávio Lira (o Flaviola), Lula Côrtes, Pablo Raphael, Robertinho of Recife, e Zé da Flauta. 
Faixas
01.   Canto Fúnebre
02.   O Tempo
03.   Noite
04.   Desespero
05.   Canção de Outona
06.   Do Amigo
07.   Brilhante Estrela
08.   Como os Bois
09.   Palavras
10.   Balalaica
11.   Olhos
12.   Romance da Lua
13.   Asas
Faixa recomendada: 
Anúncios


To Record Only Water For Ten Days (John Frusciante, 2001) by elmelchior
junho 30, 2011, 9:35 pm
Filed under: Comentários | Tags: , , , , ,

– por Melchior Barbosa

A história de John Frusciante no meio musical poderia servir muito bem para qualquer roteirista de Hollywood realizar um filme moralista, de superação através do trabalho e da dedicação. O (por enquanto) ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers era apenas mais um devoto fã da banda californiana. Idolatrava Hillel Slovak  e seu estilo de tocar. Quando Slovak faleceu devido uma overdose de heroína, o fã foi escolhido para preencher o vazio deixado pelo guitarrista. Definitivamente o sonho de qualquer um em situação parecida. Mas por que Hollywood não se apropriou da linda história de conto de fadas de Frusciante? Bom, talvez pelo fato da mesma não poder ser encarada dessa forma, pois a vida não para. Não é igual final de novela onde o casamento coroa o happy ending.

O nova-iorquino fez sua carreira com os Chili Peppers e foi obrigado a lidar com a fama da banda, que cada vez mais crescia. O encontro com as drogas foi inevitável e Frusciante logo se viu afundado no vício com a heroína. Isso o afastou dos Peppers, quando ele deixou a banda pela primeira vez em 1992. No frenesi de seu vício, Frusciante gravou seus dois primeiros álbuns solos (Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt e Simle from The Streets you Hold) até aceitar a reabilitação. Depois de se livrar do vício de heroína, o excelente guitarrista, mais experiente e maduro, retornou ao Red Hot Chili Peppers precisamente em 1999. Mas ele ainda precisava exorcizar seus próprios demônios. E foi em To Record Only Water for Ten Days que o guitarrista fez o seu ritual de libertação.

O álbum abre com a canção “Going Inside” e serve exatamente para que o ouvinte se dê conta que a viagem é pessoal, interna, introspectiva (You don’t throw your life away / Going inside / You get to know who’s watching you/And who besides you resides).  Além da guitarra distorcida e acústica, Frusciante se apropria de batidas e efeitos sintetizadores para ambientalizar a sua jornada interna. A influência de bandas synthpop dos anos 80, é nítida e da um tom de obscuridade. Claro, tudo dentro da proposta de artista. Outra influência de John Frusciante na obra, são as referências espirituais que surgiram durante sua recuperação.

Talvez pelo fato do álbum ser muito introspectivo e um tanto sombrio, não teve uma recepção popular calorosa. As guitarras estão abafadas e por vezes somem durante as fortes batidas eletrônicas, usadas de forma um tanto exageradas. O álbum se intensifica quando a parte sintetizada faz um lindo diálogo com a crueza das guitarras acústicas, como por exemplo em “The First Season”. É notável em To Record Only Water For Ten Days que as peças musicais estão apenas tentando se juntar. As canções são curtas e objetivas. Cumprem seu papel de introspecção, pois não há muito a se dizer sobre os sentimentos ali expostos.

Um dos pontos mais interessantes desse álbum passa a ser os curtos interlúdios instrumentais. Em “Ramparts” e “Murders”, as melodias falam por si só. Como na maioria das instrumentais (as sinceras, é claro) são nessas faixas em que a melancolia transborda e o ouvinte se vê em empatia com o artista. Não que o resto do álbum não tenha belas melodias e toda a melancolia da situação, mas especificamente nos interlúdios é que conversamos um pouco com Frusciante (talvez pela ausência das palavras e situações específicas) fazendo um reverso da primeira canção, um “going outside”. Porém, logo em seguida mergulhamos em sua igreja novamente para o caminho final do exorcismo.

É na parte final que as canções adquirem batidas mais presentes e melodias mais esperançosas. A voz de John torna-se mais calma e aguda. A tensão vai se libertando. Aliás, isso nos levará de volta ao título do álbum. Para Frusciante, “gravar água por dez dias” seria o mesmo que dizer que sua obra foi realizada em dez períodos diferentes. Se no início somos convidados a adentrar nos sentimentos peculiares do músico, quando entramos em seu período final, aparentemente, o músico já havia lidado com seus demônios interiores.

Frusciante voltaria a lançar novas canções de sua carreira solo em 2004 em inspiração contínua, pois naquele ano lançou três álbuns: Shadows Collide With People, The Will To Death e A Sphere In The Heart Of Silence onde ele repetiria essa experiência folk/eletronica  em uma execução mais madura. Porém, esse já consolidado artista jamais abandonou sua veia psicodélica e introspectiva, que o coloca quase no mesmo patamar de Elliott Smith.

4/5

To Record Only Water For Ten Days – John Frusciante, 2001 – Gravadora: Warner Bros. – Todos os instrumentos tocados por John Frusciante

_
Tracklist

1. Going Inside
2. Someone’s
3. The First Season
4. Wind Up Space
5. Away & Anywhere
6. Remain
7. Fallout
8. Ramparts
9. With No One
10. Murderers
11. Invisible Movement
12. Representing
13. In Rime
14. Saturation
15. Moments Have You

_
Faixa Recomendada:



9 (Damien Rice, 2006) by felipepnunes

por Felipe Fofinho

Quando “The Blower’s Daughter” foi introduzida no entorno musical brasileiro, em meados de 2005, muito pouco – ou nada – se sabia sobre Damien Rice, o jovem irlandês que assinava a autoria da canção. Reconhecida em primeira instância por embalar as adversidades de casais disfuncionais em Closer, drama do diretor Mike Nichols, a música posteriormente encontrou resguardo nos melodramas de meio mundo de enamorados, e se converteu no mantra “particular” de pelo menos 10% da comunidade afetivamente ativa do mundo (não há legitimidade científica nessa porcentagem, mas há uma nobreza compensadora em minha vontade de ser preciso). No Brasil, “The Blower’s Daughter” se alastrava em execuções ilimitadas nas estações de rádio, inspirava músicos nacionais a articular suas próprias versões, era entoada de cabo a rabo por qualquer travesti de esquina e liderava o ranking de música mais utilizada como background em montagens românticas de PowerPoint e upadas no Youtube (também não disponho de fontes documentais para autenticar esse ranking, mas não desistam de mim).

O resultado desse frisson não poderia ser outro: o público pecou por excesso e a canção assumiu uma imponência maior que o indivíduo que a idealizou. Até mesmo o julgamento do bom ouvinte, do apreciador equilibrado, foi prejudicado, de modo que a linha que dividia a proliferação irritante do single e o talento do artista foi destruída, e Damien Rice se transformou, fatidicamente, em uma generalização; no “cara daquela música mais cafona que lambada”. Refletir sobre esse fenômeno refreou meu desejo de escrever sobre o formidável “O”, trabalho de estréia do músico, pois ele é o berço e o seio da afamada canção. Seria aliciar memórias ruins, jogar sal na ferida, abrir uma caixa de Pandora que devemos manter fechada, e apropriado disso, pensei em uma alternativa mais prudente: comentar outro projeto do cara, outro momento de sua carreira, outra variante de seu repertório. Decidi me debruçar sobre o segundo álbum do cantor, o “9”, de 2005. Não deixa de ser Damien Rice, eu sei, mas eu não poderia redirecionar bruscamente o foco do texto para, sei lá, Sula Miranda; não a esta altura, compreendam.

Pois bem, o diferencial imediato entre os dois álbuns é discreto, mas pode ser percebido já na primeira audição. Nota-se que “9” rompe ligeiramente com a base melódica de “O”, que é estritamente lenta, cadenciada. A desilusão, o desgaste emocional e a ambigüidade moral, marcas pessoais de Damien, continuam ali, imperturbáveis, mas em uma faixa e outra, suas letras flertam com arranjos mais enérgicos, tal acontece com “Coconut Skins”, um baladão acústico devidamente enraizado no violão que evoca o espírito de Dylan nos idos de “Highway 61 Revisited”. Entre os versos, debocha da sinceridade, questiona até que ponto faz sentido desovar e ruminar sentimentos quando um relacionamento pode ser bem sucedido no cinismo, alheio a cobranças e satisfações: “Não é necessário saber / O que você está fazendo ou esperando / Mas se alguém perguntar / Conte que têm lambido cascas de coco / E que a gente tem saído juntos / Diga pra eles que Deus acabou de dar uma passada para perdoar nossos pecados / E aliviar nossa dúvida”. Essa matiz, mais jocosa e otimista, é evocada em outros momentos do álbum – na faixa “Dogs”, por exemplo – e fortifica a constante duplicidade com a qual as emoções são assimiladas nas canções do irlandês.

Contudo, os maiores momentos do projeto ainda repousam nas canções lúgubres e dilaceradas de angústia que deram o sopro de vida à carreira do músico. Em “9”, Damien submerge num espiral de desalento e versa obsessivamente sobre amargura e abandono, remói as dores e desventuras de relacionamentos nocivos, autodestrutivos, e ainda assim, repletos de desejo irracional, irrenunciáveis. Em “Accidental Babies”, o compositor figura um diálogo com sua ex “outra metade”, um diálogo sobre o fim. Hipnotizado de ressentimento, pergunta se sua amada goza na companhia do novo parceiro, nos versos adiante, consuma essa indiscrição com uma súplica desesperada: “Bem, eu sei que faço você chorar / E eu sei que, às vezes, você quer morrer / Mas você se sente realmente viva sem mim? / Se sim, então seja livre / Se não, deixe-o por mim / Antes que um de nós tenha bebês acidentais”. Damien não assume medo ou vergonha de sujar as mãos, propõe uma acareação entre genitálias, idolatra o vício da carne e em momento algum tenta se distanciar do ato com metáforas adocicadas. A abordagem é basicamente a mesma em todas as outras faixas, um manifesto vezes sereno, vezes obsceno, e sempre brutalmente honesto sobre sexo, existencialismo e o que há de mais inevitável e unânime entre os seres de nossa raça: solidão. O mais paradoxal – ou nem tanto assim – é que tamanha verdade e entrega acabam por transformar essa epopéia da dor e ceticismo em uma serenata de extrema beleza, sensibilidade e romantismo, afinal de contas, não há amor sem ambivalência.

É triste, meus caros, é soturno, é coisa pra gente impressionável comprar uma resma de papel sulfite e cortar os pulsos, é o Lado B de “The Blower’s Daughter”, que a Rede Globo, Seu Jorge e Ana Carolina desconhecem… É o bom e velho (e fodidamente apaixonado) Damien Rice.

4/5

9 (Damien Rice) – 2006 – Integrantes: Damien Rice (vocais, violão), Lisa Hannigan (vocal e piano), Vyvienne Long (violoncelo).

_
Tracklist:

  1. 9 Crimes
  2. The Animals Were Gone
  3. Elephant
  4. Rootless Tree
  5. Dogs
  6. Coconut Skins
  7. Me, My Yoke and I
  8. Grey Room
  9. Accidental Babies
  10. Sleep Don’t Weep

_
Faixa Recomendada:



Songs of Love and Hate (Leonard Cohen, 1971) by Bernardo Brum
junho 14, 2011, 6:43 pm
Filed under: Comentários | Tags: , , ,

por Bernardo Brum

Vamos cantar outra canção, rapazes“, diz em certo momento Leonard  Cohen no intervalo entre uma porrada e outra, “essa aqui ficou velha e amarga”.

Como não poderia deixar de ser em qualquer obra artística confessional que se preze, Cohen pinga gracejos aqui e acolá em seu disco mais cru, intenso e fatalista.  Esse breve momento de auto-ironia reforça o clima espontâneo de Songs of Love and Hate, com aquela cara de básico, apresssado, sujo mesmo. Na capa, as letras brancas postas em um fundo negro com a face do cantor rindo de maneira sarcástica e com a barba por fazer dão uma leve idéia do que irá ser ouvido pelo espectador.

Exceto, é claro, que não há nada de descuidado ou tosco no disco. Por trás da aparência praticamente marginal que olhos e ouvidos irão perceber (melodias simples, vocabulário por vezes pesado e escatológico, vocais muitas vezes desafinados ou rasgados), está o auge de transparência e sinceridade de um esteta genial.

Um homem que migrou da poesia para a música para, com suas letras desnudadas e de uma urgência impressionante em seu auge, impressionar as gerações posteriores com sua refinada sensibilidade; e talvez só uma sensibilidade refinada para apostar no simples, no rústico, no urgente, como uma das vias mais rápidas para alcançar o lado emotivo de quem escuta.

É o que se vê em canções como Diamonds in The Mine, canção-símbolo do disco, onde através da metaforização simples – evocando nos versos tabus como canibalismo, feitiçaria, prostitução e aborto – para cantar num refrão crescente, que “Não há mais cartas na caixa de correio/Nem uvas na vinha/E não há mais chocolates em suas caixas / E não há mais diamantes na mina”. Quando chega lá para o final da música, Cohen literalmente entrega sua performance mais agressiva – com a sua rouca voz rasgando a garganta enquanto  o refrão é gritado. Cohen nessa música  dá o tom de terra desolada que reina por todo o álbum.

Há também a abertura, a mórbida Avalanche, com seu padrão melódico estranho fazendo cama para um poema previamente já escrito pelo autor, que versa sobre alguém que foi soterrado por uma avalanche de desgraças, e hoje tornou-se uma verdadeiro corcunda por dentro. É recorrente a figura de aberração por todo o álbum, notadamente em versos como “Você que deseja conquistar dor/Deve aprender o que me agrada/Os farelos de amor que você me oferece/São farelos que eu deixei para trás/Sua dor não é uma credencial aqui/São apenas sombras do meu ferimento”.

Cada canção aqui foi tocada ao vivo para a gravação do álbum, com exceção de Last Year’s Man; essa Cohen tocou apenas duas vezes, dado o seu conteúdo depressivo. Seus ataques ocasionais ao violão desaguam em uma melodia suave e triste, quase como um choro sussurrado acompanhado por um coro. A poética de Cohen alcança uma de seus pontos altos,  numa porrada emocional quase suicida sobre solidão, ironicamente pontuada por várias figuras religiosas  em sua letra, como Jesus, Caim e Joana D’Arc. Essa solidão também reflete em Dress Rehearsal Rag (Olhe para o seu corpo agora/ Não há mais nada para salvar / E uma voz amarga diz no espelho:/”Ei, Príncipe, você precisa se barbear”).

Mas não apenas no lado existencial da coisa, o álbum também é preenchido com frustrações amorosas por todo os lados; é o caso de Famous Blue Raincoat, escrita em forma de carta versando sobre um triânguloso amoroso e traição à confiança do eu lírico (“O que eu posso dizer para você,/meu irmão, meu assassino?” e “Jane apareceu com uma mecha do seu cabelo/Ela disse que você deu pra ela/Na noite que você quis ficar ‘limpo’/Você já ficou ‘limpo’ alguma vez?’) e no emocionado refrão em Joan of Arc, aparentemente escrita para a modelo alemã Nico, na época uma obsessão amorosa de Cohen.

Mesmo nas canções mais leves do álbum – Love Calls You By Your Name e a supracitada Sing Another Song, Boys (essa aqui tirada direto do festival da Ilha de Wight em 1970) – persiste o negro sentimento de desolação. Na primeira, uma cadenciada balada sobre a inevitabilidade do romance; na segunda, com sua pontinha irônica, diz “deixemos esses amantes fantasiando/por que eles não podem ter um ao outro?”, antes de repetir a frase que abre a canção e esse texto ao final da música.

É aquela velha história: a alma exposta em acordes e versos. Como Brian Wilson declarando seu amor praticamente metafísico por outra pessoa em God Only Knows; mas na compilação de canções de amor e ódio de Leonard Cohen, temos o lado escuro e feio da alma, em forma de música lenta e triste, cheio de harmonias e ritmos pouco convecionais (não que sejam especialmente difíceis – mas esteticamente não são tradicionais e são conceitualmente desafiadoras), rouco e trôpego e praticamente desesperado se já não tivesse perdido todas as batalhas que travou entre Avalanche e Joan of Arc.

Mas é justamente essa sinceridade, essa confiança no ouvinte de segredo compartilhado sobre sentimentos desagradáveis que todo mundo já sentiu alguma vez, que faz o disco sublimar. Não é apenas doído, também é bonito e singelo como qualquer canção de amor pueril – e talvez mais do que qualquer uma delas. Porque por trás da poesia sincera, dos acordes tristes e dos vocais roucos e chorados, há um indivíduo tentando fazer contato. Igualmente do lado da vitrola, computador ou aparelho de reprodução preferido.

É de se pensar; dado o conteúdo depressivo e praticamente terminal deste álbum de 1971, como Cohen continua vivo, em pé e fazendo shows até hoje? Porque ele sabia, afinal, que alguém o ouviria. Se a vida é cruelmente aleatória, pelo menos não há nada mais redentor que a arte.

5/5

Songs of Love and Hate (Leonard Cohen) – 1971 – Integrantes: Leonard Cohen (voz e violão), Ron Cornelius (violão e guitarra), Charlie Daniels (violão e baixo), Elkin “Bulba” Fowler (violão, banjo e baixo), Bob Johnston (piano e produção), Corlyn Hanney e Susan Mussmano (backing voals)

_
Tracklist:

Lado A:

  1. Avalanche
  2. Last Year’s Man
  3. Dress Rehearsal Rag
  4. Diamonds in the Mine

Lado B:

  1. Love Calls You by Your Name
  2. Famous Blue Raincoat
  3. Sing Another Song, Boys
  4. Joan of Arc

_
Faixa recomendada:



Closing Time (Tom Waits, 1973) by Bernardo Brum

por Bernardo Brum

A fumaça de cigarros invade tudo. As roupas cheiram a nicotina, os dedos estão amarelados, o mundo foi impregnado com o cheiro de cerveja. As pessoas não sabem a hora que chegaram, também não sabem quando vão embora. Estão perdidas, bebendo e solitárias. Esse é o mundo de Tom Waits. Os heróis zarparam para longe, os vilões comandam tudo do alto de arranha-céus, os exemplos de vida só estão na televisão. Quem sobrou sai de um dia exaustivo de trabalho e vai tentar a sorte no bar.

Uma visão pessimista do mundo? A vida com certeza deu um golpe em muita, muita gente que não se recuperou até hoje. E é do clima de puteiro vazio, de bar fechando, de mundo cinza, da cruza entre a sofisticação delicada do West Coast Jazz e da melancolia minimalista em voga no início dos anos 70 (graças à discos como John Wesley Harding, de Bob Dylan e muitas das composições do Álbum Branco, dos Beatles, o folk estava de novo em voga – saía o caos psicodélico de 1967, entravam os Byrds, Eagles, o Grateful Dead fase American Beauty etc.) que saíram Tom Waits e Closing Time.

Longe da experimentação absurda que Waits aprontaria anos mais tarde (onde o mínimo detalhe era virado de cabeça para baixo na missão de compôr algo realmente dissidente), o primeiro registro de Tom é um disco de tom abertamente melancólico, para baixo, já longe do clima paz-e-amor e do trinômio sexo-drogas-rock-and-roll desde o primeiro momento.

Como pegar uma carona com o solitário Marlowe de Chandler, testemunhar os vagabundos de David Goodis terem um embate etílico existencial, ver os pinguços de Bukowski vertendo uísque sentados na sarjeta; Tom Waits evoca em suas notas uma atmosfera mais escura (ou noir, como queiram), de ruas iluminadas apenas pelas luzes de postes e preenche o painel pintado com gente solitária e perdida, que esqueceu o caminho para casa, que começam e logo terminam amores sem futuro com pares tão perdidos quanto e logo todos já estão no balcão de novo para pedir a próxima dose de Jack.

Longe de uma auto-comiseração gratuita, a visão de mundo que Waits constrói, alheia aos grandes problemas políticos, volta o olhar para a América profunda e arrasada. Tom passa longe do desespero; a tônica deste álbum é a derrota, pura e simples. Doze hinos dos losers, que questionam o que, afinal, estamos fazendo nesse mundinho sem-vergonha.

O cantor escolheu um repertório bem homogêneo para o seu álbum. Poucas são as músicas que sairão do ritmo cadenciado, como é constatado desde a abertura, a belíssima “Ol’ 55”, balada urbana insone refletindo como é, com o sol nascendo, deslizar pelas estradas de asfalto dirigindo um carro velho, tendo como a companhia a sorte e nada mais, mas sentindo-se vivo. Simplesmente por ainda ter forças o suficiente para pisar no acelerador de uma bicheira gasta à procura do próximo canto enfumaçado e do próximo amor fracassado.

“I Hope That I Don’t Fall In Love With You” e “Martha”, refletem outra condição dessa gente feia, triste e sem atrativos para os que não compartilham das suas dores: os corações distantes demais para conversarem. A primeira, uma trístissima declaração de amor não-concretizado. Bares enfumaçados, luzes fracas e belas garotas que nos olham de vez em quando – mas qual o sentido de tentar de novo? O que resta é outro arrependimento por não ter tentado mais uma vez. Refletido na segunda, canção nostálgica sobre um relacionamento terminado. Não é em momento algum ressentida, mas é cheia de remorso contido. Dá para perceber que poucos teriam a delicadeza de chorar sem tentar machucar. Não dá para esquecer que este não é um álbum de ataques recalcados. É um álbum acima de tudo de lamentos.

“Martha” indica que os tempos passaram, assim como “Old Shoes (& Pictures Postcards)”, mas também há “Little Trip To Heaven (On The Wings of Your Love)”, um ligeiro êxtase dissimulado de canção de amor inocente que constata que, afinal de contas, uma bela dona sempre nos fará sorrir por pior que o emprego esteja, por maior que seja a cacofonia da noite, ou o egoísmo de todos os palookas (termo com o qual Tom define as pessoas perdidas porém medíocres; afinal, os derrotados são uma espécie muito unida, depois de tudo). E também “Ice Cream Man”, uma pequena troça rockeira à la Screamin’ Jay Hawkins cheia de trocadilhos sexuais; a noite também tem senso de humor mordaz.

Humor este também que é uma marca notória do observador Tom Waits. Humor irônico, que passa quase despercebido, encontrado em imagens como a Senhora Sorte de “Ol’ 55”, a garota com o sol nos olhos de “Old Shoes”, a lua cítrica de “Grapefruit Moon”, as gracinhas do Sorveteiro (“Ice Cream Man”) e a conversa  patética e justamente por isso belíssima com o operador da companhia telefônica de “Martha”; poucos sabem conciliar tristeza com gracejos como Tom, e isso que o torna tão diferente da maioria dos compositores.

A filosofia de bar, onde a vontade de potência é uma piada de banheiro e a única representação que conseguimos ver é a de um Edward Hooper em estado etílico pintando gente arrasada porém bêbada e gargalhando, tem lá o seu lado ridículo, Tom sabe disso. Extrair beleza disso é um dom para poucos. Enquanto a maioria dos palookas ri, Waits tem compaixão, pois está no mesmo barco. Se, como afirmou anos depois, “a miséria é o rio do mundo”, tudo o que nos resta é continuar velejando com um maço de cigarros pela metade e uma garrafa de um destilado qualquer já no fim.

Desde o primeiro momento, desde o primeiro segundo da primeira música do primeiro disco, o grande cantor de bares e inferninhos, que realmente entende a essência deles tão bem a ponto de fazer arte com isso, já tinha uma tônica completamente definida. O autor teria uma identidade mutante ao longo dos anos (como atesta a multifacetada obra-prima “Rain Dogs” ou a raiva proto-industrial de “Bone Machine”), é verdade, mas o universo já estava lá. Capaz de nos fazer chorar e em seguida sorrir com o canto do rosto com a mudança de um verso ou no caminho até o próximo acorde.

Caminho muitas vezes longo, às vezes sofrido, às vezes trôpego, e com sua certa dose sacana; Este é o bar de Tom Waits, que para a felicidade dos sentimentos e dos fígados dos cachorros que se perderam na chuva, ainda não fechou. No meio de um mundo arrasado, ele ainda está lá, firme e forte. Justo quando precisamos admirar a pequena princesa deslocada,  de discutir os temas mais intrínsecos à natureza humana entre bitucas e goladas, ir embora com a manhã, voltar no início da madrugada e então repetir tudo. Mais uma vez.

5/5

Closing Time (Tom Waits) – EUA, 1973. Gravadora: Asylum. Integrantes: Tom Waits (vocal, piano, celesta, guitarra, composições), Delbert Bennett e Tony Terran (trompetes), Sheep Cooke (guitarra, b. vocals), Peter Klimes (guitarra), Jesse Ehrlich (violoncelo), Bill Plummer e Arni Egilsson (baixo), John Seiter (bateria e b. vocals).

Tracklist:

Lado A:

  1. Ol’ 55
  2. I Hope That I Don’t Fall In Love With You
  3. Virginia Avenue
  4. Old Shoes (& Pictures Postcards)
  5. Midnight Lullaby
  6. Martha

Lado B:

  1. Rosie
  2. Lonely
  3. Ice Cream Man
  4. Little Trip To Heaven (On The Wings of Your Love)
  5. Grapefruit Moon
  6. Closing Time (Instrumental)

Faixa recomendada:




Blood On The Tracks (Bob Dylan, 1975) by Bernardo Brum
outubro 6, 2010, 1:11 am
Filed under: Comentários | Tags: , , , ,

por Bernardo Brum

Na história da música popular, existiram pouquíssimos artistas feito Bob Dylan. Poucos artistas uniram qualidades, como ele, de forma a alcançar imensa notoriedade e influência em sua época e para as gerações posteriores. Graças a Dylan pegar uma guitarra em Bringing It All Back Home, que o Rock começou a ser considerado como uma expressão artística séria; graças a empunhar o violão contra os absurdos de seu tempo que o folk alcançou um público imenso; sua poesia, inspirada nos beatniks, em Rimbaud, Walt Whitman e sustentada pela instrumentação inspirada no mestre Woody Guthrie chamou a atenção de toda uma geração.

Disco a disco, mesmo com a polêmica de trocar o folk pelo rock e o violão pela guitarra, Dylan ergueu um verdadeiro reinado: depois de lançar algumas das principais obras-primas da década de 60, só se falava em Robert Allen Zimmerman. Era referência para os Beatles e todas as outras bandas do merseybeat, suas viagens despertavam comoção e polêmica geral, havia sempre um séquito de fanáticos seguindo ele.

Para onde quer que fosse, Dylan era visto como um deus; mas para os seus chegados, o músico era um fantasma. Que vivia drogado, murmurando coisas sem sentido e sem parecer ter conexão nenhuma com o resto do mundo, que vivia então de empunhar a guitarra contra seu público, se utilizando da provocação e da ironia para irritar todos que o prendiam em um conceito. Custou caro:  um acidente de moto o tirou dos palcos por dois anos e voltou tocando country em John Wesley Harding e Nashville Skyline. Ainda não era suficiente.

Foi em 1975 que Bob Dylan declarou, verso por verso, música por música, estar de saco cheio. Não poderia estar falando de outro álbum senão de Blood On The Tracks; a deconstrução de uma carreira, a auto implosão artística, um “suicídio comercial”. Um dos projetos mais confessionais e pessoais do autor, todas as músicas falam, invariavelmente e explicitamente sobre muitos fatos da vida do artista: a fama, a solidão, os romances fracassados. As letras quilométricas de Dylan estão mais confessionais e doloridas do que nunca – é um álbum intenso e dolorido a cada segundo. Dylan torna as melodias suaves do folk em ataques emocionais ríspidos. Mesmo quando irônicas ou sinceras, as letras de Blood on The Tracks não perdem a melancolia afiada feito uma navalha. A navalha é a língua, a caneta e as cordas do autor – não à toa o álbum foi batizado assim (em inglês, pode ser interpretado como Sangue nas Faixas). E o disco é isso mesmo, raivoso e implacável, sem nunca perder a intensidade triste que  é visível até para não-anglófonos.

Seja em músicas mais apaixonadas, como You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go e sua sinceridade rasgante e compremetida  e Lily Rosemary and The Jack of Hearts (uma dos grandes exercícios narrativos que Dylan adora colocar em certas músicas, como em The Lonesome Death of Hattie Carrol e Bob Dylan’s 115th Dream) ou canções mais contemplativas e cadenciadas como as lindas You’re a Big Girl Now e If You See Her, Say Hello, que versam sobre solidão, despedida e saudade, a abordagem de Dylan é única, utilizando o melhor de tudo que havia aprendido até então: a rispidez transgressora do rock, os ataques às cordas repetidos e incansáveis do folk, os solos de gaita, as centenas de versos que Bob encaixa em uma dezena de canções; o homem que transformou os anseios revolucionários da poesia de Allen Ginsberg em arte transgressora e deu sentido a todas as experimentações dos anos sessenta, desabrochava então nos anos 1970 não como um “guerrilheiro cultural”, ou um “fantasma do rock and roll”, mas sim como um artista completo; daqueles que existiram às gotas no século vinte.

E é claro, Blood On The Tracks também tem Idiot Wind, a canção mais forte de Dylan; mais que o delírio beatnik Like a Rolling Stone, a sensibilidade de Just Like a Woman ou  I Want You ou as críticas políticas Blowin’ In The Wind e The Times They are A-Changin’. Cantada toda em primeira pessoa, é uma canção que só quem viveu o inferno poderia escrever – apenas quem quase morreu de tanto se chapar, perdeu pessoas queridas por causa da personalidade difícil, viu amigos morrer por causa dos excessos, conseguiria escrever com tamanha sinceridade.

E conseguiria, também, fazer com que a música fosse universal. Esta pequena obra-prima dentro de uma maior é perfeitamente compreensível a qualquer um que já passou fases difíceis em sua vida e por relacionamentos complicados, misteriosos, desgastantes. Do ódio puro (“Você é uma idiota, querida/É curioso como você ainda sabe respirar”) à a autocomiseração consciente do resto do mundo (“Você nunca saberá o tamanho da ferida que eu tive/Nem a dor que eu tive que sobrepujar/E eu nunca saberei o mesmo de você/ E isso realmente me deixa triste), passando pela honestidade que só ele saberia ter (“Eu não tenho paz e tranquilidade há tanto tempo que eu não consigo me lembrar como era”), Idiot Wind é um apelo que só quem comeu o pão que o diabo amassou com os próprios excessos poderia fazer. E é uma das grandes músicas de Zimmerman  – daquelas que ele consegue repetir praticamente em todo disco…

Entre outros momentos mais discretos – a abertura Tangled Up In Blue, a esganiçada Meet In The Morning (em que Dylan declara, abobalhado: “Olhe o sol afundando feito um navio/Não é o mesmo que aconteceu com o meu coração, querida/Quando você beijou meus lábios?) e Shelter From The Storm – mas nem por isso menos lapidadas com o cuidado de artesão que Dylan dá a cada canção sua, sempre colocando sua assinatura mas sempre fazendo cada uma delas distintas e especiais para cada fã do homem, Blood On The Tracks é, realmente, um disco “sangue nos olhos”, igualado poucas vezes (talvez por, vamos ver, Songs of Love and Hate de Leonard Cohen, Bone Machine de Tom Waits e Berlin de Lou Reed) e um testemunho e tanto de uma geração de artistas que não volta mais em matéria de identidade, consciência, trangressão e intensidade. Os tempos agora são outros, mas ainda precisamos de Bob Dylan, afinal de contas.

5/5

Ficha técnica: Blood On The Tracks (Bob Dylan) – EUA, 1975. Gravadora: Columbia – Integrantes: Bob Dylan (Voz, guitarra, gaita, órgão, mandolim),Billy Peterson (baixo), Eric Weissberg (banjo), Buddy Cage (steel guitar), Richard Crooks (bateria), Paul Griffin (órgão e teclados) e outros.

Tracklist:

Lado A:

  1. Tangled Up In Blue
  2. Simple Twist of Fate
  3. You’re a Big Girl Now
  4. Idiot Wind
  5. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go

Lado B:

  1. Meet Me In The Morning
  2. Lily, Rosemary and The Jack of Hearts
  3. If You See Her, Say Hello
  4. Shelter From The Storm
  5. Buckets of Frain

Faixa recomendada:



Blue (Joni Mitchell, 1971) by Luiz Carlos
setembro 27, 2010, 1:24 pm
Filed under: Comentários | Tags: , , ,

– Luiz Carlos Freitas

Assumindo uma conotação ainda não tão familiar à língua portuguesa, muitas vezes o termo Blue (ou “Blues”) remete à tristeza, angústia, dor, sofrimento e, quase sempre, solidão. E é assim que podemos definir Blue, o quarto álbum de estúdio da canadense Joni Mitchell, lançado em 1971, época em que a cantora, apenas aos 28 anos de idade, já era considerada uma das mais importantes e influentes pessoas do cenário musical de todos os tempos.

Sua carreira era um fenômeno quase sem precedentes. Em pouco mais de dois anos desde o lançamento de Song to a Seagull, seu álbum de estréia, ela já havia empilhado prêmios (um Grammy, inclusive) e levantado uma fortuna absurda. Mas tudo isso parecia ser demais para a jovem cantora que consagrou-se justamente por cantar ao simples, àquela liberdade longe de lastros megalômanos que a sua geração defendia e, agora, se via entre dias seguidos em viagem para apresentações lotadas, entrevistas, obrigações com gravadoras, empresários, advogados, etc. Assim, ela decidiu “fugir” desse meio todo, cancelando quase todas as suas apresentações e mudando-se para uma pequena casa nas montanhas, onde pretendia ter seu tempo sozinha, longe da mídia e de todo o turbilhão que ela mesma causara. Eis que, pouco tempo depois, ela anuncia o lançamento de um inesperado novo álbum feito todo nesse breve período de “exílio”, onde ela reflete acerca de sua própria vida, seus anseios, desejos e angústias. O resultado, tendo em mente quem era Joni Mitchell, é mais que óbvio: Blue é um dos mais perfeitos trabalhos de todos os tempos  na história da música mundial.

Em dez faixas, Joni Mitchell se despe em sutileza, versa sobre sua vida e, numa brilhante extensão, sintetiza as angústias que afligem a existência do homem, como o amor, a solidão, a falta de sentido e sua interação com a sociedade e as outras pessoas. Tudo de modo direto, sem subterfúgios, com uma acessibilidade ímpar.

Por trás de toda a simplicidade aparente, há um trabalho melódicamente brilhante. Com o apoio de músicos do calibre de James Taylor e Stephen Stills em algumas faixas, a voz de Joni ganha vida própria, variando entonações a cada música, recurso característico ao Folk e que mais tarde seria incorporado ao Rock. Faixas como “California” ou “All I Want” são exemplos da extensão vocal da cantora, uma verdadeira “camaleoa” (se o termo bem couber aqui). Mas não vamos nos perder aqui falando de técnica apenas. Blue está muito, muito acima disso. Mais que um álbum conceitual, o disco é uma viagem completa que exige e arranca de quem ouve total imersão. Impossível não se identificar em algum momento com as passagens compostas por Mitchell, suas dores e lamentos, seus anseios e toda a tristeza travestida por sua voz terna.

Blue traz em cada faixa parte de um tratado completo sobre a vida, sobre o quanto desejamos viver e, mais, o quanto não sabemos o que queremos, construindo um hino à liberdade em “All I Want” (Eu quero ser forte, eu quero rir muito / Eu quero pertencer à vida / Ser viva, viva, quero levantar e dançar / Estragar minha meia-calça em alguma espelunca) e desfacelando-o em “California” (Lendo Rolling Stone, lendo Vogue / Diziam, “quanto tempo você pode ficar vadiando?” / Eu disse, uma semana, talvez duas / Só até minha pele ficar marrom) e “Carey” (Minhas unhas estão sujas, tem alcatrão da praia nos meus pés / E sinto falta da minha roupa limpa e da minha colônia francesa chique). O que temos está longe de qualquer julgamento, se aproximando mais de um desabafo de quem quer provar o mundo, como na faixa-título, “Blue” (Ácido, bebidas e bundas / Agulhas, armas e a grama / Milhares de risadas, milhares de risadas / Tudo mundo está dizendo: “Ir pro inferno é o que há.” / Mas eu acho que não / Ainda que eu vá até lá, só pra olhar) e de quem se considera uma das últimas de uma espécie diferente e solta nesse mundo, ansiando por encontrar seus semelhantes, como em A Case of You (“Sou uma pintora solitária / Eu vivo numa caixa de tintas / Sendo assmbrada pelo Diabo / E sendo atraída pelos que não têm medo”).

Blue consegue o feito de ser a vida cantada, porque cientes disso ou não, todos buscamos o nosso Azul.

.
5/5

_
Ficha Técnica:

Blue (Joni Mitchell) – Canadá, 1971 – Gravadora: Reprise/WEA – Componentes: Joni Mitchell (vocal/violão/piano), James Taylor (violão), Stephen Stills (baixo), Russ Kunkel (bateria)

_
Tracklist:

* Destacadas em vermelho, as melhores segundo o autor do texto

1. All I Want
2. My Old Man
3. Little Green
4. Carey
5. Blue
6. California
7. This Flight Tonight
8. River
9. A Case of You
10. The Last Time I Saw Richard

_
Faixa recomendada: