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The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie, 1972) by Luiz Carlos

– Luiz Carlos Freitas

Quando resolveu incorporar o alienígena andrógino Ziggy Stardust no seu quinto álbum de estúdio, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spider From Mars, David Bowie talvez estivesse nos dando uma pista sobre sua real origem. Sim, pois ao fim da execução completa do disco, nos fica quase a certeza de que ele não é mesmo um humano como nós. Um gênio completo (e afirmar isso é até perigoso numa época em que o termo anda tão banalizado) e de, maneira incontestável, um dos nomes mais influentes de toda a história da arte, e aqui mais uma obra-prima.

O álbum conceitual lançado em 1972 é um marco em sua carreira e na história da música, artística e comercialmente. Mas antes de tudo, devemos entender a trama que constrói esse conceito. Como seu título explicita, narra a ascenção e queda de Ziggy Stardust, um alienígena que veio à Terra para anunciar o fim da humanidade em cinco anos e que, encantado com nosso planeta, resolve permanecer entre nós, virando um grande astro do rock (os tais ‘Spiders From Mars’ são a banda que o acompanha). Com o tempo, ele experimenta todos os exageros tão característicos da maioria dos “rockstar’s” e, arruinado, acaba suicidando-se.

De certo modo, o álbum já vinha sendo ensaiado desde seu segundo disco, Space Oddity, lançado em 1969, primeiro trabalho conceitual de sua carreira, com letras envolvendo ficção e filosofia, sobre um mundo reinado à paz e harmonia, valendo-se dos conceitos oriundos do movimento hippie que explodira anos antes e que ainda tinham certa força. Agora, além da ideologia da década que encerrara e da notável presença de ecos de contracultura de outras mídias, como o cinema (2001 – Uma Odisséia no Espaço e, talvez, Laranja Mecânica), ganhara força na busca pela libertação sexual que dominava pouco a pouco a cena musical. Essa foi basicamente a gênese do Ziggy Stardust.

A obra é uma das grandes afirmações do título de “Camaleão do Rock” concedido a Bowie ao longo dos anos. Em geral, o destaque vai pela elaboração da imagem controversa de Ziggy Stardust, da figura na capa do disco ao visual extravagante de suas apresentações, um ser com traços femininos e maquiagem pesada carregada em cores gritantes. Mas sua força na construção do personagem está mesmo na narrativa primorosa das onze faixas, que têm na interpretação vocal de David Bowie tanta força quanto nas suas composições e, graças a seu conceito, firmaram as bases para a explosão do Glam Rock, gênero surgido na Inglaterra no fim da década de 60, tendo seu auge no início dos 70’s.

Com suas origens geralmente reconhecidas a Marc Bolan (fundador e vocalista do T. Rex) e marcado pelo seu visual extravagante, com homens de salto alto, usando roupas e maquiagem femininas, cabelos longos, purpurina, plumas e partês, cantando sobre sexo livre, esbanjando erotismo e sensualidade nas suas apresentações, aderindo a uma postura geralmente abertamente bissexual, o Glam Rock vinha para confrontar a sociedade conservadora de modo que lembrava bastante o impacto de Elvis Presley e suas roupas e coreografias extremamente ousadas mais de uma década antes. Apesar da importância seminal pelo visual de grupos como The New York Dolls e Roxy Music ou da sexualização de Iggy Pop, teve no alterego marciano de David Bowie um de seus maiores propulsores.

A estória é contada por dois personagens distintos. Em algumas faixas, o narrador pode ser visto como um dos humanos, enquanto outras apresentam Ziggy em primeira pessoa, que por sua vez divide-se em duas personas distinguidas por sua sexualidade. Em cada uma delas, a entonação da voz de Bowie muda de forma sutil, porém suficiente para nos convencer de que ali estava uma outra “pessoa”.

O disco abre com ‘Five Years’, um melancólico relato de um homem que observa inerte ao caos instaurado na Terra quando é revelado aos humanos que a humanidade só tem cinco anos até a sua extinção. Acompanhado pelo piano, Bowie vai conduzindo a canção em tom crescente e angustiante, culminando no refrão desesperador (“Temos cinco anos, esfregados na minha cara / Cinco anos, que surpresa! / Temos cinco anos, meu cérebro dói muito / Cinco anos, é tudo o que temos”). Brilhantemente, em uma única estrofe, ele nos apresenta à sociedade em caos completo, condensando um amplo panorama estrutural de suas esferas em um possível cenário de colapso (militares – que poderiam ser o governo -, classe média, religiosos e “submundo” interligando-se):

“Um soldado com um braço quebrado,
Olhava fixamente para as rodas de um Cadillac
Um policial ajoelhou e beijou os pés de um padre,
e uma bicha passou mal ao ver a cena”

A segunda música, ‘Soul Love’, uma balada sobre o amor humano do ponto de vista dos marcianos, mostrado como um jogo de contradições, indecisões e outros conflitos de conceitos que são vistos como característicos nossos. A música segue à risca seu conceito, com versos que se complementam na letra ao mesmo tempo que se contradizem no ritmo. Essa imaturidade humana ao tratar de seus sentimentos talvez tenha despertado nos invasores uma certa comoção e interesse em ajudá-los a evoluir (“O amor descende daqueles que são vulneráveis / O amor idiota irá reluzir a fusão”).

Emenda, então, a faixa seguinte, ‘Moonage Daydream’, mostrando a chegada dos alienígenas e o pânico causado por eles. Sua letra é carregada de simbolismos e não seria exagero pensá-la como uma ode à liberação sexual e seu significado como um dos objetivos principais da invasão marciana. Os versos de abertura passam  um ar de provocação e referencia à bissexualidade (“Eu sou mamãe-papai que vem para você”) e relaciona, pela primeira vez, a figura alienígena com o cenário musical e a questão da liberação sexual (“Eu sou o invasor do espaço / Eu sou uma vadia do rock pra você”). O vocal de Bowie assume um tom levemente afeminado e a letra carrega em metáforas e referências que podem indicar uma relação sexual (“Não finja, baby, ponha essa coisa verdadeira em mim / A igreja do homem, amor”). O solo de guitarra ao final, com suas distorções repetitivas e intensas, pode facilmente ser tido como um orgasmo que sublimaria o primeiro contato entre as raças.

Em seguida, temos ‘Starman’, talvez a música mais conhecida do cantor (e que ganhou uma versão vergonhosa cantada pelo Nenhum de Nós) e o primeiro contato de Ziggy, o representante dos marcianos, com os homens. Sua letra deixa claro que sua missão é de paz (“Há um homem das estrelas esperando no céu /Ele disse para não explodirmos / Porque ele sabe que tudo vale a pena””) e condiz com a hipótese da liberação sexual, já que seu objetivo exigia uma postura mais aberta de nossa parte (“Se nós conseguirmos brilhar ele poderá aterrisar à noite”) e despertaria repulsa por parte dos conservadores (“Não conte ao seu pai ou ele irá trancar-nos por medo”).

‘It Ain’t Easy’ fala diretamente dos conflitos trazidos pela busca do prazer e é o início das dificuldades encontradas por Ziggy ao estabelecer um contato tão próximo com os humanos (“Não é fácil, não é fácil /Não é fácil chegar ao céu quando você está perecendo / Satisfação, satisfação / Mantenha-me satisfeito”). Podemos vê-la como um desabafo da identidade de Ziggy reprimida por nós, humanos, que assumimos, então, uma postura fechada ao que nos é diferente. Sob essa ótica, casa perfeitamente com a faixa que a segue, ‘Lady Stardust’, um dos pontos altos do disco, a revelação da imagem imortalizada de Ziggy Stardust e que carrega em si o estigma de todo o movimento Glam e a resistência encontrada ao confrontar a sociedade conservadora setentista:

“Pessoas olharam para a maquiagem em sua face
Riram de seus longos cabelos negros, sua graça animal
O garoto em jeans azul brilhante
Pulou no palco
E Lady Stardust cantou suas canções
De escuridão e desonra”

Mas o autor não sucumbe ao tom quase óbvio de autocomiseração esperado e faz em sua virada o mesmo que o Glam Rock ao deparar-se com a sociedade e seus tabus, seguindo em frente e mostrando sua força (“E ele estava bem, a banda toda estava / Sim, ele estava bem / A sua canção veio para a eternidade”). ‘Lady Stardust’ finaliza quase como uma profecia sobre a atração arrebatadora que o gênero teria nos jovens (“Fêmeas fatais emergiram das sombras / Para assistir a presença agradável dessa criatura / Garotos ficaram sobre as cadeiras / Para fazer seus pontos de vista”).

‘Star’ e ‘Hang On To Yourself’ apresentam, respectivamente, o início do deslumbramento e consequente confusão oferecidos pelo mundo do rock (“Eu poderia fazer alguma coisa com o dinheiro / Eu estou tão encrencado com as coisas, como elas são”) e a banda que acompanha Ziggy (“A amargura aparece mais numa guitarra roubada / Você é a abençoada, nós somos As Aranhas de Marte”), bem como uma amostra da proporção cada vez maior que o ego tomava (“Se acha que vamos conseguir, é melhor se agarrar em você mesmo”). É o prenúncio da decadência retratada em ‘Ziggy Stardust’ e ‘Suffragette City’. A faixa-título, canção de ritmo bem singelo, com destaque a seus riffs de guitarra, tem uma letra simples e direta e dos versos definitivos sobre a figura do rockstar destruído por seus próprios excessos:
.
“Fazendo amor com seu ego
Ziggy chupou sua mente”

‘Rock N’ Roll Suicide’ encerra a epopéia de Ziggy Stardust na Terra.  Fracassado em sua missão, completamente destruído e sem forças para seguir em frente, Ziggy se vê envergonhado após ser traído por si mesmo sucumbindo a seus instintos mais primitivos. Agora, entregue aos vícios que simbolizam sua própria vida (“O tempo pega um cigarro e coloca-o na sua boca /Você prende com seu dedo/ E com o outro dedo / E aí você tem seu cigarro”) ele se vê finalmente sozinho e, enfim, recorre à um último escapismo, se matando (“Mas o dia nasce e você corre pra casa / Não deixe a luz do sol arruinar sua sombra”). Mas não é um suicídio no sentido literal da palavra, apenas uma metáfora de sua entrega aos vícios que, aos poucos, o levam ao fim (aquele suicídio inconsciente de quem não queria mais lutar para manter sua vida inútil e cheia de dor, o tal “suicídio do rock n’ roll”).

Diferente do rumo que aparenta tomar por conta de seu início, a música dá uma virada com os vocais berrados de Bowie e, evitando a crítica conservadora ao hedonismo defendido pelo próprio cantor, temos um desfecho épico que marca toda a força por trás desse sonho juvenil e inconsequente de liberdade:

“Oh não, amor, você não está só
Não importa o que ou quem você tem sido
Não importa quando ou onde você tem visto
Todas as facas parecem dilacerar seu cérebro
.
Eu já tive minha cota e agora a ajudarei com a dor
Você não está só
Apenas apoie-se em mim e você não estará sozinha
Apenas me dê sua mão porque você é maravilhosa”

Independente de suas escolhas, eles não estariam sozinhos. E é assim que Ziggy Stardust encerra, de modo simples e sem julgamentos, com uma amplitude incalculavelmente maior que um mero levante de determinado grupo ou movimento ideológico, afinal foi responsável por influenciar as gerações seguintes (e essa influência é exercida até nos dias atuais) das mais variadas formas, mostrando que o apelo à sexualização excessiva era, na verdade, uma metáfora à busca por uma identidade pessoal livre de parâmetros limitadores. Essa analogia com o ciclo de autodestruição comum a quase todos os grandes nomes do rock é um dos retratos mais sinceros de todos os que buscaram expressar por meio da arte seus desejos de liberdade plena e, traídos por nossa essência humana (que é forte ao ponto de atingir até mesmo quem “não é humano”), sucumbiram.

É a esses seres “maravilhosos” que optaram por não negar-se a seus desejos que David Bowie dedica o seu Ziggy Stardust, uma obra perfeita que deve ser reverenciada por seu valor artístico e,  sobretudo, humano.

5/5

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Ficha Técnica:

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie) – 1972, Inglaterra – Componentes: David Bowie (vocais, guitarra e saxofone), Mick “Ronno” Ronson (guitarra, piano e vocais), Trevor Bolder (baixo), Mick “Woody” Woodmansey (bateria)

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Tracklist:

1. Five years
2. Soul Love
3. Moonage Daydream
4. Starman
5. It Aint Easy
6. Lady Stardust
7. Star
8. Hang Onto Yourself
9. Ziggy Stardust
10. Suffragette City
11. Rock n Roll Suicide

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