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Cherry Pie (Warrant, 1990) by Luiz Carlos
agosto 12, 2011, 11:05 pm
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– Luiz Carlos Freitas

Hoje, 12 de Agosto de 2011, data de publicação desse texto, foi divulgado pela imprensa que Jani Lane, ex-vocalista do Warrant, havia sido encontrado morto num quarto de hotel em Los Angeles. Jani estava longe de ser um gênio revolucionário da música, mas fundou e, graças a sua energia e talento pulsantes,  alavancou um dos grupos mais carismáticos e marcantes do movimento da história do hard rock. Em particular, o Warrant é um dos grupos que me acompanharam da infância até a vida adulta.

Logo quando descobri o rock, foram bandas “farofa” como Warrant, Great White, Poison, Mötley Crüe, Ratt, Danger Danger e Whitesnake, geralmente massacradas pela maioria, que despertaram em mim o interesse e a paixão pela música em geral, me levando a explorar outros estilos, conhecer mais e mais e adquirir a (relativa) bagagem que tenho hoje. E de todos, certamente posso destacar o Cherry Pie, do Warrant, um dos mais significativos nesse processo.

Segundo álbum de estúdio do grupo, veio com a ingrata tarefa de corresponder ao sucesso do disco anterior, o megasucesso Dirty Rotten Filthy Stinking Rich (que emplacou o hit mais ouvido da história do Warrant, a balada ‘Heaven’). Ingrato porque, além de ter os excelentes números do debut como referencial comparativo, vinha bem no período crítico para o hard rock e hair metal: início da década de 90, véspera do lançamento do Nevermind, do Nirvana, a verdadeira pá de cal em cima de toda uma década de dominação metaleira no cenário musical. Mas os desafios foram aceitos e o Cherry Pie chega às lojas e, rapidamente, se torna um fenômeno de vendas. Embalando um hit atrás do outro, domina as paradas e coloca o Warrant em evidência ao lado de grandes fenômenos como o ainda poderoso Guns N’ Roses.

O Cherry Pie não é propriamente uma obra-prima do gênero e, indo muito além das notas de vendagens, não apresenta lá grande relevância artística (esse sou eu fazendo uma daquelas análises “frias”). Mas, ainda assim, figura fácil em qualquer lista dos melhores trabalhos dessa década tão odiada por muitos. Apesar do Warrant não dispor de músicos extraordinários, alcançou um nível de excelência digno de respeito.

Os guitarristas Joey Allen e Erik Turner não tinham o virtuosismo de um C. C. DeVille (Poison), mas sabiam exatamente aonde chegar com seus conjuntos de riffs e solos que, aliados ao excelente trabalho do baterista Steven Sweet (que infelizmente saiu da banda logo após o lançamento do disco seguinte), tiravam um som rápido, com peso e pegada suficientes para manter o ritmo em todas as 12 faixas, tendo como a cereja da torta (e não tive como evitar esse trocadilho) o vocal forte e singelo de Jani Lane. O jovem loiro e franzino não tinha a beleza de Sebastian Bach ou sex appeal de Axl Rose que o fizesse símbolo sexual. Nem era propriamente bonito. Mas mesmo assim, conseguiu grande apelo entre o público feminino e, graças à sua postura rebelde e despojada, a admiração dos jovens. Indiscutivelmente, Jani Lane foi a cara que a banda recebeu ao longo dos anos.

Seguindo à risca a cartilha oitentista do hard rock, Cherry Pie alterna músicas rápidas, como as excelentes ‘Mr. Rainmaker’, ‘Love in Stereo’ e a própria faixa título (que virou hino de toda uma geração “poser”) com baladas água com açúcar, como as belíssimas ‘I Saw Red’ (com direito até a introdução no pianinho) e ‘Blind Faith’ e a mais agitada ‘Bed of Roses’, abrindo espaço até para algumas experimentações, como a mescla de southern rock e hard em ‘Uncle Tom’s Cabin’ e a versão mais hard rock para ‘Train, Train’ (da banda de southern Blackfoot), além de ‘Sure Feels Good to Me’ e seus riffs heavy metal.

O Warrant fecha o Cherry Pie com ‘Ode to Tipper Gore’, que nada mais é que uma compilação de vários “fuck” dito por Jani Lane em apresentações ao vivo e selecionados aleatoriamente como uma “homenagem” à tal da Tipper Gore, à época esposa do mala do Al Gore e fundadora da tão temida Parents Music Resource Center (PMRC), organização responsável por proibir a venda de vários álbuns e indiciar músicos (quase em sua totalidade roqueiros) por conteúdo “ofensivo à moral e bons costumes da família”. Um protesto que, apesar de certamente ter incomodado bastante, ainda era de uma inocência condizente com o espírito de rebeldia “hard rocker” dos anos 80, dos caras que procuravam bater cabeça enchendo a cara  rodeados de garotas antes de mudar o mundo. Um  encerramento bem honesto para um disco ícone como esse.

O Cherry Pie acabou sendo quase a despedida do Warrant da grande mídia. Seu terceiro álbum, Dog Eat Dog, ainda conseguiu uma vendagem interessante, mas sem repercusão junto à crítica e público, enquanto os seguintes foram fracassos quase completos. Após uma série de projetos paralelos, Jani Lane saiu do grupo para lutar contra o alcoolismo (curiosamente, um desses trabalhos foi substituir Jack Russell, vocalista do Great White que também enfrentava problemas na carreira por conta do álcool), abrindo vaga para Robert Mason, em 2008, mas ainda havia esperança de um retorno aos palcos com a formação original.

Não podemos dizer que o futuro do Warrant fica incerto com a morte de Jani, uma vez que já não dependiam mais dele. E, de toda forma, a cena musical de hoje já é a maior das incertezas para uma banda oriunda da (aos padrões do público de hoje) jurrássica década de 80. Sua atuação artística nos últimos anos já estava muito reduzida, limitando-se, por certo período, a integrar o cast de um reality show que acompanhava celebridades que precisavam perder peso (!), entre apresentações cada vez mais raras em pequenas casas de shows e cassinos. Mas à parte dos rumos que banda e vocalista tomaram, seu legado ficará. E o Cherry Pie é um excelente representante de um grupo, um artista e uma época.

3/5

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Ficha Técnica:

Cherry Pie (Warrant) – 1990/EUA – Gravadora: Columbia Records – Integrantes: Jani Lane (vocais), Joey Allen (guitarra), Erik Turner (guitarra), Jerry Dixon (baixo), Steven Sweet (bateria)

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Tracklist:

1. Cherry Pie
2. Uncle Tom’s Cabin
3. I Saw Red
4. Bed of Roses
5. Sure Feels Good to Me
6. Love in Stereo
7. Blind Faith
8. Song and Dance Man
9. You’re the Only Hell Your Mama Ever Raised
10. Mr. Rainmaker
11. Train, Train
12. Ode to Tipper Gore

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