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Raising Hell (Run-D.M.C., 1986) by Bernardo Brum
junho 17, 2011, 11:39 am
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por Bernardo Brum

Raising Hell foi para o rap o que o álbum homônimo de 1956 de Elvis Presley foi para o rock and roll: a catapulta da marginália e vida dura do underground para o sucesso de todo um gênero musical.

Foi o trio formado pelos mc’s Run e D.M.C. e o dj Jam Master Jay o responsável por ser o primeiro grupo de rap a colocar um álbum do gênero no número 1 das paradas; o primeiro a alcançar disco de ouro, platina e multi-platina; o primeiro deles a aparecer na capa da influente Rolling Stone; o primeiro a ser indicado para o Grammy e ter um vídeo na MTV; entre outros feitos conquistados que comprovaram para a gravadora a projeção mercadológica. E foi Raising Hell e sua proficiência pop que conquistou boa parte desses méritos.

Um estilo novo até então, trazido por músicos imigrantes da Jamaica (como o Dj Kool Herc), a celebração de festas de classes baixas que acompanhavam os mestres de cerimônia falando sobre os problemas do seu povo, o rap logo ganhou vários adeptos entre a juventude pobre dos EUA em sua fusão de ritmo e poesia, com os MC’s improvisando sobre uma base constante – uma herança do funk, que atravessou a música disco e acabou desagüando em gente pioneira como Sugarhill Gang e Grandmaster Flash. E entre esses jovens, estava o Run-D.M.C, que até o ano de 1986, batalhava por um lugar ao sol.

Tentativas não faltaram – Raising Hell é o terceiro álbum dos rappers, que desde o primeiro disco já mostravam uma estética ousada, com samples, riffs de guitarra e bate-latas perfazendo várias intervenções rítmicas difíceis pela velocidade que eram executadas, fazendo uma cama para que o duo de vocalistas vociferasse sobre os problemas e também fizesse um pouco de graça – as apostas destemidas já eram velhas conhecidas; vinham desde o primeiro álbum, em 1984, na guitarra hard rock utilizada em Rock Box – a primeira vez que os dois gêneros se cruzavam.

Mas claro, foi preciso literalmente, como diz o título do álbum, “se levantar do inferno”, transpôr a barreira, abrir as portas – não apenas por serem negros, mas também por pegar um estilo que falava de violência, drogas, questões étnicas e demais assuntos pesados e tornar tudo digerível e aceitável para uma massa pouco acostumada a verem negros desempenharem papéis fora das baladas românticas ou canções sugestivas.

Com tudo isso explicado, já dá para se ter uma noção da inovação que o trio representou ao ser um dos principais responsáveis pela criação da forma moderna e popular de se fazer rap – o jeito notoriamente malandro desse estilo de música vindo do gueto foi ampliado com quebradas rítmicas estilo arrasa-quarteirão e com refrões explosivos e envolventes.

Álbum definido por Chris Rock como o “primeiro grande álbum de rap”, Raising Hell simboliza o momento em que o rap encontrava todas as classes sociais, e colocava todas elas juntas para dançar sob uma mesma batida.

Essa coalização de tribos já ambicionada desde priscas eras encontrou sua estética definitiva com a regravação de Walk This Way, com a participação de um então quase falido e baqueado Aerosmith, afundado nas drogas e ainda longe de hits como Dude (Looks Like a Lady) e What It Takes. Transformado no rap rock definitivo e emblemático em seu vídeo em que, após discutirem e quebrarem a parede que separava seus estúdios, rappers e rockers se encontram em cima do palco, com as rimas urgentes de Run e D.M.C. encontrando os histriônicos e despinguelados berros de Steven Tyler. O sincretismo musical deu certo, e o Aerosmith retornou das cinzas e o Run-D.M.C. finalmente conheceu o gosto dos holofotes.

E não é só na participação especial que eles se saíram bem – poucos álbuns são tão vibrantes que nem esse; suas bases rítmicas garantem a diversão de uma festa inteira sem perder a força; é o caso da emblemática It’s Tricky, falando da dificuldade que é sincronizar uma batida e uma rima, falando das conseqüências das famas que o perseguem, como o rolo com garotas, a atitude tomada com pessoas que encontram nas ruas, os problemas com a família, os traficas oferecendo um produto qualquer – realmente, com tanta pressão atirada de todos os lados, a missão ‘to rock a rhyme’ torna-se um tanto complicada…

Entre outras canções que tornaram-se símbolos para toda uma geração – My Adidas marcou a primeira ligação entre um grupo de rap e uma grife e Dumb Girl foi sampleada por Kanye West e Jay Z na canção Jockin’ Jay Z do álbum Blueprint 3, de Z – temos a canção de protesto e afirmação Proud to be Black, além de You Be Illin’ com seu ritmo esperto versando sobre alguém que sempre acaba se ferrando no final.

E não apenas de hits é feito o álbum – há músicas menores  mas igualmente excelentes – Is It Live com a sua cama percussiva seca, quebrada e furiosa, a vertiginosa abertura Peter Piper (uma das grandes faixas de abertura das últimas décadas, por falar nisso) e a faixa-título Raising Hell, um rap de quase seis minutos que pessoalmente considero um dos pontos mais altos do álbum, um dueto entre Run e D.M.C.  praticamente competindo pra ver quem sai melhor, o que para dois caras do talento deles, só vem a somar. Tudo isso acomodado por um riff rockeiro e um bate estaca massacrante.

Mesmo com as polêmicas que mais tarde o envolveria, o rap e a cultura hip-hop mostraram ser, no final das contas , fundamentais para a história recente da música pop, tendo em Raising Hell uma de suas obras-primas; um dos primeiros a visualizar uma estética que conjuga vários estilos musicais distintos dentro de um, fazer sucesso enorme com suas letras ousadas e por vezes até abusadas (muitas vezes com terminologia de baixo calão cuspida na cara dura pelos MC’s).

Não dá nem pra ser preconceituoso quando o que está em questão é um álbum tão bom assim. Raising Hell destrói barreiras em nome da boa música, amplia os horizontes em nome da criatividade, sem jamais sacrificar a tal da integridade artística. É um dos poucos discos que eu tenho a pachorra de chamar de “fundamental” – mas também, nesse caso, não é pra menos. Word, bro.

4/5

Raising hell (Run-D.M.C.) – 1986 – Integrantes: Run, D.M.C. (vocais e letras) e Jam Master Jay (DJ).

Tracklist:

01. Peter Piper
02. It’s Tricky
03. My Adidas
04. Walk This Way (feat. Aerosmith)
05. Is it Live
06.  Perfection
07. Hit It Run
08. Raising Hell
09. You Be Illin’
10. Dumb Girl
11.  Son of Byford
12. Proud To Be Black

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