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Reise, Reise (Rammstein, 2004) by Bernardo Brum
julho 7, 2011, 2:21 pm
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por Bernardo Brum

Poucas bandas conseguiram causar um impacto tão profundo em matéria de inovação no mainstream do século 21 do que o Rammstein. Combinando música eletrônica e heavy metal, foram um dos poucos artistas fora do eixo EUA-Inglaterra que conseguiram sucesso cantando em seu idioma pátria de forma duradoura (como Os Mutantes e Serge Gainsbourg) sendo no caso deles o alemão, língua sabidamente de difícil assimilação devido a sua sonoridade.

Há de se destacar, como provavéis molas propulsores de tanta atração para cima deles, a estética sonora, visual e temática que a banda criou para si: sobre as guitarras pesadas, teclados e programações eletrônicas, há a voz barítona em estilo declamado de Till Lindemann por cima desfiando toda as letras sempre provocadoras do Rammstein, que passam por sexo, política, tabus, desvarios comportamentais, entre outros assuntos controversos que a banda faz questão de tratar em todos os discos, de Herzeleid, de 1995, até o recente Liebe Ist Für Alle Da, de 2009.

Há também o fator teatral –  a banda conta com inúmeros figurinos, maquiagens, shows pirotécnicos, jogos de luzes e encenações diferentes para cada música.  Assim, esse fator conceitual que o Rammstein carrega consigo, sempre se equilibrando entre a seriedade dramática e a brutalidade sonora e um senso de humor negro muito esquisito.

Esse espírito ambíguo, em eterno contraste entre trágico e cômico, brutalidade e sensibilidade entre outros elementos opostos que no final das contas são separados por linhas tênues, encontra um dos seus ápices em Reise, Reise, que não apenas representa todas as obsessões conceituais do Rammstein, mas também leva a um passo adiante, explorando não só novos temas mas também novas sonoridades.

O próprio nome do álbum é ambíguo; pode querer significar “levante-se” – era usado como um chamado para acordar por marinheiros – em uma forma mais antiga de alemão, mas no período atual significa “viaje” ou “jornada”). Já a capa é a imitação da “caixa preta” de um avião, inclusive inscrito com o aviso “Flugrekorder, nicht öffnen“, ou “Não abrir o gravador de vôo”. Faz referência ao vôo 123 da Japan Airlines de 12 de agosto de 1985, o acidente aéreo mais fatal da história, quando um Boeing 747 apresentando problemas ficou preso no Monte Fuji e caiu, provocando a morte de 520 pessoas de uma tripulação de 524. A relação capa/imagem dá o tom de ironia trágica com o qual o Rammstein carrega todas as suas músicas.

Nenhuma música parece resumir também quanto o carro-chefe do disco, Mein Teil – alemão para “meu pedaço”. A música foi inspirada no famigerado caso de Armin Meiwes, o canibal de Rotenburgo, apelidado de “O Açougueiro Mestre”, que encontrou uma vítima voluntária através da internet e devorou o homem, por longas semanas, com vários temperos e condimentos diferentes, depois de ambos jantarem o pênis dele. Abrindo com um riff explosivo e andamentos lentos nos versos, através de uma ponte-refrão explosiva, a música vai crescendo em brutalidade, com Till declarando “por que você é o que você come/e você sabe, que é o que ele é/esse é o meu pedaço”, descrevendo entre os gritos do refrão as muitas opções de cardápio e alimentação de um ser humano. O conceito do Homo Homini Lupus (“O Homem é o Lobo do Homem”), explorado de forma bizarra através de um dos maiores tabus da civilização moderna. O terror vem, justamente, por ter sido cometido por um europeu, um alemão, uma cultura considerada por muitos “superior”, cometendo um hábito considerado perverso e primitivo – tal dicotomia é “dissolvida” nos versos, quando o ato bestial é encenado com classe de um restaurante cinco estrelas. Ou seja, para a banda não faz diferença a cultura a que você pertence: a besta mora em todos nós.

A dicotomia continua na dobradinha Amerika e Moskau, com a banda “atirando” em duas regiões símbolos do século vinte. Enquanto a América, retratada na letra parcialmente em inglês, parcialmente em alemão, é detonada por impulsionar a colonização mental hedonista-belicista do imperialismo (“Nós estamos todos vivendo na América/Coca-Cola/Algumas vezes guerra”), Moscou é implodida ao lado da cantora Viktoria Fersh, que anuncia o prelúdio e canta o refrão alternando com Till, dessa vez em russo, sendo descrita como uma velha e gorda prostituta, com uma mancha vermelha na testa e dentes de ouro, fazendo clara referência a destruição de um idealismo em troca de alguns trocados. A queda da grande potência antagônica ao pensamento capitalista, a União Soviética, tornou a Rússia uma garota de programa. Bela, apaixonante, mas ainda uma vagabunda.

Há um esforço forte em trazer lirismo mesmo nos assuntos mais controversos. As soturnas Dalai Lama e a faixa-título e música de abertura Reise, Reise são duas delas: a atmosfera pesada, violenta, trágica da música refleta nas letras, sendo uma sobre um acidente de avião e outra sobre um naufrágio, respectivamente, descrevendo momentos terríveis e evocando imagens impressionantes em versos como “A criança diz para o pai/Não está ouvindo o trovão?/É o rei de todos os ventos/Ele me quer como sua criança” e “As ondas choram silenciosamente/Em seu coração está fincado um arpão/Elas sangram na praia vazia”.

A banda não tem medo de investir em novos climas e invenções de atmosfera; por isso, quase não dá para estranhar a presença de Los, uma canção guiada pelo violão no meio de um disco de metal industrial (com o instrumento sendo tocada de forma ritmada e pouco melódica) que encontra samplers em seu desenvolvimento, ou os arranjos de cordas e o coro presentes em Morgenstern; mas não tem medo de investir em porradas tradicionais da banda consagradas nos discos anteriores Sehnsucht e Mutter, como é o caso de Keine Lust, onde a pancadaria da banda  versa sobre apatia, sobre um homem sem desejo de fazer as coisas mais elementares, como alimentação, excitação ou mesmo sair de casa.

Como contraponto ao vazio opressivo de Keine Lust (que no final da música, há a sentimental dupla de músicas que fecham o álbum: a depressiva power ballad Ohne Dich (“Sem Você”), com cordas e bandolim acompanhando, sobre a perda de um ente querido com a interpretação cheia de feeling de Till e a lasciva Amour, que descreve o amor como, paradoxalmente, um animal selvagem e um veneno do qual se é dependente, como se fosse uma droga. O antagonismo confuso entre os dois lados de tal sentimento, sob delicadas melodias, é descrito como “Ele chupa com força nos seu lábios/E cava túneis entre suas costelas/Ele cai suavemente como neve/Primeiro ele fica quente então frio por fim ele machuca”. A música porventura cresce em algo lírico, algo brutal, até descambar para a pancadaria total quando o vocalista pede desesperado “por favor, me dê o veneno”.

Para uma banda com um conceito tão singular, foi uma grande surpresa eles conseguirem logo sucesso mundial, abrindo para grandes nomes do rock logo em início de carreira, como o Kiss, e vendendo discos que ultrapassavam a marca de um milhão de cópias em países que não tem o alemão como língua pátria, além de milhares de visualizações de seus controversos clipes na internet. Logo se vê que a ousadia de criar atmosferas e ritmos estranhos e bizarros que descrevem sensações e momentos incovenientes foi válida; a banda consegue agradar até mesmo tradicionalistas resistentes a misturar música pesada com outros ritmos ou cantar em outros idiomas que não sejam o inglês.

Com o predecessor Mutter e esse disco, após ganhar o mundo com Du Hast em 1997, o Rammstein ganhou não só o mundo, quebrando as barreiras da língua ao conquistar os ouvidos sempre ávidos por novidades, como também o respeito crítico e alcançaram a maturidade artística. Uma banda polêmica, inteligente e desafiadora. Tomada por séria, mas com presença de espírito o suficiente para ironizar seu estilo peculiar (que o digam as sacanas Pussy e Te Quiero, Puta!). Em um circuito tomado pela nostalgia dos mais velhos e pouca ousadia dos mais novos, eles surgiram e abriram uma ruptura inédita – que não só desperta curiosidade, mas também impressiona até os dias de hoje. É uma banda chave para entender a música que vem sendo produzida no novo século – e de quebra, ainda faz discos excelentes.

4,5/5

Reise, Reise (Rammstein) – 2004 – Integrantes: Till Lindemann (vocal), Richard Z. Kruspe e Paul Landers (guitarras), Oliver Riedel (baixo), Christoph Schneider (bateria) e Christian Lorenz (teclados)

Tracklist:

  1. Reise, Reise
  2. Mein Teil
  3. Dalai Lama
  4. Keine Lust
  5. Los
  6. Amerika
  7. Moskau
  8. Morgenstern
  9. Stein Um Stein
  10. Ohne Dich
  11. Amour

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