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Relationship Of Command (At The Drive-In, 2000) by elmelchior
janeiro 25, 2012, 11:50 pm
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relationship

– por Melchior Barbosa

Há 12 anos a cena musical encontrava-se numa encruzilhada digna de uma macumba das mais bem feitas. As bandas do estilo New Metal dominavam as paradas e a situação beirava o desespero que aconteceu no final dos anos 80, com as bandas mais homofóbicas e machistas da história (Poison, Motley Crue). Fora algumas exceções, o mainstream estava saturado e nada de novo acontecia. O hip-hop perdia cada vez mais a sua origem mais ligada as lutas de classes e se livrava do gangsta rapper para inaugurar o “bling-bling”, esbanjando mais ainda os valores já chatos de uma sociedade com um pé e meio no novo milênio. Era uma cacofonia das mais complicadas e ficava difícil saber que rumo daria aquele caminho (saberíamos anos depois com o surgimento do álbum “Is This It?” do The Strokes).

Elementos do punk e hard-core pareciam estar em ostracismo total, apenas com as bandas que já se mostravam cansadas e não conseguiam (e talvez nem quisessem mais) atingir um público novo. Enquanto isso, uma gravadora major trabalhava com uma banda que almejava o sucesso, tinha o talento, mas por outro lado eram artistas e valorizavam o que expressavam. Era um risco, claro. “E se eles quiserem fazer o que bem entendem? E se quiserem escapar das nossas garras?”. Apesar do contraponto, eles apostaram e deram toda estrutura que a banda desejava. Em Setembro de 2000, chegava às lojas norte-americanas o álbum Relationship Of Command, de um grupo de 5 jovens de El Paso, Texas. Por preconceito, quem diria que de um dos estados mais conservadores dos EUA, sairia um dos álbuns mais influentes da década de 2000? Não demorou muito e o At The Drive-In tornou-se uma das bandas mais requisitadas em festivais e programas do mundo todo, em uma turnê que durou apenas 1 ano, mas marcou um momento único na história da música.

O álbum é potente do começo ao fim. São raros os momentos em que a banda tira o pé e mesmo quando diminui o ritmo, consegue cativar quem o escuta. A música de abertura “Arcarsenal” já denota no nome pelo que a banda veio. É um dos pontos altos e sua abertura tribal é um prefeito prelúdio da guerra que se iniciará entre a banda e o ouvinte. Segue-se mais 3 canções de ritmos frenéticos e diferenciados . A segunda, “Pattern Against User” é um dos momentos mais comuns do trabalho, uma canção hardcore bem trabalhada somada as letras surrealistas e vocabulário abrangente do vocalista Cedric Bixler-Zavala. A terceira canção, a enigmática “One Armed Scissor” é o grande hit do álbum, como não poderia deixar de ser uma canção número três na maioria dos discos mainstream. Apesar de ter a característica do hardcore presente em bandas da época, o primeiro single deste álbum conseguia aplicar as melodias ardidas e alternativas que eram a proposta da banda com este trabalho.

O guitarrista solo Omar Rodriguez-Lopéz já ensaia os tons agudos e sujos, cheios de efeitos de distorção. “One Armed Scissor” sintetiza a transição sonora que a banda passou nos 10 anos em que tocaram juntos antes de se serem “descobertos” pela gravadora. Um dos pontos mais altos do álbum sem dúvida é a quinta canção: “Invalid Litter Dept.” . Talvez seja a canção mais experimental e bela que a banda chegou a fazer e ainda com um assunto nada bonito, uma série de assassinatos ocorridos na pequena Ciudad de Juaréz, no México, na fronteira com os Estados Unidos. Na letra, Cedric fala do descaso das autoridades com o acontecido e o drama vivido por aqueles que ficaram sem respostas, mas tudo de uma forma tão única que fica difícil compreender os significados de primeira.

Depois de “Invalid Litter Dept.”, Relationship Of Command começa a entrar em um terreno mais experimental. A sétima música, Enfilade, conta com a participação inusitada de nada mais nada menos que Iggy Pop abrindo e anunciando, em uma voz soturna, um sequestro de um filhote de mamãe leopardo. Com um ritmo mais cadenciado e influenciado por percussões latinas, Cedric esbanja seu repertório ao criar uma ambientação de sequestro a moda antiga com mais palavras simbólicas (Sacrifice on railroad tracks/ Freight freight train coming/ Unconsious tied and gagged). Iggy Pop retorna na sequência com a contagiante “Rolodex Propaganda”, agora cantando de fato, em outro ponto alto da obra. O ritmo balanceia novamente com “Quarantined”, mas sem perder a agressividade sincera da banda.

A combustão final do álbum se da com a alienígena “Cosmonaut”, que mais parece um apêndice do filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço (Prepare to indent/ A coma that read/ Floating in a soundproof costume/ Here comes the monolith). As últimas três canções encerram de forma melancólica e amarga, principalmente com a derradeira “Catacombs” (título mais que sugestivo pra última e agonizante canção de um álbum).

Todo o turbilhão que a banda realizou neste seu trabalho mais maduro nos seus (até então) 10 anos de vida, transparecia em seus shows antológicos, nas performances visuais de Cedric e Omar, que pareciam de fato estar a parte do resto da banda. Como se fossem duas bandas dividindo o mesmo palco. Não dá certo. E não deu. Logo depois da exaustiva turnê para divulgação de Relationship Of Command o At The Drive-In paralisou suas atividades e se dividiram em duas bandas finalmente. Cedric e Omar formaram o excêntrico The Mars Volta, que sobrevive até hoje, e Jim Ward e os outros, formaram o genérico Sparta, que nem foi assim tão longe. Fomos todos pegos de surpresa então, neste Janeiro de 2012, quando o At The Drive-In anunciou seu retorno aos palcos com dois shows no Coachella Valley Music and Arts Festival, que rolara no próximo Abril. Não é de se esperar que a banda demonstre toda aquela energia da década de 00’, mas valera no mínimo por um saudosismo.

4/5

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Ficha Técnica

Relationship Of Command – At The Drive-In, 2000 – Gravadora: Grand Royal Records/Fearless Records – Integrantes: Cedric Bixler-Zavala (vocais, guitarra e melodica), Omar Rodríguez-Lopéz (guitarra, backing vocal), Jim Ward (guitarra, backing vocal e efeitos), Paul Hinojos (baixo), Tony Hajjar (bateria)

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Tracklist

1. Arcarsenal
2. Pattern Against User
3. One Armed Scissor
4. Sleepwalk Capsules
5. Invalid Litter Dept.
6. Mannequin Republic
7. Enfilade
8. Rolodex Propaganda
9. Quarantined
10. Cosmonaut
11. Non-Zero Possibility
12. Extracurricular
13. Catacombs

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The Marshall Mathers LP (Eminem, 2000) by Guilherme Bakunin
junho 24, 2011, 12:01 pm
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– por Guilherme Bakunin

O Eminem de Marshall Mathers LP é um rapper de interiores, canta sobre o que lhe acontece e aconteceu e espera alcançar a simpatia do ouvinte através de suas confissões. Não é um semiretrato social, não é gangsta rap, é uma colagem confessional sociopática permeada por sangue, misoginia, homofobia, violência, repressão. É diferente de qualquer coisa que eu já tenha escutado, porque o artista expõe sua alma de uma maneira tão explícita quanto consegue. É o apogeu do Eminem como rapper, é ele não dando a mínima pra qualquer coisa, falando abertamente sobre a repercussão do Slim Shady LP, sobre o horror da fama, a dicotomia entre o passado miserável e o presente farto e o fantasma da comercialização da sua expressão.

E ele nem precisava começar com um public announcement dizendo que não liga para o que as pessoas dizem pra deixar isso bem claro. A faixa que abre Marshall Mathers LP é “Kill You”, numa das letras mais inspiradas do cara, sampleada de Pulsion do jazzista Jacques Loussier, ele vai falando num fluxo irrepreensível sobre umas merdas desconexas (estupro da sua mãe, decapitação de pessoas, foder prostitutas com bala de revólver, essas coisas) só pra tirar onda e mostrar que não existe em função de absolutamente coisa alguma. Numa outra letra, Em diz que gera assunto para conversas na sala de estar. Acho que as conversar geradas giram em torno da ideia ‘porra, tá aí um cara que diz umas merdas doentias, e se dá muito bem com isso’.

Aí vem Stan, aquela concept music com a participação do sample de Thank You, de Dido, abordando a fama e fãs doentios que todo mundo mais ou menos conhece, cujo aspecto mais legal mesmo consiste na atuação do Eminem como seu fã fictício Stan, que progressivamente, ao longo de três estrofes, vai se exaltando por causa da rejeição de seu ídolo. Stan é até hoje, provavelmente, a mais bem sucedida música do rapper, conquistou caralhos de prêmios e caralhos de respeito dos mais variados circuitos musicais caralhos a fora. Uma das versões mais conhecidas é a live ao lado de Elton John (emblematicamente interpretando as estrofes da Dido, voa amiga) no Grammy Awards de 2001.

“Who Knew” e “The Way I Am”, junto com Criminal que fecha o albúm, são as três canções que compõe o bloco confessional, lidando principalmente com a questão do sucesso e das repercussões inimagináveis que os menores comentários ou versos geram na mídia & sociedade americanas. “Marshall Mathers” também fala disso, mas essa é especial. É incessante, irada, pesada, é quase como se não fosse cantada, mas cuspida na cara de um bully que tá ameaçando pegar o dinheiro do seu lanche. Certamente não é uma música que poderia ter sido feita por qualquer um. Marshall Mathers (a música) precisa de bagagem, caras, precisa de história, precisa de sentimento reprimido. As coisas que vão saindo do Eminem tavam entaladas e precisavam sair, e aí, quando saem, a merda voa pra uma multidão. Mãe, Insane Clow, os assassinos de Biggie Smalls, cenário geral do hip hop no começo dos anos 00 com os pseudo gangasta (prometo acabar descobrindo quem são), Backstreet Boys, Ricky Martin, homossexuais, advogados, etc.

“The Real Slim Shady” é a My Name Is (e Without Me) do albúm, vejam o clipe, leiam a letra, ouçam a música e é isso aí. Cachota de celebridades e cachota de mais uma porrada de coisa (eu particularmente acho catártico demais ver o Will Smith sendo ofendido, diz aí) e junto com “Drug Ballad” e “Under the Influence” (essa última tem um dos melhores versos do cara: So you can suck my dick if you don’t like my shit/ Couse I was high when I wrote this song/ (so) suck my dick, esse verso fica com você, caras, e pode ser usado em diversas ocasiões, de comida caseira pra namorada a trabalhos de faculdade, etc) fazem a vertente comédia do disco. De certa forma elas são as que mais chamam a atenção nas primeiras ‘ouvidas’, mas vão ficando mais sem graça na medida que você vai notando a grandiosidade do resto do material.

“Remember Me?”, “Bitch, Please II” e “Amityville” são as featurings songs do disco. Não vou pesquisar agora, mas creio que as três possuem participações de membros (se não de toda a banda) do D12 e são bem fracas, Amityville salvando um pouco, mas principalmente só por causa do Eminem mesmo. “I’m Back” deve ser a solo mais fraca do albúm, música esquisita com batidas fortes e letra pouco inspirada, meio comédia meio confessional, e sem refrão interessante.

E aí tem “Kim”, junto de “Kill You” e “Marshall Mathers” a estrela do cd. Tá entre aquelas coisas que o Eminem geralmente faz, de falar e cantar cosias que as pessoas geralmente pensam, mas pensam em um momento de raiva isolada, e por isso o sentimento acaba passando com o tempo. Mas o Eminem faz uma música desse momento, imortaliza-o e acaba tomando as consequências. Kim é uma puta duma canção cujas batidas te carregam diretamente pra dentro do que ela conta. A bateria caótica tirada do Led, os vocais megalomaníacos do Slim, indo do psicótico dramático ao grito infernal te arrepia, te choca, te faz gritar ‘puta que pariu!’ nos melhores momentos (Do you think I give a fuck? / There’s a 4 years old boy lying dead with a slitthroat in your living room / Fuck you asshole, yeah, bite me / Shut up and get what’s coming to you / You’re supposed to love me now bleed bitch bleed), e o refrão, que não é bem cantado, mas gritado, com uma voz falha e quase desafinada, reflete a dor ou não sei o que desse cara. É quase como se o Eminem sofresse pra criar essa música, mas precisasse criar de qualquer jeito pra exorcizar qualquer coisa que tivesse dentro dele. “Kim” é dark, revoltada, explosiva, arrepiante. Se fosse um filme, seria Suspiria: existe todo um senso de espetáculo orquestrado, de parafernália, de autenticidade. Certamente a canção mais subestimada do rapper, a melhor do albúm, uma das melhores de sua carreira.

Marshall Mathers LP colocou o Eminem de forma definitiva no panteão da música americana desse século. Seu disco de estreia, Slim Shady LP (e aqui é interessante observar que no seu primeiro trabalho, o disco vem do nome de sua alias artística, e agora, nesse segundo, é seu próprio nome ilustrando de forma emblemática a capa do albúm), eleveu o rapper para os grandes e promissores cantores da música popular, mas somente com MM que Eminem estabeleceu-se como o rapper legionário que, ainda hoje, o é. Já disseram, a respeito do albúm, que ele é, para o rap, o mesmo que Nevermind foi para o grunge; já disseram que o disco faz você se importar com música de novo; já disseram que é emocionalmente complexo de um jeito que o Eminem de Slim Shady LP seria incapaz de ser. Certamente MM consiste numa transformação, num grande breakthrough de fluxo musical e introspecção nas letras. Para Eminem e para o rap.

5/5

Marshall Mathers LP (Eminem) – 2000 – Integrantes: Eminem (vocais, produção), Dr. Dre (produção, vocais), Snoop Dogg, Nate Dogg, Bizarre, Sticky Fingaz, RBX, Xzibit (participações especiais).

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Tracklist:

  1. Public Service Announcement 2000
  2. Kill You
  3. Stan
  4. Paul (skit)
  5. Who Knew
  6. Steve Berman (skit)
  7. The Way I Am
  8. The Real Slim Shady
  9. Remember Me?
  10. I’m Back
  11. Marshall Mathers
  12. Ken Kaniff (skit)
  13. Drug Ballad
  14. Amityville
  15. Bitch, Please II
  16. Kim
  17. Under The Influence
  18. Criminal
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