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Loveless (My Bloody Valentine, 1991) by Vanessa A.
abril 8, 2012, 1:44 pm
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– Por Katrina V.

6/04/2012: Kevin Shields avisa: Vem aí o terceiro álbum do MBV. E o que nós fãs esperamos? Que seja pelo menos, 40% do que foi o último trabalho da banda, a obra prima Loveless. E já seria disparado o melhor álbum do ano, chutando a bunda de muita banda indie cheia de firula que existe hoje em dia. Simples assim.

Até hoje não há uma explicação lógica para o surto ocorrido em 1991, disparado, o ano mais criativo para o rock. No dia 12 de agosto, o Metallica lançaria o Black Album que redefinira o metal, levando-o ás primeiras posições da Bilboard. No dia 23 de setembro o Primal Scream lançaria o endiabrado Screamadelica, trazendo para o rock todo o clima das raves eletrônicas e do seu combustível, o ecstase. Um dia após, o mundo não seria mais o mesmo com o lançamento de Nevermind, arrastando consigo todo o peso e clima sombrio de Seattle e tirando todas as camisas de flanela do armário. Já no dia 4 de novembro dois álbuns fundamentais para o indie rock seriam lançados: Bandwoganesque, da banda mais amada, o Teenage Fanclub e a obra prima do shoegazing (e claro, do rock): Loveless. Tirando o Nirvana e o Metallica, as demais bandas citadas foram lançadas pelo selo Creation Records, uma verdadeira galinha dos ovos de ouro na reinvenção do rock da época.

O MBV surgiu em 1985 em Dublin, Irlanda (se a Irlanda foi ingrata em dar ao mundo nos anos 80 o U2 e o Cranberries, conseguiu se redimir com o MBV) e em nada soava com o estilo que os consagraria (e que dizem que foram, inclusive, os criadores) o shoegaze (o estilo se resumiria a uma coleção de distorções das guitarras que impossibilitava a audição dos demais instrumentos e a vozes etéreas, extremamente suaves. Além claro,  da postura típica das bandas, que não encaravam o público. Daí o termo showgaze: Encarar os sapatos). O MBV tal como o conhecemos, surgiria definitivamente em 1988, com o seu primeiro álbum, o belíssimo It’s anything, que já mostraria muito do que consagraria a banda e a destruiria: o perfeccionismo levado aos extremos por seu líder, Kevin Shields. Diz a lenda que Shields sofre  de uma doença causada pela contínua exposição a sons muito altos, chamada tinitus, um desarranjo crônico nos tímpanos que faz com que o portador ouça permanentemente um zumbido. Uma das explicações de Shields para a música do MBV seria de que ele tentava apenas reproduzir todos os sons que existiam em sua cabeça. Faz sentido. A Creation Records tendo It’s anything como prova definitiva de que deveria manter o MBV em seu catálogo e apostar nos trabalhos posteriores da banda, renova o contrato com os irlandeses. Porém, não imaginaria que seria o seu pior erro. Não que a banda, antes do lançamento de Loveless, fosse apenas um quarteto querendo colocar as fuças para fora da garagem: o MBV já tinha conquistado uma certa respeitabilidade junto a imprensa inglesa e, sim, era figurinha do staff da gravadora Creation, um selo que já tinha em seu currículo nomes como Jesus And Mary Chain e Primal Scream e de certa forma respondia por alguma coisa de vanguarda da época. O disco anterior, tinha mostrado evoluções significativas na personalidade e no feitio sonoro da banda, que saiu de um som estritamente simples e ruidoso para uma sugestiva mistura antagônica de barulho com melancolia, receita que se transformaria no seu slogan.De alguma forma, “Isn’t Anything” já dava um grande passo nesse sentido, mas ainda deixava lacunas a serem preenchidas por Kevin Shields, mentor da banda. Crítica e público então não hesitaram em depositar expectativas no lançamento do disco seguinte, uma prática que ali iniciaria e marcaria até hoje o sentimento de quem aprecia a música do quarteto. Paciência sempre foi uma virtude para a banda. Junto de Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm O’Ciosoig, Shields entregou-se ao trabalho de construção do disco num ritmo aplicado, cauteloso e (mais um adjetivo comum quando se fala em MBV) perfeccionista. Fossem problemas com as parafusetas das guitarras, com a mesa de som ou com a condição homeless do baterista, Shields ia contornando as circunstâncias, empurrando a produção de seu disco para além do que a gravadora esperava. O que para a Creation devia ser apenas um lançamento para gerar retorno, para o MBV tornou-se um compromisso de transferir para fita as intenções sonoras de Shields. De 1989 a 1991 o MBV passaria produzindo Loveless, em dois anos, foram 17 engenheiros de sons, 19 estúdios (mais o estúdio próprio de Shields) e meio milhão de dólares. Até hoje, Loveless foi o álbum mais caro de uma banda independente, o que levou a quase ruína da Creation Records. O álbum não foi um sucesso de vendas, e muito menos reverteu o prejuízo para a gravadora, mas fez com que a crítica especializada o transformasse em mítico, uma obra de arte em meio a sujeira que reinava em 1991.

O resultado, “Loveless”, chegou às lojas no dia 4 de novembro de 1991, depois de toda a pressão da gravadora para que Shields entregasse o álbum. O disco automaticamente ultrapassava seu anterior, desvelando  uma bruma lânguida e onírica de vozes etéreas soterradas sob um vasto rumor de guitarras distorcidas e samples de tom frequentemente indeterminado. “O som de Deus espirrando em câmara lenta”, foi como a Guiness Rockopedia o descreveu.  A melancolia serena das nuvens sonoras do Loveless, suas letras que flutuam entre o erótico e o romântico, as vozes de Shields e Bilinda se fundindo à massa sonora de suas canções, é tudo milimetricamente perfeito, planejado por um gênio que sabia exatamente que tipo de sentimentos desejava suscitar em seu ouvinte. “Onírico”, “etéreo” e tantos outros adjetivos exaustivamente utilizados pelos fãs constituem um clichê, é verdade, mas não por isso menos verdadeiro. Na época, ninguém menos que Brian Eno considerou “Soon” (a música que fecha o disco) “o estabelecimento de um novo padrão para o pop”. Sobretudo, “Loveless” pega o legado do disco anterior e cria sobre ele um universo todo particular, que é a grande razão de sua veneração. Impossível não apontar aqui o jargão atribuído à banda, que o disco fatalmente consagrou e é o seu verdadeiro triunfo: nele repousa o aclamado amálgama entre ruído e melodia. Embora constantemente citado como a “bíblia do shoegazing”, “Loveless” passa longe da podolatria, mostrando-se um exercício meticuloso de seu compositor. Sua graça toda está na tentativa de descobrir a linha tênue entre o barulho e a delicadeza, escondida meticulosamente na extensão do álbum. Seus dois atributos caminham juntos, quase siameses, e o que por um lado é uma grande maçaroca de ruídos, é também uma verdadeira aula de melodia e melancolia. Shields faz uso de verdadeiras fortalezas de guitarras distorcidas, geralmente loopeadas, assim como o faz com os samplers de bateria e o baixo, que trabalham lá embaixo da mixagem. Se os dois últimos instrumentos nunca foram tão coadjuvantes no som de uma banda, os vocais têm uma participação igualmente peculiar. Shields usa-os como um instrumento adicional, suaves, encarregados de responder pela melodia de “Loveless” e entrar em conflito com a tormenta ocasionada pelas guitarras. Para tanto, abusa da fragilidade sugerida pela voz feminina de Bilinda, sempre tomando cuidado para que a pronúncia das letras fique soterrada, inteligível, apostando na sugestão de declarações de amor ou manifestações tímidas de qualquer condição emocional. Tudo isso, em conjunto, cria uma simbiose difícil de ser imitada e, principalmente, colocada em texto. Tentar identificar o que é guitarra, o que é vocal e o que é algum truque é impossível, e essa combinação é infalível na tarefa de chamar a atenção do ouvinte. Os ingredientes combinados sobrepõem-se sobre o concreto, cutucando a percepção sensorial, já que estamos falando de música que não é instrumental mas também não comunica através de letras. As coisas estão mesmo aglutinadas na correria inconseqüente que as guitarras fazem em “To Here Knows When”, na melodia explícita e abundante de “I Only Said” e no pop mybloodyvalentinesco de “When You Sleep” e “What You Want”. “Sometimes”, faixa usada por Sofia Coppola em seu “Lost In Translation”, condensa a idéia da banda direitinho: Shields canta suave uma melodia redentora, mas as guitarras saturadas encantadoramente entram em sintonia com ele, dando ao arranjo o direito de dispensar a bateria.(Vale ressaltar que “Sometimes” é a minha canção favorita da banda e a mais melancólica que já ouvi. Quem já foi abandonado e sofreu por isso vai saber exatamente onde esta canção irá doer)

Mas na maioria dos quase 50 minutos de Loveless, a atmosfera é densa e esconde a sensualidade presente no My Bloody Valentine (nas letras ou nos vocais de Kevin Shields e Bilinda Butcher). Seja no dream pop de “To Here Knows When” e “Blown a Wish”, deixando transparecer a influência dos Cocteaus Twins; no experimentalismo do interlúdio “Touched” ou quando a banda só lembra a si própria (e aí se encaixam “Only Shalow” – que abre o disco – e todas as outras músicas), tudo é nublado, um tanto claustrofóbico, e estranhamente sentimental.

A banda influenciou um espectro indefinível que vai dos mais lisérgicos conjuntos atuais (Deerhunter, Radio Dept, Blonde Redhead) até o dream pop (Mercury Rev, Flaming Lips), passando pelos britânicos mais tradicionais (Oasis, Verve, Blur, Radiohead), os alternativos em geral (Interpol, Black Rebel Motorcycle Club, Ladytron), o chamado nugaze (Silversun Pickups, Asobi Seksu, Fleeting Joys), inegavelmente todo pós-rock (Mogwai, Explosions in the Sky, Sigur Rós) até bandas norte-americanas de peso como NIN e Smashing Pumpkins.

A genuinidade de “Loveless” não só continua desafiando músicos e ouvintes até hoje, como apresentou-se um problema intransponível para a banda. Em acordo com a Creation, que queria ver Kevin Shields pelas costas (“Loveless”, embora reconhecido, não vendeu o suficiente para pagar seu financiamento), o MBV assinou com a Island, evidentemente interessada em conciliar a banda com o grande público. A nova gravadora recheou os bolsos de Shields com libras, investidos na construção de um estúdio que daria suporte à criação do sucessor de “Loveless”. Passaram-se 21 anos e a Island ainda espera pelo sucessor. Segundo boatos, alguns confirmados por Shields, a banda já possuí quase 40 horas de música, porém, Shields receia que o material produzido não supere Loveless. Já dado como certo o lançamento do terceiro álbum ainda neste ano pelo vocalista e mentor, em entrevista ao site Pitchfork, só resta aos fãs um pouco mais de paciência.

No final das contas, Loveless pode não ser o marco zero do shoegaze muito menos o álbum que ditou os rumos da música independente, mas é com certeza a pedra filosofal de onde outros alquimistas das distorções tiraram suas lições para tentar realizar a grande obra.  Mas outro álbum como este, se acontecer, somente numa dimensão paralela. Ou não, né Kevin?

5/5

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Tracklist

  1. Only Shallow
  2. Loomer
  3. Touched
  4. To Here Knows When
  5. When You Sleep
  6. I Only Said
  7. Come in Alone
  8. Sometimes
  9. Blown a Wish
  10. What You Want
  11. Soon

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Ficha Técnica

Loveless – 1991 – My Blood Valentine: Gravadora – Creation Records. Kevin Shields (vocais e guitarra), Bilinda Butcher (vocais e guitarra), Debbie Googe (baixo) e Colm O’Ciosoig (bateria)

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