Tequila Radio


Back in Black (AC/DC,1980) by Luiz Carlos
julho 14, 2011, 1:28 am
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– Luiz Carlos Freitas

Após uma alavancada surpreendente ao estrelato em menos de uma década, o AC/DC se via diante de seu momento mais crítico e que, à primeira vista, poderia representar o fim do sonho de sucesso mundial: em 1980, o vocalista da banda Bon Scott é encontrado morto, congelado no banco de trás do carro de um amigo, onde havia adormecido completamente bêbado (segundo outros relatos, ele teria vomitado e, por conta de seu estado extremo de falta de consciência, não pode se mover, acabando engasgado e sufocado pelo próprio vômito).

O grande dilema, agora, era decidir entre encerrar as atividades no auge do sucesso, mantendo a imagem da grande banda que foram, ou arriscar seguir adiante com um novo vocalista. A segunda opção era arriscada, mas não impensável, afinal, apesar de seu grande carisma e apelo junto ao público, considerar Bon Scott como o único pilar do AC/DC chegava a ser desrespeitoso com os demais integrantes. Todos eles, principalmente Angus Young (um dos mais brilhantes guitarristas já vistos) eram responsáveis pelo sucesso alcançado.

Convencidos de que podiam fazer aquilo, correram atrás de um novo vocalista. Chamaram para algumas aldições o jovem Brian Johson, que já havia sido elogiado pelo próprio Bon Scott após ser visto se apresentando com sua antiga banda, o Geordie. Se saiu bem nos testes, ganhando a confiança do grupo, mas ainda faltava o público. Então, saíram para algumas apresentações e, surpreendendo novamente, a recepção do público foi igualmente positiva. Certos de que nada poderia dar errado, se trancaram num estúdio e, reformulando parte do material que já tinham pronto para o novo álbum com Bon, conceberam o Back in Black.

De gestação turbulenta, desenvolveu-se num embrião de descrédito e ataques, pois mesmo tendo boa aceitação pelos que presenciaram os shows do “novo” grupo, representava aos mais puristas (maioria óbvia), uma possível ofensa ao legado de um dos já maiores ícones da música, Bon Scott, e a decadência anunciada do fenômeno avassalador que era o AC/DC. Aos olhos mais otimistas, ele poderia resultar no máximo em um “bom trabalho de despedida”. Mas não se permitiram ficar acuados e foram em frente, concluindo o processo de gravação em tempo extremamente pequeno (cerca de 40 dias) e confrontando o crivo do mercado e o resultado, surpreendente, foi uma vendagem arrebatadora (até hoje, é o álbum mais vendido do rock – quase 50 milhões de cópias – e o segundo de toda a história da música, perdendo apenas para Thriller, de Michael Jackson, que ultrapassou a marca dos 100 milhões), bem como aceitação quase que total da crítica e dos fãs. A bem da verdade, surpreendente seria se fosse de outro jeito.

Musicalmente, o disco é um daqueles raros trabalhos galgados na perfeição, não havendo dentre suas 10 faixas nenhuma música ruim ou que possa sequer ser considerada “abaixo da média”. Contemplamos a completa harmonização de todos os elementos que constituem o rock n’ roll em seu estado mais puro: as guitarras dos irmãos Young, virtuosas e ao mesmo tempo descompromissadas com qualquer tipo de refinamento, fazendo um som pesado, contagiante e rasgado, tal qual o vocal que Brian Johnson usava para entoar aqueles que seriam alguns dos maiores hinos de várias gerações, odes à bebida, sexo, diversão, ou, enfim, toda essa inestimável irresponsabilidade juvenil que tanto caracteriza o estilo. Todavia, a força que o Back in Black carrega excede em muito o alcance dos ouvidos apenas.

A morte de Scott levantou uma enorme nuvem de incertezas sobre o grupo e o estilo de vida pregado livremente em suas composições, que por sua vez representavam uma visão quase que condensada de tudo o que o rock e boa parte dos movimentos contraculturais musicais, da vida livre, desregada, entregue ao  atrevimento do hed0nismo inconsequente. Scott, que em dado momento foi visto como um herói dessa geração que queria quebrar regras, agora tinha seu cadáver dissecado em discursos fundamentalistas sobre os “perigos” destas condutas. Ele era mais um de tantos exemplos “mortos” de que o rock e toda a sua proposta representava a autodestruição, um caminho sem volta.

O lançamento arrebatador dissipou essas dúvidas e o seguimento do grupo, sendo ovacionado em todas as suas apresentações posteriores, só exterminaram qualquer traço de descrédito que ainda poderia haver. Brian Johnson não era Bon Scott e nem queria ser. Ele era o novo vocalista do AC/DC e pronto. Apesar disso, o som não mudara e o espírito do grupo e suas músicas eram exatamente os mesmos. Eles ainda faziam rock n’ roll exatamente do jeito que começaram, sem rótulos, denominações, limitações ou preocupações, com a diferença de estarem indubitavelmente mais fortes enquanto grupo (a hegemonia pós-frenesi de lançamento do Back in Balck perdura até hoje, com cada anúncio de novo álbum ou turnê, mesmo com os que dizem que o som deles é exatamente o mesmo há décadas) e, claro, agentes desse movimento do rock.

O Back in Black se mostra, assim, também uma reverência e manifesto ao rock, visto que carrega em sua história a síntese do que o estilo enfrentara ao longo de suas décadas de vida, aguentando acessos de fúria de fanáticos, conservadores alienados, apreciadores de outros estilos que se julgavam superiores àquele som feito por “drogados sem propósito de vida” e até mesmo por parte da própria evolução do estilo musical, que hoje se mostra com uma tendência a amenizar a nível quase infantil o conteúdo de suas letras e posturas. Mas tudo foi enfrentado com a força da ironia de seu título. O Back in Black (que em português significa algo como “de volta do luto”)  representou um luto que o grupo optou por não viver. Ou seja, era o grito de quem não temia a morte se isso significasse uma privação de tudo que proporcionasse esses prazeres pregados nas músicas (para eles, ela era só mais uma consequência, o fim da estrada – vide o conceito do seu trabalho anterior e maior sucesso até a época, o Highway to Hell).

Claro que eles não conseguiram mudar o mundo e acabar com todo o preconceito voltado aos seus, mas entraram para o hall dos que impuseram respeito diante dos mais críticos por meio de um dos maiores clássicos já feitos e ainda nos deram, nos versos de sua faixa-título, uma definição nada sutil do rock e sua essência livre, despreocupada, extrema, rebelde e, com todo o respaldo da própria história, imortal:

“Tenho nove vidas, olhos de gato
Estou abusando de cada uma delas
E ficando louco”

5/5

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Back in Black (AC/DC) – 1980 – Integrantes: Brian Johnson (vocal), Angus Young (guitarra solo), Malcolm Young (guitarra rítmica, vocal), Cliff Williams (baixo, vocal), Phill Rudd (bateria)

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Tracklist:

– Lado A:

1. Hells Bells
2. Shoot to Thril
3. What Do You Do for Money Honey
4. Given The Dog a Bone
5. Let Me Put My Love into You

– Lado B:

1. Back in Black
2. You Shook Me All Night Long
3. Have a Drink on Me
4. Shake a Leg
5. Rock And Roll Ain’t Noise Pollution

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Blizzard of Ozz (Ozzy Osbourne, 1980) by Luiz Carlos
julho 1, 2011, 7:29 pm
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– Luiz Carlos Freitas

No início dos 80’s, por conta do consumo desenfreado de álcool e drogas por parte de Ozzy Osbourne, chega ao fim a parceria de quase uma década do vocalista com o Black Sabbath. Quase acabado, numa jornada cada vez mais destrutiva, ele era visto como mais um sem futuro algum. E isso fazia todo o sentido do mundo se avaliarmos o estado no qual ele se encontrava. Mas, contra toda a falta de perspectiva, o cantor tentou se reerguer e, orientado por Sharon Osbourne, sua esposa e empresária (ocupa ambos os cargos até hoje), lutou para montar uma banda nova, bem diferente do Black Sabbath e totalmente a seu modo. Reunindo Bob Daisley, Lee Kerslake e Don Airey (baixo, bateria e teclado, respectivamente), formou o Blizzard of Ozz. Apesar do nome oficial ser esse, o grupo era sempre referenciado como homônimo do vocalista, o que acabou sendo assimilado. Pouco depois, se juntaria a eles o jovem Randy Rhoads (que viria a falecer dois anos mais tarde num acidente de avião durante uma turnê), ex-guitarrista do Quiet Riot e que, com apenas 23 anos, já impressionava pelo seu virtuosismo e técnica com o instrumento. Banda formada, precisavam trabalhar no primeiro álbum. E assim, trancados num estúdio por cerca de 30 dias, conceberam o Blizzard of Ozz.

A faixa que abre o álbum, ‘I Don’t Know’, é a primeira de várias composições confessionais que permearão a carreira solo do Ozzy (cada álbum tem pelo menos uma delas). Embalado por um dos riff’s mais clássicos de Randy Rhoads, o desabafo nada lamentoso de quem sabia que estaria rumando por uma estrada completamente imprevisível e esperadamente difícil e que não ligava nem um pouco para isso (“Deixei tudo para trás / Todo mundo passa por mudanças / Procurando encontrar a verdade / Não olhe para mim buscando respostas / Não me pergunte / Eu não sei”) representa os primeiros estágios do luto que o cantor faria questão de celebrar aqui – mesmo que de forma ainda velada – negação e revolta (“Não é como você joga o jogo / É se você ganha ou perde / Você pode escolher”).

‘Crazy Train’, segunda faixa do disco, é o primeiro grande hino do rock a surgir sob tutela solo de Ozzy Osbourne (mas é desses obrigatórios que todo headbanger que se preze já nasce sabendo – até aquele guri de 12 anos que começou a ouvir música ontem e acha Linkin Park a melhor banda do mundo), seguida por ‘Goodbye to Romance’, primeira balada do madman e o fechamento do ciclo do luto, abarcando os estágios restantes: barganha (“O bobo da corte com uma coroa quebrada / Garanto que não serei eu desta vez / Quem irá amar em vão”), depressão (“Todos estão se divertindo / Menos eu, sou o único solitário / Vivo na vergonha”) e, por fim, aceitação (“Adeus ao romance / Adeus aos amigos / Adeus para todo o passado / Acho que nos encontraremos / Nos encontraremos no fim / E o tempo parece bom / E eu acho que o sol brilhará novamente”). O vocal arrastado de Ozzy (que não precisa de muito para parecer “sofrido”) e a melodia da guitarra de Rhoads fecham uma das mais belas canções do rock.

A quarta faixa, ‘Dee’, um breve solo acústico de Rhoads de menos de um minuto dedicado à sua mãe, é quase um recorte de notas de ‘Goodbye to Romance’ e canaliza a primeira grande porrada do álbum, emendando o final suave no violão com o riff poderoso e agressivo de ‘Suicide Solution’, provavelmente a música mais polêmica de toda a história do rock.

A música, que era dedicada a Bon Scott, vocalista do AC/DC que morrera no início daquele ano por uma fatalidade em consequência do consumo excessivo de álcool (e também ao próprio Ozzy, que já sofria com seu alcoolismo), numa tradução literal “Solução Suicida”, onde o termo “solução” significa “mistura”, “fórmula”, abordava de modo sarcástico os efeitos nocivos do álcool, a tal mistura que levaria quem o consumisse à morte. Porém, quando um jovem de 18 anos se suicidou após – supostamente – ter ouvido a música, os EUA pararam para acompanhar a cruzada de Ozzy nos tribuinais para provar que a música não colocava o suicídio como uma “solução” dos problemas.

O cantor foi absolvido da acusação de “incentivar comportamento auto-destrutivo”, mas não escapou de ser processado novamente e pelo mesmo motivo (dessa vez, outro adolescente que atirou com uma espingarda na própria cabeça). Acolhido pelo princípio constitucional da liberdade de expressão, Ozzy escapa mais uma vez, contudo, os movimentos conservadores “pró-família” não deixariam de perseguí-lo por muito tempo ainda, o que, de certo modo, até contribuiu para criação de uma aura transgressora que só encantaria mais os fãs (e só seria superada com aquela parada lá do morcego… mas isso é outra história).

Contudo, Blizzard of Ozz tem algo ainda mais poderoso a oferecer que suas polêmicas envolvendo processos ou o Black Sabbath: ‘Mr. Crowley’. Com uma introdução em órgão por Don Airey emendada com os riff’s de Rhoads, o famoso ocultista Aleister Crowley (aquele venerado por Jimmy Page e Raul Seixas – só pra lembrar de alguns) é indagado por Ozzy Osbourne, este intercalado por três distintos solos de guitarra que são facilmente os mais memoráveis da curta carreira de Randy Rhoads e, vistos em conjunto, um dos mais brilhantes momentos de toda a história da música (e dizendo isso sem medo de cair em exageros). Muito mais que uma música, um monumento da humanidade.

A irreverente ‘No Bone Movies’ fala sobre um homem viciado em masturbação (!) e é uma daquelas molecagens que o Ozzy jamais poderia fazer na sua antiga banda. Não que houvesse um cerceamento intelectual por parte de Iommi e cia. Pelo contrário, o Black Sabbath ganhou notoriedade por sua música transgressora, que (literalmente) assombrava o meio à época. Entretanto, essa proposta mais sombria e obscura da banda não combinava com o senso de rebeldia “arteiro” de Ozzy Osbourne, que queria se sentir no direito de ser explícito (“Inspiração que é triste por não poder ser detida / Não consigo perder o hábito e a obsessão pelo obsceno / Um cara se masturbando com a mão / Uma paixão venenosa, uma glândula vibrante”) e buscar uma sonoridade que muito se assemelhava às bandas de Hard Rock farofa que começavam a surgir naquele começo de década, como Poison ou Mötley Crüe

Curiosamente, a faixa seguinte, ‘Revelation (Mother Earth)’, é uma espécie de volta ao passado com o Black Sabbath, da letra sombria (“Eu tive uma visão / Eu vi o mundo queimar / E os mares ficaram vermelhos / O sol havia caido, a última cortina / Na terra dos mortos”) à musicalidade, com riffs pesados e um solo extremamente rápido ao final que lembram muito o trabalho de Tony Iommi em ‘Symptom of the Universe’ (música do Sabotage, sexto álbum do Sabbath).  Todavia, os riff’s de Rhoads e o teclado de Airey (que constrói uma melodia semelhante às trilhas de antigos filmes de terror) conferem à música um clima muito mais sombrio à medida que se aproxima do final, onde a bateria de Kerslake explode e já inicia ‘Steal Away (The Night)’, que encerra  o disco de modo rápido, certeiro e, como não podia deixar de ser, carregado desse senso de liberdade que Ozzy agora queria atirar para todos os lados. Liberdade mais que merecida para o verdadeiro merecedor do título de “Pai do Heavy Metal” e um dos maiores gênios malditos de todos os tempos.

“Correntes quebradas e regras violadas
Deixe a rebelião comandar esta noite”

5/5

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Blizzard of Ozz (Ozzy Osbourne) – 1980 – Ozzy Osbourne (vocal), Randy Rhoads (guitarra), Bob Daisley (baixo), Lee Kerslake (bateria), Don Airey (teclado)

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Tracklist:

1. I Don’t Know
2. Crazy Train
3. Goodbye To Romance
4. Dee
5. Suicide Solution
6. Mr. Crowley
7. No Bone Movie
8. Revelation (Mother Earth)
9. Steal Away (The Night)

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Fresh Fruit For Rotting Vegetable (Dead Kennedys, 1980) by Luiz Carlos

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– Luiz Carlos Freitas

Carter, Reagan, cacos de uma moral coletiva pós-Vietnã … 1980 e o mundo pegava fogo. O centro disso tudo, como sempre, a América. E acima destes, a cultura; abaixo, mas lutando aos gritos, a contracultura que, junto ao cinema, tinha na música uma das maiores armas das quais os não-bélicos dispunham, e dentre tantos estilos, o Punk ainda era a referência de contestação. Mas a urgência e a inquietação eram tamanhas que até mesmo os grandes contestadores começavam a ser  contestados, não por seu caráter, mas por uma certa falta de incisão sentida por quem queria bradar mais. Dessa [sobre]contestação é parido o Dead Kennedys e, com ele, o estilo conhecido como Hardcore.

Bandas como Ramones, The Clash e Sex Pistols carregavam nas críticas ainda uma certa inocência que – não desmerecendo seu legado e papel social – não eram mais suficientes a boa parte dessa geração que se via acuada e atacada por todos os braços do sistema. Assim, com a breve experimentação do The Germs (banda que lançou apenas um álbum, em 1979, e se desfez no ano seguinte, logo após o suicídio de seu vocalista, Derby Crash) e, enfim, o Dead Kennedys, entra o Hardcore como uma evolução natural desse estilo que era conhecido exatamente por sua inconformidade, tornando som e ideologia ainda mais rápidos, urgentes e verdadeiramente violentos e agressivos.

Capitaneados pelo psicótico vocalista Jello Biafra (pseudônimo de Eric Boucher), os guitarristas East Bay Ray e 6025 (um misterioso guitarra de apoio cuja identidade nunca foi revelada), o baixista Klaus Flouride e o batera Bruce Slesinger, já chegaram no cenário musical californiano literalmente como uma bomba. Seus primeiros singles, ‘Holiday in Cambodia’, ‘Kill the Poor’ e ‘California Über Alles’, causaram tanta agitação (para bem e mal, em igual proporção) que Biafra se arriscou a prefeito da cidade de San Francisco, obtendo uma impressionante quarta colocação entre os candidatos. Pode não parecer muito, mas para uma campanha de poucos recursos, foi o que encorajou Biafra a, num investimento arriscado, colocar todas as suas economias na fundação de uma gravadora independente e lançar o primeiro álbum da banda que (por razões óbvias) ninguém queria acolher, o Fresh Fruits For Rotting Vegetables.

A capa do álbum – a imagem de um carro em chamas – é a representação perfeita do perigoso coquetel molotov formado por suas catorze faixas. Abrindo com ‘Kill The Poor’, onde Biafra discursa em tom de “marchinha” sobre as vantagens de um possivel plano governamental para a erradicação da pobreza por meio do uso de bombas atômicas nas favelas (!!!) o que segue é um espetáculo de inconveniência e indiscrição de letras que marcam a grande característica do Dead Kennedys: o explícito.

A imagem  passada era deprimente e escancarada. A crítica genial de Biafra (compositor de quase todas as faixas), de George Orwell a Johnathan Swift, passeava livre e insanamente pelas mais variadas formas de linguagem, indo da incorporação de uma sórdida e exagerada primeira pessoa das perversões sociais, como o abuso infantil em ‘I Kill Children’ (“Eu mato crianças / Amo vê-las morrer / Mato crianças / E faço suas mães chorarem / As amasso embaixo do meu carro / Quero ouví-las gritar”) ou ‘California Übes Alles’, onde critica Jerry Brown, o governador da California à época, chamando-o diretamente de fascista (“Eu sou o governador Jerry Brown/ Minha aura sorri e nunca faz caretas / Logo eu serei presidente /O poder de Carter logo se acabará / Eu serei o comandante um dia /Irei comandar todos vocês”) até as arriscadas incitações à mudança que resultaram em ações judiciais contra Biafra, como em ‘Let’s Lynch The Landlord’ (“Mas a gente pode, você sabe que a gente pode / Vamos linchar os latifundiários, cara”).

O mais incrível é que ninguém saia intacto quando os Kennedys começavam a disparar. Eles não queriam fazer aliados, mas despertar a revolta, queimar o combustível para as mudanças que pregavam. Para tanto, não bastava atacar apenas pessoas, mas sim posturas e ideologias. Até mesmo os bem intencionados, se não fossem suficientemente fortes para serem vistos como agentes de mudança, sentiriam a porrada até “acordarem para algo útil”. Holiday in Cambodia é um tratado sobre isso, um chamado à verdadeira luta a quem acha que está fazendo algo (“Seu otário, você toca jazz no seu estéreo cinco estrelas / Para depois dizer que sabe como os negros sentem frio / E que a favela tem alma / É hora de provar aquilo que você mais teme / A Guarda Direitista não irá ajudá-lo aqui / Passe um feriado no Camboja”). Rola até um inusitado cover da icônica ‘Viva Las Vegas’, de Elvis Presley, fechando o álbum com uma debochada alegoria à sociedade conservadora e católica norte-americana que certamente se irritaria, mas tentaria ignorar a presença deles.

O Dead Kennedys lançou outros álbuns igualmente interessantes, como o Plastic Surgery Disasters e o Bedtime for Democracy, que renderam alguns processos e despertou a fúria dos seus críticos, mas nenhum com a repercussão (inimaginável à época) do Fresh Fruits For Rotting Vegetables, tanto política quanto social e, claro, musicalmente. Viraram do avesso o cenário artístico em que se inseriram, inauguraram um novo estilo e influenciaram uma geração inteira de bandas que vieram em seguida, além do papel de transformadores sociais, algo que não se pode mensurar ou definir com exatidão, mas que evidentemente se instaurou e rende frutos até hoje.

Podres, evidentemente.

5/5

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Ficha Técnica:

Fresh Fruit For Rotting Vegetable (Dead Kennedys) – 1980 – Integrantes: Jello Biafra (vocais), East Bay Ray (guitarra), Klaus Flouride (baixo, back vocal) Ted (bateria) 6025 (guitarra), Paul Roessler (teclado)

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Tracklist:

  1. Kill the Poor
  2. Forward to Death
  3. When Ya Get Drafted
  4. Let’s Lynch the Landlord
  5. Drug Me
  6. Your Emotions
  7. Chemical Warfare
  8. California Über Alles
  9. I Kill Children
  10. Stealing Peoples’ Mail
  11. Funland at the Beach
  12. Ill in the Head
  13. Holiday in Cambodia
  14. Viva Las Vegas

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Faixa Recomendada:



Iron Maiden (Iron Maiden, 1980) by Bernardo Brum
agosto 29, 2010, 6:37 am
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por Bernardo Brum

Antes de virar roupa de grife até entre pessoas nem um pouco descoladas que pouco tem a ver com rock and roll e heavy metal, antes de virar uma mania mundial com fãs de Japão a Brasil, antes de fazer de cada lançamento de disco um happening entre mídia e fãs, de qualquer grande hino, do vocalista símbolo Bruce Dickinson, da possibilidade de fazer um show só com grandes hits… Existiu o Iron Maiden com Paul Di’anno, Dennis Straton e Clive Burr, que com seus riffs curtos e objetivos, garra e gritaria quase punks e uma abordagem lírica que ia do misticismo e ocultismo a letras violentas e urgentes, levou a um passo a frente a mistura de peso e velocidade do Judas Priest com uma agressividade extra  que estabeleceu a base conceitual e estética de toda a NWBOHM (A nova onda do Heavy Metal Britânico, a maior explosão de bandas inglesas para o mundo desde os anos 60) e definiu, para o grande público, o que era esse estilo que teve seu nome gerado a partir de um verso de Born To Be Wild do Steppenwolf.

Visto por grande parte dos detratores hoje em dia como uma banda que não consegue articular mais com originalidade seu trio de guitarristas, sua cozinha “a galope” e seu vocal-alerta-de-ataque-aéreo, até se esquece que, há 30 anos atrás, Di’anno e o chefão Steve Harris progressivamente arrombaram cada porta que se entrepunha entre eles e o mercado mundial com canções como Prowler e sua letra urbana, sexy e perigosa (resquícios dos anos setenta, sem dúvida), a delinqüente Running Free e o psicótico hino Iron Maiden: músicas estas que, com todo o seu punch e urgência juvenil, ainda conseguem impressionar atualmente, mesmo quando tocada por um bando de tiozinhos beirando os sessenta anos.

Misturas sonoras e líricas entre os  luminares  Black Sabbath, Led Zeppelin e UFO que serviram para criar um conceito que capturaria toda uma geração dentro de um conceito e fariam surgir os famosos (ou famigerados) headbangers, fãs cabeludos e fervorosos por seu gênero preferido, que entre a esculhambação underground do punk e as orgias glam e disco, lutou contra a mordaça da “donzela de ferro” Margareth Tatcher com temas no mínimo inapropriados para a época: da expressionista capa com o Eddie original (baseado na foto de um cadáver que o artista Derek Riggs tinha visto em uma reportagem sobre o Vietnã)  ao som, passando pelas letras, o alvorecer do Iron Maiden em disco era, simplesmente, inapropriado. Estigma das grandes bandas de heavy metal: às vezes a abordagem conceitual oferecida por um novo produto pop ainda é muito para as nossas cabeças.

Herança regada dos anos setenta, Steve Harris já se arriscava em temas mais longos e complexos, como a rasgada e soturna heavy-ballad Remember Tomorrow e a longa Phantom of The Opera, baseado no romance homônimo; sete minutos que poderiam soar enfadonhos, ainda mais pelo fator de ser composta por um bando de jovens novatos; mas que jamais perde em velocidade e peso, contando com ótimas linhas vocais e um solo pra lá de habilidoso. Esta seria  a tônica que o Iron Maiden, anos mais tarde, seguiria quase que exclusivamente. O metal algo setentista algo visionário seria diluído, cada vez mais, em bases progressivas que esticariam enormemente a duração dos discos da banda, onde poderíamos  testemunhar toda a habilidade que cada um dos seis instrumentistas possui…

Mesmo soando radicalmente diferente do que a banda se tornou hoje em dia, além de fundamental para a compreensão e apreciação de todo um gênero, o debut do Iron Maiden é nitroglicerina, digna da efervescência cultural que só certos contextos socio-políticos conseguiram gerar; para uma década com censura de ferro e com grandes problemas sociais, uma banda com uma abordagem rítmica inovadora tão áspera e casca-grossa quanto veloz e técnica, sem medo de falar sobre ocultismo, voyeurismo e condutas imorais na primeira pessoa. Iron Maiden, o disco, é um grito de revolta consta o establishment que ainda soa persistente três gerações depois.

4/5

Ficha técnica: Iron Maiden (Iron Maiden) – 1980, Reino Unido – Gravadora: EMI – Músicos: Paul Di’anno (vocal), Dave Murray e Dennis Straton (guitarras e backing vocals), Steve Harris (baixo e backing bocal), Clive Burr (bateria).

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Tracklist:

  1. Prowler
  2. Remember Tomorrow
  3. Running Free
  4. Phantom of The Opera
  5. Transylvania
  6. Stranger World
  7. Charlotte The Harlot
  8. Iron Maiden

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Faixa recomendada: