Tequila Radio


Appetite for Destruction (Guns N’ Roses, 1987) by Rita Gomes
outubro 16, 2011, 8:44 pm
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– Rita Gomes

O cenário musical dos anos 80 cheirava a Glam metal, ao (injustamente) chamado rock farofa, onde bandas como Mötley Crüe, Cinderella e Skid Row apresentavam mais do que apenas belos riffs de guitarra e refrões bem ensaiados, mas uma estética andrógina paradoxal às canções permeadas por temas como mulheres, sexo e bebidas. O hard rock parecia estar cada vez mais fadado a ser capitaneado por bandas que cultuavam a imagem acima da própria produção musical.

Quando surgiu no cenário musical, o Gun N’ Roses parecia apenas mais uma banda de hard rock com um vocalista bonitão de cabelos compridos. Ledo engano.  Appetite for Destruction trouxe elementos mais crus, por assim dizer, à estética do período, tanto no visual bad boy assumido pela banda quanto na sonoridade mais heavy, mais rock.

Canção de rock calcada nas guitarras de Izzy e Slash, Welcome to the jungle abre o álbum, já demonstrando a natureza hard das músicas do grupo. Também conta com os hits Paradise City, Rocket Queen, It’s so easy, Mr. Browstone  Sweet Child O’Mine.

Em grande parte, as músicas foram compostas durante o período em que a banda se apresentou por bares e clubs de Los Angeles, espelhando a maneira desregrada e alucinada que os integrantes viviam. Temas como a vida dura na cidade (Welcome to the jungle), o tédio que sucede a conquista (It’s so easy) e, claro, drogas (Mr. Browstone).

O maior hit, Sweet Child O’Mine, foi composto em homenagem a então namorada de Axl, Erin Everly. Seu riff, um dos mais conhecidos do rock, foi composto por Slash, Izzy e Duffy, enquanto Axl trabalhava a letra. Canção mais conhecida da banda, tornou-se um clássico do hard rock.

É bom deixar claro: mesmo sendo mais hard rock, o Guns ainda é uma banda “farofa”. A maneira como Axl idolatrava sua própria figura, a própria imagem da banda e todo o hedonismo que os cercava fazem com que o Guns N’ Roses se aproxime muito mais da imagem glam rock do que os afaste.

Verdade seja dita: mesmo aparentemente sendo apenas mais uma banda “farofa”, a sonoridade do Guns, ao ser mais pesada que outras de outras bandas no mesmo período, ajudou a disseminar o rock. Apesar da própria decadência do estilo, visto que toda a farofice dos anos 80 virou pó no início da década de 90, o Guns ainda é banda referência de hard rock.

O álbum contém uma combinação poderosa: boas músicas, uma banda insanamente afinada, em sua melhor formação, e um vocalista inspirado. Após este debut oficial, a banda ainda traria ao mundo mais alguns bons álbuns (Use your illusion I e II, Spaghetti Incident), mas os rumos tomados com a saída gradual dos membros originais só aumentaram a nostalgia pela verve antiga. Melhor lembrar de Guns com este álbum.

4,5/5

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Ficha Técnica:

Appetite for Destruction (Guns N’roses) – 1987 – Estados Unidos. Integrantes: Axl Rose (vocais, percussão, sintetizador e apito), Slash (guitarra solo, guitarra rítmica e talkbox), Izzy Stradlin (guitarra rítmica, backing vocals, guitarra solo e percussão), Duffy McKagan (baixo e backing vocals) e Steve Adler  (bateria)

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Tracklist

  1. Welcome to the jungle
  2. It’s so easy
  3. Nightrain
  4. Out Ta Get Me
  5. Mr. Brownstone
  6. Paradise City
  7. My Michelle
  8. Think About You
  9. Sweet Child O’ Mine
  10. You’re Crazy
  11. Anything Goes
  12. Rocket Queen
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Rock ‘n’ Roll Animal (Lou Reed, 1974) by camilodiniz
setembro 28, 2011, 6:43 pm
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Rock 'n' Roll Animal

por Camilo Diniz

Muito se fala acerca da versatilidade musical de David Bowie e Iggy Pop, chamados frequentemente de camaleões do rock, todavia se subestima a mesma capacidade do vértice da chamada “santíssima trindade do rock”, Lou Reed, que influenciou toda uma geração de músicos, notadamente os outros membros da tríade citada.

De trovador soturno das esquinas de New York, à época dos primeiros discos do The Velvet Underground, passando por glam rocker no disco Transformer e poeta sofredor e deprimido em Berlin, Lou Reed, a despeito de tão metamórfico quanto seus colegas, é muito pouco lembrado neste quesito.

Após sua saída do Velvet Underground, Reed encontrou em David Bowie o apoio necessário para, finalmente, obter sucesso em sua obra, sempre controversa e quase nunca compreendida. O resultado foi Tranformer, talvez o maior sucesso do ano de 1972, o que fez de Lou Reed o artista do ano na Inglaterra, superando nomes consagrados como Mick Jagger, o próprio Bowie e Eric Clapton. Finalmente alcançara o reconhecimento que não veio com o Velvet, o que o colocou em situação financeira confortável.

Todavia, a vida pessoal de Reed estava em cacos devido à sua crise no casamento e vício em drogas, o que refletiu profundamente na produção do seu próximo disco, Berlin, talvez um dos mais depressivos da história do rock, duramente criticado na época, todavia reconhecido hoje como um dos registros definitivos da música.

Na esteira da crise de relacionamento, vício em drogas, brigas sérias com David Bowie e incompreensão da crítica, Lou Reed iniciou sua nova turnê, marcada pela agressividade incomum, semelhante apenas à experimentada no disco White Light/White Heat , o que o colocou no mesmo patamar de Iggy Pop, padrão até os dias de hoje no que se refere à visceralidade e agressividade no rock.

A turnê, denominada Rock ‘N’ Roll Animal resultou na gravação de um álbum homônimo ao vivo, em New York, como não poderia deixar de ser, e mostra um Lou Reed dialogando com o hard rock, sem perder a essência glam da época, cantando basicamente canções do Velvet Underground e uma do disco Berlin.

O disco é aberto com uma longa introdução, seguida de uma arrebatadora versão de Sweet Jane, um tanto quanto diferente da encontrada no Loaded. A seguir, a autobiográfica Heroin, que refletia o vício em heroína cada vez mais incontrolável de Lou Reed. Em White Light/White Heat, outro clássico do Velvet, tocado com ainda mais intensidade, marca de todo o álbum. Lady Day, única das faixas do álbum proveniente da sua carreira solo, a tristeza do Berlin é tornada ainda mais comovente e ferina. Por fim, Rock ‘n’ Roll, também do Velvet Underground, traz uma mensagem de esperança de uma menina que teve sua vida salva pelo Rock. Talvez fosse essa a perspectiva de Lou Reed.

A visceralidade do Rock ‘n’ Roll Animal foi mais uma das múltiplas transformações de Lou Reed que o tornam tão versáteis quanto seus discípulos David Bowie e Iggy Pop. Pouco tempo após sua gravação, Reed faria sua mais ousada transformação, gravando o até hoje incompreendido Metal Machine Music, talvez o mais controverso disco de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica

Rock ‘n’ Roll Animal (Lou Reed) 1968. Lou Reed (vocais), Pentti “Whitey” Glan (bateria, percussão), Steve Hunter (guitarra), Prakash John (baixo, vocais de apoio), Dick Wagner (guitarra, vocais de apoio), Ray Colcord (teclado)

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Tracklist

  1. Intro/Sweet Jane
  2. Heroin
  3. White Light/White Heat
  4. Lady Day
  5. Rock ‘n’ Roll

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A Night at The Opera (Queen, 1975) by Luiz Carlos
setembro 5, 2011, 5:18 am
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– Luiz Carlos Freitas

Em 1975, mesmo após a boa recepção de seus primeiros três álbuns, Queen, Queen II e Sheer Heart Attack – esse último, responsável pela internacionalização da banda -, o Queen ainda dispunha de um sucesso relativamente modesto. A crítica, principalmente, ainda não se dava por convencida de que o grupo britânico tinha muito o que oferecer ao cenário artístico da época, tampouco à posteridade. Mas não era isso que Mercury pensava. Perfeccionista, ele sabia que o Queen era muito mais do que o mundo estava preparado para aceitar e lutaria até o fim para conseguir firmar isso. Juntos com ele nessa batalha, estavam o guitarrista Brian May, o baixista Roger Taylor e o baterista John Deacon; suas armas: ousadia, persistência e – claro – talento quase sobrenaturais. E a materialização definitiva disso seria o disco A Night at the Opera.

Com seu título baseado na comédia homônima de 1935 dirigida pelos irmãos Marx, o álbum é até hoje aclamado como o ápice criativo do grupo e uma das maiores obras da história da música. Sua concepção foi turbulenta, com o perfeccionismo de Freddy batendo de frente com os produtores da banda, que o achavam demasiado exagerado em suas exigências, como por exemplo ter cada linha instrumental gravada separadamente em um estúdio próprio (o que acabou sendo acatado, no fim das contas), além do caso envolvendo Norman Sheffield (a quem Mercury se referia vez por outra nas apresentações como “o maior filho da puta que já conheceu”), ex-empresário da banda que desviou para si grande parte do lucro das vendas e apresentações e quase afundou as finanças do grupo.

Mas após alguns meses de intensa elaboração a pés firmes, a gravação final saiu impecável como esperado e o resultado surpreendeu a todos, com o disco emplacando os primeiros lugares de vendas e execuções nas rádios por semanas seguidas, projetando definitivamente o nome do Queen e, principalmente, de Freddy, seu líder. Contudo, é imprescindível citar que o endeusamento popular ao vocalista acaba, por vezes, injustiçando os demais integrantes. Não desmerecendo nenhum dos elogios dirigidos ao dentuço, indiscutívelmente um dos artistas mais completos que esse mundo já viu, mas não deve-se deixar que isso ofusque o que realmente era o Queen: a união harmônica de quatro brilhantes artistas que, assim como Freddy, tinham larga responsabilidade no sucesso do grupo. A Nigh at The Opera acaba sendo crucial para confirmação dessa tese.

O processo de criação das músicas acaba se dando de forma bem pessoal, com todos tendo vez para cantar nas faixas, além da particularidade na criação das letras e, óbvio, a total habilidade com seus próprios instrumentos (Brian May é um dos maiores guitarristas já vistos). Algumas das melhores faixas são de inteira responsabilidade desses membros “secundários”, como ‘I’m in Love With My Car’ e ‘You’re My Best Friend’ – cantadas respectivamente pelo baterista Roger Taylor e pelo baixista John Deacon – , além de ‘Good Company’ e ’39″‘, que recebem a voz de Brian May.

Na verdade, não existe necessariamente uma faixa de cada um. Os quatro foram ativos em todas as músicas, celebrando o título e construindo verdadeiras óperas do rock (as três primeiras faixas – ‘Death on Two Legs (Dedicated To…)’, ‘Lazing on a Sunday Afternoon’ e ‘I’m in Love With My Car’ – se completam sem cortes, como um ato de ópera), e o grande apogeu disso pode ser observado em ‘The Prophet’s Song’ e ‘Bohemian Rhapsody’, as duas faixas mais elaboradas do disco, com seus arranjos extremamente técnicos e complexos, além das experimentações e peripécias vocais de Freddy. ‘Bohemian Rhapsody’ é definitivamente o maior feito do disco. Mesmo com sua estrutura até então inédita a um trabalho com foco tão comercial quanto pretendido, foi um sucesso nas paradas, sendo tocada à exaustão várias vezes ao dia em todas as estações. E muito mais que isso, é talvez a maior realização musical de todos os tempos.

Olhando além de todas as suas qualidades, ainda vemos o legado que A Night at The Opera deixou. Com o disco, o Queen deixou bem claro que o público poderia, sim, estar pronto para inovações desse porte. A ópera e o rock já haviam flertado antes (os exemplos mais icônicos anteriores ao Queen são Tommy, do The Who, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie), mas nunca da forma como fora apresentada aqui. Particularmente, ainda hoje, mesmo quase 40 anos após seu lançamento, A Night at The Opera não conseguiu ser superado ou sequer igualado. Uma perfeita e completa obra de arte.

5/5

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Ficha Técnica:

A Night at The Opera (Queen) – 1975 – Integrantes: Freddy Mercury (vocal, piano), Brian May (violão, guitarra, koto, ukelele, harpa), Roger Taylor (bateria, gongo, tímpano, pandeiro), John Deacon (baixo)

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Tracklist:

– Lado A

1. Death on Two Legs (Dedicated To…)
2. Lazing on a Sunday Afternoon
3. I’m in Love With My Car
4. You’re My Best Friend
5. “39
6. Sweet Lady
7. Seaside Rendezvous

– Lado B

1. The Prophet’s Song
2. Love of My Life
3. Good Company
4. Bohemian Rhapsody
5. God Save the Queen

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Spiral (Hiromi Uehara, 2006) by Vanessa A.
setembro 2, 2011, 7:33 pm
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–   Por Katrina

Como definir um álbum como clássico atualmente dentro do jazz, um gênero musical que cada vez mais ganha novos subgêneros? Como definir como um álbum clássico (me refiro ao mais tradicional jazz) algo que vai do jazz fusion, com um rock estilizado numa postura e uma base de música clássica? Sim, é demasiadamente complexo definir um álbum como clássico nesse caleidoscópio musical em que o jazz se tornou, fazendo que muitos álbuns passem despercebidos ou apenas silenciosamente aplaudidos por uma pequena legião de apreciadores mudos. Mas isso não se aplica a jovem pianista Hiromi.

Hiromi é uma pianista japonesa de 32 anos, sendo 20 anos dedicados ao piano. De formação clássica, vem arrancando elogios dos críticos e dos entusiastas de jazz (sem falar de nomes consagrados, como Chick Corea, Stanley Clarke e Herbie Hancock, este último afirmou que ela é a maior pianista dentre todos os pianistas do jazz, que ele ouviu em vida. Além de ser a pianista favorita de Ahmad Jamal, o pianista favorito de Miles Davis. Sentiram a moral da moça?

O motivo para tanta euforia no mundo do jazz? Primeiro: Hiromi é um prodígio. Para se ter idéia, aos 15 anos ela já tocava com a filarmônica da República Tcheca como principal solista. Aos 18 anos já tinha assinado um contrato com uma gravadora antes mesmo de ser formada na escola de música clássica de Boston. Segundo: se até agora você leu tudo isso e bocejou, pensando: “ela deve ser um pé no saco, aposto. Uma pianista fria e calculista que não erra nunca, e por isso, deve ser um tédio”, eu tenho uma coisa a lhe dizer, você não faz idéia do que ela essa pequena faz com um piano na sua frente.

Ela é insana. Soca o piano, toca em pé, cria danças em pleno solo e muitas vezes, temos a impressão de que ela vai quebrar o dedo com tamanha violência que impregna nas teclas. Com um sorriso inocente no rosto, cria uma sequência de notas tão rápidas que não sabemos como é que fomos engolidos por toda aquela eletricidade. Ela vai do jazz ao fusion, com uma técnica impecável e com uma improvisação que beira ao surrealismo. Resumindo, Hiromi é única e um monstro do jazz que jamais terá um sucessor.

Depois dessa introdução (de uma fã confessa, que é apaixonada por essa japonesinha linda), vamos ao que interessa aqui no Tequila.

Como dito anteriormente, definir algo como clássico, no jazz, é uma tarefa demasiadamente complexa. Spiral, o quarto álbum solo de Hiromi, é um clássico instantâneo em qualquer gênero em qual for enquadrado. Explico: Não há uma classificação para Hiromi, ela brinca (sim, eu realmente quero dizer BRINCA) com o jazz fusion, o rock e a música clássica, impossibilitando assim qualquer definição clara do seu trabalho. É uma tempestade perfeita de talento técnico e criatividade musical, misturando elementos díspares da música clássica, bebop, jazz, fusion e rock.

Em Spiral, vemos o seu auge como compositora e pianista, quebrando todas as fronteiras que existem entre o jazz e a música clássica, com fusion e rock progressivo (sim, você leu isso. Ouça Return of Kung Fu Champion para sacar a pegada do Yes nos dedos delicados de Hiromi), tornando sua música algo único e homogêneo, um verdadeiro soco no estômago (exagero? Acreditem, vocês nunca ouviram nada parecido). O álbum é carregado do mais verdadeiro e contagiante swing, não devendo nada a Thelonious Monk e Oscar Peterson, mas sem cair no pastiche retrô, um erro muito comum no jazz tradicional atual. Seu swing é a la NewOrleans, moderno, sacana e provocante.

Spiral  não é óbvio, começa recatado como um bom álbum de jazz, se torna violento e insano ali na metade (quando você já está convencido que Hiromi quer te enlouquecer com tamanha variedade e velociodade), muda drasticamente quase no final (em Return of Kung Fu Champion, com um piano elétrico ES-PA-CI-AL. Lembram que eu falei que ali tinha uma pegada do grupo Yes? Pois bem, é pura viagem lisérgica) e termina da mesma forma em que começou: recatado, clássico e doce, como um carinho após o sexo selvagem onde os dois corpos ainda vibram após os orgasmos & ainda se desejam.

Um conselho? Procurem Hiromi e digam aos seus filhos e aos seus netos que vocês um dia, puderam acompanhar o trabalho desse monstro, que sem dúvida, marcou toda uma era contemporânea no jazz.

5/5

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Ficha Técnica

Spiral (Hiromi Uehara), 2006. Hiromi Uehara (piano), Tony Grey (contra-baixo) e Martin Valihora (bateria)

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Tracklist

  1. Spiral
  2. Open Door – Tuning – Prologue
  3. Deja Vu
  4. Reverse
  5. Edge
  6. Old Castle, By the River, In the Middle of the Forest
  7. Love and Laughter
  8. Return of the Kung-Fu World Champion
  9. Big Chill

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Raimundos (Raimundos, 1994) by brunomarise

– Bruno Marise

Sujeira, barulho, distorção, velocidade, putaria, bagaceira. Era tudo o que o rock brasileiro e a molecada da época precisavam na metade dos anos 90. E os Raimundos tinham isso de sobra, com uma pegada e uma energia elevadas ao extremo. Após uma década repleta de bandas pasteurizadas, superproduzidas e comerciais ao extremo (sem falar do auge do brega e sertanejo corno), os Raimundos meteram o pé na porta, pegando na veia dos jovens sedentos por algo que fazia falta há muito tempo.

Nascido em Brasília, no final dos anos 80, o grupo fazia basicamente covers de Ramones, (Daí o nome, uma versão abrasileirada da banda nova iorquina) mas logo sacou que Forró (todos os integrantes possuíam ascendência nordestina) era possível de ser tocado com guitarras, e passaram a fazer versões hardcore das músicas do sanfoneiro Zenílton, mistura que foi intitulada de Forrocore.

Com uma fita demo gravada em 1993 dando o que falar e correndo de mão em mão, não demorou a aparecerem convites para tocar no Rio de Janeiro, e abrir para bandas como Ratos de Porão, Camisa de Vênus e também os Titãs, donos do selo Banguela que foi responsável pela contratação dos Raimundos para gravar o disco de estréia, produzido por Carlos Eduardo Miranda, hoje jurado de programas no SBT.

Lançado em 1994, Raimundos, destilava músicas pesadas, e letras recheadas de palavrões e referências á sexo, drogas e violência. Guitarras distorcidas, riffs pegajosos, palhetadas de baixo a la Motörhead, bateria frenética e letras cuspidas velozmente por Rodolfo, era como soava a estreia dos brasilienses, hardcore com muito peso e influências nordestinas.

A primeira faixa é a já conhecida pelo público, Puteiro em João Pessoa, onde Rodolfo, de família paraíbana, narra a aventura de sua primeira experiência sexual, proporcionada pelos dois primos mais velhos. Um clássico da banda e do rock nacional, com seu riff pegajoso, letra bem humorada e muita energia.

Palhas do Coqueiro é o exemplo de como uma música de corno deve ser, Debaixo de um teto de espelhos/É onde tu estás a me chifrar/Eu fico aqui coçando os meus córneos/Imaginando em que motel você está/Eu acho que o grande motivo agora eu sei/Você deve pensar que eu sou broxa ou que eu sou gay/Mas pra provar tudo que eu sinto/Estou sozinho e sem ninguém pra me amar/Estou sozinho e sem ninguém pra me amar”.

A maioria das faixas tem características e uma pegada muito parecidas, mantendo sempre a sonoridade pesada e as letras escrachadas. Ainda podemos destacar o primeiro single do disco, Nêga Jurema, que conta a história absurda de uma traficante de maconha, que foi salva por um milagre. Uma verdadeira ode à cannabis que se repete em Bê a Bá: “Eu já conheço as pistoleira e cansei de mulher rampeira/A única que não me cansa é a tal de Maria Tonteira/Por ela eu como vidro, subo a nado cachoeira/Se ela vier prensada apertada é mais maneira”. A temática nordestina é constante no disco, e aparece em praticamente todas as músicas, contendo até versões de canções regionais populares como Cajueiro, Carro Forte e Deixei de Fumar (Cachimbo da Mulher) (devido principalmente a descendência dos integrantes), e até incluem instrumentos típicos como acordeon e triângulo.

Selim, a última faixa, entrou meio a contra gosto dos integrantes, que não queriam uma “balada” enfiada em meio à porradaria. Mas foi ela que ajudou a alavancar as vendas de Raimundos, com sua letra debochada e melodia grudenta, e tocou incessantemente nas rádios da época.

Raimundos vendeu 150 mil cópias, recebendo disco de ouro, e provou que era possível fazer música pesada, com letras em português e ao mesmo tempo pagar as contas, e serviu de influência para inúmeros grupos que viriam depois, mesmo que muito menos relevantes e de qualidade inferior. No ano seguinte veio o disco de platina com Lavô tá Novo e a consagração nacional, mas foi aqui que os brasilienses botaram o rock pesado de novo no mapa do cenário musical brasileiro.

Eu quero é rock minino!

 4,5/5

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Ficha Técnica:

Raimundos (Raimundos) – 1994/Brasil – Gravadora: Banguela Records/Warner – Integrantes: Rodolfo Abrantes (Vocais), Digão (guitarra e backing vocals), Canisso (baixo), Fred (bateria)

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Tracklist:

1.Puteiro em João Pessoa
2. Palhas Do Coqueiro
3. MM’S
4. Minha Cunhada
5. Rapante
6. Carro Forte
7. Nêga Jurema
8. Deixei de Fumar (Cachimbo da Mulher)
9. Cajueiro/Rio das Pedras
10. Bê a Bá
11. Bicharada
12. Marujo
13. Cintura Fina
14. Selim
15. Puteiro em João Pessoa II
16. Selim (Acústico)

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White Light/White Heat (The Velvet Underground, 1968) by camilodiniz

– Camillo Diniz

Depois do fracasso de vendas que foi o The Velvet Underground & Nico, o relacionamento da banda com Andy Warhol ficou tenso. Lou Reed, de modo um tanto arbitrário – o que se tornaria sua nota distintiva – o substituiu por Steve Sesnick, que jurou tornar a banda tão popular quanto os Beatles, tentando inclusive uma interlocução com o empresário dos garotos de Liverpool, Brian Epstein que, apesar das boas intenções para com o grupo, acabou morrendo antes que qualquer ajuda efetiva pudesse ser concretizada.

Nico, que já não recebia um tratamento cortês por parte de Lou Reed, a despeito do relacionamento amoroso dos dois, também foi demitida, dedicando-se a uma carreira solo elogiada pela crítica, sempre contando com o apoio dos membros do Velvet na gravação de seus melancólicos trabalhos, a exemplo do Chelsea Girls, lançado ainda no ano de 1967, quando a banda estava no processo de gravação do seu segundo álbum.

Tal situação de desamparo, aliado à falta de sucesso comercial criou a situação perfeita para a produção de um disco raivoso, ainda mais agressivo em termos sonoros e poéticos do que o seu antecessor, porém não tão inovador.

Assim, sem o glamour e a proteção de Andy Warhol e com uma fúria musical sem precedentes até então, os Velvets se trancaram no estúdio e, em poucos dias concluíram seu segundo trabalho, White Light/White Heat.

A faixa título, que abre o álbum, faz menção ao tratamento de eletrochoques ao qual Lou Reed foi submetido em sua adolescência, supostamente para se curar da sua homossexualidade. A faixa continuou a ser interpretada por Reed em sua carreira solo, além de ter ganho uma bela interpretação de David Bowie. O clima caótico começa a se manifestar.

Em seguida, uma homenagem, ou sátira à jazz poetry típica dos beatniks: Um longo poema, narrado por John Cale, destacando seu pesado sotaque galês, escrito por Lou Reed e, como não poderia deixar de ser, totalmente bizarro: The Gift narra a história de um rapaz apaixonado, Waldo Jeffers que, sem dinheiro para visitar a sua namorada, Marsha, decide enviar-se em uma caixa pelo correio, como um presente. Chegando ao destino final, descobre que era traído. Dada a resistência da caixa em ser aberta, a amada lança mão de um serrote, que acaba decepando a cabeça de Jeffers. Talvez tenha sido o melhor para ele.

Lady Godiva’s Operation, continuando a trilha da bizarrice que caracteriza o disco, relata uma cirurgia de mudança de sexo de um travesti, cuja personalidade é descrita na primeira metade da música, cantada também por Cale. A próxima faixa é também a mais leve, Here She Comes Now, que ficou mais conhecida por ser gravada pelo Nirvana ainda pré-Nervermind. Um momento de tranqüilidade dentro da loucura que é o álbum.

Em I Heard Her Call my name tem-se, provavelmente, a música mais pesada de seu tempo, cujo som não deve absolutamente nada para as cruas e insanas digressões do punk rock. Com guitarras distorcidas ao máximo, um vocal quase epiléptico e a batida selvagem de Moe Tucker, em contraponto à leveza de sua percussão no The Velvet Underground & Nico dão à faixa um peso que, à época, fora praticamente impensável.

Fechando o disco, Sister Ray representa o auge da escrotidão poética de Lou Reed e a esquizofrenia sonora da banda. A letra trata de uma orgia entre travestis, marinheiros e policiais, trama digna das mais imundas revistas pornográficas do submundo. A música, composta pelos demais integrantes da banda numa longa improvisação de 17 minutos é uma agressão ferina à estética musical, prova cabal da ousadia do quarteto das esquinas sujas de New York.

White Light/White Heat, embora mais agressivo que seu antecessor, conseguiu mais sucesso comercial, graças à experiência com o mercado musical de Sesnick, o que possibilitou uma maior divulgação do trabalho da banda. Após a sua gravação, o já frágil relacionamento entre os membros da banda deteriorou-se a ponto de John Cale ser expulso, levando consigo boa parte da carga experimental e avant garde do Velvet.

Devido à liberdade e pouca preocupação com os padrões musicais que envolveu a sua produção, White Light/White Heat foi considerado o disco mais descolado de todos os tempos.

4.5/5

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Ficha Técnica:

White Light/White Heat (The Velvet Underground) 1968. Lou Reed (Vocais, guitarra), John Cale (Vocais, Baixo, Órgão, Viola), Sterling Morrison (Vocal auxiliar em Lady Godiva’s Operation, Guitarra, Baixo), Maureen “Moe” Tucker (Bateria, Percussão)

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Tracklist:

Lado 1

  1. White Light/White Heat
  2. The Gift
  3. Lady Godiva’s Operation
  4. Here She Comes Now

Lado 2

  1. I Heard Her Call My Name
  2. Sister Ray

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Cherry Pie (Warrant, 1990) by Luiz Carlos
agosto 12, 2011, 11:05 pm
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– Luiz Carlos Freitas

Hoje, 12 de Agosto de 2011, data de publicação desse texto, foi divulgado pela imprensa que Jani Lane, ex-vocalista do Warrant, havia sido encontrado morto num quarto de hotel em Los Angeles. Jani estava longe de ser um gênio revolucionário da música, mas fundou e, graças a sua energia e talento pulsantes,  alavancou um dos grupos mais carismáticos e marcantes do movimento da história do hard rock. Em particular, o Warrant é um dos grupos que me acompanharam da infância até a vida adulta.

Logo quando descobri o rock, foram bandas “farofa” como Warrant, Great White, Poison, Mötley Crüe, Ratt, Danger Danger e Whitesnake, geralmente massacradas pela maioria, que despertaram em mim o interesse e a paixão pela música em geral, me levando a explorar outros estilos, conhecer mais e mais e adquirir a (relativa) bagagem que tenho hoje. E de todos, certamente posso destacar o Cherry Pie, do Warrant, um dos mais significativos nesse processo.

Segundo álbum de estúdio do grupo, veio com a ingrata tarefa de corresponder ao sucesso do disco anterior, o megasucesso Dirty Rotten Filthy Stinking Rich (que emplacou o hit mais ouvido da história do Warrant, a balada ‘Heaven’). Ingrato porque, além de ter os excelentes números do debut como referencial comparativo, vinha bem no período crítico para o hard rock e hair metal: início da década de 90, véspera do lançamento do Nevermind, do Nirvana, a verdadeira pá de cal em cima de toda uma década de dominação metaleira no cenário musical. Mas os desafios foram aceitos e o Cherry Pie chega às lojas e, rapidamente, se torna um fenômeno de vendas. Embalando um hit atrás do outro, domina as paradas e coloca o Warrant em evidência ao lado de grandes fenômenos como o ainda poderoso Guns N’ Roses.

O Cherry Pie não é propriamente uma obra-prima do gênero e, indo muito além das notas de vendagens, não apresenta lá grande relevância artística (esse sou eu fazendo uma daquelas análises “frias”). Mas, ainda assim, figura fácil em qualquer lista dos melhores trabalhos dessa década tão odiada por muitos. Apesar do Warrant não dispor de músicos extraordinários, alcançou um nível de excelência digno de respeito.

Os guitarristas Joey Allen e Erik Turner não tinham o virtuosismo de um C. C. DeVille (Poison), mas sabiam exatamente aonde chegar com seus conjuntos de riffs e solos que, aliados ao excelente trabalho do baterista Steven Sweet (que infelizmente saiu da banda logo após o lançamento do disco seguinte), tiravam um som rápido, com peso e pegada suficientes para manter o ritmo em todas as 12 faixas, tendo como a cereja da torta (e não tive como evitar esse trocadilho) o vocal forte e singelo de Jani Lane. O jovem loiro e franzino não tinha a beleza de Sebastian Bach ou sex appeal de Axl Rose que o fizesse símbolo sexual. Nem era propriamente bonito. Mas mesmo assim, conseguiu grande apelo entre o público feminino e, graças à sua postura rebelde e despojada, a admiração dos jovens. Indiscutivelmente, Jani Lane foi a cara que a banda recebeu ao longo dos anos.

Seguindo à risca a cartilha oitentista do hard rock, Cherry Pie alterna músicas rápidas, como as excelentes ‘Mr. Rainmaker’, ‘Love in Stereo’ e a própria faixa título (que virou hino de toda uma geração “poser”) com baladas água com açúcar, como as belíssimas ‘I Saw Red’ (com direito até a introdução no pianinho) e ‘Blind Faith’ e a mais agitada ‘Bed of Roses’, abrindo espaço até para algumas experimentações, como a mescla de southern rock e hard em ‘Uncle Tom’s Cabin’ e a versão mais hard rock para ‘Train, Train’ (da banda de southern Blackfoot), além de ‘Sure Feels Good to Me’ e seus riffs heavy metal.

O Warrant fecha o Cherry Pie com ‘Ode to Tipper Gore’, que nada mais é que uma compilação de vários “fuck” dito por Jani Lane em apresentações ao vivo e selecionados aleatoriamente como uma “homenagem” à tal da Tipper Gore, à época esposa do mala do Al Gore e fundadora da tão temida Parents Music Resource Center (PMRC), organização responsável por proibir a venda de vários álbuns e indiciar músicos (quase em sua totalidade roqueiros) por conteúdo “ofensivo à moral e bons costumes da família”. Um protesto que, apesar de certamente ter incomodado bastante, ainda era de uma inocência condizente com o espírito de rebeldia “hard rocker” dos anos 80, dos caras que procuravam bater cabeça enchendo a cara  rodeados de garotas antes de mudar o mundo. Um  encerramento bem honesto para um disco ícone como esse.

O Cherry Pie acabou sendo quase a despedida do Warrant da grande mídia. Seu terceiro álbum, Dog Eat Dog, ainda conseguiu uma vendagem interessante, mas sem repercusão junto à crítica e público, enquanto os seguintes foram fracassos quase completos. Após uma série de projetos paralelos, Jani Lane saiu do grupo para lutar contra o alcoolismo (curiosamente, um desses trabalhos foi substituir Jack Russell, vocalista do Great White que também enfrentava problemas na carreira por conta do álcool), abrindo vaga para Robert Mason, em 2008, mas ainda havia esperança de um retorno aos palcos com a formação original.

Não podemos dizer que o futuro do Warrant fica incerto com a morte de Jani, uma vez que já não dependiam mais dele. E, de toda forma, a cena musical de hoje já é a maior das incertezas para uma banda oriunda da (aos padrões do público de hoje) jurrássica década de 80. Sua atuação artística nos últimos anos já estava muito reduzida, limitando-se, por certo período, a integrar o cast de um reality show que acompanhava celebridades que precisavam perder peso (!), entre apresentações cada vez mais raras em pequenas casas de shows e cassinos. Mas à parte dos rumos que banda e vocalista tomaram, seu legado ficará. E o Cherry Pie é um excelente representante de um grupo, um artista e uma época.

3/5

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Ficha Técnica:

Cherry Pie (Warrant) – 1990/EUA – Gravadora: Columbia Records – Integrantes: Jani Lane (vocais), Joey Allen (guitarra), Erik Turner (guitarra), Jerry Dixon (baixo), Steven Sweet (bateria)

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Tracklist:

1. Cherry Pie
2. Uncle Tom’s Cabin
3. I Saw Red
4. Bed of Roses
5. Sure Feels Good to Me
6. Love in Stereo
7. Blind Faith
8. Song and Dance Man
9. You’re the Only Hell Your Mama Ever Raised
10. Mr. Rainmaker
11. Train, Train
12. Ode to Tipper Gore

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