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Jane Birkin/Serge Gainsbourg (Serge Gainsbourg, 1969)
setembro 11, 2010, 1:07 am
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por Bernardo Brum

Quando morreu em 1991, Gainsbourg havia deixado um legado gigantesco para a arte. Poeta, compositor e crooner com uma carreira monumental que se desdobra em álbuns próprios, composições para divas e renomados cantores, trilhas sonoras, Serge foi muito além do típico exemplar de artista bem sucedido; era também uma figura trágica, viciado em álcool e cigarros, lembrado mais por vexames públicos do que por méritos artísticos – vexames esses que atribuía ao seu alter-ego perverso, Gainsbarre, a paródia estereotipada do “gênio problemático”.

Era  um obsessivo quebrador de tabus, preenchendo suas obras com temas e abordagens eróticas, pornográficas e quase sempre polêmicas; também era um notório namorador de musas do mundo das artes. Entre elas, Brigitte Bardot e Jane Birkin, parceiras do francês no amor e na música. Um notório workaholic que entre as centenas de composições, mais de trinta álbuns de estúdio e a trilha sonora de mais de quarenta filmes ainda arrumava tempo para ser visto com escárnio, admiração e curiosidade pela sociedade francesa. Um homem repulsivo para a sociedade tradicional, introvertido e escandoloso, que só uma personalidade como sua mais famosa esposa, a atriz e cantora Jane Birkin, poderia fazer a ligação entre suas perversões em formato chanson e o grande público.

O famoso relacionamento intenso e sexual dos dois se desdobraria em vários grandes álbuns, na assim considerada maturidade artística de Serge perante a crítica e até em um filme dirigido por Gainsbourg e estrelado por Birkin, Paixão Selvagem. A dupla fez, portanto, o casal contemporâneo – que trepa muito e vive intensamente sem precisar ter que justificar nada a ninguém – ter corpo e voz na grande mídia. Serge, como todo artista obsessivo, vivia de conceitos novos a cada seis meses. E seu tórrido casamento e seus discos com a cantora são exatamente isso. Não apenas isso, é claro, mas as relações humanas são matéria prima para a música, fruto do contexto em que são lançadas. Somente poucas pessoas como Serge saberiam captar a verdadeira revolução comportamental, social e política que vinha acontecendo e, baseando-se em sua própria vida, abordar como o amor e o sexo são afetados no processo, provocando o público a cada canção, instigando-o de forma direta e sem frescura. E Jane Birkin/Serge Gainsbourg é uma síntese de tudo isso.

Um encontro entre o cancioneiro francês contemporâneo (ou chanson), a psicodelia em voga na época, as melodias  pop que dominavam o topo das paradas e os ritmos negros altamente provocantes se encontram sob a batuta de Gainsbourg em um panorama novo e fresco desenhado sob uma sonoridade única. Acrescente isso a letras abertamente sacanas e libidinosas que você tem uma idéia geral de um momento tão específico. Mas claro, isso não prepara terreno em momento algum, pois de abertura Serge entrega Je t’aime… moi non plus, a primeira “música de motel”, que com suas melodias delirantes e cadenciadas, sua marcação entre baixo e bateria esfregando-se como dois corpos e o contraste entre as declarações em voz rouca do francês e a voz aguda e sussurrada da inglesa causou imensa controvérsia e inscreveu seu nome entre uma das grandes e mais memoráveis músicas de todos os tempos: mesmo os boatos que os dois estariam transando enquanto gravaram a música  ainda não fazem jus ao impacto de uma pérola que, até hoje, carrega orgulhosamente  o estigma de ser música pornográfica.

E mesmo após uma abertura tão intensa, Serge não diminui de forma alguma a sensualidade e o erotismo absurdos presentes a cada segundo do disco. Em tempos politicamente corretos, com certeza presentear alguém com Jane Birkin/Serge Gainsbourg poderia ser considerado facilmente atentado ao pudor. O abuso lírico-sonoro continua forte em faixas como no outro dueto 69 anée érotique (marcado por excelentes melodias e intervenções rítmicas) e também em L’anamour, tão abusivas quanto apaixonadas; também está de forma mais ou menos oculta no lirismo onírico e extasiante de Sois Le Soleil Exactement, interpretada de forma magistral  por Gainsbourg.

Temas cantados por Birkin, como a dócil Orang Outan, a homenagem a sua musa Jane B. e a  típica canção de cabaré 18-39 onde, em três ocasiões diferentes, a musa mostra de quantas maneiras uma mulher pode ser atraente e sensual não apenas na aparência, mas também na voz econômica lapidada com excelentes composições na medida compartilham espaços com  a voz naturalmente abusada do gênio francês, seja nos duetos já mencionados ou em momentos solitários como a dançante, irônica e propositalmente vintage-kitsch Elisa e a balada lisérgica Les Sucettes.

De alguma forma, o baque de ser abandonado por Brigitte Bardot foi um momento definitivo na carreira de Serge: o momento onde ele decidia entre o crescimento como artista ou os lucros como compositor da nata do pop francês à época. O famoso “vai ou racha”; quando encontrou Jane Birkin, o oposto da voluptuosa Bardot que inicialmente lhe passou despercebida, o bardo marginal da França descobriu sua grande paixão ao lado do sexo, da música, do álcool e dos cigarros; a dona dos primeiros seios que o cinema viu, em Blow Up, de Michelangelo Antonioni, logo usaria sua voz para, junto a seu marido, desvirginarem o mainstream da música mundial. E, logo após a perda do cabaço, viria Histoire de Melody Nelson – depois de ser descoberto como arte em Pet Sounds e Sgt. Peppers, Gainsbarre e Birkin declarariam a música pop como adulta com doses ainda maiores de desejo, sexo e violência – mais uma das inúmeras peripécias aprontadas por esse artista único na história da indústria fonográfica, fazendo mais uma vez o escândalo ser tão natural quanto andar pra frente…

4/5

Ficha técnica: Jane Birkin/Serge Gainsbourg (Serge Gainsbourg) – 1969, França – Gravadora: Fontana Records – Integrantes: Serge Gainsbourg (vocais e composições), Jane Birkin (vocais), maestro Arthur Greenslade (arranjos e condução musical), variados  músicos de estúdio.

Tracklist:

Lado A:

  1. Je t’aime… moi non plus
  2. L’anamour
  3. Orang Outan
  4. Sous le soleil exactement
  5. 18-39
  6. 69 année érotique

Lado B:

  1. Jane B.
  2. Elisa
  3. Le canari est sur le balcon
  4. Les sucettes
  5. Manon

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Henry’s Dream (Nick Cave and The Bad Seeds, 1992)
setembro 5, 2010, 2:46 am
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por Bernardo Brum

Foi na década de 90 que o australiano Nick Cave – músico egresso das bandas Boys Next Door e The Birthday Party que se tornou uma figura proeminente do rock alternativo ao fundar a banda The Bad Seeds, primeiro pelas performances intensas em suas apresentações, e depois pela aparição dele e da sua banda no filme Asas do Desejo, de Wim Wenders – saiu da fama underground e caminhou rumo ao sucesso mercadológico. Seja pela lapidação do som melancólico, lúgubre e ríspido dos primeiros discos, seja pelas parcerias (na vida e na música) que o tornariam famoso, seja com divas da época como PJ Harvey e Kylie Minogue, seja com lendas obscuras do rock como Shawn McGowan, vocalista dos The Pogues.

Henry’s Dream, sétimo disco de estúdio de Cave, continuou a escalada do músico e de seus fiéis escudeiros rumo ao topo tanto comercial quanto artístico. E consegue ser uma síntese dos melhores momentos de Cave até então: na mistura de post-punk com blues que predominava entre From Her To Eternity e Your Funeral… My Trial; na sonoridade ao mesmo tempo autoral e acessível de Tender Prey; do mais leve e tristíssimo The Good Son e da intensidade sexual e psicótica de Let Love In. O mais curioso é que a sonoridade teve poucas mudanças drásticas; mas a escolha temática de cada disco faz com que cada álbum vibre com uma musicalidade única; Nick Cave, disco a disco, reconfigura seu som com muita sabedoria, sem jamais sacrificar sua integridade artística. O universo de Nick Cave, às voltas com sexo, morte, assassinato, fé e demais temas obscuros é, ao mesmo tempo, mutável e facilmente reconhecível.

A versatilidade do álbum é admitida aos ouvidos desde o primeiro momento, no ritmo duro e quase percussivo das cordas de Papa Won’t Leave You, Henry que servem de pano de fundo para uma letra suja e desesperada onde nota-se tanto a ousadia  quanto a irreverência que Nick Cave tem em tratar de temas que a maioria das pessoas apenas comenta superficialmente com respeito atemorizado, juntando a isso um refrão explosivo que surge feito um ressoar de trovoadas no meio de uma chuva torrencial. I Had a Dream, Joe vem logo a seguir, em sua fúria punk incessante e sua letra que comenta um pesadelo urbano de forma apocalíptica, ampliando as belas melodias vocais a um extremo tão intenso que a banda parece tropegamente rolar ladeira abaixo em alto e bom tom.

Uma das músicas mais confessionais da carreira do músico recebe o nome de Straight To You. Uma canção que funde a decadência típica de cabaré e zonas de meretrício com o órgão meio gospel de Mick Harvey compõem uma linda canção de amor, no seu ritmo entre o céu e o inferno (o paradoxo rocker que vem desde os primórdios), que versa de maneira incondicional sobre a figura amada. Cave invoca imagens tétricas, trágicas e até mesmo pouco usuais – como céus vomitando relâmpagos e santos bêbados uivando na lua – para prometer que nem o absurdo da realidade e da pós-vida podem abalar sua fervorosa obstinação. O quarto hit, enfileirado, leva o nome de Brother, My Cup Is Empty, que apresenta Nick na sua melhor destreza poética onde funde amor, escatologia, ódio e decadência junto a uma das suas grandes performances vocais, onde entre sua tradicional voz grave e tensa e rugidos bêbados o sinistro australiano entoa outra canção dura e seca, onde seu refrão ao mesmo tempo cadenciado e nervoso prenunciam o tom geral da primeira metade do álbum.

A partir daí, o álbum cai em velocidade e fúria, mas não abandona a faceta sombria e triste. Canções como Christina The Astonishing e Loom of The Land, tão amedrontadoras quanto belas, repartem espaço com o demente delírio Jack The Ripper e When I First Came To Town, exercício trovador de Nick, atípica dentro do conjunto de canções, mas nada mais natural ao cantor – para ele, punk, blues, gótico e folk falam basicamente da mesma coisa, do sofrimento humano, o que nas mãos de Nick viram ouro sólido.

Mestre em blasfemar e rezar na mesma frase, de ter um orgasmo e morrer na mesma canção, o universo singular de Cave compõem um banco de canções que explora um mundo diferente do qual conhecemos – onde as pessoas são mais obsessivas, onde os bêbados querem secar todo o álcool do mundo, onde as coisa dão errado mais rápido. Essa percepção de Nick Cave construiu nada menos que um exemplo de artista, que exprime seu universo particular para o mundo de forma assustadora e fascinante, grotesca e admirável.

Definitivamente, esse atrito constante de valores, ideais e costumes em ritmo e verso não é pra todo mundo – difícil se acostumar a quem blasfema e reza, afaga e apedreja na mesma intensidade – mas o que conseguirem ver além do óbvio conceito de “artista sombrio” são recompensados com os olhos e ouvidos de um dos melhores compositores-intérpretes das últimas décadas.

5/5

Ficha técnica: Henry’s Dream (Nick Cave and The Bad Seeds) – EUA, 1992. Gravadora:  Mute Records. Integrantes: Nick Cave (vocal), Mick Harvey (guitarra-ritmo), Blixa Bargeld (guitarra), Conway Savage (piano), Martin P. Casey (baixo), Thomas Wydler (bateria), The Bad Seeds (backing vocals), Dennis Karmazyn (violoncelo), Bruce Dukov e Barbara Porter (violinos)

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Tracklist:

  1. Papa Won’t Leave You, Henry
  2. I Had a Dream, Joe
  3. Straight To You
  4. Brother, My Cup Is Empty
  5. Christina The Astonishing
  6. When I First Came To Town
  7. John Finn’s Wife
  8. Loom of the Land
  9. Jack The Ripper

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Iron Maiden (Iron Maiden, 1980)
agosto 29, 2010, 6:37 am
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por Bernardo Brum

Antes de virar roupa de grife até entre pessoas nem um pouco descoladas que pouco tem a ver com rock and roll e heavy metal, antes de virar uma mania mundial com fãs de Japão a Brasil, antes de fazer de cada lançamento de disco um happening entre mídia e fãs, de qualquer grande hino, do vocalista símbolo Bruce Dickinson, da possibilidade de fazer um show só com grandes hits… Existiu o Iron Maiden com Paul Di’anno, Dennis Straton e Clive Burr, que com seus riffs curtos e objetivos, garra e gritaria quase punks e uma abordagem lírica que ia do misticismo e ocultismo a letras violentas e urgentes, levou a um passo a frente a mistura de peso e velocidade do Judas Priest com uma agressividade extra  que estabeleceu a base conceitual e estética de toda a NWBOHM (A nova onda do Heavy Metal Britânico, a maior explosão de bandas inglesas para o mundo desde os anos 60) e definiu, para o grande público, o que era esse estilo que teve seu nome gerado a partir de um verso de Born To Be Wild do Steppenwolf.

Visto por grande parte dos detratores hoje em dia como uma banda que não consegue articular mais com originalidade seu trio de guitarristas, sua cozinha “a galope” e seu vocal-alerta-de-ataque-aéreo, até se esquece que, há 30 anos atrás, Di’anno e o chefão Steve Harris progressivamente arrombaram cada porta que se entrepunha entre eles e o mercado mundial com canções como Prowler e sua letra urbana, sexy e perigosa (resquícios dos anos setenta, sem dúvida), a delinqüente Running Free e o psicótico hino Iron Maiden: músicas estas que, com todo o seu punch e urgência juvenil, ainda conseguem impressionar atualmente, mesmo quando tocada por um bando de tiozinhos beirando os sessenta anos.

Misturas sonoras e líricas entre os  luminares  Black Sabbath, Led Zeppelin e UFO que serviram para criar um conceito que capturaria toda uma geração dentro de um conceito e fariam surgir os famosos (ou famigerados) headbangers, fãs cabeludos e fervorosos por seu gênero preferido, que entre a esculhambação underground do punk e as orgias glam e disco, lutou contra a mordaça da “donzela de ferro” Margareth Tatcher com temas no mínimo inapropriados para a época: da expressionista capa com o Eddie original (baseado na foto de um cadáver que o artista Derek Riggs tinha visto em uma reportagem sobre o Vietnã)  ao som, passando pelas letras, o alvorecer do Iron Maiden em disco era, simplesmente, inapropriado. Estigma das grandes bandas de heavy metal: às vezes a abordagem conceitual oferecida por um novo produto pop ainda é muito para as nossas cabeças.

Herança regada dos anos setenta, Steve Harris já se arriscava em temas mais longos e complexos, como a rasgada e soturna heavy-ballad Remember Tomorrow e a longa Phantom of The Opera, baseado no romance homônimo; sete minutos que poderiam soar enfadonhos, ainda mais pelo fator de ser composta por um bando de jovens novatos; mas que jamais perde em velocidade e peso, contando com ótimas linhas vocais e um solo pra lá de habilidoso. Esta seria  a tônica que o Iron Maiden, anos mais tarde, seguiria quase que exclusivamente. O metal algo setentista algo visionário seria diluído, cada vez mais, em bases progressivas que esticariam enormemente a duração dos discos da banda, onde poderíamos  testemunhar toda a habilidade que cada um dos seis instrumentistas possui…

Mesmo soando radicalmente diferente do que a banda se tornou hoje em dia, além de fundamental para a compreensão e apreciação de todo um gênero, o debut do Iron Maiden é nitroglicerina, digna da efervescência cultural que só certos contextos socio-políticos conseguiram gerar; para uma década com censura de ferro e com grandes problemas sociais, uma banda com uma abordagem rítmica inovadora tão áspera e casca-grossa quanto veloz e técnica, sem medo de falar sobre ocultismo, voyeurismo e condutas imorais na primeira pessoa. Iron Maiden, o disco, é um grito de revolta consta o establishment que ainda soa persistente três gerações depois.

4/5

Ficha técnica: Iron Maiden (Iron Maiden) – 1980, Reino Unido – Gravadora: EMI – Músicos: Paul Di’anno (vocal), Dave Murray e Dennis Straton (guitarras e backing vocals), Steve Harris (baixo e backing bocal), Clive Burr (bateria).

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Tracklist:

  1. Prowler
  2. Remember Tomorrow
  3. Running Free
  4. Phantom of The Opera
  5. Transylvania
  6. Stranger World
  7. Charlotte The Harlot
  8. Iron Maiden

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