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Goo (Sonic Youth, 1990) by Vanessa A.
janeiro 11, 2012, 11:45 pm
Filed under: Comentários

– Katrina

Como manter uma banda independente após o estrondoso sucesso de sua (até então) obra prima, e que agora estava sob a tutela de um grande selo no inicio dos tumultuados anos 90? Goo foi a resposta.

Daydream Nation era o clímax de um processo iniciado com Evol [1986] e Sister [1987], e a questão existencial de um ponto de vista musical impunha à banda de Nova York ou conseguir olimpicamente ultrapassar o patamar alcançado com o anterior registo em moldes similares, ou modificar a sua sonoridade e estruturas de canções, caminhando num sentido distinto com novas roupagens. Goo é o disco menos experimental do SY e um verdadeiro teste da credibilidade da banda sob a pressão de estarem sob o teto de uma grande gravadora como a Geffen.

Nunca houveram tantas canções (“Dirty Boots”, “Mote”, “Disappearer”) todas com codas ou intermezzos disparatados. Nunca a baixista Kim Gordon cantou tanto (Moore faz a menor parte dos vocais). Mas acima de tudo, nunca houveram tantas canções “limpas” no até então repertório da banda. Lançado em Junho de 1990, Goo lançava-se num cinismo arty balançante entre as doses pesadas de dissonância muito características da banda e uma rajada avassaladora de riffs pops que alimentaram estruturas mais enquadradas no conceito tradicional das canções. Era o Sonic Youth como nunca antes ouvidos.

Bem distante da bizarra experimentação sonora e esmigalhante de Confusion is Sex e de aproximações mais ecléticas em Sister ou Evol, Goo trazia consigo um jorro de canções mais catchy e radio-friendly, sem que com isso deixasse de parte a marca tradicional do universo previamente estruturado pela banda, apenas em menor dose e de um modo mais sutil ou menos carregado. Lógico, a zoeira vanguardista-apunkalhada estava lá para garantir que o Sonic Youth, no fundo, continuava o mesmo. Dos 80 aos 90, o Sonic Youth vai da desordem à ordem aparente. E apontava, influênciava e organizava um período que prometeu reinventar o rock´n´roll (e conseguiram, afinal das contas não?)

Em resposta aos desafios lançados a sua nova situação (de futura, quem sabe, banda mainstream), temas como Dirty BootsMote ou Kool Thing (com a participação de Chuck D do Public Enemy), desfizeram qualquer dúvida quanto à capacidade da banda se reinventar sem que com isso tivesse de alterar os ingredientes da sua sonoridade, bem como destruíram qualquer possibilidade de existir comparação possível com o passado criativo (diga-se Sister, Evol e Daydream Nation). Cada canção vale por si mesma, um vulcão individual que manteve os fieis e cativou novos crentes, mantendo paralelamente afastados os espectros de uma demanda demasiada pop. São sem dúvida a coisa mais pop lançada pelos autores de Teen Age Riot, mas de uma coloração que não se desfaz e muito menos se torna enjoativa. Pelo contrário, se tornaram expoentes da arte de fazer canções mais sintéticas e acessíveis com a dose exata do seu cinismo punk  inimitável.

Ainda que Goo fosse o primeiro álbum do grupo para um grande selo, não foi um sucesso de vendas. Com backing vocals de J. Mascis, líder do Dinosaur Jr., e uma fusão à frente de seu tempo, Goo era acessível em termos de músicas e estrutura ainda que se mantivesse experimental em termos de tom e textura. As letras sobre a morte de Karen Carpenter por anorexia (“Tunic (Song For Karen)”) e doideiras de um minuto (“Scooter And Jinx”) mostravam a continuidade do controle criativo, enquanto a capa do artista ultracool Raymond Pettibon, um quadrinho nihilista estilizado, manifestava as expectativas de uma época.

Mesmo Goo não sendo o melhor álbum do SY (porque logo mais viria um dos seus maiores clássicos da década, o monstruoso e inabalável Dirty) ele continua a frente do seu tempo (ainda fico boquiaberta em ouvir Cinderella’s big score mesmo sabendo que é um canção composta a mais de 20 anos), incontornável e de certa forma ditou os rumos da banda e de uma década. Da banda porque os trabalhos seguintes seguiriam a mesma fórmula, distanciando a banda cada vez mais do puro experimentalismo e distorção (mesmo que a cada álbum os primórdios seriam revisitados por uma ou duas canções), e de uma década, afinal, a banda que abriria os shows da turnê de Goo e seria indicada (com fervor) pela banda à gravadora Geffen era nada mais, nada menos do que o Nirvana.

4/5

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Ficha Técnica:

Goo (1990) Sonic Youth – EUA- Geffen. Integrantes: Thurston Moore (vocais e guitarras), Lee Ranaldo (vocais e guitarras), Kim Gordon (baixo e vocais), Steve Shelley (bateria), J Mascis (backing vocal nas faixas 2, 5 e 6) e Chuck D (participação em Kool Thing)

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Tracklist:

  1.  Dirty Boots
  2.  Tunic (Song For Karen)
  3. Mary-Christ
  4. Kool Thing
  5.  Mote
  6.  My Friend Goo
  7. Disappearer
  8.  Mildred Pierce
  9.  Cinderella’s Big Score
  10.  Scooter And Jinx
  11.  Titanium Exposé

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1 Comentário so far
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Adoro o disco, mesmo entendendo que ele se afasta bastante dos discos anteriores.

Comentário por Allan Kardec Pereira




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