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Sea Change (Beck, 2002) by Allan Kardec Pereira
dezembro 10, 2011, 2:10 pm
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Allan Kardec Pereira

De uma família composta por artistas, Beck veio estourar com o lançamento de Mellow Gold  e o hino slacker Loser (Soy un perdedor I’m a loser baby, so why don’t you kill me?). Um jovem loiro, rico, cool que fazia uma música inventiva, camaleônica, com trechos em espanhol. Acima de tudo, um cara que entendia muito de música e que, desde seus primeiros álbuns, parece ver esse conhecimento, essa junção de boas influências em sua sonoridade como algo positivo. A essência do trabalho de Beck?

 Em 1996, lança aquele que seria um dos melhores discos da ótima década de 90, o Odelay. Recheado de breakbeat,rock, country, folk,misturando músicas eruditas com letras irônicas, o disco ganha dois Grammy’s e futuramente iria compor a seleta lista dos “200 álbuns definitivos no Rock Roll Hall of Fame”. Em 1998, Beck trabalha com o produtor Nigel Godrich, que havia produzido a apenas o imortal Ok Computer do Radiohead no ano anterior. O resultado foi Mutations, um disco mais centrado na influência folk do Beck com os toques de sintetizadores característicos de Godrich curiosamente, seu nome fazia referência aos Mutantes, com inclusive uma faixa “Tropicália”, um engraçado samba desafinado de gringo. Foi um trabalho que Beck considerou como “à parte”, não uma sequência de Odelay Seqüência que viria com Midnite Vultures, e toda aquela pegada soul,bem pra cima.

Mas aí chega o Sea Change, tido por muitos como “álbum que o Beck fez depois de acabar um longo relacionamento”. As comparações, evidentemente, o ligaram ao soberbo Blood on the Tracks, do Dylan. Embora como se trata de Beck, é de se supor que outras influências visíveis fossem utilizadas. Uma delas, é Nick Drake e muito de Van Morrison, ou, diria até, Tim Buckley.

E o disco se lança nessa jornada introspectiva, nesse clima denso, se afastando bastante dos discos anteriores. Como faixa de abertura não temos mais uma enérgica “Devils Haircut”, mas sim, dando adeus a qualquer tentativa das recorrentes ironias e joguetes linguísticos de Beck, a melancólica “Golden Age” abre o disco de forma simples e pessimista, apontando que These days I barely get by I don’t even try”.

“Paper Tiger” é puro  Serge Gainsbourg, com aquele jogo entre guitarra, violinos e piano. Beck direciona ainda mais seu pessimismo, abre as chagas de sua dor e parece não encontrar alento: “There’s one road to the morning/There’s one road to the truth/There’s one road back to civilization/But there’s no road back to you…”.

De “It’s only lies that I’m living/It’s only tears that I’m crying/It’s only you that I’m losing/Guess I’m doing fine”, em “Guess I’m Doing”,Beck rasga seus lamentos, assim como em “Lonesome Tears”, que como o título já diz, mais uma música a falar da solidão, da falta de perspectiva e da necessidade de encontrar um caminho que o cantor evocava.

“Lost Cause” talvez seja a mais linda de todo o disco. Basicamente em voz e violão, Beck desaba de vez: “I’m tired of fighting, I’m tired of fighting/Fighting for a lost cause”. O clima se mantém taciturno, mas, sem dúvida, um dos grandes destaques fica por conta de “Round The Bend”, que parece ser uma faixa tirada do Five Leaves Las”t, de Nick Drake. O clima fica sombrio de vez. Especialmente na radioheadiana (Kid A) “Ship In A Bottle”.

Certa vez, Dylan questionada o porquê de um disco tão triste como o Blood on the Tracks, tão sincero, que mostrava apenas a tristeza de um artista atormentado seria interessante para as pessoas. Talvez ele tivesse querendo esquivar do fato de que discos como o seu, como esse Sea Change de Beck falam de uma situação perfeitamente natural, de desengano frente a perda daquela pessoa que seria a sua base de sustentação na época. É uma linguagem atemporal. Nesse sentido, Sea Change não é apenas um desvio de tonalidade na música de Beck – até porque, nos discos seguintes o cantor iria voltar de alguma forma as influências dos tempos de Odelay -, mas sim, o fruto consciente de um artista em plena maturidade em suas composições.

4,5/5

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Tracklist:

  1. The Golden Age
  2. Paper Tiger
  3. Guess I’m Doing Fine
  4. Lonesome Tears
  5. Lost Cause
  6. End of the Day
  7. It’s All in Your Mind
  8. Round the Bend
  9. Already Dead
  10. Sunday Sun
  11. Little One
  12. Side of the Road
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Ficha Técnica:
Sea Change (2002) – Beck – EUA. Integrantes: Beck Hansen (voz e outros), Smokey Hormel (guitarra e outros), James Gandson (bateria), Nigel Godrich (sintetizadores e outros), etc.
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1 Comentário so far
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muito bom o texto.Isso ai,um lamento vivo no meio de uma carreira com discos animados (e certos albuns animados ate de mais).

Sea Change esta entre meus preferidos, junto com o Modern Guilty (talvez o melhor) e o Guero. A primeira vez que ouvi Lost Cause, desabei, e eu era apenas um muleque que nem sequer entendia inglês. A universalidade da tristeza empregada nesse álbum é de assustar, convence até mesmo o mais feliz dos forrozeiroz.

É uma obra prima da musica, com faixas perfeitas, sem erros de ritmo ou exageros, é tudo aquilo que se propõe e por isso se eleva ao máximo nisso.

Comentário por igorfrederico




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