Tequila Radio


Spiral (Hiromi Uehara, 2006) by Vanessa A.
setembro 2, 2011, 7:33 pm
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–   Por Katrina

Como definir um álbum como clássico atualmente dentro do jazz, um gênero musical que cada vez mais ganha novos subgêneros? Como definir como um álbum clássico (me refiro ao mais tradicional jazz) algo que vai do jazz fusion, com um rock estilizado numa postura e uma base de música clássica? Sim, é demasiadamente complexo definir um álbum como clássico nesse caleidoscópio musical em que o jazz se tornou, fazendo que muitos álbuns passem despercebidos ou apenas silenciosamente aplaudidos por uma pequena legião de apreciadores mudos. Mas isso não se aplica a jovem pianista Hiromi.

Hiromi é uma pianista japonesa de 32 anos, sendo 20 anos dedicados ao piano. De formação clássica, vem arrancando elogios dos críticos e dos entusiastas de jazz (sem falar de nomes consagrados, como Chick Corea, Stanley Clarke e Herbie Hancock, este último afirmou que ela é a maior pianista dentre todos os pianistas do jazz, que ele ouviu em vida. Além de ser a pianista favorita de Ahmad Jamal, o pianista favorito de Miles Davis. Sentiram a moral da moça?

O motivo para tanta euforia no mundo do jazz? Primeiro: Hiromi é um prodígio. Para se ter idéia, aos 15 anos ela já tocava com a filarmônica da República Tcheca como principal solista. Aos 18 anos já tinha assinado um contrato com uma gravadora antes mesmo de ser formada na escola de música clássica de Boston. Segundo: se até agora você leu tudo isso e bocejou, pensando: “ela deve ser um pé no saco, aposto. Uma pianista fria e calculista que não erra nunca, e por isso, deve ser um tédio”, eu tenho uma coisa a lhe dizer, você não faz idéia do que ela essa pequena faz com um piano na sua frente.

Ela é insana. Soca o piano, toca em pé, cria danças em pleno solo e muitas vezes, temos a impressão de que ela vai quebrar o dedo com tamanha violência que impregna nas teclas. Com um sorriso inocente no rosto, cria uma sequência de notas tão rápidas que não sabemos como é que fomos engolidos por toda aquela eletricidade. Ela vai do jazz ao fusion, com uma técnica impecável e com uma improvisação que beira ao surrealismo. Resumindo, Hiromi é única e um monstro do jazz que jamais terá um sucessor.

Depois dessa introdução (de uma fã confessa, que é apaixonada por essa japonesinha linda), vamos ao que interessa aqui no Tequila.

Como dito anteriormente, definir algo como clássico, no jazz, é uma tarefa demasiadamente complexa. Spiral, o quarto álbum solo de Hiromi, é um clássico instantâneo em qualquer gênero em qual for enquadrado. Explico: Não há uma classificação para Hiromi, ela brinca (sim, eu realmente quero dizer BRINCA) com o jazz fusion, o rock e a música clássica, impossibilitando assim qualquer definição clara do seu trabalho. É uma tempestade perfeita de talento técnico e criatividade musical, misturando elementos díspares da música clássica, bebop, jazz, fusion e rock.

Em Spiral, vemos o seu auge como compositora e pianista, quebrando todas as fronteiras que existem entre o jazz e a música clássica, com fusion e rock progressivo (sim, você leu isso. Ouça Return of Kung Fu Champion para sacar a pegada do Yes nos dedos delicados de Hiromi), tornando sua música algo único e homogêneo, um verdadeiro soco no estômago (exagero? Acreditem, vocês nunca ouviram nada parecido). O álbum é carregado do mais verdadeiro e contagiante swing, não devendo nada a Thelonious Monk e Oscar Peterson, mas sem cair no pastiche retrô, um erro muito comum no jazz tradicional atual. Seu swing é a la NewOrleans, moderno, sacana e provocante.

Spiral  não é óbvio, começa recatado como um bom álbum de jazz, se torna violento e insano ali na metade (quando você já está convencido que Hiromi quer te enlouquecer com tamanha variedade e velociodade), muda drasticamente quase no final (em Return of Kung Fu Champion, com um piano elétrico ES-PA-CI-AL. Lembram que eu falei que ali tinha uma pegada do grupo Yes? Pois bem, é pura viagem lisérgica) e termina da mesma forma em que começou: recatado, clássico e doce, como um carinho após o sexo selvagem onde os dois corpos ainda vibram após os orgasmos & ainda se desejam.

Um conselho? Procurem Hiromi e digam aos seus filhos e aos seus netos que vocês um dia, puderam acompanhar o trabalho desse monstro, que sem dúvida, marcou toda uma era contemporânea no jazz.

5/5

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Ficha Técnica

Spiral (Hiromi Uehara), 2006. Hiromi Uehara (piano), Tony Grey (contra-baixo) e Martin Valihora (bateria)

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Tracklist

  1. Spiral
  2. Open Door – Tuning – Prologue
  3. Deja Vu
  4. Reverse
  5. Edge
  6. Old Castle, By the River, In the Middle of the Forest
  7. Love and Laughter
  8. Return of the Kung-Fu World Champion
  9. Big Chill

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2 Comentários so far
Deixe um comentário

interessante. Eu sempre vi um jazz com um lado agressivo. Ela me passa leveza, interessante ter conhecido. Parabéns pelo texto.

Comentário por Allan Kardec Pereira

Mas ela é violenta quando toca, vai por mim. Tem um vídeo em que ela, além de socar o piano, fica soltando uns gritos. Parece bizarro assim falando, mas ao ver, você se pergunta de onde surgiu aquela mulher.

Comentário por Katrina V.




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