Tequila Radio


Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (Emicida, 2009) by Michael Barbosa

– por Mike Dias

Emicida é a síntese do rap, na música e na figura. Leandro Roque de Oliveira surgiu nas “rinhas de mcs”, aquelas batalhas de rima – as mesmas de onde emergiu Eminem – onde dois rappers trocam ofensas rimando. Lá veio o apelido, junção óbvia de “mc” com “homicida”. Após alguns anos ganhando campeonatos pelas ruas de São Paulo e até alguns em outros cantos, Emicida decidiu que era a hora de pegar as letras que vinha escrevendo nos últimos anos e lançar, tentar ser músico, dar o mesmo passo adiante dado por Eminem e tantos outros que foram das batalhas para as paradas.

O resultado dessa empreitada é uma mix tape totalmente caseira – com direito a capinhas feitas na mão uma a uma pelo próprio Emicida e seus amigos – de nome Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, que acabou tendo no seu principal hit, Triunfo, um clipe de 1513802 visualizações no Youtube e levou o rapper a participações na grande mídia e shows lotados. Em pouquíssimo tempo Emicida tinha traçado o caminho que para muitos leva anos entre o lançamento do primeiro trabalho e o sucesso. O garoto das ofensas rimadas se tornara uma espécie de coqueluche da música da periferia, com críticas positivas nas mais variadas esferas da crítica (de blogs indies a setores mais ortodoxos), num fenômeno digno de lembrar (com as devidas proporções) o estouro dos Racionais MC’s em idos de 1997 com Sobrevivendo no Inferno.

O nome do álbum é sobre o dia em que tomado pelo desespero um ainda jovem Leandro “atacou” o próprio cachorro quando esse abocanhou o seu único pedaço de pão de uma tarde. Mas diferente do que se poderia pensar Pra Quem Já Mordeu… é bem mais do que aquele rap imbuído de rancor e crítica social. Tematicamente é livre, ele não se policia nas letras e se permite também escrever sobre política e sociedade, mas não apenas sobre esses lugares tão castos ao rap. Emicida não respeita o clichê, escreve primeiramente livre de moralismos ou obrigações sociais. É egocentrismo, baladas, uma rajada alucinante de referências históricas e culturais, versos odiosos e alegres alternando ao longo de 25 canções extremamente únicas.

“Jesus perdoou demais, morreu
Lampião confiou demais, morreu
Sou tipo um general que lidera uma tropa vinda do breu
E eu não confio, nem perdoo, por isso mandaram eu! “

O álbum é aberto por Intro (É Necessário Voltar ao Começo), um cartão de visitas honesto sobre o lado mais crítico do álbum.  É um rapaz de vinte e poucos anos lavando a alma antes de começar a rimar, sem meias palavras assumindo uma postura autoconfiante apesar de tudo. É difícil achar algo de dispensável. Em seguida vem E.M.I.C.I.D.A., com jeitão de hit, é fortemente influenciada por Run D.M.C do rap de rima ágil e dançante. Sozim apresenta um Emicida instrospectivo e niilista naquela que é possivelmente a canção mais sincera da mixtape e confirma uma tendência que foge ao comum no rap brasileiro: Emicida prefere as músicas curtas, mesmo que num instrumental mais lento o ritmo é acelerado, de certa forma parece que há uma ânsia de muito para contar, não mais aquelas longas histórias dos Racionais, mas sim canções mais centradas e temáticas, nessa o que temos é a solidão: “Desde pivete eu tenho amigos mais me sinto sozinho/Pra quem quer viver cem anos eu já to bem triste com vinte”.

O que sucede são canções mais singelas sobre o dia-a-dia, Rotina e Pra Mim… falam sobre os pequenos prazeres que ainda fazem a coisa toda valer a pena apesar de tudo. Ainda Ontem é dos pontos altos com um belo arranjo de samba de raiz e participação dos amigos Rashid, Projota e Fióti e acaba, nesse clima de amizade, sendo a canção mais otimista (“Com pensamento de que hoje é dia de fazer o melhor rap que eu já fiz”). A batucada do samba se mistura com um vocal que mista rap com jeitão de partido alto.

Pretos amontoados por um racismo brutal
Não tem justiça, quero vingança, foda-se, agora é pessoal !”

Essa é Pra Não Ter Tempo Ruim, as vezes é quase bipolar, celebrações de pequenos prazeres são sucedidas por gritos de ódio. A sensação é que Emicida quer ser positivo, mas é desacreditado a cada vez que olha ao redor e obrigado a soltar um ou outro berro. Só Isso tem sua bela dose de saudosismo, sons e lembranças felizes, um “ao mestre com carinho” que entrega parte de onde Emicida traz inspiração: Paulinho da Viola, Cartola, Candeia, Jackson do Pandeiro, Zé Keti.

Ela Diz, Sei Lá e Preciso mostram uma das facetas mais convincentes de Emcida, o tal sujeito sem medo de escrever sobre o que bem entende e perfeitamente apto a escrever singelas baladas românticas, pequenas declarações de amor à amada (em duas delas a mulher, na outra a filha) e nessa última sobre as responsabilidades do rito de passagem que é a paternidade.

Mas o rap tem sua força revitalizadora mesmo é no discurso violento, naquela revolta que parece que desde Public Enemy é cativa ao gênero. Cidadão apesar de ser uma das menos lembradas é dos melhores momentos, num groove forte é capaz de ser uma canção urbana de uma politização incrivelmente madura nos seus míseros 1:25. É forte: “É embaçado, eu vou levar como carma/Meus vizinhos saber menos nome de livro que de arma “.

Influenciado pela filosofia de Sun Tzu, Emicida chega a reclamar não da morte ,mas da falta de algo pelo qual morrer em Soldado Sem Bandeira, essa que acaba soando mais ou menos igual Ideologia do Cazuza, no fim das contas o anseio do playboy carioca e do jovem da periferia paulistana é mais próximo do que poderia se imaginar, ter algo pelo qual viver.

Os samples, infelizmente, têm uma gama de variação não tão grande assim nesse primeiro trabalho, a produção é barata e a edição é abrupta, mas ainda assim é interessante sim a mudança da sonoridade entre as músicas, principalmente no que cabe à variação entre músicas com a estrutura clássica do rap (samples e vocal) e números de hip-hop moderno com instrumentação mais elaborada, e faixas sobrepostas, mas o amadurecimento real ainda estava por vir.

“Aí, todo maloqueiro tem em si
Motivação pra ser Adolf Hitler ou Gandhi!
E se a maioria de nóis partisse pro arrebento?
A porra do congresso tava em chama faz tempo!”

Já próximo do fim ouvimos Triunfo, maior sucesso do álbum se tratando de rádios e youtube, onde Emicida assume de peito cheio uma postura de líder e se auto-intitula “embaixador da rua”. Essa autoconfiança impressiona, ainda que o tal do egocentrismo seja peculiar a boa parte dos raps, aqui e nos Stades, no caso do Emicida vai um pouco além até do que isso, é uma confiança genuína, e caramba, no seu debut! E é aqui também onde o seu lema “a rua é nóiz” (sic) é proclamado com mais veemência.

O grand finale fica por conta de Ooorra, uma daquelas canções praticamente autobiográficas, com um tom de documental e a narrativa intimista, Ooorra se coloca para Emicida tal qual Marshall Mathers para Eminem ou 1967 para o Marcelo D2, é, afinal, uma viagem de encontro com os próprios fantasmas, quase como se Emicida jogasse merda num ventilador apontado para si mesmo; a ausência do pai (“Não sei se dá tristeza ou ódio/Não conseguir lembrar de você sóbrio”), as dificuldades de se crescer na periferia da periferia (Maderite furado, cigarro, cheiro de pinga/Olha onde eu cresci, onde nem erva-daninha vinga”), a fome, o flerte inevitável com o crime, o rap, pois. Mas o melhor mesmo é ver a autoconfiança de um vencedor, somos obrigados a voltar a isso, um rapper confiante de si, como tem que ser, uma dessas metralhadoras que vale conferir.

Emicida é um fenômeno, existe algo de muito especial aqui; é a cultura e o vocabular acima da média, a capacidade de se comunicar, o idealismo pulsante, a completa ausência de qualquer tipo de coitadismo, o pensamento moderno. Emicida não tem medo do mainstream, não foge da televisão nem das grandes rádios ou das multidões, pelo contrário, vai de encontro e bate de frente com essa grande mídia tão renegada por Mano Brown e tantos outros e que por outras vezes renegou o rap. Um grande letrista, um músico diferenciado dentro do seu meio, um rapper capaz de produzir igual efeito nas favelas do Capão Redondo e nos condomínios fechados dos Jardins.

4,5/5

Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (Emicida) – 2009.

Tracklist:

  1. Intro (É Necessário Voltar ao Começo)
  2. E.M.I.C.I.D.A (Adoooro)
  3. Sozim
  4. Rotina
  5. Pra Mim… (Isso é Viver)
  6. Ainda Ontem
  7. Pra Não Ter Tempo Ruim
  8. Só Isso
  9. Vô Busca Minha Fulô
  10. Ela Diz
  11. Por Deus Por Favor
  12. Preciso (Melô do Mundiko)
  13. A Cada Vento
  14. Sei Lá…
  15. Cidadão
  16. Soldado Sem Bandeira
  17. Vai Ser Rimando
  18. Um, Dois, Três, Quatro
  19. Fica Mais Um Pouco Amor
  20. Outras Palavras
  21. Hey Rap!
  22. Essa é Pra Vc Primo…
  23. Triunfo
  24. Eu Tô Bem
  25. Ooorra…(A Que Deu Nome a Mix Tape)

_

Faixa Recomendada:

Anúncios

12 Comentários so far
Deixe um comentário

só conhecia de ouvir falar. ouvi a faixa indicada e, puta merda, que foda! procurar o cd todo pra baixar!

Comentário por Luiz Carlos

puta critica…vou baixar o primeiro disco aqui,depois

Comentário por igorfrederico

Eu amo os 2 cds ou como ele mesmo diz os dois projetos dele. Escuto com meu namorado direto. Ele fala de tanta coisa, pq estamos na era de comunicação em exagero, portanto ele é um rapper que consegue representar a nossa geração de uma maneira magistral, atingindo todas as classes, não se limitando a violência.É a nova era do rap.
Quando agente fica escutando no carro, o papo termina, ficamos ouvindo tudo que Emicida tem a dizer, pq realmente vale a pena. Fora as letras de amor, que são tão legais, sem romantismo em excesso, sem melodrama barato.
Mas acho que os arranjos ainda são pobres, e o estilo dele se confunde muito com o de Kamau.

Comentário por Taty

Ahan, esse meio ponto que eu tiro ali na nota é porque eu acho que falta variar mais mesmo, tanto que parece que os arranjos seguem uma linha e o que foge são lampejos (o disco de E.M.I.C.I.D.A ou o samba de Só Isso).

Mas isso já deu uma melhorada no Emicídio, Eu Gosto Dela tem um puta arranjo e algumas outras.

Comentário por Mike Dias

A minha preferida é Não vejo a hora. Acho foda a letra.

“Eu quero que teu onibus demore, enquanto ele vem meus olhos ficam como os do Wall-E!” rs..

Quando os pagode mais meloso faz sentido
Ta ligada? -Apaixonou, tá perdido!
Lembrou Celly Campelo, estúpido cupido
Cantou o caminho inteiro e nem tinha percebido…

Comentário por Taty

Ótimo texto, mas rap nacional não me desce de jeito nenhum, não adianta.

Comentário por brunomarise

então, achei a faixa indicada – “Ooorra!” – fodona e baixei o álbum todo. e tipo, até curti algumas avulsas – “Cidadão”, “Triunfo” – mas o conjunto não me agradou.

:/

Comentário por Luiz Carlos

Pra quem curte My Chemical Romance… até é plausível! hahahahaha…

Comentário por Taty

CARALHO

eu coloquei pra colocar EXATAMENTE agora. entro aqui e vejo isso!

Comentário por Luiz Carlos

mas enfim, teus comentários nem me afetam mais. tu fala de mim, mas é preconceituosa e fechada pra caralho a um monte de coisas, hahahaha

Comentário por Luiz Carlos

Nossaaaaa, ficou bravinho!!! Depois sou eu que levo as coisas a sério e generalizo….

Estava brincando, mas já que vc tocou neste assunto, eu nunca paguei de moderninha e aberta pra ninguém.
E olha só quem fala sobre preconceito e fechada…hahahah…faz me rir!

Comentário por Taty

eu tava brincando, porra! ou vai dizer que não me conhece o suficiente pra levar um comentário desses na ofensiva?

Comentário por Luiz Carlos




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: