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A Love Supreme (John Coltrane, 1965) by Vanessa A.
julho 15, 2011, 1:28 am
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– Por Katrina

Camões já entoava em seus sonetos que o amor é um ideal superior, único e perfeito, o bem supremo pelo qual ansiamos. Mas nós, como seres imperfeitos somos incapazes de atingir esse ideal. Resta nos a contigência do amor físico, simples imitação do amor ideal, que gera uma constante angustia e inquietação da alma humana. Mas em 1965, um ser humano conseguiu alcançar esta perfeição munido de um sax, uma banda e uma fé em algo maior que nós, que Deus, que o universo e suas explicações tão racionais que beiram constantemente a irracionalidade: a fé no amor.

John Coltrane entraria definitivamente para a história da música apenas por ter sido um dos compositores e músicos do magistral (e acima de qualquer descrição) A Kind of Blue (ou resumindo, um encontro de Miles, Coltrane, Evans & Adderley, os maiores nomes do jazz da época e de todos os tempos. Preciso mesmo falar mais alguma coisa sobre?). Junto com Miles Davis (outro monstro), faria uma dupla fantástica, beirando a completa genialidade (pode-se dizer que Miles & Coltrane eram para o jazz o que Paul McCartney e John Lennon eram para o rock). E foi a partir de A Kind of Blue que Coltrane estabeleceria um novo conceito do uso harmônico das notas que marcariam sua obra como inovadora e influenciaria desde o jazz ao rock, atualmente conhecido como “Coltrane Changes”.

Mas antes de adentrar na áurea mística de A love supreme é preciso entender o que levou Coltrane a alcançar esse nível espiritual a qual ele tanto perseguiria (então se você não gosta de resenhas longas, caia fora daqui agora).

Ainda jovem, Coltrane era visto por muitos como a maior promessa do jazz. Charlie Parker (carinhosamente chamado de The Bird) o tornou seu pupilo, lhe ensinando o sax alto, que posteriormente, seria substituído pelo sax tenor que o consagraria (Coltrane abandonara o sax alto por acreditar que Parker já esgotara todas as possibilidades de criação com o instrumento). Elogiadíssimo por todos os músicos, ele ganharia um espaço na disputadíssima banda de acompanhamento de Dizzy Gillespie, que se encantara pela foma de aprendizado do jovem a sua frente. Coltrane era dedicado e disciplinado como poucos músicos foram até hoje, sempre buscando compreender a música como um todo, como algo que não fosse apenas uma forma de se expressar artisticamente, mas algo maior do apenas a arte em si. Aoseu ver, a música era a forma máxima de amar.

Não tardou para que outro grande gênio em ascenção prestasse atenção em Coltrane e o convidasse para sua banda. Miles Davis estava formando um quinteto e via em Coltrane uma boa opção (mesmo não sendo a sua favorita. Sonny Rollins era a primeira opção, mas foi descartado por já estar em outra grande banda). Coltrane até então, já era um grande músico mas pouco criativo, muito mais por insegurança do que por falta de talento para tal, mas foi ali, presenciando Miles Davis e suas improvisações memoráveis, que ele percebeu que poderia fazer o mesmo e que a música não poderia lhe impor barreiras, porque ela era seu único meio de total liberdade do inferno que era sua vida (jovem negro, viciado em heroína e álcool, com recente casamento já em crise). No Miles Davis Quintet ambos duelavam e cresciam monstruosamente juntos de forma igual, cada qual quebrando novos tabus dentro do jazz. E mesmo grandes amigos e parceiros, Miles Davis se viu obrigado a despedir Coltrane por seus excessos decorrentes do álcool e da heroína, que prejudicavam o desempenho do músico e do quinteto (formado por Miles, Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones).

Longe dos palcos, Coltrane lutava violentamente contra as drogas tendo ao seu lado sua mãe e sua esposa Naima (nome aliás, de uma das faixas do seu primeiro trabalho solo, o arrebatador “Giant Steps”), além de uma volta ás suas raízes e a sua religiosidade, Coltrane conseguiu deixar definitivamente as drogas e ver na música a sua redenção definitiva, enfim, sua liberdade.

Miles o contrataria novamente e juntos, ao lado de Cannonball Adderley, Bill Evans, Wynton Kelly e Paul Chambers, gravariam o lendário e indescritível A Kind of Blue (ou o maior álbum de jazz de todos os tempos, o que revolucionou o estilo de tal forma que qualquer volta ao tradicional bepop era impossível). Kind of a Blue deixou bem claro ao mundo que Coltrane & Miles vieram para destruir todas as impossibilidades musicais e que estavam muito a frente de seu tempo. Logo após o lançamento do álbum, cada um seguiria seu rumo em suas carreiras solos.

Ok. Agora vamos falar de A love supreme (claro que tudo que eu disse anteriormente é de extrema importância para que vocês possam entender a grandiosidade do álbum num contexto histórico. Sem Miles, Coltrane não teria desenvolvido o desejo de criação e provavelmente, não teria deixado as drogas e não teria assumido uma postura muito mais disciplinada a si e a sua música, uma das suas marcas registradas. Sem Coltrane, Miles não teria jamais superado a si mesmo, tentando a cada nova composição trazer a tona novas modalidades sonoras. Provavelmente A Kind of a Blue jamais teria a mesma força sem a competição de ambos e acima disso, da incontestável amizade e respeito que nutriam).

Coltrane, como dito anteriormente, era sedento por conhecimento. Estudava as religiões não por tentar se adaptar a alguma (até porque ele acreditava em Deus e era só a partir dele que nos guiaríamos), mas para absorver delas o seu impacto cultural, principalmente sobre a música. Pela perfeição musical, ele também estudava matemática e física (matemática porque queria entender a estrutura musical e as escalas  fazendo uso da teoria dos conjuntos e da afinação Pitagórica, e física por pura curiosidade e admiração por Albert Einstein). Também estudava as músicas regionais dos Estados Unidos e mundial, principalmente a Africana e a Indiana (era fã de Ravi Shankar, que posteriormente, se tornaria amigo). Era conhecido pelos músicos como um obsessivo, um cara que tentava a todos os custos alcançar a perfeição sonora e exigia o mesmo de seus músicos, com total disciplina e entrega (e mesmo com o perfil de um cara durão, era perseguido por legiões de músicos que sonhavam em tocar ao seu lado).

E foi assim, na busca pela perfeição exaustiva e com uma visão ampla a respeito da música da qual nenhum outro músico jamais teve (e sinceramente, jamais terá), que em fevereiro de 1965 ao lado de McCoy Tyner nos pianos, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo que nasceu A Love Supreme, considerado por muitos após A kind of a blue como o maior álbum de jazz de todos os tempos.

Coltrane era obsessivo e queria ter ao seu lado os melhores músicos da sua geração, em especial, o baterista Elvin Jones, que além de um grande amigo era o único músico que conseguia acompanhar as explosões do sax tenor de Coltrane com sua bateria. O desejo de tê-lo em sua banda era tamanho que Coltrane esperou que Elvin saísse da cadeia (ele fora preso por porte de narcóticos. Dizem que Coltrane chegou a financiar a defesa do amigo, em troca da sua participação na banda).  Uma das histórias envolvendo os dois, durante o processo de composição de A love supreme, foi de que Elvin pegara emprestado o carro de Coltrane as escondidas e acabara se envolvendo num acidente, resultado na perda total do carro. Com medo de represálias do músico, começou a evitar a comparecer nas gravações. Foi então que Coltrane disse ao amigo a célebre frase “Eu posso encontrar um novo carro, mas não um outro Elvin”.

Durante as gravações, Coltrane deixara bem clara sua emoção ao explicar que era a primeira vez que tinha dentro de si toda a música que gostaria de tocar & que ela se tornara uma extensão de sua alma. No encarte do álbum, Coltrane o ofereceria a Deus, porque este, lhe oferecera o Dom.

A love supreme trata-se de um ode à fé, ao amor e a Deus [não o Deus cristão, coisa que torna-se óbvia ao ler na capa do disco Meditations onde está escrito “Eu acredito em todas as religiões”]. O álbum exalta um “poder espiritual maior” onde o poder de Deus pode também ser ouvido como uma afirmação do poder criativo dos homens, e na primeira faixa torna-se claro o caráter transcendental da obra, quando após variações modais sobre o mesmo tema [as quatro notas do acompanhamento de Garrison no baixo], Coltrane inicia o mantra que rege o disco e dá nome a ele, A Love Supreme, cantada por ele próprio.

Com seus 32 minutos, A love supreme expandiu um universo onde Coltrane seria arremessado e de lá nunca mais saíria. Com suas 4 faixas: Aknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm, o album seria uma execução sagrada e secular, algo como uma Missa Solemnis, segundo Coltrane, que se tornou mais que um jazzista, mas um pregador sem palavras.

Cada pessoa torna a experiência de ouvi-lo como algo único & muitas vezes um marco em suas vidas. Não é exagero dizer que ninguém se esquece de como se sentiu na primeira audição. E pensando dessa maneira, era esta a intenção de Coltrane no final das contas. Não era seu Sax que ele toca no álbum, mas é nossa alma. É com ela, e somente ela, que todas as músicas são possíveis. E onde o amor permanecerá supremo.

OBS: A música Psalm foi composta para um poema que Coltrane escreveu para Deus (e está na contracapa do álbum). Cada nota corresponde a uma sílaba. 

[5/5]

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A Love Supreme (John Coltrane) – 1965 – Integrantes: John Coltrane (Sax tenor), Jimmy Garrison (baixo), Elvin Jones (bateria) & McCoy Tyner (piano)

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Tracklist

  1. Acknowledgement
  2. Resolution
  3. Pursuance
  4. Psalm

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2 Comentários so far
Deixe um comentário

o disco que é um mito. bela resenha, conseguiu captar bem o processo de produção do mesmo.

Comentário por Allan Kardec Pereira

Sensacional, Psalm é uma das coisas, no geral, mais fodas que a humanidade já fez.

Comentário por Pedro




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