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Country Life (Roxy Music, 1974) by Bernardo Brum
junho 25, 2011, 3:14 pm
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por Bernardo Brum

Do levante glam dos anos 70, os britânicos Roxy Music sempre estiveram entre os menos lembrados, sem jamais igualar, por exemplo, David Bowie ou T. Rex. Mas isso não impediu de transformar o grupo em uma banda cult, principalmente devido a seus dois líderes, Bryan Ferry e Brian Eno. A parceria entre os dois só durou os dois primeiros álbuns da banda, Roxy Music e For Your Pleasure, mas provou ser fundamental na construção da estética conceitual cruzando estética vintage e futurismo, sofisticação e sensualidade, clacissismo e vanguarda. Sua concepção artística foi fundamental, por exemplo, para a fundação da new wave.

Mas Ferry, com sua personalidade um tanto dominante, que acabou por ser o norte da banda. Mesmo com a experimentação visionária de Eno, da paixão  do saxofonista Andy MacKay por música erudita e da formação progressiva do guitarrista Phil Manzanera, Bryan impôs o que seria o Roxy Music. Eno foi um dos primeiros a abandonar o barco.

Sem um dos lados da balança criativa para “faiscar”, o Roxy Music virou o “darling” do galanteador e extravagante Ferry. Não que isso tenha sido de todo ruim (afinal, o maior sucesso mercadológico da banda, More Than  This, é de 1982), mas certamente, sem alguns toques geniais de Eno, algo iria se perder. Ferry, tendo consciência disso, chamou o tecladista e violinista Eddie Jobson. Dos três discos que ele gravou entre 73 e 76 (ano do primeiro término da banda), Country Life talvez seja o mais maduro e bem acabado, figurando como um dos melhores discos da banda.

A nova adição mostrou-se acertada; se saíam a experimentação dos sintetizadores de Eno, a beleza que Jobson adiciona em faixas como a melancólica Out of The Blue comprova que estamos ouvindo um disco de alto nível ou a pulsante abertura The Thrill of It All e absurdamente dançante All I Want Is You. O álbum tem um tom nitidamente mais simples se comparado com o que era feito anteriormente – a doçura e acessibilidade pop de músicas como Three and Nine e Prairie Rose não deixam mentir, apesar de momentos mais elaborados na segunda metade, com Tryptich e seus coros.

As letras fazem jus a capa: apesar de ainda “maquiados” com figurinos extravagantes e referências complexas, Country Life também é despido e transparente. Muitas vezes, as letras evocam a necessidade de uma espécie de exorcismo pessoal muitas vezes descrevendo relacionamentos tempestuosos e complicados  (“Se eu fosse você, /eu ficaria por algum tempo/Se você fosse eu,/Você sairia com estilo?” em Out of The Blue e “E agora, quando você se vira para sair/Você tenta forçar um sorriso/Como se fosse compensar/Então você quebra e chora” em Bittersweet). É um disco notoriamente mais pé no chão, mais anos setenta, do que a salada mezzo futurista/mezzo vintage praticada no início da banda.

Mas nem tudo são espinhos no disco; há também a sensualidade abusiva de If It Takes All Night, com seu delicioso baixo que cai como uma luva na concepção inicial de Ferry do Roxy Music – que compõe junto com All I Want Is You e The Thrill of It All o terço mais leve e dançante do disco. Como a banda que o concebeu, é um disco notoriamente de momentos, uns inspirados, outros nem tanto, uns vibrantes e quase alegres, outros explicitamente duros, como a gravidade cadenciada com a qual Bittersweet é regida (que chega a incluir versos em alemão).

Roxy Music não é, realmente, uma banda das mais fáceis. A atenção à virtuose instrumental, elaboradíssima, serve a um conceito não menos fácil, que pula dos anos trinta para a ficção científica com  a adição de um instrumento ou alguma referência nova nas roupas/capas/letras. Formado em escola de arte, Ferry tinha uma consciência, um propósito e um controle inigualável sobre a imagem que queria criar e difundir.

Country Life é outro exemplo dessa mente criativa um tanto singular que fundou uma carreira se não tão memorável quanto a de outros contemporâneos, com um legado e relevância musical muito importantes, ainda que não tão reconhecido. Duvido que metade da estética sonora do rock oitentista existisse não fosse por causa de Ferry, Eno e seus comparsas. Complexo, porém simples. Pop, mas não menos classudo. Andrógino e conservador. Os tipos de paradoxos que só eles saberiam explicar – e fazer boa música com isso.

3,5/5
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Country Life (Roxy Music) – 1974 – Integrantes: Bryan Ferry (vocais e teclados), John Gustafson (baixo), Eddie Jobson (violino, sintetizador, teclados), Andrew McKay (saxofone e oboé), Phil Manzanera (guitarra) e Paul Thompson (bateria).
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Lado A
  1. The Thrill of It All
  2. Three and Nine
  3. All I Want Is You
  4. Out of the Blue
  5. If It Takes All Night
Lado B
  1. Bitter-Sweet
  2. Triptych
  3. Casanova
  4. A Really Good Time
  5. Prairie Rose

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3 Comentários so far
Deixe um comentário

cara, nao conhecia esse projeto do eno. vou baixar

Comentário por Guilherme Bakunin

eu só acho que vc pegou pesado com a nota. vale ao menos um 4/5 (e eu recomendaria Prairie Rose – fodona).

fora isso, o texto tá foda!

Comentário por Luiz Carlos

eu não gosto taaanto do lado B (fora as que eu destaquei)

Comentário por Bernardo Brum




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