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Electric Mud (Muddy Waters, 1968) by Bernardo Brum
junho 21, 2011, 7:32 pm
Filed under: Comentários | Tags: , , , ,

por Bernardo Brum

De todos os grandes músicos que já verteram sua tristeza e seus anseios naquele estilo particular de música gerado com forte influência nos cânticos espirituais africanos, baseado numa idéia estilística de repetição de estrutura e esala menor das harmonias, o blues, Muddy Waters foi um dos seus deuses. Foi ele um dos principais responsáveis pelo nascimento do blues de chicago, que “eletrificou” o estilo voz e violão do Delta do Mississipi, acrescentando instrumentos que acrescentassem nova estrutura ao som – simbolizando, sonoramente, o êxodo rural que aconteceu nos EUA na metade do século vinte.

O próprio Muddy, nascido no Mississipi e criado em Louisiana e falecido em Illinois, tendo seu nome homenageado como vias públicas de sua capital Chicago e do subúrbio Westmont, era um exemplo disso. Assim que chegou na cidade grande, trocou o violão pela guitarra elétrica e, após alguns meses se apresentando com um violoncelista, acrescentou uma sessão rítmica e uma gaita, postulando assim a formação clássica de uma banda de blues.

Com bandas de apoio de dar inveja (acompanhado por gente como Willie Dixon e Buddy Guy), Muddy foi um dos grandes astros entre os negros americanos no século vinte, promovendo uma grande inovação estética ao trazer uma nova visão – elétrica e urbana – de um estilo nascido acústico e interiorano.

Por conseqüência, também inspirou grande parte do nascente rock and roll nos anos cinqüenta (Chuck Berry conseguiu seu primeiro contrato através de um “QI” do bluesman) e a Invasão Britânica dos anos sessenta, formada por jovens que foram fundo nas suas inspirações para música (The Animals, Pretty Things, The Kinks, Them, The Yardbirds, The Who, Rolling Stones – esses, inclusive, tem seu nome diretamente tirado de um verso de Waters na música Catfish Blues).

E, quem diria, no final dos anos sessenta, Waters inovaria novamente. Um choque para os puristas do blues, a inspiração de toda uma vida para gente como John Paul Jones (Led Zeppelin) e Chuck D (Public Enemy) – Electric Mud, o famoso (e controverso) “disco psicodélico” de Muddy Waters. Com larga utilização dos pedais wah-wah (amplificador de frequências) e fuzzbox (amplifcador de distorção), o novo disco de Muddy era a cara do que vinha sendo feito à époa por jovens inovadores (mas discípulos fanáticos do velho Mud) como Jimi Hendrix, Cream e Jeff Beck Group: amplificado, distorcido e barulhento.

Mesmo com as polêmicas envoltas – inclusive a de que o próprio Muddy detestava o som do disco, com declarações do próprio em algumas biografias dando conta que ele achava que nenhum desses pedais poderia ser tão expressivo quanto o puro som da guitarra – nada impediu que o disco vendesse feito água e provocasse um verdadeiro abalo sísmico nas estruturas. Eram a velha guarda e a vanguarda se encontrando em um disco conceitualmente inovador e desafiador, polêmico como tudo que foi influente.

Do som nebuloso e chapado baforado em seu antigos sucessos I Just Want to Make Love to You e (I’m Your) Hoochie Coochie Man (aumentando a lascívia dessas canções a níveis nunca antes imaginados quando gravados pela primeira vez), com riffs e solos “viajantes” e teclados lisérgicos fazendo contraposição à sessão rítmica  e harmônica típicas do blues – nasceu toda uma nova concepção sonora, que o mestre provava por a+b ser possível, como quando transforma Let’s Spend The Night Together, dos Stones, em um legítimo “soul psicodélico”, cadenciado e arrebatador – uma ousadia perfeita para se lançar sobre uma música já ousada em sua estrutura original (afinal, eram brancos ingleses no mainstream americano dos anos sessenta  convidando as garotas para dar umazinha…).

O quanto Muddy perdeu em expressividade, não dá para saber, mas é certo que a que restou no álbum já era mais que necessária para que um artista que sabia se renovar cada vez que uma canção pedia sem jamais sacrificar suas raízes, apenas colocando alguns ternos novos – nesse caso, acrescentando texturas sonoras pouco exploradas até então – é quase como um aval do mestre para com seus fiéis aprendizes.

Que o diga a orientação funky dada para Mannish Boy, ou a ousada versão de quase sete minutos para She’s Alright, talvez o ápice de tudo ambicionado por Marshall Chess, o grande idealizador do “blues psicodélico” gravado por Muddy Waters nesse álbum e por Howlin’ Wolf em seu The Howlin’ Wolf Album. Herbert Harper’s Free Press News era a inspiração pré-concertos de Jimi Hendrix – que anos mais tarde, seria de inspiração fundamental para os momentos mais hard-roqueiros do Led Zeppelin ou na construção do esqueleto dos riffs mastodônticos e sombrios de Tony Iommi no Black Sabbath. Ou mesmo anos mais tarde, no surgimento do funk setentista (com as aproximações psicodélicas e jazzísticas de gente como Sly and The Family Stone e Parliament/Funkadelic) e do hip-hop a partir dos anos oitenta (pergunte a qualquer um dos pioneiros de onde veio a inspiração para fazer esporro com qualidade para expressar seus problemas).

Talvez Electric Mud, afinal de contas, não seja o registro definitivo de Waters, mas é um dos seus mais emblemáticos e poderosos. Gerações inteiras foram buscar inspiração nesse blues alto e distorcido, que rugia com fúria as angústias típicas dos bluesmen. É nada menos que o trabalho de um gênio, um verdadeiro monolito de influência incalculável na música popular do século vinte, cujos resquícios de seu som certamente ainda serão ecoados por muitas décadas.

4,5/5

Electric Mud (Muddy Waters) – 1968 – Integrantes: Muddy Waters (vocais), Gene Barge (saxofone tenor), Phil Upchurch, Roland Faulkner e Pete Cosey (guitarras), Charles Stepney (orgão e arranjos), Louis Satterfield (baixo) e Morris Jennings (bateria).

Tracklist:

  1. I Just Want to Make Love to You
  2. (I’m Your) Hoochie Coochie Man
  3. Let’s Spend The Night Together
  4. She’s Alright
  5. Mannish Boy
  6. Herbert Harper’s Free Press News
  7. Tom Cat
  8. The Same Thing

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3 Comentários so far
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ainda não tinha ouvido esse álbum. vou baixar.

Comentário por Fábio Visnadi

realmente é um álbum polêmico. quando ouvi, saí pela internet procurando outras opiniões e quase todas adotavam um tom negativo, criticando justamente a fuga do blues mais tradicional. mas minha visão tá mais perto da do texto. ousado, influente. Muddy Waters é sensacional.

Comentário por Augusto C.

Ouvi uma faixa desse disco por acaso. Na hora achei que fosse alguma gravação do Hendrix que eu não conhecia…. Anos depois dou de cara com o disco inteiro! Tive que caçar a ficha técnica pra me certificar que o Hendrix não participou de nenhuma faixa. Impressionante!
Esse foi um disco pra gastar várias agulhas! Pra ouvir até furar!

Comentário por Leonardo Santos




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