Tequila Radio


Fresh Fruit For Rotting Vegetable (Dead Kennedys, 1980) by Luiz Carlos

.
– Luiz Carlos Freitas

Carter, Reagan, cacos de uma moral coletiva pós-Vietnã … 1980 e o mundo pegava fogo. O centro disso tudo, como sempre, a América. E acima destes, a cultura; abaixo, mas lutando aos gritos, a contracultura que, junto ao cinema, tinha na música uma das maiores armas das quais os não-bélicos dispunham, e dentre tantos estilos, o Punk ainda era a referência de contestação. Mas a urgência e a inquietação eram tamanhas que até mesmo os grandes contestadores começavam a ser  contestados, não por seu caráter, mas por uma certa falta de incisão sentida por quem queria bradar mais. Dessa [sobre]contestação é parido o Dead Kennedys e, com ele, o estilo conhecido como Hardcore.

Bandas como Ramones, The Clash e Sex Pistols carregavam nas críticas ainda uma certa inocência que – não desmerecendo seu legado e papel social – não eram mais suficientes a boa parte dessa geração que se via acuada e atacada por todos os braços do sistema. Assim, com a breve experimentação do The Germs (banda que lançou apenas um álbum, em 1979, e se desfez no ano seguinte, logo após o suicídio de seu vocalista, Derby Crash) e, enfim, o Dead Kennedys, entra o Hardcore como uma evolução natural desse estilo que era conhecido exatamente por sua inconformidade, tornando som e ideologia ainda mais rápidos, urgentes e verdadeiramente violentos e agressivos.

Capitaneados pelo psicótico vocalista Jello Biafra (pseudônimo de Eric Boucher), os guitarristas East Bay Ray e 6025 (um misterioso guitarra de apoio cuja identidade nunca foi revelada), o baixista Klaus Flouride e o batera Bruce Slesinger, já chegaram no cenário musical californiano literalmente como uma bomba. Seus primeiros singles, ‘Holiday in Cambodia’, ‘Kill the Poor’ e ‘California Über Alles’, causaram tanta agitação (para bem e mal, em igual proporção) que Biafra se arriscou a prefeito da cidade de San Francisco, obtendo uma impressionante quarta colocação entre os candidatos. Pode não parecer muito, mas para uma campanha de poucos recursos, foi o que encorajou Biafra a, num investimento arriscado, colocar todas as suas economias na fundação de uma gravadora independente e lançar o primeiro álbum da banda que (por razões óbvias) ninguém queria acolher, o Fresh Fruits For Rotting Vegetables.

A capa do álbum – a imagem de um carro em chamas – é a representação perfeita do perigoso coquetel molotov formado por suas catorze faixas. Abrindo com ‘Kill The Poor’, onde Biafra discursa em tom de “marchinha” sobre as vantagens de um possivel plano governamental para a erradicação da pobreza por meio do uso de bombas atômicas nas favelas (!!!) o que segue é um espetáculo de inconveniência e indiscrição de letras que marcam a grande característica do Dead Kennedys: o explícito.

A imagem  passada era deprimente e escancarada. A crítica genial de Biafra (compositor de quase todas as faixas), de George Orwell a Johnathan Swift, passeava livre e insanamente pelas mais variadas formas de linguagem, indo da incorporação de uma sórdida e exagerada primeira pessoa das perversões sociais, como o abuso infantil em ‘I Kill Children’ (“Eu mato crianças / Amo vê-las morrer / Mato crianças / E faço suas mães chorarem / As amasso embaixo do meu carro / Quero ouví-las gritar”) ou ‘California Übes Alles’, onde critica Jerry Brown, o governador da California à época, chamando-o diretamente de fascista (“Eu sou o governador Jerry Brown/ Minha aura sorri e nunca faz caretas / Logo eu serei presidente /O poder de Carter logo se acabará / Eu serei o comandante um dia /Irei comandar todos vocês”) até as arriscadas incitações à mudança que resultaram em ações judiciais contra Biafra, como em ‘Let’s Lynch The Landlord’ (“Mas a gente pode, você sabe que a gente pode / Vamos linchar os latifundiários, cara”).

O mais incrível é que ninguém saia intacto quando os Kennedys começavam a disparar. Eles não queriam fazer aliados, mas despertar a revolta, queimar o combustível para as mudanças que pregavam. Para tanto, não bastava atacar apenas pessoas, mas sim posturas e ideologias. Até mesmo os bem intencionados, se não fossem suficientemente fortes para serem vistos como agentes de mudança, sentiriam a porrada até “acordarem para algo útil”. Holiday in Cambodia é um tratado sobre isso, um chamado à verdadeira luta a quem acha que está fazendo algo (“Seu otário, você toca jazz no seu estéreo cinco estrelas / Para depois dizer que sabe como os negros sentem frio / E que a favela tem alma / É hora de provar aquilo que você mais teme / A Guarda Direitista não irá ajudá-lo aqui / Passe um feriado no Camboja”). Rola até um inusitado cover da icônica ‘Viva Las Vegas’, de Elvis Presley, fechando o álbum com uma debochada alegoria à sociedade conservadora e católica norte-americana que certamente se irritaria, mas tentaria ignorar a presença deles.

O Dead Kennedys lançou outros álbuns igualmente interessantes, como o Plastic Surgery Disasters e o Bedtime for Democracy, que renderam alguns processos e despertou a fúria dos seus críticos, mas nenhum com a repercussão (inimaginável à época) do Fresh Fruits For Rotting Vegetables, tanto política quanto social e, claro, musicalmente. Viraram do avesso o cenário artístico em que se inseriram, inauguraram um novo estilo e influenciaram uma geração inteira de bandas que vieram em seguida, além do papel de transformadores sociais, algo que não se pode mensurar ou definir com exatidão, mas que evidentemente se instaurou e rende frutos até hoje.

Podres, evidentemente.

5/5

_
Ficha Técnica:

Fresh Fruit For Rotting Vegetable (Dead Kennedys) – 1980 – Integrantes: Jello Biafra (vocais), East Bay Ray (guitarra), Klaus Flouride (baixo, back vocal) Ted (bateria) 6025 (guitarra), Paul Roessler (teclado)

_
Tracklist:

  1. Kill the Poor
  2. Forward to Death
  3. When Ya Get Drafted
  4. Let’s Lynch the Landlord
  5. Drug Me
  6. Your Emotions
  7. Chemical Warfare
  8. California Über Alles
  9. I Kill Children
  10. Stealing Peoples’ Mail
  11. Funland at the Beach
  12. Ill in the Head
  13. Holiday in Cambodia
  14. Viva Las Vegas

_
Faixa Recomendada:


6 Comentários so far
Deixe um comentário

ADENDO:

Tinha feito o texto inteiro essa semana e salvo no pc, num arquivo normal do Word, porque minha internet estava fora do ar na hora. Depois, quando procuro pra copiar e colar aqui, não acho o arquivo … De jeito nenhum!

Reescrevi a porra toda, mas deve ter faltado alguma coisa porque a raiva tava foda. Por isso, fiquem à vontade pra comentar e questionar pontos que julgarem importantes.

_
Só não aceito críticas ao trocadilho no fim do texto.

Comentário por Luiz Carlos

To baixando…
gostei bastante da faixa recomendada.

Comentário por Pedro

excelente texto, Luiz! tão bom que revela qualidades que, seguramente, a banda não tem ahaahahahahahahah

“Eu mato crianças / Amo vê-las morrer / Mato crianças / E faço suas mães chorarem / As amasso embaixo do meu carro / Quero ouví-las gritar”

TENHO SAÚDE PRA ISSO NÃO MINHA GENTE

Comentário por felipepnunes

nossa, resenha muito boa. define bem a importância do fresh fruit pra música. se pa é o melhor album punk.

Comentário por Fábio Visnadi

foda a resenha. conseguiu transmitir muito bem porque o Fresh Fruit é um disco tão fundamental e mostrando que era possível fazer punk altamente politizado sem ter que se utilizar apenas da urgência marginal como os Ramones ou a sofisticação do Clash. acharam que tudo já estava estabelecido e sedimentado, mas os DK insistiram em criar uma nova via.

Comentário por Bernardo Brum

tem isso, eles foram politizados de uma maneira menos juvenil que a galera daquele primeiro momento e a pessoal posterior dos anos 90, mas por outro eu acho que esse punk num formato mais típico a essa altura (começo dos 80) já soa um pouco fora de época, o apogeu do gênero já passou, o post já tá logo ali… mas eu gosto, bastante.

Comentário por Mike Dias




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: