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Blue (Joni Mitchell, 1971) by Luiz Carlos
setembro 27, 2010, 1:24 pm
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– Luiz Carlos Freitas

Assumindo uma conotação ainda não tão familiar à língua portuguesa, muitas vezes o termo Blue (ou “Blues”) remete à tristeza, angústia, dor, sofrimento e, quase sempre, solidão. E é assim que podemos definir Blue, o quarto álbum de estúdio da canadense Joni Mitchell, lançado em 1971, época em que a cantora, apenas aos 28 anos de idade, já era considerada uma das mais importantes e influentes pessoas do cenário musical de todos os tempos.

Sua carreira era um fenômeno quase sem precedentes. Em pouco mais de dois anos desde o lançamento de Song to a Seagull, seu álbum de estréia, ela já havia empilhado prêmios (um Grammy, inclusive) e levantado uma fortuna absurda. Mas tudo isso parecia ser demais para a jovem cantora que consagrou-se justamente por cantar ao simples, àquela liberdade longe de lastros megalômanos que a sua geração defendia e, agora, se via entre dias seguidos em viagem para apresentações lotadas, entrevistas, obrigações com gravadoras, empresários, advogados, etc. Assim, ela decidiu “fugir” desse meio todo, cancelando quase todas as suas apresentações e mudando-se para uma pequena casa nas montanhas, onde pretendia ter seu tempo sozinha, longe da mídia e de todo o turbilhão que ela mesma causara. Eis que, pouco tempo depois, ela anuncia o lançamento de um inesperado novo álbum feito todo nesse breve período de “exílio”, onde ela reflete acerca de sua própria vida, seus anseios, desejos e angústias. O resultado, tendo em mente quem era Joni Mitchell, é mais que óbvio: Blue é um dos mais perfeitos trabalhos de todos os tempos  na história da música mundial.

Em dez faixas, Joni Mitchell se despe em sutileza, versa sobre sua vida e, numa brilhante extensão, sintetiza as angústias que afligem a existência do homem, como o amor, a solidão, a falta de sentido e sua interação com a sociedade e as outras pessoas. Tudo de modo direto, sem subterfúgios, com uma acessibilidade ímpar.

Por trás de toda a simplicidade aparente, há um trabalho melódicamente brilhante. Com o apoio de músicos do calibre de James Taylor e Stephen Stills em algumas faixas, a voz de Joni ganha vida própria, variando entonações a cada música, recurso característico ao Folk e que mais tarde seria incorporado ao Rock. Faixas como “California” ou “All I Want” são exemplos da extensão vocal da cantora, uma verdadeira “camaleoa” (se o termo bem couber aqui). Mas não vamos nos perder aqui falando de técnica apenas. Blue está muito, muito acima disso. Mais que um álbum conceitual, o disco é uma viagem completa que exige e arranca de quem ouve total imersão. Impossível não se identificar em algum momento com as passagens compostas por Mitchell, suas dores e lamentos, seus anseios e toda a tristeza travestida por sua voz terna.

Blue traz em cada faixa parte de um tratado completo sobre a vida, sobre o quanto desejamos viver e, mais, o quanto não sabemos o que queremos, construindo um hino à liberdade em “All I Want” (Eu quero ser forte, eu quero rir muito / Eu quero pertencer à vida / Ser viva, viva, quero levantar e dançar / Estragar minha meia-calça em alguma espelunca) e desfacelando-o em “California” (Lendo Rolling Stone, lendo Vogue / Diziam, “quanto tempo você pode ficar vadiando?” / Eu disse, uma semana, talvez duas / Só até minha pele ficar marrom) e “Carey” (Minhas unhas estão sujas, tem alcatrão da praia nos meus pés / E sinto falta da minha roupa limpa e da minha colônia francesa chique). O que temos está longe de qualquer julgamento, se aproximando mais de um desabafo de quem quer provar o mundo, como na faixa-título, “Blue” (Ácido, bebidas e bundas / Agulhas, armas e a grama / Milhares de risadas, milhares de risadas / Tudo mundo está dizendo: “Ir pro inferno é o que há.” / Mas eu acho que não / Ainda que eu vá até lá, só pra olhar) e de quem se considera uma das últimas de uma espécie diferente e solta nesse mundo, ansiando por encontrar seus semelhantes, como em A Case of You (“Sou uma pintora solitária / Eu vivo numa caixa de tintas / Sendo assmbrada pelo Diabo / E sendo atraída pelos que não têm medo”).

Blue consegue o feito de ser a vida cantada, porque cientes disso ou não, todos buscamos o nosso Azul.

.
5/5

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Ficha Técnica:

Blue (Joni Mitchell) – Canadá, 1971 – Gravadora: Reprise/WEA – Componentes: Joni Mitchell (vocal/violão/piano), James Taylor (violão), Stephen Stills (baixo), Russ Kunkel (bateria)

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Tracklist:

* Destacadas em vermelho, as melhores segundo o autor do texto

1. All I Want
2. My Old Man
3. Little Green
4. Carey
5. Blue
6. California
7. This Flight Tonight
8. River
9. A Case of You
10. The Last Time I Saw Richard

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Faixa recomendada:

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6 Comentários so far
Deixe um comentário

Perdão pela menção ao “Azul” no final do texto. Acabou que deixei tudo muito mais “pessoal” do que deveria. rs

Comentário por Luiz Carlos

o montante de sensações que a música da Joni reúne é algo poucas vezes alçado. sou fascinado pela melancolia discreta de suas canções, por sua coragem de humanizar e enobrecer o orgulho, o ressentimento, e provar que os dois também são, e por que não, declarações latentes de afeto… Joni canta o sentimento, seja ele qual for. é uma gostosa, eheheh! Blue é meu favorito, ao lado do Clouds.

só a título de informação: Little Green versa sobre uma filha que Joni deu para a adoção, em um ímpeto de profundo transtorno pessoal. o fato só foi revelado 23 anos após o lançamento do disco.

Comentário por felipe nunes

AAAAAAEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE LC ♥

Comentário por Matheus S.

Vou baixar, não conheço nada dela. E a quem interessar, link:

www. megaupload.com/?d=I7564ALH [retirar o espaço, copiar e colar no navegador]

Agradecimento: nobrasil.org

Comentário por Michael Dias

Dos melhores álbuns já resenhados nesse blog.

Comentário por Fábio Visnadi

AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

EU DISSE MANOLOOOOOO

Comentário por Luiz Carlos




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